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domingo, 26 de julho de 2009

Hipocrisia e Corrupção

Rodoviária do Rio de Janeiro – um dos terminais mais feios e anacrônicos do Brasil. O sujeito, cansado após um dia de trabalho sob o calor carioca, encosta a boca no guichê da empresa de ônibus e pede uma passagem para São Paulo. Paga e fica aguardando o troco:

- "O doutorrr qué viajá sozinho ou acompanhado?"

Com um sorriso amarelo e cara de pateta, o “dr.”, que não tem grana nem pra pegar uma ponte aérea, solta um muxoxo:

- "Sozinho..."

E se afasta do guichê, deixando os R$5 e pouco como pagamento pelo “conforto extra” da viagem solitária.


Rodovia Ayrton Senna – uma das melhores vias intermunicipais do país. O Corolla “voa” no tapete de piche. Subitamente, após uma curva mais fechada, o “guarda” manda encostar:

- "'Carteira' e documento do carro" – exige o sisudo homem da lei, os olhos frios por detrás do falso Ray-Ban – "O sr. sabe a velocidade em que estava?"

- "Tava abaixo do limite, 'seu' guarda, uns 110, 120, não pode ser mais que isso...eu tava controlando..."

- "183, meu amigo, tu tava a 183" – grunhe o “polícia”, devolvendo os documentos.

Segue-se um silêncio sepulcral. Nem o motorista insiste em alegar inocência, nem o guarda começa a lavrar a multa .

- "...e..não teria como a gente resolver isso? – arrisca timidamente o motorista, embora quisesse soar como malandro escolado".

- "O sr. está tentando me subornar?" – replica, seco, o agente da lei.

Segue-se um brevíssimo momento de tensão para o motorista (“será que além da multa ele vai me prender por corrupção ativa?!!”), logo desarmado pelo sorriso irônico com que o guarda encerra o seu ato teatral.

Negocia daqui, pechincha de lá, e o motorista arranca com seu carrão, não sem antes dizer, meio como desaforo ao guarda, meio como forma de se auto-consolar:

- "É... 'vamo' ajudar o governo a construir outra estrada como essa" – (como se o dinheiro que o guarda embolsou fosse para os cofres municipais...).

[Aviso para fins legais: esta é uma história de ficção saída de minha mente excessivamente imaginativa; qualquer semelhança com fatos ou pessoas reais terá sido mera coincidência.]


Os exemplos acima são ilustrações das mais pueris de um problema crônico do pais: a corrupção. Escancarada ou implícita, em espécime ou em cargo e favores, ela, secular, vem sendo, há décadas, mais e mais capilarizada, corroendo o tecido social e ferindo de morte a meritocracia.

Quanto a esse último item, a área em que o preparo e o conhecimento são substituídos de forma sistemática e há décadas pelo compadrio e pelos laços de panelagem é justamente aquela em que os primeiros são de essencial importância para o exercício da profissão: os concursos para professores das universidades públicas. Trata-se de um dos maiores escândalos continuados da história do país, digno de várias CPIs - se CPIs dignas de alguma coisa fossem; material para manchetes sucessivas nos jornais e para o Willian Bonner franzir tanto suas sobrancelhas, antes de vocalizar sua indignação, que elas ficariam com torcicolo.

Mas a mídia não dá a mínima bola para o tema, assim como se recusa a discutir as razões estruturais da corrupção, preferindo manter o foco exclusivamente voltado aos políticos, fulanizando e atendo-se sempre ao acusado da vez – como se este fosse a exceção, e não uma das milionésimas partes da regra. Afinal, business is business e o negócio do jornalismo é vender jornais. Aquela história de “um jornal a serviço do Brasil” e patranhas semelhantes que invariavelmente invocam o ideal iluminista que o jornalismo clama para si não passam de uma jogada de marketing para valorizar o produto e incrementar as vendas. Serviço público? Não me faça rir...

Em decorrência dessa dinâmica, a corrupção revela um de seus efeitos secundários: o florescimento (sic) da indústria da denúncia seletiva, que fabrica pseudo-motivos para os berros dos datenas e dos bóris, os suspiros indignados dos waacks e dos sardenbergs e a pena nervosa das elianes, lúcias, doras e demais meninas dos jôs (aaargh). Além, é claro, de municiar os animadores de auditório do Congresso, como virgílios, álvaros e até um senador gaúcho que consegue a proeza de defender a renúncia de Sarney e apoiar a governadora Yeda Crusius ao mesmo tempo. Forma-se, então, um nefasto círculo vicioso, em que corrupção e hipocrisia se confundem e se retroalimentam mutuamente, para deleite da platéia – pois trata-se de panis et circenses, como adivinha o Mello.

