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sexta-feira, 26 de junho de 2015

Dia histórico para os Direitos Humanos

Dia histórico para a humanidade e para a luta pelos Direitos Humanos: os EUA abolem qualquer restrição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Não foi uma decisão do Executivo, comandado por Obama, como muitos vêm divulgando, e sim da Suprema Corte, que, ao utilizar a 14ª emenda da Constituição para proibir que qualquer estado restrinja o direito à união civil, acabou por legalizar, na prática, o "casamento gay".

Trata-se de um direito tão básico - o de compartilhar o corpo, o afeto e a vida com o parceiro ou a parceira que for de nossa escolha - que sua consagração talvez nem devesse causar tal celeuma, não fosse inédito e se desse em contraposição ao acentuado conservadorismo das últimas quatro décadas. Um período em que, ao contrário do que fora previsto, a imbricação entre religião e política institucional recrudesceu-se intensamente.



Retrocesso
Cresci ouvindo que o Brasil era um país liberal, tolerante, afável. Os EUA, ao contrário, com sua combinação de herança protestante e capitalismo selvagem, seriam o locus da intolerância, do repressivo, do conservadorismo.

Mas, hoje, enquanto os EUA suportam legalmente o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o direito de fumar uma erva cujos efeitos colaterais são mínimos, se comparados ao do legalizado álcool, os brasileiros vivem sob a tutela da intrusão do poder religioso na política, com a aliança entre um partido que se diz de esquerda e uma bancada religiosa impedindo todo e qualquer avanço na biopolítica do país.

Em decorrência, enquanto a maconha continua a ser tratada como questão policial, na contramão do mundo e numa prorrogação despropositada da fracassada “guerra às drogas”, os gays brasileiros, além de sofrerem toda sorte de discriminação - da ofensa ao espancamento, do boicote no emprego ao assassinato – continuam a ser tratados pelo Estado como cidadãos e cidadãs de segunda categoria.



O espelho distorcido
Imitar os EUA tem sido, há tempos, uma quase obsessão nacional: talk shows, gírias, vestuário, gadgets e geringonças eletrônicas, tendências profissionais e acadêmicas, enfim,quase tudo que compõe o american way of life é copiado e reproduzido – e de um modo cada vez menos fiel à antropofagia oswaldiana.

Talvez seja hora de nos inspirarmos, e importarmos, adaptando ao contexto brasileiro, a prioridade efetiva à educação, as bibliotecas abarrotadas de livros e DVDs, o respeito às faixas de pedestre e, no que nos interessa particularmente no âmbito deste texto, políticas de gênero e de drogas compatíveis com uma democracia contemporânea, com o século XXI e com o futuro.


(Imagem de Ian McKellen e Derek Jacobi retirada daqui)

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Boyhood, grande cinema

Boyhood é um filme solar. Ao retratar 12 anos na história de uma família, com filmagens com o mesmo elenco fixo principal, reunido a cada três anos, trocando a rigidez matemática dos roteiros milimetricamente construídos por uma sensação difusa de naturalismo e maleabilidade, o filme de Richard Linklater traz um sopro de novidade em um momento de profunda crise do cinemão hollywoodiano, sobrepujado pelo fenômeno das séries televisivas.

O foco privilegiado na trajetória do garoto Mason (Ellar Coltrane) – que começa o filme com cinco anos e o termina prestes a completar 18, ingressando na universidade – faz de Boyhood uma trama sobre amadurecimento, ritos de passagem, dissolução da infância na adolescência - e desta na juventude. Mas a riqueza da narrativa e a força dos personagens secundários dão relevo a outras temáticas, como relações familiares, a maternidade, sexualidade e afeto, a relação entre natureza e construcionismo social, ética pessoal versus ética coletiva, o questionamento do “sonho americano”.


Processos de identificação
A captação física dos efeitos da passagem do tempo, embora represente um desafio para a construção da profundidade psicológica dos personagens, tende, paradoxalmente, a intensificar por mimese a identificação do espectador com eles – sobretudo quando são apresentados ainda crianças, como é o caso. Facilita também o afloramento de estados emocionaism no espectador, ao invocar, através da interrelação dos personagens, emoções inerentes à passagem do tempo, como saudade, melancolia, vertigem, (receio de) perda ou de solidão – processo que, em dois ou três pontos-chave de Boyhood, culmina em epifanias.

Mas seria exagero atribuir o impacto do filme ao acompanhamento do envelhecimento do elenco ao longo de 12 anos, ou mesmo considerar isso seu mérito por excelência. Na verdade, sem um pré-roteiro bem amarrado – sujeito a revisões pontuais periódicas ditadas pela própria evçução da dinâmica da equipe - e sem um elenco afiado, as possibilidades de malogro se multiplicariam com a adoção de tal esquema.


Road movie atípico
Com uma gramática narrativa que varia entre tomadas exteriores (que por vezes funcionam como alusão ou metáfora de aspectos da vida sócio-política nos EUA no périodo, eventualmente reforçados pela trama) e tomadas interiores em que a direção de arte, determinante, chega a ter função narrativa, tipificando as mudanças de endereço e de condição social da família, Boyhood não deixa de ser, à sua maneira, um road movie. (Filiação que o nome da produtora de Linklater, Detour, corrobora ao aludir ao título de um cultuado film noir, dirigido em 1945 por Edgar G. Ulmer, e filiado a esse que é considerado o subgênero cinematográfico em que melhor confluem a tematização da identidade pessoal e da identidade nacional.)

Pois, parafraseando o diagnóstico feito por Walter Salles em um texto sobre road movies, de que “os mais interessantes são justamente aqueles em que a crise de identidade do protagonista da história reflete a crise de identidade de uma cultura, de um país”, não parece despropositado sugerir que o processo de amadurecimento, de superação da infância rumo à juventude, vivenciado pelo protagonista de Boyhood – e por cada membro de sua família – ecoa a trajetória dos Estados Unidos em busca da superação do cenário de terra arrasada da Era Bush em prol de um novo país, simbolizado pela candidatura Obama (passagem à qual, aliás, mais de um personagem alude).




Elenco em destaque


Tudo isso, somado, conflui para fazer de Boyhood um filme marcado por um humanismo profundo. E que, embora, como já dito, não se furte a eventualmente tocar emocionalmente o espectador, o faz sem a pieguice adocicada ou o moralismo recorrente em que o cinema norte-americano costuma incorrer quando tematiza relações familiares.

