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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Duas ou três coisas sobre Babenco

- Brincando nos campos do Senhor (1991) talvez seja o melhor filme já feito sobre a Amazônia, ao lado de Iracema, uma transa amazônica (1974), de Bodanzky e Senna. Apesar de sua exuberância narrativa e da grande atuação dos atores - uma constante nos filmes de Babenco - foi massacrado numa campanha de indisfarçável tom xenofóbico que uniu crítica e cineastas brasileiros. Mas revê-lo hoje, no pós-Armageddon de Belo Monte, é não só uma oportunidade de reconhecer-lhe os méritos estéticos, mas seu caráter prenunciatório, tanto em relação à questão amazônica quanto à preponderância da influência religiosa na política.



- Gosto muito de quase todos os filmes de Babenco, mas, para mim, a obra-prima, que fala tanto à razão quanto ao coração é Pixote, A Lei do Mais Fraco (1980), um filme-denúncia sobre um grave problema social, um marco internacional na representação da infância. e um dos raros momentos, depois dos anos 1960, em que o cinema latino-americano foi capaz de causar um debate de grandes proporções, influenciando inclusive a formatação de políticas para a juventude - ECA, sobretudo.



- Uma obra sobre o “esmagamento da fantasia infantil pela inflexibilidade dos adultos”, como definiu Ely Azeredo, decano da crítica cinematográfica, para quem Pixote é um filme “Universal em sua dor (...) por dar a visão de uma espécie de genocídio espiritual ainda mais brutal que as agressões físicas dos guardiões dos laboratórios e os assassinatos providenciais cometidos pela polícia".



- Em uma sala de aula, a professora escreve na lousa, ao passo em que soletra em voz alta:

- “A ter-ra é re-don-da co-mo u-ma la-ran-ja” – enquanto isso, em sua carteira, Pixote cochila.

Combinando paciência e energia, a mestra se aproxima, procurando incentivar o garoto a se concentrar e escrever. À medida que procura despertar seu interesse, o que era – para Pixote e para o espectador – uma aula modorrenta sobre um tema banal transforma-se em uma profunda experiência do saber. O espectador é envolvido tal qual o garoto, que aos poucos sai de sua letargia. Babenco radicaliza, para tal, um procedimento consagrado do cinema clássico: a trilha sonora melodramática invadindo paulatinamente a cena, enquanto a câmera “fecha”, em zoom, do plano de conjunto de Pixote e da professora para um close fechadíssimo e longo do rosto de Pixote, enlevado pelo aprendizado. O grande professor e pesquisador de cinema João Luiz Vieira considera a sequência "um dos mais sublimes momentos do cinema brasileiro moderno".





- Babenco era odiado por setores do cinema brasileiro, um pouco por pura xenofobia e preconceito contra argentinos, outra tanto porque, do ponto de vista formal, seu cinema, embora longe do convencional, mesclava elementos hollywoodianos à influência neorrealista, destoando da estética (pós)cinemanovista; mas, sobretudo, por inveja, por que Babenco não só conseguia fazer filmes brilhantes, mas que, com frequência, abordavam com mais urgência e vigor aspectos terríveis da realidade brasileira.



- Os filmes de Babenco, praticamente sem exceção, envelheceram muito bem. Já falamos sobre a aualidade de Brincando nos tempos do Senhor. Como observou o crítico Inácio Araújo, Pixote, ante o agravamento da questão da infância, cresceu com o tempo - como dado extra que o assassinato do ator principal pela PM revalidou, de forma macabra, a denúncia que o filme perfaz. Ironweed e O beijo da mulher aranha, são, a um tempo, case studies para a adaptação literária ao cinema e para a direçaõ de atores. Lúcio Flávio, passageiro da agonia, além de manter-se - ao contrário da maioria de seus contemporâneos - como um retrato contundente da ditadura, segue, ainda hoje, como um comentário amargo sobre a ação dos esquadrões da morte, fardados ou não.



- A relação ambígua de Babenco tanto com o Brasil quanto com a Argentina, se por um lado acabou por torná-lo uma espécie de pária, por outro permitiu-lhe assumir um distanciamento crítico em relação aos dois países, com notáveis benefícios em sua obra. Se, em termos de tematização de realidades sociais, o Brasil se beneficiou mais com tal dinâmica, por outro lado a Argentina, embora por muito tempo ele a renegasse, permaneceu como uma pendência sentimental e psicológica. "Y aunque no quise el regreso/siempre si vulve al primer amor", diz a letra do tango: O passado (2007), o belísimo filme em que retorna à Buenos Aires de sua juventude, exorcisa tal fantasma, preparando o acerto de contas com a vida, o qual teria lugar no crepuscular Meu amigo hindu (2015).



- Babenco viveu intensamente a vida e a arte, seja como o outsider que, no melhor espírito 1968, colocou uma mochila nas costas e foi explorar o mundo, seja como o cineasta que, de assistente de diretores europeus, se transformou em um realizador corajoso, polêmico, capaz de grandes e arriscados mergulhos. Tal atitude evidentemente não o salvaguardou de períodos limítrofes, de grandes crises, de ostracismo; mas, por outro lado, fez florescer um punhado de filmes viscerais e inesquecíveis, que compõem uma obra única, com assinatura pessoal, e que serão vistos, saudados e comentados por muitas gerações.



(Still de Marília Pêra e Fernando Ramos da Silva retirado daqui)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Boyhood, grande cinema

Boyhood é um filme solar. Ao retratar 12 anos na história de uma família, com filmagens com o mesmo elenco fixo principal, reunido a cada três anos, trocando a rigidez matemática dos roteiros milimetricamente construídos por uma sensação difusa de naturalismo e maleabilidade, o filme de Richard Linklater traz um sopro de novidade em um momento de profunda crise do cinemão hollywoodiano, sobrepujado pelo fenômeno das séries televisivas.

O foco privilegiado na trajetória do garoto Mason (Ellar Coltrane) – que começa o filme com cinco anos e o termina prestes a completar 18, ingressando na universidade – faz de Boyhood uma trama sobre amadurecimento, ritos de passagem, dissolução da infância na adolescência - e desta na juventude. Mas a riqueza da narrativa e a força dos personagens secundários dão relevo a outras temáticas, como relações familiares, a maternidade, sexualidade e afeto, a relação entre natureza e construcionismo social, ética pessoal versus ética coletiva, o questionamento do “sonho americano”.


Processos de identificação
A captação física dos efeitos da passagem do tempo, embora represente um desafio para a construção da profundidade psicológica dos personagens, tende, paradoxalmente, a intensificar por mimese a identificação do espectador com eles – sobretudo quando são apresentados ainda crianças, como é o caso. Facilita também o afloramento de estados emocionaism no espectador, ao invocar, através da interrelação dos personagens, emoções inerentes à passagem do tempo, como saudade, melancolia, vertigem, (receio de) perda ou de solidão – processo que, em dois ou três pontos-chave de Boyhood, culmina em epifanias.

Mas seria exagero atribuir o impacto do filme ao acompanhamento do envelhecimento do elenco ao longo de 12 anos, ou mesmo considerar isso seu mérito por excelência. Na verdade, sem um pré-roteiro bem amarrado – sujeito a revisões pontuais periódicas ditadas pela própria evçução da dinâmica da equipe - e sem um elenco afiado, as possibilidades de malogro se multiplicariam com a adoção de tal esquema.