E assim chegamos ao escândalo da vez: é preciso ser um analfabeto político para achar que as acusações contra Sarney têm motivação outra que a mais cruenta briga política. Como aponta Luis Nassif, “a atual campanha contra ele tem propósitos nada moralizantes. O que se quer é derrubar o senador e transformar o Senado em fator de instabilidade política para 2010”. Só mesmo o PT e seu polianismo politicamente amador para querer brincar de entregar o ouro ao bandido numa hora dessas. Nâo vou nem me estender no debate do absurdo que é um político que há 44 anos protagoniza a vida pública tornar-se da noite para o dia o corrupto-mor da nação – como se todos não conhecessem suas práticas de há muito -, pois já escrevi o que penso sobre o tema. Trata-se de algo tão absurdo quanto o fato de ele não ter sido investigado antes.

Portanto, só para concluir, mesmo achando a corrupção um mal terrível, um verdadeiro câncer, um entrave ao desenvolvimento do país e uma das razões principais para que o Brasil seja o Brasil e algumas nações desenvolvidas paupérrimas em recursos naturais sejam nações sócio-economicamente desenvolvidas em âmbito mundial, sou contra a renúncia de Sarney e denuncio como hipócrita e oportunista a súbita escalada de acusações contra ele patrocinada pelo conluio entre PSDB/DEM e a “grande mídia”.

Eu apoiaria uma ação global de combate à corrupção, nos âmbitos municipal, estadual e federal, de caráter não-populista, não-neoudenista, sem caça pública às bruxas, executada estritamente dentro das margens da lei e com eventuais vazamentos de informações prejudiciais à honra de outrem rigorosamente punidos. Por razões óbvias, não creio ser possível executar algo assim nem agora nem a médio prazo, mas trata-se de uma idéia para se meditar sobre e para ser paulatinamente inserida no debate público.

4 comentários:

Raphael Tsavkko Garcia disse...

concordo plenamente com a análise e a conclusão. Curto e médio prazo também duvido de qualquer mudança mas, como bom pessimista que eu sou, também acho difícil no longo prazo, Brasil é e sempre será a terra do futuro, que nunca chega!

Maurício Caleiro disse...

Combater a corrupção é um trabalho hercúleo - mas para uma manada de Hércules. Nós os temos?

Eduardo E. S. Prado disse...

Não quero ser tão pessimista quanto o Raphael, mas devo concordar como Maurício que o combate à corrupção no Brasil é um trabalho para Hércules.

Em latim corruptu é aquilo que se se rompeu, que sofreu adulteração, que está podre, estragado,
infectado. E corruptor (corruptore), aquele que rompe, que adultera, que estraga. É isso o que fazemos como aceitamos uma propina ou quando subornamos o guarda, estragamos a sociedade em que vivemos, sociedade esta que já está bastante corrompida, apodrecida. Não há benefício que compense isso, por mais justificável que pareça.

Não sou especialista em leis, mas acredito que nossa legislação contribui muito para esse quadro ao regular tantas coisas que fica quase impossível não infringir a lei em algum ponto e, dessa forma, ficar exposto a fiscais corruptos. Não é esse o caso do motorista pego em alta velocidade, evidentemente,. a não ser em casos de extorsão policial comparáveis a verdadeiros assaltos. Ou pior até, já que a vítima não tem ninguém a quem recorrer.

Não sei se esta pratica ainda existe, mas o parque de diversões Hopi Hari vendia, por uma taxa extra, um ingresso que dava direito a visitante que o comprasse passar na frente dos outros, ou seja, furar fila. Garantir o lugar de alguém na fila também é uma forma de corrupção, por mais inocente que isso possa parecer, além de ser um desrespeito a quem chegou antes, mas terá que ser atendido depois. Outra forma de corrupção que não envolve dinheiro _ mesmo assim pode ser bastante cruel _, é aquela em que alguém consegue vaga num hospital público, por exemplo, graças a intervenção de um amigo ou parente que trabalha lá. Por traz desse sortudo que ganhou a vaga sempre existirá alguém que ficou sem ela, alguém que também precisava de tratamento, talvez até mais. São gestos que dificilmente provocarão indignação nas pessoas, mas também são formas de corrupção.

Maurício Caleiro disse...

Eduardo,

Nada como um mergulho na etimologia para enriquecer a discussão de um tema. É por essas e outras que ainda defendo a velha filologia alemã.

Essas outras modalidades de corrupção que você apontou mostram que é mesmo uma prática capilarizada, que às vezes mostra sua face cruel (como nos hospitais e nas filas de transplante de órgão)