Num elenco em que Patricia Arquette brilha, valendo-se de muita técnica para simular naturalismo (mas sem conseguir atingir o pathos dramático desejável em duas das cenas mais intensas) e a perfomance do jovem ator principal é convincente, mas, com exceção de um ou outro momento - destsacadamente a sequência em que lembra ao pai a promessa de dar-lhe um carro - sem chegar a ser brilhante, é sobretudo através de personagens secundários que o referido humanismo aflora com mais vigor. Notadamente no que diz respeito à irmã do protagonista, vivida por Lorelei Linklater (filha do diretor, nascida no México), e desde criança tipificada como irõnica e contestadora, e ao ex-marido malandro e a princípio loser interpretado por Ethan Hawke, cujo amadurecimento ao longo da narrativa é um dos achados do filme (e valeu ao ator sua quarta indicação ao Oscar, três delas por performances em um filme dirigido por Linklater).



Imprevisibilidade
Graças a essa combinação feliz de fatores, e sem explosões, efeitos especiais de última geração ou um roteiro com rocambolescas idas e vindas no tempo – praga tarantinesca que infecta as produções hollywoodianas das duas últimas décadas - Boyhood logra algo raro no cinema hollywoodiano atual: mantém-se surpreendente do início ao final.

Tem-se, a maior parte do tempo, a impressão de que tudo pode acontecer na narrativa e mesmo os cinéfilos mais escolados em predizerem o rumo da trama através da lógica do roteiro, pelo que os padrões da mise en scène do diretor antecipam, ou mesmo pela escalação do elenco, tendem a ser surpreendidos pela fluência imprevisível da narrativa, que prende o tempo todo a atenção dos espectadores com uma história cuja beleza deriva, paradoxalmente, de ser plausível e comum.






P.S. É certo que o avanço tecnológico melhorou muito a qualidade das sessões caseiras de filmes, mas Booyhood é daqueles filmes cujas potencialidades se multiplicam e se revelam plenamente se vistas em um cinema de tela grande e som potente.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, dali, de lá e dacolá

domingo, 20 de março de 2011

O imperador e seus súditos

Ao final da dupla presidência de George W. Bush, a popularidade dos EUA se encontrava em seu momento mais baixo. As mentiras sobre as armas de destruição em massa, a manipulação da opinião pública, o desrespeito à ONU e a mortandade de civis no Iraque levaram o anti-americanismo a alastrar-se como nunca pelo mundo, levando-o a pontos incandescentes entre os povos do Oriente Médio - indignados pelo apoio incondicional dos EUA ao agravamento das políticas opressivas de Israel contra os palestinos e estigmatizados em bloco como fanáticos religiosos e terroristas.

A eleição de Obama, com o simbolismo da questão racial, a mobilização de jovens e internautas e a euforia utópica do “Yes, we can!”, trouxe a esperança de que tal quadro se reverteria e o obscurantismo da Era Bush seria uma página virada da história. Afinal, embora a relação com Israel devesse permanecer intacta, o programa de governo incluía o diálogo com lideranças árabes, o fechamento da prisão de Guantánamo e, no âmbito interno, as reformas das leis de imigração e do calamitoso sistema de saúde.


Decepções em série
Quase tudo isso ficou no mero marketing. O descontentamento do governo, Hillary à frente, ante os levantes populares contra as ditaduras árabes foi evidente (só não o seria se fosse no Irã). No último dia 7, Obama recuou em relação a Guantánamo, que continua mantendo presos, em condições desumanas, suspeitos sem julgamento, numa afronta à Justiça internacional. “A reforma da política nacional de imigração foi inviabilizada no Congresso e tem sido substituída por selvagens leis estaduais anti-imigrantes”, como aponta Luiz Antonio M. C. Costa.

Para Maria da Conceição Tavares – que concedeu ótima entrevista à Carta Maior -, Obama “exerce um presidencialismo muito vulnerável, descarnado de bases efetivas, pois a juventude e os negros que o elegeram não teriam poder institucional “nem assento em postos chaves”. Ela aponta o que chama de “conservadorismo de bordel”, representado pela aliança entre o moralismo republicano e a farra da finança especulativa, como uma camisa-de-força conservadora para o exercício da presidência nos EUA atuais.


Deslumbre entusiasmado
Foi para receber esse presidente pato manco que o Brasil se perfilou. Mídia deslumbrada e acrítica à frente, prometia-se um show de democracia e afagos no ego nacional, com direito a comício na Cinelândia e Obama anunciando à massa que reservara um assento para o país no Conselho de Segurança da ONU.

Como sói acontecer quando se trata de Obama, houve uma grande frustração de expectativas. Primeiro, a Cinelândia foi vetada, após monitoramento das redes sociais, por receio de protestos populares.

Depois, uma manifestação corriqueira em frente ao Consulado dos EUA no Rio termina com treze cidadãos brasileiros detidos - a maioria estudantes e professores - e outro, um vigilante, com ferimentos provocados pelo que a polícia fluminense alega ser uma explosão de coquetel molotov. No dia seguinte, para espanto de muitos, os treze detidos são mandados para a prisão em Bangu, para aguardar julgamento por penas que podem chegar a doze anos.


Muito anos 70
Além de inédito nos anais recentes das manifestações públicas brasileiras, é, para dizer o mínimo, pouco crível que um grupo heterogêneo de militantes, predominantemente do PSOL, mas com um menor de idade e uma senhora de 69 anos, lançasse mão de coquetéis molotov, socos ingleses e pedras (material alegadamente apreendido, mostrado pela Globo) em um ato de protesto - ainda mais contra a superprotegida embaixada dos EUA.

É fato documentado que pertence ao universo dos grupos neonazistas - cujas ligações com setores da extrema-direita militar são evidentes - o hábito de carregar tal parafernália, para descarregar seu ódio contra gays, nordestinos e demais minorias.

E, embora pertença ao âmbito da especulação o que realmente teria acontecido, convém, como sempre, se perguntar a quem interessaria tal conflito aberto. As respostas parecem evidentes: aos grupos paramilitares de direita e seus militares de pijama, que alimentam ódio ao governo “de esquerda” e “revanchista” de Dilma e às próprias forças de segurança dos EUA em conluio com a PM carioca, que ao reprimir violentamente o protesto e prender 13 pessoas desencorajaria a participação popular em novas manifestações. Esta última hipótese é reforçada por dois fatores: a alegação de partidários do PSTU de que havia pessoas infiltradas entre o grupo e repetição de um modus operandi tantas vezes utilizado pela CIA.