Road movie atípico
Com uma gramática narrativa que varia entre tomadas exteriores (que por vezes funcionam como alusão ou metáfora de aspectos da vida sócio-política nos EUA no périodo, eventualmente reforçados pela trama) e tomadas interiores em que a direção de arte, determinante, chega a ter função narrativa, tipificando as mudanças de endereço e de condição social da família, Boyhood não deixa de ser, à sua maneira, um road movie. (Filiação que o nome da produtora de Linklater, Detour, corrobora ao aludir ao título de um cultuado film noir, dirigido em 1945 por Edgar G. Ulmer, e filiado a esse que é considerado o subgênero cinematográfico em que melhor confluem a tematização da identidade pessoal e da identidade nacional.)

Pois, parafraseando o diagnóstico feito por Walter Salles em um texto sobre road movies, de que “os mais interessantes são justamente aqueles em que a crise de identidade do protagonista da história reflete a crise de identidade de uma cultura, de um país”, não parece despropositado sugerir que o processo de amadurecimento, de superação da infância rumo à juventude, vivenciado pelo protagonista de Boyhood – e por cada membro de sua família – ecoa a trajetória dos Estados Unidos em busca da superação do cenário de terra arrasada da Era Bush em prol de um novo país, simbolizado pela candidatura Obama (passagem à qual, aliás, mais de um personagem alude).




Elenco em destaque


Tudo isso, somado, conflui para fazer de Boyhood um filme marcado por um humanismo profundo. E que, embora, como já dito, não se furte a eventualmente tocar emocionalmente o espectador, o faz sem a pieguice adocicada ou o moralismo recorrente em que o cinema norte-americano costuma incorrer quando tematiza relações familiares.

Num elenco em que Patricia Arquette brilha, valendo-se de muita técnica para simular naturalismo (mas sem conseguir atingir o pathos dramático desejável em duas das cenas mais intensas) e a perfomance do jovem ator principal é convincente, mas, com exceção de um ou outro momento - destsacadamente a sequência em que lembra ao pai a promessa de dar-lhe um carro - sem chegar a ser brilhante, é sobretudo através de personagens secundários que o referido humanismo aflora com mais vigor. Notadamente no que diz respeito à irmã do protagonista, vivida por Lorelei Linklater (filha do diretor, nascida no México), e desde criança tipificada como irõnica e contestadora, e ao ex-marido malandro e a princípio loser interpretado por Ethan Hawke, cujo amadurecimento ao longo da narrativa é um dos achados do filme (e valeu ao ator sua quarta indicação ao Oscar, três delas por performances em um filme dirigido por Linklater).



Imprevisibilidade
Graças a essa combinação feliz de fatores, e sem explosões, efeitos especiais de última geração ou um roteiro com rocambolescas idas e vindas no tempo – praga tarantinesca que infecta as produções hollywoodianas das duas últimas décadas - Boyhood logra algo raro no cinema hollywoodiano atual: mantém-se surpreendente do início ao final.

Tem-se, a maior parte do tempo, a impressão de que tudo pode acontecer na narrativa e mesmo os cinéfilos mais escolados em predizerem o rumo da trama através da lógica do roteiro, pelo que os padrões da mise en scène do diretor antecipam, ou mesmo pela escalação do elenco, tendem a ser surpreendidos pela fluência imprevisível da narrativa, que prende o tempo todo a atenção dos espectadores com uma história cuja beleza deriva, paradoxalmente, de ser plausível e comum.






P.S. É certo que o avanço tecnológico melhorou muito a qualidade das sessões caseiras de filmes, mas Booyhood é daqueles filmes cujas potencialidades se multiplicam e se revelam plenamente se vistas em um cinema de tela grande e som potente.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, dali, de lá e dacolá

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A campanha na lama

Há tempos tornou-se frequente, no jornalismo brasileiro, uma crítica generalista à internet, tida e descrita como “terra de ninguém”, meio de expressão de ódios represados e ataques pessoais. As caixas de comentário dos portais e dos jornais e a correspondência eletrônica endereçada aos jornalistas seriam a prova cabal do baixo nível.

O choque de Chico Buarque ao se defrontar, pela primeira vez, com a agressividade na rede tem sido citado de forma recorrente por profissionais de imprensa como exemplo de que estão certos: para muitos, durante um longo período, um ídolo quase unânime, exemplo de beleza, talento e combatividade, o compositor de “Apesar de você” descobriu que um número não desprezível de internautas o considera um velho caquético e merecedor das piores pragas e impropérios. Reagiu com humor.



Esvaziamento da política
Durante anos, enxerguei nessa crítica à internet um misto de parcialidade (pois só retrata o lado negativo da web), preguiça (de pesquisar, descobrir e valorizar suas fantásticas possibilidades, comparativamente maiores) e, sobretudo, orgulho ferido de jornalistas contra o meio que lançou a imprensa e a mídia, de modo geral, em uma dupla crise: comercial, graças à diversidade e ao volume de informação oferecida, muitas vezes gratuitamente; e de credibilidade, já que ficou muito mais fácil investigar e divulgar as omissões, armações e erros midiáticos, bem como desvendar os interesses que eventualmente os motiva.

Tais ressalvas continuam, em larga medida, a parecer-me válidas, mas ora mostram-se relativizadas pelo modo como a política vem sendo instrumentalizada pela internet nas eleições atuais, num processo em que ao esvaziamento da reflexão mais aprofundada corresponde a disseminação de um festival de ataques baixos e tentativas de desqualificação do opositor, transformado em inimigo a ser aniquilado.



O protagonismo das redes
As redes sociais têm tido um papel fundamental em tal processo. Seu poder mobilizador deriva do fato de, por um lado, inserirem-se como um elemento cotidiano na vida de muitos cidadãos e, por outro, retroalimentarem tanto os marqueteiros de campanha quanto a cobertura midiática. Isso se dá, em primeiro lugar, pela própria natureza das redes sociais, velozes, voláteis e baseadas em uma lógica de agrupamento de pessoas com ideias, gosto ou preferências afins, e com tendência a facilitar a criação de “ondas”, movimentos de manada intensos, porém breves.

A duração de tais movimentos, medidos em horas, no máximo dias, faz com que sirvam como uma luva, por um lado, para o marqueteiro político, ávido por um feedback diário para fazer correções pontuais no desempenho de seu candidato; e, por outro lado, para a imprensa, notadamente a diária, cuja periodicidade tende a combinar com a do ciclo de renovação dos temas nas redes, e a mídia, engessada pelas proibições da Justiça Eleitoral e necessitada de pautas que aliem o interesse do leitor/espectador e as eleições.



Egolatria
Pode-se argumentar, como contraponto, que as redes sociais fizeram com que aumentasse o interesse geral por política. Isso pode até ser verdade, porém a política nas redes sociais tende a ser presa de uma economia libidinal tipicamente pós-moderna, sendo submetida às recompensações egoicas do internauta, renovadas em intervalos de poucos segundos, a cada “curtir” no Facebook ou “RT” ou favoritada no Twitter. Trata-se de um processo que, do ponto de vista subjetivo, encerra-se em si mesmo, porém gerando graves consequências por ocupar sub-repticiamente o lugar – e, em determinado grau, dificultar o exercício – da reflexão e do debate aprofundado sobre questões políticas.

Temos, portanto, uma lógica alimentada pelo próprio modo de operação do usuário com a rede social, em que o espaço para a explanação de projetos políticos e para o debate e o embate de propostas é, em grande parte, ocupado em prol de uma espécie de jogo competitivo cujo objetivo varia entre uma mesquinha recompensa egoica e a questionável realização de marketing eleitoral de colocar um tema entre os mais debatidos do dia.