A recusa de Lula
Mas não para por aí. A seguir, a novidade do evento foi o anúncio da não-participação de Lula no almoço com Obama. Muitos atribuem tal ausência ao esforço do popular ex-presidente para preservar intacto o protagonismo de Dilma Rousseff.

De minha parte, nunca comprei essa versão, pois, se assim fosse, Lula não deixaria para anunciar sua ausência na última hora, criando um fato jornalístico que traz de volta os holofotes a ele e gera uma série de especulações. Se deixar o palco para Dilma fosse o caso, seria mais lógico que ele assumisse, com bastante antecedência, um compromisso internacional que fizesse que ele sequer estivesse no país por ocasião da visita do mandatário estadunidense.

Portanto, o anúncio abrupto, de última hora, de sua ausência evidencia insatisfação ou desaprovação. A o quê? Não é preciso ser Nostradamus para se aperceber de que, com a ONU tendo aprovado, dois dias antes da visita de Obama, a decretação de zona de exclusão aérea na Líbia, seria uma questão de tempo para que os EUA seguissem os passos da França e anunciassem o ataque ao país - o que muito possivelmente viria a acontecer no Brasil, como efetivamente ocorreu.


Em solo brasileiro
E o fato de Obama fazer tal anúncio no Brasil repercutiu muito mal para nosso país no Oriente Médio e, como demonstra Maria Fro, na América Latina. Neste exato momento, Dilma Rousseff está sendo muito criticada tanto pela abstenção na votação na ONU quanto, sobretudo, por dar a impressão de endossar o anúncio de guerra ianque, por este ter se dado aqui e em meio a recepções calorosas a Obama.

Trata-se, evidentemente, no caso das últimas acusações, de uma injustiça, pois a presidenta nada poderia fazer em sentido contrário, em meio ao mais importante encontro internacional de seu mandato, organizado com grande antecedência.

Mas se Lula tivesse ido ao encontro, certamente sobrariam para ele acusações de incongruência entre, de um lado, a política Sul-Sul e de aproximação com o Oriente Médio que promoveu e, de outro, o fato de prestigiar o banquete para o mais novo senhor da guerra contra a região, inexplicavelmente laureado com o Nobel da Paz. Estrategista exímio como reconhecidamente é, Lula deve certamente ter prefigurado tais desdobramentos. Como se já não bastassem as idas e vindas de Obama quando incentivou que Lula mediasse um acordo com o Irã.


Humilhação oficial
Para completar o triste espetáculo que foi a visita de Obama, ministros foram obrigados, em território nacional, a tirar o sapato para revista pelas forças de segurança dos EUA, as quais revistaram até viatura da Polícia Federal. É o cúmulo da subserviência, de um lado, e do desrespeito à soberania, do outro.

Que alguns ministros tenham se recusado a tirar os sapatos, preferindo perder o almoço com Obama, traz o alento de saber que alguma dignidade foi preservada. Mas me recuso a acreditar que o cerimonial e as agências brasileiras de segurança não sabiam que seria assim – afinal, esse encontro vem sendo preparado há meses. Trata-se, portanto, de humilhação consentida, de vassalagem ao soberano. Há de se denunciar o ímpeto imperialista do visitante, mas não dá para fingir não notar a leniência submissa do governo brasileiro.


É o comércio, estúpido!
Com tantos transtornos, a visita de Obama ao Brasil evidenciou, uma vez mais, toda a truculência e arrogância imperialista que impregna, há décadas, a política externa dos EUA. O único evento a destoar positivamente do programa foi o discurso de Dilma Rousseff: firme, consistente, deixando claros os limites e as discordâncias do Brasil para com as demandas estadunidenses, foi reconhecido até por empedernidos conservadores.

Obama, em contraposição, além de lento e pouco articulado, não garantiu, no discurso oficial, o apoio à candidatura do Brasil ao Conselho de Segurança da ONU – menção que só veio a fazer no almoço, o que é diplomaticamente muito menos significativo. Deixou claro que o negócio dele é fazer aumentar o comércio a favor dos EUA - e o resto é secundário.

Ou seja: os colonizados se humilharam e se abaixaram até "pagar cofrinho", mas desta vez nem espelhinhos ganharam...


(Cartum de Latuff retirado daqui)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Obama, Serra e o imperialismo

A eleição de Barack Obama à presidência dos EUA, prenhe de significações auspiciosas, trouxe, mundo afora, esperança aos setores sociais mais progressistas.

Afinal, ao mesmo tempo em que alegadamente significava o fim do imperialismo bélico da “era Bush”, culminava, com a chegada de um negro à Casa Branca, como episódio-símbolo da consumação da luta pelos Direitos Civis que teve seu auge nos anos 60.

A jovialidade do candidato, seu sorriso fácil, o otimismo contagiante do “Yes, we can” que se seguiu ao outono neoliberal, tudo parecia indicar que até um revival, em menor escala, do otimismo inebriante do pré-1968 seria possível.

Tratava-se, hoje se sabe, de uma mera ilusão. Como fica cada vez mais evidente, o acordo que, em nome da governabilidade, o presidente se viu forçado a fazer com a linha-dura do partido democrata, encarnada por Hillary Clinton – que se torna, cada vez mais, uma figura trágica, que parece ter direcionado todas as frustrações repressadas de esposa publicamente traída à acumulação de um poder tão intransigente quanto insensível - acabou por gerar não o fim dos falcões bélicos republicanos, mas tão-somente sua substituição por seus iguais democratas. (Leia no ótimo blog de Arnobio Rocha, uma reconstituição detalhada de tal processo)


O retorno do oprimido
Dois episódios, graves e recentes, parecem confirmar tal premissa. O primeiro é a reação intempestuosa dos EUA ao acordo Brasil-Irã-Turquia. Comandada pela Secretária de Estado – que, na prática, desautorizou o próprio presidente Obama -, a tratativa em prol da adoção de sanções contra o Irã, acompanhada da retórica belicista, contraria esforços em prol da paz saudados pela maioria da comunidade e da imprensa internacionais.

Foi como se o sorriso de dentes brancos e alinhados de Obama uma máscara se revelasse, dando lugar à verdadeira face da nação – a do enrugado imperialismo bélico, invasor e antidemocrático, com um desprezo pela vida humana que só rivaliza, em intensidade, com seu grau de ganância materialista.