Mercenários virtuais
Esse cenário, por si só preocupante em uma democracia com tantas urgências e com tanta carência de propostas planejadas no médio e longo prazos, agrava-se com a ação de agentes contratados pelos partidos para, no mais das vezes sem identificarem-se como tal, agir nas redes sociais em prol de determinada(s) candidatura(s).

Fora do radar da Justiça Eleitoral, operando diuturnamente e sob a coordenação do marketing das campanhas, esses agentes, frequentemente com uma formação política precária ou quase nula, pouco colaboram para o debate ou para o aprofundamento desta ou daquela questão: sua função é martelar slogans, plantar suspeitas e desferir ataques que atendam aos objetivos traçados pela estratégia de marketing do partido.



Ataque deliberado
Mas o protagonismo das redes sociais e, nelas, a indistinção entre cidadãos engajados e mercenários não seriam suficientes para explicar o baixíssimo nível das eleições presidenciais deste ano – mesmo porque as redes sociais já eram atuantes em eleições anteriores e, embora partidários de um e de outro candidato se digladiassem entre si e um certo nível de baixaria sempre houvesse, jamais praticamente monopolizaram a campanha como ocorre agora.

Pois o que nós estamos assistindo, não raro enojados, é fruto de estratégia deliberada de marqueteiros, ciente das características pouco aprofundadoras das redes sociais e do estado de “eterno presente” em que tendem a manter o internauta, engajado como que num videogame em que batalha por seu candidato.

Sabem que esse formato competitivo, baseado na recompensa egoica pessoal e na identificação de grupo, sob o comando de suas diretrizes, tem como consequências óbvias o primado dos ataques estereotipados, pespegados através de slogans martelados ad infinitum, em detrimento das nuances, ponderações e do aprofundamento necessários a um debate efetivo de projetos políticos. Assim, serve, ainda, como uma forma de acobertar a ausência de um programa de governo detalhado por parte de algumas forças políticas, desviando a atenção dos eleitores para questões incomparavelmente menos importantes, como quantas curtidas recebeu seu post no Facebook ou qual a tag que terminou o dia em primeiro lugar nos trending topics do Twitter, se a dos apoiadores de Dilma, de Marina ou de Aécio.




Estratégia da desqualificação
Nenhuma dessas três candidaturas mais competitivas está, evidentemente, isenta de um certo grau de agressividade nas redes socais – o que, de certa forma, vem a corroborar o que foi dito sobre a natureza de tal meio virtual. A rigor, seria, porém, injusto dizer que tais manifestações violentas se equivalem ou que são meramente reativas. A estratégia traçada pelos marqueteiros das campanhas acaba por influenciar de forma determinante o grau de agressividade nas redes e, desse modo, o PT assumiu, nestas eleições presidenciais, o papel que tradicionalmente era atribuído ao PSDB de José Serra, como o partido cujos militantes virtuais têm feito um uso mais agressivo da rede e sobre o qual recai o maior número de suspeitas quanto à ação de agentes pagos.

E como Marina Silva é, até o momento, a candidata que efetivamente ameaça a continuação do projeto petista de poder, a campanha contra ela, ininterrupta desde o final do velório de Eduardo Campos, atingiu um grau de agressividade que talvez só a de Fernando Collor contra Lula, em 1989, tenha logrado igualar.

Em mais uma prova de que história só se repete como farsa, o PT reedita, neste momento, contra Marina Silva, a campanha do medo da qual foi alvo em 2002. Desta feita, porém, com a própria presidente Dilma Rousseff encarnando a Regina Duarte da vez, numa tática ofensiva ao passado político do PT, à candidata petista e à liturgia da Presidência.



Enfraquecimento da democracia
Assiste-se, assim, a um verdadeiro festival de baixarias, em que o trato civilizado entre ex-aliados, hoje em oposição, dá lugar a uma catarse em que o ódio serve de alimento às agressões pessoais. Para além de seu significado em termos propriamente partidários, trata-se de um retrocesso lamentável para a ainda jovem democracia brasileira.

Pois, fenômeno global, o aspecto por demais cosmético do marketing político na atualidade, por mim abordado em outro artigo), introduz por si uma transformação – da política em objeto de consumo – altamente negativa para o avanço democrático.

A corrente despolitização das eleições, transformadas num jogo de difusão de boatos, meias verdades e tentativas incessantes de desqualificação pessoal do adversário vai além: desqualifica a própria democracia, enfraquecendo-a, num gesto irresponsável e temerário para o futuro politico do país.



Reação institucional
Urge, porém, que os setores democráticos da sociedade brasileira se unam para que medidas sejam tomadas no sentido de impedir que os ataques baixos e o esvaziamento dos debates dominem as futuras eleições no Brasil.

Há de se aprimorar a legislação eleitoral, adaptando-a a tempos cibernéticos, e de se estabelecer uma ação mais efetiva da Justiça Eleitoral: a exigência de que todos os partidos apresentem programas de governo detalhados, com indicativo da fonte de receitas e adequação a normas preestabelecidas, um maior espaço para o debate de política na mídia e nos meios educacionais, além de punições efetivas e rigorosas no sentido de coibir as campanhas difamatórias e o jogo baixo seriam medidas bem-vindas no curto prazo.

Faz-se necessário, o quanto antes, que mídia e sociedade organizada trabalhem no sentido de diminuir o peso do marketing político e das táticas de desqualificação e enfrentamento através do incentivo constante ao diálogo com o poder e ao debate de programas partidários e demandas sociais antes e durante as eleições, no sentido de resgatar, também na política, o “tempo da delicadeza” de que, em uma de suas mais belas canções, nos fala Chico Buarque.


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Publicado originalmente no Observatório da Imprensa. Foram feitas pequenas alterações.






quinta-feira, 8 de maio de 2014

Gabo segundo o Jornal da Globo

O espectador sem familiaridade com o universo literário, que tenha recebido a notícia da morte de Gabriel García Márquez através do Jornal da Globo, continua sem a mínima ideia da importância do escritor colombiano, de seu blending único de memória afetiva, imaginação prodigiosa e talento narrativo, de seu universo literário a um tempo realista e mágico, fincado em povoados míticos mas de expressão universal, da posição central que a América Latina – da qual tornou-se um ícone e um dos principais representantes - ocupa em sua obra e em sua vida.

A julgar pela matéria exibida pelo telejornal noturno, a impressão que fica é que García Márquez não passava de um escritor de gosto musical deplorável (pois fã dos boleros de Nelson Ned) e com afinidades políticas igualmente execráveis, notadamente pela amizade com "ditadores", plural referente a Fidel Castro, como as imagens então exibidas corroboraram. Os altos números de vendagem de suas obras e o recebimento do Prêmio Nobel foram os únicos pontos positivos mencionados, porém sem dar ao espectador a mínima chande de saber que méritos justificaram tais conquistas.


Conservadorismo caricato
É certo que o telejornal apresentado por Christiane Pelajo e William Waack (substituído, no dia em questão, por Carlos Alberto Sardenberg) vem se tornando, há tempos, o mais politicamente retrógrado dos veículos noticiosos da emissora, em que se tornou recorrente zombar do que quer que destoe do modelito neoliberal, particularmente de temas como a administração Kirchner, o regime cubano ou o legado de Hugo Chávez na Venezuela, seja através do sarcasmo explícito de Arnaldo Jabor ou das caretas sisudas de Waack.

O contágio ideológico da atração global chegou ao ponto, há algumas semanas, de noticiar como verdadeiro o hoax segundo o qual o ditador coreano Kim Jong-un havia determinado que todos os homens do país cortassem o cabelo como ele. Mesmo após a descoberta de que se tratava de um boato, o telejornal não desmentiu a "informação" ou pediu desculpas por iludir o seu público.

Ainda assim, preferir ataques pessoais mesquinhos à oferta de um retrato minimamente condizente da importância da obra de um dos maiores escritores latino-americanos, Prêmio Nobel de literatura, justamente por ocasião do anúncio de sua morte, parece excessivo até para os baixos padrões do Jornal da Globo.



A invisibilidade da América Latina
É fato que quem tem TV a cabo teve acesso a uma cobertura bem melhor e mais informada acerca da passagem de Gabo, com destaque para um depoimento precioso de seu tradutor e amigo Eric Nepomuceno, o qual refuta o rótulo "realismo fantástico" (ou "mágico"). Mas aqui neste texto nos interessa focar de forma específica na cobertura oferecida pelo Jornal da Globo, justamente por esta ser a principal opção telejornalística para quem chega tarde em casa e não tem TV a cabo.

O que primeiro chamou a atenção na matéria veiculada pelo telejornal no dia da morte de Gabo foi o colonialismo, traduzido na absoluta ausência de um referencial latino-americano na cobertura. O primeiro correspondente a ser chamado foi Jorge Pontual, de Nova Iorque, que se limitou a citar a repercussão da notícia nos Estados Unidos. Nenhum correspondente latino-americano, nem mesmo o culto e informado Ariel Palacios, correspondente brasileiro radicado em Buenos Aires, foi convocado. Muito menos alguns dos principais críticos literários latino-americanos que se dedicaram à análise da relevância de Gabo foram entrevistados.

E tanto a Colômbia, país natal e referência recorrente na obra, quanto o México, seu lar nas últimas décadas, foram absolutamente negligenciados pela cobertura. Desnecessário assinalar que a Rede Globo, quarta maior emissora televisiva do mundo, teria todas as condições de investir em bom jornalismo e mobilizar equipes para tal, se assim o quisesse.

São erros particularmente graves em se tratando de Gabriel García Márquez, cujo histórico discurso proferido ao receber o Nobel explicita o protagonismo político e afetivo da América Latina em seu sistema de valores e um autor que deixou uma obra que propicia múltiplas interpretações, capaz de agradar ou desgostar por diferentes razões, mas que tem no ato de sublimar em fantasia, delírio e poesia a loucura latino-americana um de seus traços distintivos. Macondo, a mítica aldeia de Cem anos de solidão, é a um tempo metáfora e vetor da identidade latino-americana. Macondo somos nós.



Livros? Que livros?
Ainda mais insuficientes do que o retrato do artista e de sua relevância foram as considerações (não) oferecidas pelo Jornal da Globo acerca da literatura que García Márquez produziu durante quatro décadas.

Pode-se ponderar, com bastante boa vontade, que não é fácil, na era dos smartphones e da onipresença da internet, traduzir a um público leigo, volumoso e heterogêneo, no tempo escasso de uma matéria telejornalística, o universo temático, a especificidade estética e os efeitos inebriantes da literatura de García Márquez.

Tal dificuldade evidencia-se ainda mais intensa se levarmos em conta o padrão literário ora em voga, em que as listas de mais vendidos subdividem-se entre livros de autoajuda, fantasias esotéricas e soft erotismo, com espaço mínimo para o engenho literário de mais fôlego e a ousadia formal. Como, em tum ambiente literário tão raso e que tão pouco demanda da crítica, esperar que se sumarize em linguagem telejornalística a pletora de significados atribuíveis a Macondo e à saga dos Buendía; ou à trajetória do ditador sem nome de O Outono do Patriarca, que sobreviveu durante séculos, vendendo ao Império até o mar de seu país; ou qual a graça de se ler uma história cuja morte do protagonista tem lugar já nas primeiras páginas; ou como a triste história de Cândida Erêndira corresponde a um tratado poético sobre os mecanismos imperialistas de dominação econômica; ou porque os amores contrariados renderam mais e melhor literatura através da imaginação de Gabo?



Estética negligenciada
Porém, ainda mais do que a dificuldade para traduzir minimamente ao leitor não familiarizado o universo literário acima esboçado, a recusa em sequer tentar fazê-lo soa indicativa das limitações do telejornalismo cultural na TV aberta, tanto mais se levarmos em conta que, não faz tanto tempo assim, tais criações do realismo mágico ocuparam posições destacadas, e por longos períodos, nessas mesmas listas de best sellers ora povoadas de paulos coelhos e 50 tons de cinza.

Porém, ainda mais difícil do que abordar o universo temático de Gabo, sobretudo para um telejornalismo que concebe seu espectador como um Homer Simpson, seja fornecer uma ideia das questões propriamente formais e estilísticas que distinguem a excelência da literatura do escritor colombiano. E não por estas serem, a rigor, herméticas, posto que nela a adjetivação abundante e o recurso frequente às comparações, metáforas e hipérboles, ao mesmo tempo em que contrariam - e desmentem - algumas regras não escritas para o bem escrever, tendem a facilitar a leitura de seus textos por um público variado, cujos méritos propriamente formais do texto talvez tendam a receber pouca atenção ante a imaginação prodigiosa das histórias e o vigor narrativo ao contá-las.



Estreitamento de referenciais
Ocorre, porém, que tematizar, no ambiente telejornalístico atual, as questões de cunho propriamente literário elencadas nos dois últimos parágrafos implica no estabelecimento prévio de um código - e na existência de um repertório referencial – entre emissor e receptor.

E é forçoso reconhecer que este código estreitou-se e delimitou-se nas últimas décadas. O crítico literário Roberto Schwarz afirma, em um texto clássico, que o hiato entre o golpe militar de 1964 e a promulgação do AI-5 foi paradoxalmente caracterizado como "os anos de hegemonia cultural da esquerda". Corroborariam tal afirmação o teatro de Boal e Zé Celso, a Tropicália e a música de protesto, a literatura de Callado e Cony, entre tantos outros exemplos possíveis.

Talvez não seja despropositado sugerir que, atualmente, o paradoxo se inverteu, e os 25 anos de democracia que se seguiram ao arbítrio vêm sendo marcados pela imposição e hegemonia de valores mercadológicos à produção artístico-cultural. Verifica-se tal afirmação já na legislação de fomento à cultura vigente nas duas últimas décadas no país, em que o poder decisório foi, na prática, transferido para os diretores de marketing das empresas. E ela se solidifica se observarmos como o processo de fabricação e manutenção de megasucessos ocasionais depende diretamente do poder de marketing das corporações de mídia que mantêm propriedades cruzadas (canais de TV abertos e fechados, estações de rádio, portais, jornais, revistas, etc.).



O valor mercado
A manutenção de tal cenário por um longo tempo, sua penetrabilidade, e sua correlação a fatores como o déficit educacional no país ou o não-cumprimento de preceitos constitucionais relativos à formação cultural e educacional pelos concessionários de canais de TV acabaram não só por estreitar o repertório do referido código de comunicação entre emissores e receptores no âmbito televisivo, mas por redefinir em bases mercadológicas seu quadro de valores, seus parâmetros axiológicos.