Nem bem as pessoas de bem se recuperaram do susto ante a carranca, a brutalidade patrocinada pelos EUA uma vez mais se manifestou, na forma do inadmissível ataque do exército israelense a um comboio marítimo pacífico, que levava víveres e remédios ao campo de concentração, digo, à Faixa de Gaza. No mínimo, nove pessoas morreram.

A reação dos EUA, que sistematicamente boicotam qualquer ação contra o terrorismo de estado israelense? O de sempre: declarações afetando indignação, mas não acompanhadas do anúncio oficial da adoção de nenhuma medida para punir o prolongado banho de sangue - entre forças covardemente desiguais - no Oriente Médio.


Imperialismo brazuca
No Brasil, por sua vez, presencia-se o retorno de um discurso lumpen-imperialista que julgávamos condenado às teias de aranha da história. Vocalizado por um cada vez mais desequilibrado José Serra, apela, a um tempo, ao imaginário preconceituoso que ainda predomina, em nossa sociedade, em relação aos povos andinos e à caricaturização que nossa imprensa faz de Evo Morales – “amigo de Lula” - para culpar a Bolívia pelo tráfico de cocaína no Brasil e, de quebra, atingir a candidatura Dilma.

Se o caso fosse mesmo acusar os países vizinhos pelo tráfico no Brasil – negligenciando, como sempre, o quanto nossa própia estrutura socioeconômica colabora para tal - o candidato tucano deveria endereçar-se não ao “índio” esquerdista Morales, mas ao seu colega colombiano Álvaro Uribe, direitista e branquinho, cujo país exporta três vezes mais cocaína ao Brasil do que seu vizinho andino.

Porém, muito mais preocupante do que essa diatribe eleitoral desesperada de Serra – que subitamente deixou de ser o pós-Lula – é a soma de sua postura destrutiva em relação ao Mercosul e belicista quanto aos nossos vizinhos sul-americanos com a defesa desabrida que faz do realinhamento automático com os EUA.

Pois, no momento em que Brasil começa a se impor de forma mais visível no cenário internacional, com os avanços e retrocessos que tal condição provoca numa arena geopolítica altamente competitiva, o retorno a uma postura submissa em relação aos EUA significaria não apenas um estímulo indevido ao imperialismo desumano do qual sua história é composta, mas a renúncia a nosso direito por reafirmarmo-nos como nação livre e autônoma no cenário internacional.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Brasil e Honduras: dogmas em destaque

O filósofo e historiador Tzvetan Todorov distingue o dogmatismo e o relativismo como duas tendências extremas e polarizadas entre si no exercício da crítica. Ele afirma, não sem mordacidade, que, se instado a escolher entre o debate com um crítico dogmático ou um relativista, escolheria este, já que, ao contrário do que acontece com os dogmáticos, haveria ao menos a possibilidade de estabelecer um diálogo.

Búlgaro radicado na França desde meados dos anos 1960, o hoje francês naturalizado Todorov, no belo discurso que proferiu ao receber o prêmio Príncipe de Astúrias de Ciências Sociais, em 2008 (ao qual é possível assistir aqui, em espanhol), fez uma veemente defesa do direito dos estrangeiros que vivem na Europa à plena cidadania, aí incluídos o direito ao reconhecimento de sua condição de entes produtores de cultura e ao diálogo desta com a cultura do país em que vivem.


Estripulias ardilosas
A evocação de Todorov foi causada pela leitura do material produzido pelos principais jornais, revistas e blogs do país acerca do grave episódio internacional envolvendo a volta a Honduras do presidente constitucional do país, José Manuel Zelaya, o abrigo concedido a ele e sua família na embaixada brasileira em Tegucigalpa e os ataques de que esta vem sendo vítima.

Antes, porém, de examinarmos as estripulias de nossa ardilosa imprensa, convém reconectar algumas verdades essenciais aos fatos, já que elas se perderam em meio ao cipoal de desinformação, alusões fantasiosas e teorias conspiratórias a estes pespegados.

Como reconhece Mauro Santayana, em artigo-oásis no Jornal do Brasil (que respira com a ajuda de aparelhos), Zelaya não pretendia, no referendo que deveria ter ocorrido em julho, disputar um segundo mandato presidencial, mas sim a colocação de uma quarta urna para votar a convocação ou não de uma Assembléia Constituinte. Já estava definido que esta, se instalada, não teria efeito vinculante (ou seja, caso viesse a decidir pela alteração da duração ou do estatuto da reeleição presidencial, tal medida não beneficiaria Zelaya, mas seu sucessor).

Esse esclarecimento é necessário, pois, na euforia midiática que teve lugar, no Brasil, após o golpe de Estado em Honduras - logo transformada em tibieza em condená-lo -, o principal "argumento" utilizado para justificar o golpe de Estado – como se estes justificáveis fossem – era que Zelaya tentaria um segundo mandato, patrocinado por Hugo Chávez, a nova panacéia editorial do continente, como aponta Leandro Fortes em mais um artigo para ler e guardar. Tal premissa levou alguns colunistas mais afoitos a gastar tinta para falar em uma nova modalidade de golpe de estado alegadamente em voga na América Latina: o golpe institucional, que se daria através da alteração das leis, mas mantendo os militares nos quarteis (até agora, Álvaro Uribe, da Colômbia, que esses tais colunistas adoram, é o único responsável pela "voga").

Ainda que a suspeitíssima Suprema Corte hondurenha tenha desautorizado o tal plebiscito – como, agarrando-se a tal argumento como um náufrago a uma bóia, insistem os setores de direita com pouco apreço pela democracia -, isso configuraria um confronto, rotineiro nas democracias, entre dois dos três Poderes: a solução teria de ser negociada, como de ordinário o é em tais países. Nada justifica a destituição de Zelaya - ou de qualquer presidente eleito - na calada da noite, sem nenhum rito público e sob a mira de armas de fogo. Países democráticos podem até depôr seus mandatários, desde que cumprido o ritual processual do impeachment.


Cobertura dogmática
Ao contrário do que afirmam certos blogs que cultuam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu governo como entidades sagradas e infalíveis, é lícito, sim, questionar a necessidade do envolvimento do Brasil no caso, como o faz a imprensa – na verdade, esta é, idealmente, uma de suas funções precípuas: avaliar as decisões governamentais tendo como horizonte o que julga ser melhor para o país. (Não que sejam esses os motivos para a indignação de nossa imprensa...)