O resultado, no âmbito da temática deste artigo, é que a riquíssima e exuberante contribuição que Gabriel García Márquez deu à literatura e à cultura universal, submetida a tal código, desaparece, na cobertura do Jornal da Globo, em prol do retrato de um artista "cafona e amigo de ditadores", cujo grande mérito passa a ser a venda de 40 milhões de livros, não por acaso uma contribuição que se correlaciona diretamente ao mercado.


Publicado originalmente e com pequenas alterações no Observatório da Imprensa.

(Imagem retirada daqui) 
 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A política e as redes

O debate político brasileiro tem sofrido forte influência da internet, meio que não só reavivou, em muita gente, o interesse por política e o hábito cotidiano de discuti-la, mas deu voz a uma diversidade de atores na arena, acabando com o monopólio da mídia corporativa.

O jornalista Tácito Costa, editor do site Substantivo Plural, comenta o processo:
"As redes sociais abriram uma fenda na monolítica imprensa tradicional, que durante séculos monopolizou os canais de comunicação como alicerces de seu poder e dos seus interesses. Definitivamente, acabou o tempo da comunicação unidirecional. Um pouco antes da explosão das redes, os sites e blogs já tinham equilibrado esse jogo, oferecendo contraponto indispensável aos conglomerados da mídia e, com isso, fortalecendo a pluralidade e a democracia,"
Deflagrados a partir da confluência entre desenvolvimento, barateamento e difusão de tecnologias digitais e num contexto em que a passividade do espectador dá lugar à interatividade, os resultados concretos dessa atividade virtual se fazem sentir em fenômenos mais ou menos recentes e por vezes antagônicos entre si, como a emergência da chamada blogosfera progressista, o uso do tumblr como ferramenta para o humor político e a mobilização popular via redes sociais. Estas, além de se constituírem, cotidianamente, como arena pública de debates, tiveram papel relevante nas manifestações de junho e acabam de servir de meio para deflagração de "rolezinhos" em shoppings. No bojo da Copa e da campanha eleitoral, prometem seguir dominando a cena em 2014.



Bolha de certezas
Não obstante positivo em sua essência, o debate político que se dá via redes sociais traz, inerentes, aspectos contraditórios ou mesmo intrinsecamente negativos, os quais se tornam mais evidentes à medida que a interação por elas proporcionada se torna um elemento rotineiro no cotidiano de cidadãos e cidadãs.

Talvez o mais evidente - e empobrecedor - deles, na seara política, seja a tendência à formação de "igrejinhas", em que a timeline [o conjunto de perfis seguidos e que te seguem] tende a se apresentar expurgada dos perfis que expressam opiniões francamente contrárias ou divergentes às do dono da conta, acabando por forjar uma falsa unidade discursiva em prol do ideário, partido ou programa político por este professado. Assim, seu universo político pessoal é conservado em uma espécie de bolha que, embora perfurada amiúde pela própria impossibilidade de se prever e vetar toda e qualquer opinião contrária, o mantém no mais das vezes preso, a um tempo, de convicções que seus pares reafirmam a todo instante e do contato com a multiplicidade de opiniões divergentes – dinâmica que lhe impede acesso a uma visão realista da intensidade da oposição à linha política que defende.



Carimbador maluco
Deriva de tal dinâmica um segundo efeito dessa "segmentação opinativa" inerentes às redes sociais: a tendência, em um cenário político pobre em termos de diversidade e fortemente concentrado na oposição PT X PSDB, a "carimbar" as opiniões de acordo com a régua estabelecida por tal dicotomia.

Assim, se você defender o Bolsa Família ou mostrar simpatia pelos condenados do "mensalão" é grande a probabilidade de ser carimbado como simpatizante do PT ou mesmo xingado de "petralha" e termos derivados, os quais, disseminados a partir do jornalismo neocon, explicitam a intolerância e a tentativa de desqualificação do que entendem por esquerda.

Já se você ousa defender a classe média ou dá pinta de pender para uma posição com tinturas de conservadorismo ou de liberalismo econômico, se tornam grandes as chances de ser repelido pelas hostes dominantes nas redes e carimbado como "coxinha", o xingamento máximo do petismo militante, não obstante a ascensão de pobres à classe média ser comumente desfraldada pelos próprios partidários como principal conquista dos governos petistas.



Desqualificação a priori
Nesse cenário polarizado, há pouco espaço para nuances ou para assimilação de críticas que procuram ir além da dicotomia PT x PSDB. É sintomático dessa intolerância a evocação do fantasma dos anos FHC – ou seja, elitismo, precariedade social e crise econômica – à mínima restrição dirigida ao governo petista: Com tais reações, o debate é interditado por uma confusão deliberada entre a crítica pontual à atual administração e a negação total do petismo em prol do que seria inapelavelmente, de acordo com a reação citada, a única alternativa: o retorno aos anos FHC. Trata-se de uma atitude que não só revela-se autoritária e diversionista ao se recusar a debater os termos específicos da crítica, mas, mostrando ignorar não só a significação última do dito marxista de que a história só se repete como farsa, não se apercebe que se a volta ao Brasil do ex-presidente fosse uma mera questão de deixar de optar pelo PT, então seria porque as mudanças por este partido promovida, nos últimos 11 anos, não foram suficientes sequer para nos colocar a salvo de tal perigo como uma ameaça imediata (muito pelo contrário, até as privatizações estão de volta, sob patrocínio petista).

Em decorrência da tendência a pouca tolerância com opiniões nuançadas – no sentido de não circunscritas à troca de chumbo entre petistas e peessedebistas -, cria-se um processo vicioso de desqualificação a priori das críticas, denunciadas na origem como ideologicamente tendenciosas e cujo teor sequer é levado em conta, e de restrição à sua circulação, seja através da recusa pessoal (e legítima) a repercuti-la nas redes sociais, seja na recusa (dissimulada) dos blogs de grande audiência em repercutir opiniões que se oponham frontalmente às linhas partidárias que efetivamente (mas não assumidamente) apoiam.



Boicote autoritário
Destarte, malgrado o pleno direito à expressão e as múltiplas modalidades possibilitadas pela internet, acaba-se por observar-se atualmente, no que concerne ao debate político brasileiro, o germe de um processo de caráter totalitário, por vezes macartista, de abafar vozes críticas divergentes, processo este em que tem papel precípuo as paixões partidárias e é protagonizado por entidades virtuais que até recentemente se publicizavam como pluralistas e progressivas.

Trata-se, em última analise, de um fator de retrocesso no debate púbico, pois enquanto as paixões partidárias se manifestarem como elementos de desqualificação e de repressão à livre abordagem crítica dos problemas, será a fé se sobrepondo à razão, até na seara política. Verdadeiros democratas não temem o debate.


(Imagem de Joseph McCarthy retirada daqui)

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Petistas com Freixo publicam Manifesto


Um grupo de militantes do PT do Rio de Janeiro, formado apenas para atuar nas atuais eleições municipais e que se autointitula “Movimento Petistas com Freixo”, divulgou hoje um manifesto através do qual, além de explicitar e justificar as razões do apoio ao candidato do PSOL, formula uma crítica aguda e, na minha opinião, quase sempre correta, ao comportamento recente do PT no governo e, sobretudo, nestas eleições, sem deixar de reconhecer-lhe as conquistas e méritos.