Portanto, é sustentável, na teoria – embora não necessariamente correta –, a posição segundo a qual em nome do restabelecimento da ordem democrática em um país insignificante do ponto de vista comercial ou estratégico, tanto a soberania quanto a instabilidade institucional brasileiras estariam sendo desnecessariamente postas à prova.

Por outro lado, causa estranhamento que a imprensa aja virtualmente como bloco, e que a posição acima descrita seja praticamente unânime. Pois haveria de passar pela cabeça de alguns articulistas que, se o Brasil quer mesmo assumir sua posição de player no cenário internacional, é mais do que recomendável que atue com firmeza para restabelecer a ordem democrática num país sob sua área de influência geopolítica no qual ela foi claramente violada – e através de um tipo de golpe de Estado clássico, que julgava-se condenado aos anais empoeirados da história.

Como meus poucos mas inteligentes leitores já devem ter notado, com essas ponderações acima, uma no cravo, outra na ferradura, estou a fazer um exercício de relativismo, talvez com a pretensão, decerto excessiva, de contrapô-lo ao dogmatismo reinante em nossa "grande imprensa".


Nacionalismo e imprensa
O cenário se complica, porém, ao se constatar que, concedido o abrigo diplomático a Zelaya, a embaixada passa a sofrer represálias por parte do governo golpista (que nossa mídia chama de "governo de facto", o que sugere uma autoridade que ele não tem). Como se sabe, a representações diplomáticas no exterior os tratados internacionais garantem inviolabilidade. Mesmo em golpes de Estado os mais brutais – como no Chile de Salvador Allende, em 1973 – tal jurisprud~encia internacional foi, a princípio, respeitada.

Não que a imprensa tenha a obrigação de defender o Brasil por nacionalismo ou patriotismo. Estas duas modalidades de paixão coletivas, tornadas execráveis em terras nacionais durante a longa hegemonia neoliberal e que agora ensaiam um retorno, podem, de fato, trazer consigo um danoso potencial de manipulação ideológica, do qual a história é farta de exemplos extremos. Como se sabe, os EUA são o único país do mundo cuja população – e a mídia – tem o direito de ser nacionalista e patriota, o que talvez se justifique pelo seu passado pacifista. Imperialista, como nos informa a revista Veja, em matéria de capa, é o Brasil.

Ironias à parte, admitamos que o nacionalismo e o patriotismo não obriguem a imprensa brasileira a tomar uma posição de defesa dos interesses nacionais – embora o fato de a Folha de São Paulo seanunciar como "um jornal a serviço do Brasil" nos permitir meditar sobre a instrumentalização que a imprensa faz de tais conceitos quando de seu interesse. Tal admissão colide, porém, com o que foi afirmado parágrafos acima – que uma das funções precípuas da imprensa seria, idealmente, "avaliar as decisões governamentais tendo como horizonte o que julga ser melhor para o país" – e, portanto, contraditoriamente, com a própria justificativa na qual se baseia a condenação da imprensa à ação diplomática brasileira em Honduras, evidenciando suas reais motivações.


Agressões negligenciadas
Mas o cenário ficaria ainda pior com a reação truculenta dos golpistas ora ainda no poder contra a ação diplomática brasileira. Quando a imprensa negligencia duplamente a agressão a uma embaixada – ao oferecer uma cobertura insatisfatória das graves denúncias contra o governo hondurenho (que incluiria até lançamento de gás venenoso) e ao subestimar a gravidade da violação de leis internacionais – ela transpõe o limite que separa a em si aviltante adoção de uma linha dogmática na cobertura do caso e a conivência com ações inaceitáveis à luz do Direito e da Razão. Viola, portanto, os próprios pressupostos iluministas que sempre conclamou como orientadores básicos da própria atividade jornalística.

O desenrolar da cobertura a partir da consumação do ataque ao território brasileiro no exterior e de sua decorrente condenação pela OEA chegou às raias da irresponsabilidade. Promove-se, desde então, uma tal inversão de valores que se procura fazer crer que o presidente democraticamente eleito e expulso à ponta de baioneta é quem é o provocador, de dentro da embaixada brasileira e, ainda assim, sempre sob o comando do onipresente Chávez. Para completar, as reações internacionais contra um governo que não foi reconhecido por nenhum país vêm sendo minimizadas a favor da repercussão de um jornalismo neocon que é, neste momento, na melhor das hipóteses, continental.

As manchetes oscilam entre o cinismo implícito e a manipulação evidente, tornando-se às vezes peças de humor involuntário – é o caso da Folha de São Paulo de 25/09: "Golpistas acusam Lula de intromissão". O que os editores do diário paulista esperavam que eles fizessem? Saudassem fraternalmente o mandatário do país que dá abrigo ao inimigo que depuseram do poder?

Assim agindo, a imprensa brasileira, em sua militante cobertura do caso hondurenho, torna-se, em última análise, cúmplice da truculência de um governo golpista contra a democracia hondurenha, a soberania do Brasil e as leis internacionais.


Nova doutrina diplomática
Isso justamente em relação a uma operação diplomática que contraria, de forma inédita, uma doutrina estabelecida há mais de cem anos pelo barão do Rio Branco e promove a expansão efetiva da área de influência do Brasil para a América Central, evidenciando assim a posição dúbia do governo Obama em relação ao golpe – em relação ao qual pesam suspeitas de ação de agentes dos serviços secretos norteamericanos.

O leitor que restringe suas leituras à mal chamada “grande imprensa” nacional simplesmente não pôde atinar com os complicados meandros, o ineditismo e o papel primordial que o Brasil vem exercendo para o restabelecimento da ordem democrática no país caribenho e do confronto sutil mas fundamental que tal ação provocou na posição dos EUA, expondo-a e praticamente forçando uma tomada de posição efetiva. A revogação do estado de sítio anunciada hoje é o até agora mais forte indício da efetividade da ação diplomática brasileira.

Fechada em seus dogmas, atrelada tão-somente à defesa de seus interesses, a imprensa assim agindo se iguala ao racista intransigente de que fala Todorov: é um ente em decadência, presa de seu próprio anacronismo e de sua intransigência, cavando a cova de seu próprio descrédito.



Atualização de artigo publicado no Observatório da Imprensa em 29/09.

(Imagem retirada daqui)

sexta-feira, 24 de julho de 2009

A manchete que a imprensa escondeu

Imagine o seguinte acontecimento: dois Ministros de Estado de um grande país latinoamericano – um deles candidato a presidente nas próximas eleições presidenciais – viajam a Washington para um fórum econômico de cúpula que reúne os assessores para Segurança Nacional dos EUA, Jim Jones, e o para Assuntos Econômicos Internacionais, Michael Froman, além de 20 representantes de algumas das maiores empresas e grupos financeiros dos dois países, como Coca-Cola, Motorola, Cargill e Citibank. O presidente norteamericano Barack Obama decide prestigiar o evento, dele tomando parte por cerca de meia hora.