Mesmo os que eventualmente discordem da posição defendida pelos signatários do manifesto poderiam tirar proveito dessa análise que, malgrado curta, certamente se situa entre as melhores recentemente publicadas a enfocar, com ênfase na questão eleitoral, os impasses do PT e os rumos da esquerda no país.

Infelizmente, as reações iniciais de petistas e simpatizantes à nota evidenciam uma intolerância e uma recusa ao diálogo que é lamentável, mas de modo algum surpreendente.

Segue abaixo, na íntegra, o manifesto, originalmente publicado no blog do movimento e que descobri através do Twitter, por indicação de @Pagu_Vitoria.

Eis o manifesto:


POR UMA CIDADE PARA OS CIDADÃOS

Somos Petistas com Freixo, porque não concordamos em apoiar uma aliança em torno da reeleição do atual Prefeito da Cidade do Rio de Janeiro, decisão tomada pelo nosso partido, de forma autoritária e pouco transparente, sem consulta às bases do partido e sem amplo processo de debate interno. Somos sim, favoráveis a alianças que sejam construídas em torno de programas políticos, de projetos e de princípios, e não sejam fruto de negociatas fisiológicas e oportunistas que descaracterizam a história do nosso PT, um partido comprometido com as lutas sociais do nosso povo. Sim, somos petistas de corpo e alma, de militância histórica e tradição, alguns filiados, e outros apenas militantes e simpatizantes, e ousamos dizer não ao excesso de pragmatismo, não às conversas com Gilmar Mendes e aos abraços a Paulo Maluf, não ao vale tudo do Mensalão e dos Aloprados, não às conversas e negociatas com os Cachoeiras da vida, não à submissão à gestão antidemocrática que ora acontece em nossa Cidade. Somos petistas que acreditam que a política pode ser feita de forma diferente, com ética e com generosidade, com firmeza de princípios e com respeito à diversidade. Com a política no posto de comando, para transformar e mudar para melhor. Somos petistas que reconhecem e apoiam os avanços históricos conquistados nos Governos Lula e Dilma, que ajudamos a construir: o combate e diminuição da miséria, a distribuição de renda, a geração de empregos, as políticas sociais inclusivas; sem que isso nos faça perder nossa capacidade de criticar e de nos indignar frente aos mal-feitos.

Somos Petistas com Freixo, porque não concordamos com a privatização da saúde do Rio através das OS, gestão avaliada pelo Ministério da Saúde como a pior de todas as capitais. Não concordamos com a precarização da educação baseada em profissionais mal remunerados e onde malabarismos estatísticos procuram mostrar como positivos os resultados de uma gestão autoritária, que vai na contramão dos princípios freirianos de uma educação como prática da liberdade. Não concordamos com uma lógica de megaeventos, cujos grandes investimentos prevalecem sobre as reais e urgentes necessidades da maioria de nossa população, nem com a política de arrocho do funcionalismo público municipal. Não concordamos com uma cidade que continua partida e ferida, sem planejamento urbano e sem plano diretor amplamente discutido, na qual predomina a lógica da especulação imobiliária, o desrespeito ao meio ambiente, o trânsito caótico dominado pelos interesses da máfia dos ônibus, realidades essas que são maquiadas por gastos em publicidade e propaganda.

Somos Petistas com Freixo, porque queremos uma Cidade para os cidadãos, uma cidade de direitos, uma cidade de inclusão. Queremos uma Cidade em que as grandes decisões sejam tomadas com a participação de cidadãos e cidadãs bem informados. Queremos que haja transparência na gestão pública, com a implantação do Orçamento Participativo, marca histórica da administração municipal petista. Queremos que os Conselhos Municipais sejam de fato implementados e funcionem, e as Audiências Públicas para ouvir os cidadãos sobre os temas mais polêmicos não sejam meras formalidades. Queremos que o debate e o interesse público se imponham sobre os interesses privados e corporativos. Queremos uma Cidade mais justa, mais fraterna, uma Cidade construída com os cidadãos e para os cidadãos, uma Cidade de Direitos.

Somos Petistas com Freixo, porque acreditamos que Marcelo Freixo é o candidato da esperança e da mudança. Ele é o candidato de todos aqueles que querem mudar o Rio para melhor. Sua campanha toca profundamente os corações e mentes de homens e mulheres da nossa Cidade. É por essa razão que ele aglutina em torno de sua campanha lideranças políticas e sociais representativas, artistas e acadêmicos, juventude e profissionais liberais, militantes e ativistas dos mais diversos movimentos e segmentos sociais, além de dissidentes de vários partidos políticos que, como nós, vislumbram em Freixo as características pessoais que o credenciam para esta disputa: honestidade, coerência, firmeza e generosidade. Marcelo Freixo transcende os limites do PSOL, ele é o candidato da Cidade, dos Direitos Humanos, da Cidadania. A população do Rio vai provar que é possível vencer o poder do Capital e de uma coligação de 18 partidos, com ideias claras, garra, criatividade, esperança e vontade de mudar.

Somos Petistas com Freixo, e ousamos desafiar os atuais ‘donos’ do nosso partido em nossa Cidade, que nos ameaçam de expulsão como forma clara de intimidação. Não temos medo! Muitos de nós lutaram contra a ditadura e o autoritarismo, e ajudaram a resgatar a democracia em nosso país. Durante muitos anos, nos movimentos sociais e nas lutas do nosso povo, mas também na construção do nosso partido, e na gestão pública de Governos Municipais, Estaduais e Federal (de Lula e Dilma) demos nossa energia e nosso coração a um projeto no qual sempre acreditamos, e que alguns insistem em tentar destruir. Não nos intimidarão. O PT também é nosso! Ele é o patrimônio de mais de um milhão de filiados e muitos outros milhões de simpatizantes e eleitores. Um patrimônio da sociedade brasileira, que não pertence a este ou aquele dirigente, a esta ou aquela corrente interna. Aderimos à candidatura de Marcelo Freixo num ato de lucidez, sinceridade, esperança, desprendimento e ousadia. Estamos na luta, dentro e fora do PT, por amor à nossa bela cidade, por uma sociedade mais fraterna, mais inclusiva, mais democrática, mais justa!

UM RIO PARA OS CARIOCAS ! UM RIO PARA AS PESSOAS !
POR UMA CIDADE DE DIREITOS ! CIDADE, COLETIVO DE CIDADÃOS!

terça-feira, 17 de abril de 2012

A sexualidade nas telas


Dois filmes em cartaz têm como tema sexualidade e universo afetivo nos dias atuais, a partir de personagens adultos e examinando tópicos como prazer, solidão, novos e velhos ritos de acasalamento, carência, sexo (com amor e sem amor), além, é claro, do papel das novas tecnologias nos relacionamentos interpessoais.