À saída, não apenas o ministro-candidato anuncia o “forte apoio” de Obama à intensificação do comércio entre os dois países e ao combate mútuo ao protecionismo, mas o próprio presidente dos Estados Unidos, que a princípio não deveria se pronunciar (na verdade, sequer costuma participar de reuniões desse tipo), faz questão de fazer uma declaração, na qual enfatiza a importância da relação bilateral entre os dois países.

Desnecessário dizer que, em linguagem diplomática, o “gesto espontãneo” de Obama tem significação clara: sinaliza a primazia do tal país latino-americano como parceiro regional. Como a confirmar tal significação, ato contínuo, o influente Council on Foreign Relations divulga nota em que sugere olhar o tal país latinoamericano “como intermediário em questões de segurança regional", pois ele “está aprendendo a equilibrar diplomacia comercial e política de modo sem precedentes".

No dia seguinte, obviamente, o assunto domina as manchetes dos grandes jornais e é explorado à exaustão pelo noticiário televisivo do país latinoamericano. Nas edições imediatamente seguintes, economistas, cientistas políticos e experts em profusão debatem as implicações, imediatas e a médio prazo, do encontro de cúpula em Washington, avalizado por ninguém menos do que o presidente da (ainda) maior potência mundial.


A imprensa descompromissada
Acontece que o país latinoamericano em questão é o Brasil, um lugar em que a imprensa, em sua maioria, tem simplesmente abdicado de seu papel de informar e questionar, preferindo agir como partido político. Para piorar, liderou a missão brasileira em Washington a ministra-candidata Dilma Rousseff, contra quem até fichas policiais falsas foram utilizadas na tentativa de denegri-la. Portanto, ao invés de manchetes, esquálidos parágrafos; no lugar de debates, um epifânico silêncio. A se basear na “grande imprensa” nativa, é quase como se os desdobramentos surpreendentemente positivos do Fórum de CEOs Brasil-EUA da segunda-feira, 21 de julho, não tivessem ocorrido.

Mas, além da imprensa norteamericana – que publicou dezenas de artigos e análises sobre o encontro -, boa parte da mídia internacional demonstrou-se muito mais atenta ao caso, fornecendo até detalhes do evento e estendendo a cobertura aos encontros de Dilma com o Secretário do Tesouro norte-americano, Tim Geithner, com o assessor econômico de Obama, Larry Summers, e com o Secretário de Comércio, Gary Locke, este ocorrido no encontro entre as câmaras de Comércio dos dois países, pela ministra coordenado.

A imprensa latinoamericana, em especial, revelou-se muito mais interessada do que os jornais brasileiros. O DiarioCritico, do México, publica uma alentada reportagem, com farta informação e direito a foto da ministra; o Buenos Aires Herald chega a ser mais específico, assinalando que “Os CEOs recomendaram que os EUA eliminassem suas tarifas para importação do etanol, mudança que beneficiaria o Brasil, mas que enfrenta grande oposição dos plantadores de milho norte-americanos”. De acordo com a agência de notícias Ansa Latina, um porta-voz norte-americano teria declarado que “Washington e Brasilia nunca tiveram uma relação tão ‘forte’ e que isso se deve à afinidade de opiniões entre os mandatários”.

A declaração de Dilma Rousseff de que ambos países devem trabalhar com "ênfase especial” em áreas relacionadas a biocombustiveis e cooperação científica e tecnológica foi destacada em matéria do site Mendonza On Line, que também ouviu o Secretário de Comércio Locke. Ele, por sua vez, ressaltou a "sociedade" entre os dos países, em particular para incentivar investimentos privados no Haiti e em várias nações africanas. Até a imprensa de países que não estão sequer na esfera geopolítica do tema, como França e Alemanha, deram mais atenção à cúpula do que a imprensa brasileira. O site informativo francês Autorecrute salientou na cobertura que “O comércio bilateral entre Estados Unidos e Brasil aumentou para 63,4 bilhões de dólares em 2008”. Pelo jeito, atingimos um ponto em que, por vezes, devido a interesses essencialmente políticos, a mídia mundial interessa-se-mais por questões brasileiras do que a própria mídia nativa...


Desinteresse ostensivo
No Brasil, o desinteresse foi ostensivo, Nos jornalões, nenhuma manchete de capa. Fotos? A única que este observador deve a oportunidade de ver – autêntica, e não referente ao encontro anterior entre Obama e Dilma, em que a ministra era parte da entourage de Lula, e que foi utilizada para ilustrar diversas matérias internacionais - estava, um tanto surpreendentemente, no portal Yahoo. O Estadão e os menos prestigiados Diário do Comércio e Correio do Povo ainda produziram uma matéria de uma lauda cada um, escondidas longe das manchetes.

A cobertura mais ardilosa foi, uma vez mais, da Folha de S. Paulo, que se valeu de um expediente editorial que se tem tornado recorrente no jornal quando quer “esconder” uma notícia: utilizar títulos que simplesmente não permitem ao leitor correlacioná-los ao tema que tratam. Dessa vez, a titulagem não dá a mínima margem para que o leitor adivinhe que a matéria é sobre o evento de comércio binacional: “Petrobrás pode assumir todos os blocos do pré-sal, diz Dilma”. O texto do usualmente bem informado e eclético Sérgio Dávila é um primor de dissimulação e contradições. Vejamos:

“À tarde, enquanto o grupo se reunia na sala do assessor de Segurança Nacional obamista, James Jones, o presidente Barack Obama apareceu no local.

Segundo relatos, ele foi simpático, mas protocolar. Perguntou aos empresários as principais dificuldades nas relações bilaterais. Disse que o país era parceiro estratégico não só em questões bilaterais mas também em regionais e globais e ressaltou a intenção de aprofundar a colaboração em biocombustíveis, na ajuda à África e ao Haiti e no combate à mudança climática”.

Relevemos que “assessor de Segurança Nacional obamista” e “assessor de Segurança Nacional dos EUA” – como a imprensa internacional se refere ao ocupante do cargo - sugerem coisas e posições hierárquicas consideravelmente diferentes, e que a duvidosa primeira denominação não permite a priori afirmar que Jones “ocupa uma das posições mais poderosas no país”, como atestou, quando da nomeação de Jones, a Time magazine. A denominação oficial do cargo é “National Security Adviser”, e não inclui, é claro, nenhuma referência a Obama. Parece-me lícito deduzir que seu ocupante, embora naturalmente nomeado pelo presidente, serve contratualmente ao país. O que vocês acham?

Como mais uma demonstração de boa vontade analítica, participemos também, como faz o colunista, da brincadeira de fazer de conta que Obama “apareceu” no local. Afinal, é divertido supor que o presidente dos EUA gosta de enlouquecer sua entourage e o Serviço Secreto, improvisando seus atos a todo momento.

Agora, a sério, vamos à pergunta que não quer calar: Obama teria sido “Simpático, mas protocolar”? A descrição da performance do presidente norte-americano no encontro, perpetuada no próprio texto de Dávila, contradiz a afirmação que o jornalista faz na abertura do parágrafo. Senão, vejamos: um dos homens mais poderosos do mundo adentra, alegadamente por vontade própria, uma reunião de cúpula, enche os empresários de perguntas, ressalta a intenção de aprofundar colaboração com o Brasil em nada menos do que quatro áreas estratégicas e faz,ainda, questão de afirmar (em público, o que a matéria omite) que o país é “parceiro estratégico não só em questões bilaterais mas também em regionais e globais” – e isso é ser “protocolar”? O que o colunista esperava, que Obama sapecasse uns beijos na Dilma?

A Folha oferece, ainda, uma sub-retranca que, uma vez mais, repete o truque da titulagem dissimulatória, dessa vez não permitindo sequer que se deduzisse qualquer interação com entes diplomáticos brasileiros: “Empresário dos EUA condenam tarifa ao etanol”.

Mesmo na blogosfera a cobertura foi decepcionante, a ponto de Luís Nassif transformar em post o comentário do internauta Clovis Campos protestando: “Nenhuma informação em lugar nenhum”. Nos 42 comentários que se seguem ao post, nenhum link para blog sobre o tema, com a exceção óbvia dos para-oficiais (intitulados “os amigos do presidente Lula” e, falta de imaginação, “os amigos da presidente Dilma”). No restante da blogosfera, há reproduções de despachos de agências e das matérias citadas acima, mas se encontram – com o perdão do trocadilho - virtualmente ausentes textos críticos. O Blog Por Simas ao menos conseguiu difundir a lista das empresas brasileiras que tomaram parte do encontro, ausente das reportagens: “Gerdau, Vale, Embraer, Coteminas, Odebrecht, Votorantim Participações, Sucocítrico Cutrale, Camargo Côrrea, Stefanini IT Solutions e Banco Safra”.


Ciclo de omissões
É lícito lembrar, ainda, que esse ciclo de omissões ocorreu no meio de uma semana particularmente pobre de grandes assuntos, na qual, estivesse o jornalismo brasileiro funcionando em condições normais de temperatura e pressão, tais fatos diplomático-comerciais teriam tudo para ser manchete dos grandes jornais, com destaque para a tradicional fotografia dos protagonistas se cumprimentando – afinal, trata-se, no mínimo, de um momento histórico para o comércio entre os dois países. Como explicar essa omissão da mídia ante um fato notório por si mesmo e que fornece tantos elementos para a discussão das relações Brasil/EUA e do realinhamento geopolítico do país em relação ao continente americano?

Há três hipóteses principais:

1) O fato não é relevante a ponto de merecer a devida atenção de nossa mídia, ocupada com denúncias mais sérias;

2) Nossa mídia é incompetente, e não foi capaz de avaliar a importância de um encontro de cúpula entre a nata do empresariado norte-americano e brasileiro com a alta burocracia dos dois países, nem de apurar que o presidente dos EUA participaria do encontro e a seu respeito se pronunciaria publicamente, conferindo-lhe importância diplomática incontestável;

3) Nossa mídia deliberadamente boicotou o evento por motivações políticas, preferindo omitir de seus leitores informações de extrema relevância para o futuro do país. Por quê? Por ser este comandado por uma ministra que é a principal opção eleitoral das forças políticas as quais, como se partido político fosse, essa mesma mídia tem sistematicamente repelido.

Vamos por eliminação: os caros leitores que têm fresca na memória as reportagens de capa (e com direito a fotos) dos grandes jornais com Pedro Malan e Armínio Fraga – de sobretudo, é claro - se reunindo com algum sub do sub do sub em Washington, que proliferaram durante as presidências de Fernando Henrique Cardoso, sabem que, devido ao número e à patente das autoridades envolvidas, o Fórum dos CEOs, vitaminado pela participação do presidente dos EUA é, comparativamente, muito mais importante. Portanto, descartemos a hipótese 1.

Sobram, portanto, duas hipóteses, que não oferecem elementos para serem categoricamante descartadas a priori: a incompetência de nossa mídia ou sua omissão por razões político-eleitorais. Minha impressão pessoal é que, a despeito do atraso técnico e dos seguidos episódios de violação da ética jornalística (que não deixam de ser uma forma particulamente nociva de incompetência), esta última não é tão grave em nossa imprensa a pon to de ignorar um fato diplomático de primeira grandeza.


Por que a cortina de silêncio?
Mas deixo aos leitores a tarefa de julgarem por si mesmos, oferecendo, em contrapartida a tão dilacerante esforço, sábias reflexões do jornalista Perseu Abramo acerca da omissão na mídia, que ele interpreta como estratégia primordial dos grandes grupos de imprensa para desinformar e, assim, manipular o leitor/espectador. Segundo trecho de seu livro Padrões de Manipulação da Mídia citado no blog do sempre combativo Altamiro Borges, trata-se de:

“Um deliberado silêncio militante sobre determinados fatos da realidade. Esse é um padrão que opera nos antecedentes, nas preliminares da busca da informação, isto é, no ‘momento’ das decisões de planejamento da edição, naquilo que na imprensa geralmente se chama de pauta... O padrão da ocultação é decisivo e definitivo na manipulação da realidade: tomada a decisão de que um fato ‘não é jornalístico’, não há a menor chance de que o leitor tome conhecimento de sua existência por meio da imprensa. O fato real é eliminado da realidade, ele não existe”.