Shame, dirigido pelo cultuado Steve McQueen (Hunger), acompanha o cotidiano de um trintão atlético e bem-sucedido (Michael Fassbender, indicado ao Globo de Ouro) que, a despeito de sua aparente timidez, tem uma vida sexual intensa e diversificada, fugindo do compromisso como o diabo da cruz. Porém a chegada inesperada da irmã – uma cantora com tendências depressivas – e o envolvimento com uma secretária que questiona seu horror a envolvimento emocional vão, pretensamente, levá-lo a se defrontar consigo mesmo


Ao menos era essa a intenção. Trata-se, no entanto, de uma narrativa que, além de não avançar para além do argumento inicial, peca pelo moralismo: não sendo hábil em caracterizar, na fase inicial do filme, um presumido vazio existencial do protagonista, a impressão que fica, em última análise, é que o personagem de Fassbender é punido por ser sedutor e gozar de uma vida sexual muito ativa e diversificada. Ou seja, a velha e conhecida “Síndrome de Freddy Krueger”, vulgarizada no “transou, morreu” dos filmes de horror, deslocada para o habitat de um filme “sério”, cult e com clara ambição de crítica sociológica. (O título que o filme recebeu na Espanha, Deseos Culpables, entrega o ouro.)
Jantar constrangedor - para o casal e para o espectador
Muito da má impressão moralista que o filme causa advém da pobreza do roteiro, que tem momentos constrangedores, daqueles de provocar vergolha alheia - como quando, após um primeiro encontro em que o personagem de Fassbender não só é rejeitado, mas obrigado a ouvir um sermão sobre afetividade e compromisso, ele, até então um alegre e desreprimido namorador, cai de amores pela garota, sem o roteiro fornecer a mínima motivação que justifique tal fascínio.

Assim, o sobrevalorizado McQueen - que abusa da criação de “atmosferas” ambientadas por música eletrônica e dá mostras de confiar demais no poder epifânico do material filmado, em detrimento do aperfeiçoamento do roteiro –  acaba, quem diria, por recorrer à velha moral repressiva para produzir um filme moderninho.Shame on you, McQueen!



Jovens Adultos tem elenco afiado
Bem melhor resultado alcança o drama com pitadas de humor Jovens Adultos, protagonizado por Charlize Theron (indicada ao Globo de Ouro) e dirigido com mão segura por Jason Reitman, de Amor sem Escalas e de Juno.

Ela interpreta Marcis, uma ghost-writer de livros infanto-juvenis que vive uma vida confortável mas um tanto vazia em Minneapolis, a bela capital setentrional apelidada de Mini Apple por conta de seu cosmopolitismo e de sua paisagem urbana extasiante, a qual ela observa da varanda de seu amplo apartamento, no vigésimo andar.

É na solidão desse local, entre tentativas de trabalhar no tal livro e distrações frequentes com e-mails, redes sociais e games (a narrativa retrata muito bem a presença quase invasiva do universo virtual no cotidiano de hoje em dia) que Marvis recebe um anexo com foto anunciando o nascimento de um bebê, filho de um ex-namorado. Acusa o baque.

Após mais uma noite de sexo casual e insatisfatório, ela decide, num rompante, pegar suas tralhas, seu cãozinho e reencontrar o antigo namorado (Patrick Wilson, o protagonista da série A Gifted Man), que ainda mora em Mercury, a cidade caipira onde ela vivera sua adolescência de rainha da beleza.

Patton Oswalt quase rouba a cena
 O roteiro de Diablo Cody (que ganhou o Oscar por Juno) é cheio de sutilezas e tem personagens sólidos e complexos – com destaque para a gordinho vivido por Patton Oswalt, traumatizado após ter sido brutalmente espancado na adolescência por suspeitarem que fosse gay. Cody manipula com maestria o processo de identificação do espectador com os personagens e dosa muito bem o equilíbrio entre drama, humor e pitadas certeiras de sarcasmo para contar o retorno de Marvis, jogando com a dualidade entre sua imagem exterior (a ex-cheerleader e atual autora bem-sucedida, despertando rancores, admiração e inveja) e sua auto-imagem em crise (extremamente carente, alcoólatra, à beira do desemprego e de um colapso nervoso). Ao contrário do que acontece em Shame, aqui a crise existencial da personagem é bem crível, não só porque sua vida afetiva e sexual, embora bem ativa, é logo no início caracterizada como insatisfatória para ela, mas por aludir, através da foto do bebê de seu ex-namorado, à questão da maternidade e a um episódio do passado que só ao final do filme será revelado.

Reitman é um diretor que cuida com esmero dos enquadramentos e que se vale muitas vezes apenas das imagens, em montagem eventualmente criativa, para insinuar sentidos e criar climas. Observe-se, nesse sentido, o modo como filma a noite de Mercury ou as transformações frenéticas do visual de Mavis, com atenção aos rituais detalhistas e algo penosos aos quais ela se submete em suas idas e vindas ao salão de beleza.

Jovens adultos, embora longe de ser uma obra-prima, consegue tocar com propriedade em alguns dos principais dilemas afetivos atuais, uma era em que, felizmente, se pode usufruir a sexualidade de forma muito mais livre e desreprimida, mas sem que isso, necessariamente, torne menos tenso, no universo afetivo, a paradoxal relação entre necessidade de liberdade e desejo de estabilidade, ou seja, de ininterrupta e continuamente amar e ser amado.


(Imagens retiradas, resectivamente, daqui, dali e dacolá)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A internet e o retrocesso do governo Dilma

Poucos duvidam que as novas possibilidades de comunicação trazidas pela internet arejaram e ajudaram a democratizar o debate público. Isso é particularmente notável - e benéfico - em sociedades nas quais a mídia encontra-se concentrada nas mãos de poucos - como é, notadamente, o caso do Brasil.

Aqui, a blogosfera e as redes sociais têm, de fato, servido à democracia, ao possibilitar a difusão do contraponto a uma mídia corporativa cuja ação orienta-se pelos ditames neoliberais e pelo culto ao deus mercado - e que, com raras exceções, tem se caracterizado, no âmbito da política partidária,  pelo apoio (e blindagem) que de ordinário fornece ao PSDB e pelo antipetismo (a não ser no que as administrações petistas se rendem ao mercado e ao neoliberalismo).

Os exemplos de tal atuação são inúmeros, e a crítica de mídia exercida no país na última década os tem catalogado e examinado, no mais das vezes, com propriedade. Mas, se o leitor prefere não confiar nesta afirmação genérica, basta que examine, por exemplo, o modo como a brutal ação policial em Pinheirinho foi (ou deixou de ser) noticiada pelos "grandes veículos", ou as maneiras como a recém-lançada candidatura de José Serra (PSDB/SP) tem sido retratada para, daí, tirar suas próprias conclusões.


Condescendência conservadora
A despeito dos muitos benefícios que têm trazido ao debate público no Brasil, há, no entanto, um aspecto regressivo inerente à blogosfera política brasileira e à militância nas redes sociais que não tem recebido a devida atenção. Esse ponto cego deriva de uma macro-divisão no modo de ação político-ideológico das esquerdas na internet: enquanto setores da blogosfera política (incluindo a maioria dos chamados "blogueiros progressistas") parecem guiar sua atuação a partir de certos parâmetros programáticos e ideológicos - permitindo-se, eventual e pontualmente, a crítica ao governo Dilma, se sua linha de atuação de tais parâmetros se afasta -, outros setores, numericamente volumosos - os quais vou chamar, à falta de um termo exato e sem intenção pejorativa, de "chapa-branca" - têm apoiado incondicionalmente o governo petista, independentemente do mérito de suas ações administrativas e do quanto ele deixa ou não de cumprir os compromissos assumidos na campanha eleitoral.

Tal configuração gera dois importantes contra-efeitos, ambos negativos. O primeiro é a divisão que a condescendência acrítica dos "chapa-branca" promove no próprio campo da esquerda, enfraquecendo, em decorrência, o poder da blogosfera de pressionar o governo Dilma a honrar os compromissos assumidos e procurar adotar políticas que ajudem o país a sair da órbita do neoliberalismo e a criar uma alternativa original em relação a um sistema econômico que tantos danos causou e continua a causar.

Como a mídia que dizem combater
O segundo contra-efeito é a criação de uma situação paradoxal no campo do debate político, pois nele neste momento com frequência convergem e se confundem tanto o conservadorismo da mídia hegemônica quanto o alegado "esquerdismo" de blogueiros chapa-branca que à mídia alegadamente se opõem - ambos, em suas argumentações, servindo para procurar incentivar e oferecer legitimidade ao crescente conservadorismo do governo Dilma e ao pragmatismo economicista que o tem caracterizado, bem como procurando desqualificar (não raro com os mesmíssimos argumentos e táticas agressivas) as vozes que ousam denunciar a cada vez mais negligenciada coerência político-ideológica da atual administração federal.

É exemplar do processo acima mencionado o apoio que tanto a mídia quanto tais blogueiros têm fornecido ao processo de privatização dos aeroportos (que a novilíngua chapa-branca prefere chamar de "concessão") e das aposentadorias dos servidores públicos federais - esta uma das principais e mais combatidas bandeiras da era FHC, ora encampada pelo governo Dilma e aprovada a toque pelo Legislativo, sob ecos de silêncio cúmplice ou de entusiasmo ressentido .

Assim, embora surgidos para, por um lado, colaborar para a vitória de uma força política dita progressista, anti-privatização e crítica ao neoliberalismo, e, por outro, para combater a mídia corporativa e denunciar suas táticas totalitárias, os blogueiros chapa-branca acabam não apenas por mimetizar desta um discurso único, impermeável ao contraditório, mas, pior, por a ela se juntar na defesa dos aspectos mais conservadores do atual governo federal. É com lamento que se constata que são, neste momento, uma força política conservadora, na acepção precípua da palavra.


A História não esquece
Só a inocência desinformada pode supor que a história não cobrará um preço ao governo Dilma pela traição ao discurso antiprivatização com o qual se elegeu, pelo recrudescimento voluntarioso das políticas de orientação neoliberal e pela tibieza para lidar com questões urgentes que geram reações de forças religiosas - e claro está que, chegado o momento, os inocentes úteis ou os arrivistas inescrupulosos que contribuíram para tal retrocesso também serão instados a pagar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Filme sobre Thatcher supera armadilhas


No história recente, poucas figuras públicas deixaram mais evidentes as ambiguidades e contradições entre questões de gênero e política do que Margaret Thatcher.

Numa sociedade caracteristicamente conservadora, sua ascensão de filha de pequenos comerciantes a primeira-ministra da Grã-Bretanha – e, daí, a uma das principais lideranças mundiais de seu tempo - a torna, por si só, um símbolo da emancipação feminina, dos novos papeis e das potencialidades de ascensão e de representação social da mulher no século XX. Para o bem ou para o mal, credencia-se, em decorrência, como um ícone feminista.

Por outro lado, seus quase 12 anos no poder marcam o momento de afirmação do neoliberalismo sem freios, do enfraquecimento do Estado, do desmanche dos sindicatos e da legislação trabalhista, com gravíssimas consequências sociais para os pobres e para a classe trabalhadora – algumas delas perdurando até nossos dias. É impossível para um humanista ou para qualquer pessoa que preze mais os seres humanos do que o mercado de capitais avaliar como positivo o legado de sua liderança.

É precisamente ante o dilema acima referido que se depara a produção franco-britânica A Dama de Ferro, a cargo de Phyllida Lloyd, consagrada diretora inglesa de ópera.  Antes do filme ser rodado, ela declarou que a intenção era contar a história de Thatcher a partir de um ponto de vista feminista e concentrado na figura humana da retratada, incluindo uma incursão pelos seus anos recentes, reclusa, senil e acometida de demência.

O resultado surpreendente positivamente. O filme, que não se limita a retratar superficialmente o que há de controverso em relação a Margaret Thatcher, deixa claro os danos que o thatcherismo causou à sociedade britânica, seja através profunda insensibilidade social da administradora ou do seu envolvimento entusiasmado no dispendioso e desnecessário derramamento de sangue nas Malvinas.

Colabora sobremaneira para tal feito um roteiro inteligente - a cargo de Abi Morgan -, que contextualiza essas questões tanto através da fala de personagens (“o maior desemprego desde 1930, o mais baixo volume de produção industrial desde 1920”), quanto de trechos de telejornais (reais ou fictícios), além do recurso a impressionantes sequências documentais (onde se vê, por exemplo, um enorme contingente  policial tentando em vão conter a fúria da multidão que protesta contra a repressão às greves).

É evidente que, em se tratando de um produto audiovisual para o grande público, há simplificação, falta de detalhamento e mesmo uma certa condescendência para com a retratada, decorrentes de sua humanização como personagem. Ainda assim, o resultado não é nada ingênuo politicamente.

O esforço relativamente bem-sucedido em conciliar a visão feminista e a avaliação crítica das políticas thatcheristas ajuda a explicar a recepção fria que a obra teve na Inglaterra - pois, por um lado, tal retrato, devido aos efeitos benevolentes da citada humanização da personagem, tende a desagradar os críticos de Thatcher; e, por outro lado, a abordagem crítica sem meias-tintas de sua atuação política tende a contrariar àqueles que a apoiam ou com ela simpatizam. De concreto, pessoas dos círculos próximos à ex-governante protestaram, em entrevistas à imprensa inglesa, pelo que consideram invasão de privacidade alegadamente promovida pelo filme ao retratar sua senilidade.


Meryl Streep, como a Thatcher idosa e sofrendo de demência, tem uma daquelas atuações impressionantes que me fazem defender – a sério – a ideia de que ela deveria ser decretada hors-concours nas premiações para melhor atriz. Já como a "Dama de Ferro" de meia-idade, vivendo sua ascensão e queda como primeira-ministra, embora também ofereça uma performance superlativa em termos de empostação de voz, modo de olhar e gestual de mãos e braços, ressenti-me tanto da ausência, na composição da personagem, de um certo modo de caminhar típico de Thatcher (que pode ser visto em vídeos da época e que a atriz só reproduz ao final do filme), quanto de uma expressão facial mais encruada e maquiavélica (foto à direita), em comparação com a expressão clean e sutilmente cínica de Streep (que evidentemente tem um rosto bem mais bonito que o da ex-primeira-ministra). Mas tais observações, vistas em relação ao todo da atuação, não passam de detalhes, baseados em uma expectativa inflacionada de reprodução do real a qual a própria Streep por vezes parece induzir.

Colabora para a performance de La Streep – que declarou reiteradas vezes ter profundas divergências políticas com Thatcher, mas grande interesse em sua trajetória enquanto mulher - o impressionante trabalho de maquiagem (única categoria, além da de atriz, pela qual o filme é indicado ao Oscar). Mereceria destaque também a atuação de Harry Lloyd como o jovem Denis Thatcher – o marido empresário que colaborou decisivamente para que a jovem Thatcher fosse aceita nos altos círculos ingleses, foi seu companheiro por décadas e com quem, em seus delírios senis, a Margaret idosa dialoga.

As qualidades que permitem fazer uma avaliação positiva da produção, ao longo do texto citadas, estão longe de fazer de The Iron Lady um grande espetáculo cinematográfico. Mas o fato de, no conservadorismo social e cinematográfico vigente, o filme conseguir escapar com galhardia e incisividade da armadilha de glorificar a personagem retratada - e ainda oferecer mais uma grande performance de uma dama da interpretação - não é um feito a ser menosprezado.


(Fotos retiradas, respectivamente, daqui, dali e dacolá)