Se por leniente incompetência ou se por má-fé eleitoreira, o fato é que a cobertura acanhada e des-hierarquizada do encontro de Dilma e Obama, além de manter desinformado o público leitor que a mídia tem por obrigação informar, é indicadora de um estado de coisas e de uma perspectiva futura temerária. Pois, se para episódios aparentemente menos consequentes envolvendo Dilma Rousseff o método adotado foi esse - transformar uma possível manchete em um fato menor, quase um não-fato -, tem-se uma idéia do que pode vir a acontecer quando os ânimos se acirrarem ao longo do pedregoso caminho que leva às eleições de outubro do ano que vem.


É preciso vigiar a mídia
Tenho sentido, ultimamente, uma certa tendência ao cansaço à crítica à mídia, a difusão de uma atitude de “deixa pra lá” e de “eles que se danem” em relação à ação da “grande imprensa”. Considero essa mentalidade – e a prática a ela associada – perigosíssima, uma fonte potencial para deixar a mídia deitar e rolar nas próximas eleições, não apenas tentando impor seus candidatos, mas o fazendo com os métodos e conluios que são nossos velhos conhecidos.

Por isso, insisto uma vez mais: é preciso refrear a euforia inconsequente que toma conta da blogosfera e substituí-la por uma marcação cerrada e articulada das práticas da mídia, pelo menos até as próximas eleições. Do contrário, eles locupletar-se-ão.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 15 de abril de 2009

"24 Horas" volta às telas: anacronismo?

Bauer e o principal coadjuvante da série, o celular

O agente Jack Bauer está de volta às telas da TV a cabo brasileira – e a primeira impressão é de um atroz anacronismo.

Na vida real, os vôos secretos da CIA para levar suspeitos de terrorismo para a tortura terceirizada eram, agora temos certeza, verdadeiros, mas acabam de ser alegadamente desativados; a Guantánamo/Doi-Codi da “era Bush” vive seus últimos dias, ao mesmo tempo em que o fim do criminoso embargo dos EUA a Cuba torna-se uma miragem mais próxima.

Em pleno reflorir da “era Obama”, as situações e personagens da série que a Fox exibe nas noites de terça, envoltos em eterna desconfiança e paranóia, com seu protagonista sempre disposto a transgredir as leis e torturar e seus presidentes (na atual temporada, uma mulher) que fazem de tudo para reafirmar a supremacia imperial norteamericana, parecem pertencer a um passado distante.

Mas talvez seja ainda cedo para tal avaliação – e isto vale tanto para o real legado de Obama quanto para o desfecho da sétima temporada de uma série que, embora sempre controversa, não se deixa sucumbir facilmente pelo criticismo.

24 Horas é certamente o programa de ficção que mais intensivamente explorou a configuração ideológica pós-11 de setembro e o inconsciente coletivo da “era Bush”. Assim que foi ao ar pela primeira vez, a série tornou-se, ao mesmo tempo, um produto midiático muito bem-sucedido em termos técnicos (e comerciais) e uma criação ficcional com implicações político-ideológicas altamente problemáticas, levando ao limite o dilema “forma versus conteúdo”.

O sucesso inicial da série parecia dever-se ao uso do “tempo real”, através do qual o tempo diegético (aquele passado no interior da trama) equivaleria ao tempo no universo habitado por nós, os espectadores, e pela utilização de múltiplas telas exibindo ações simultâneas – duas técnicas narrativas que, longe de constituir novidade, pertencem à infância do cinema, tendo sido utilizadas com brilho ao longo do tempo por cineastas diversos, como Hitchcock, Andy Warhol, Peter Greenaway e Tom Tykwer (o diretor de Corra, Lola Corra).

Mas, nas temporadas seguintes, o sucesso de público e de crítica evidenciaram que havia mais do que meros artifícios de efeito em 24 Horas. Em virtualmente todos as categorias técnicas - destacadamente na montagem, direção de arte, edição de som e fotografia - a série preenche com folga os requisitos que John Caldwell definiu como distintivos da qualidade na TV. Mais do que isso: a premiada equipe de roteiristas levou a um novo patamar o grau de complexidade das múltiplas tramas paralelas, tornando-se case study para oficinas e cursos de roteiro; a política de casting (escolha de elenco) conseguiu, ao menos até a quinta temporada, minimizar e eventualmente dirimir as acusações de racismo ou de preconceito étnico - um feito digno de nota em meio à guerrilha multicultural norteamericana; os elencos, de modo geral, tiveram um desempenho bem acima da média da televisão dos EUA (que já é alta), destacadamente Kiefer Sutherland, que, sem ser um ator de primeira linha, apresenta um trabalho de voz notável (observe que NINGUÉM fala ao celular como Jack Bauer...).

Já o conteúdo ideológico de 24 Horas tem sido há tempos apontado como veículo para difusão, para um contingente amplo de espectadores, de uma forma perniciosa de conservadorismo, como apontaram numerosas críticas, preocupadas com o papel formativo e pedagógico que o programa poderia vir a exercer na opinião pública em relação aos direitos individuais sob o pretexto da "guerra ao terror”. O fato de a série ser exibida pela Fox, cujo canal de notícias representa a “vanguarda do atraso” neocon só fez reforçar as desconfianças.

Com efeito, por mais que as estratégias compensatórias adotadas pelos responsáveis pela série dissimulem, fica difícil negar que sua produção discursiva reforça uma visão imperialista dos EUA; que estimula, por vias tranversas, o preconceito contra estrangeiros, muçulmanos sobretudo – o que gerou volumosos protestos públicos na sexta e mais polêmica temporada da série -; e, sobretudo, que são plenamente justificadas as preocupações quanto à naturalização da tortura como método investigativo, ainda mais em um produto de massa (tema de um artigo para variar irretocável de Slavoj Žižek).


Prefiguração de Obama?

Já no primeiro episódio da atual temporada, quando Jack Bauer começa a torturar um suspeito com uma caneta, não há como não dar razão a tais críticas. Porém não dá também para esquecer que, embora negros retratados como presidente dos EUA tenham aparecido amiúde no cinema norteamericano, foi 24 Horas quem apresentou, por um longo tempo, encarnado pelo carismático Dennis Haysbert (foto), o presidente negro mais charmoso, determinado e competente das telas, naturalizando, num programa de massas, a idéia de um afroamericano na Casa Branca, no que pode ser entendido como uma prefiguração justamente de... Barack Obama.

É por essas e por outras que todo cuidado é pouco ao analisar 24 Horas. Portanto, parece recomendável aguardar o final da atual temporada antes de emitir juízos de valor quanto ao eventual anacronismo do programa em relação à "era Obama". ..