domingo, 11 de março de 2012

Cinema e sociedade: crise de representação?


Ontem assisti à cópia digitalmente restaurada de Eles Não Usam Black-Tie, dirigido por Leon Hirszman em 1981 e baseado na peça de Gianfrancesco Guarnieri, que lidera o elenco onde também brilham Bete Mendes – esplêndida, no papel de sua carreira - e Fernanda Montenegro.

Para além das qualidades estilísticas do filme – como a mise en scène enxuta mas significativa empreendida por Hirszman, o trabalho de câmera de Lauro Escorel Filho, a direção musical de Radamés Gnattali - e do registro, de um realismo quase documental, que perfaz da época e de ambientes urbanos de São Paulo, chamou-me a atenção a capacidade da trama de forjar, através de um número mínimo de personagens, uma poderosa alegoria sobre a dinâmica política da sociedade brasileira de fins dos anos 70.

Ela se dá, sobretudo, através da história do jovem operário Tião (Carlos Alberto Riccelli), o qual, premido pela determinação de se casar com a namorada, grávida, e pela ânsia de subir na vida, passa, em meio à agitação sindical crescente do período, a delatar ao patrão os operários politizados. Quando a greve é deflagrada ele, numa sequência de grande impacto dramático, “fura” o piquete de porta de fábrica e vai trabalhar, traindo o movimento, mesmo após ver seu pai (Guarnieri) sendo preso e espancado pela polícia.


Arrivismo trator
Tião é, a um tempo, a encarnação do ideário do “Brasil grande” do período ditatorial, com seu desenvolvimentismo economicista e sua indiferença para com o social, e a representação da mentalidade da classe média ascendente do período, sumarizada no slogan publicitário “o negócio é levar vantagem em tudo”. O personagem endossa, ainda, o diagnóstico que Marilena Chaui faz, no livro Conformismo e Resistência, em relação a tal nova classe média - que, embora originalmente pertencente a um estrato social mais pobre, tendia, em maioria, a levantar as bandeiras e identificar-se com os setores privilegiados da sociedade, aos quais aspirava pertencer, a irmanar-se das lutas dos de sua faixa socioeconômica.

A qualidade dramatúrgica da trama - que deve ser atribuída muito mais ao texto original de Guarnieri do que ao roteiro escrito a quatro mãos com Hirszman - é realçada, no filme, por jamais reduzir os personagens à alegoria que eventualmente representam, compondo-os como seres complexos e contraditórios, e por tratar com contundência questões como a violência policial e urbana, o alcoolismo, a omissão do Estado em relação aos mais pobres - e outros temas que hoje são prioritários mas que ainda eram periféricos na agenda política da esquerda no período, como o racismo e o machismo (assista abaixo, numa sequência antológica do cinema brasileiro).



Crise de representação
Ao final do filme, impôs-se uma reflexão acerca da brutal redução da capacidade do cinema brasileiro – e das artes em geral – de abordar criticamente a sociedade em que vivemos. Tal fenômeno, que se tornou mais grave na última década – quando a entrada da Globo Filmes no mercado reduziu de forma drástica o espaço de exibição do filme independente ou de baixo orçamento -, diz respeito não apenas à diminuição quantitativa mas também qualitativa de filmes fiéis ao que foi, por muito tempo, quase um traço distintivo de nosso cinema.

Pois uma das principais funções do cinema brasileiro tem sido, historicamente, fornecer abordagens críticas da evolução sócio-politica do país – abordagens essas que, por não estarem presas ao escopo ou às formas da ciência política, tendiam a ser, quando bem-sucedidas, mais abrangentes, surpreendentes e às vezes desconcertantes do que o que comumente se lia na mídia corporativa ou nos textos acadêmicos.

Particularmente durante a segunda metade do século XX, essa função social crítica foi o principal diferencial entre o cinema aqui produzido e o modo de produção industrial de vertente hollywoodiana: enquanto neste privilegiou-se o entretenimento, legando, eventualmente, a crítica social às entrelinhas ou à eventual epifania inerente a uma arte industrial total como o cinema, por aqui o cinema foi, destacadamente nos anos 60 e com persistência cada vez menor nas décadas posteriores, uma espécie de privilegiada consciência crítica da nação.

Tal afirmação vale não apenas para o Cinema Novo – quando, paradoxalmente, o ímpeto em fazer do cinema um meio de luta política, embora enorme, negligenciou a necessidade de atrair o público para os filmes – e para seus desdobramentos, sob o patrocínio do Estado e comercialmente mais atraente, nas duas décadas seguintes, mas inclusive para o “Cinema da Retomada” que teve lugar a partir da segunda metade dos anos 90. Não obstante o fato de a crise de representação já ser mencionada, Ismail Xavier, na celebrada entrevista que concedeu à revista Praga em 2000, fornece exemplos contundentes da efetividade do papel crítico de tal produção em relação ao Brasil contemporâneo. Alguns dos filmes produzidos nesse período – como, entre tantos outros, Terra Estrangeira (Daniela Thomas/Walter Salles, 1996), Como Nascem os Anjos Murilo Salles, 1996), Cronicamente Inviável (Sergio Bianchi, 2000) e Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) -, não obstante muito diversos entre si, claramente se inserem nessa tradição crítica ambiciosa.


Questões ao cinema
O que teria acontecido? Por que no cinema brasileiro atual são exíguas as abordagens críticas acerca do novo Brasil que vem tomando forma nesta década, socialmente mais inclusivo, com profundas mudanças em seu perfil religioso graças a maior presença dos neopentecostais, com um número expressivo de entusiastas da internet, com suas brutais assimetrias socioeconômicas que, embora reduzidas, permanecem? Por que, ao contrário do que antes ocorria, tem-se hoje com frequência a impressão de que o Brasil que se vê nas telas não corresponde ao país que se vê na rua, e que o país que se vê na rua não é visto nas telas?

O modelo financiador, baseado em renúncia fiscal de empresas que, na prática, ditam os rumos da atividade cinematográfica, seria o principal responsável ? As facilidades trazidas pelo digital teriam, paradoxalmente, reforçado a primazia da questão tecnológica? Haveria uma questão ligada à formação das novas gerações de cineastas? O cinema brasileiro apenas se ajustou ao que já era lugar comum em outras áreas culturais?

Não é intenção deste post fornecer as respostas. Como um bom filme brasileiro de um passado não tão distante, em que os espectadores deixavam a sala pensando nas questões levantadas, ele só quer instigar o debate.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Três anos de Cinema & Outras Artes


Hoje o blog faz três anos. A pretexto de celebrar a data, este post traz uma reflexão sobre a blogosfera e a atividade política nas redes sociais nesse período.

O Cinema & Outras Artes nasceu no bojo das manifestações contra a Folha de S. Paulo por ter empregado o neologismo “ditabranda” para se referir ao período militar e, em seguida, agredido covarde e seguidamente os professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, que ousaram protestar em cartas ao jornal.

O episódio acabou por constituir um momento marcante, um ponto de inflexão das relações entre público e imprensa no país. Pois até ali, malgrado o peso determinante que os interesses empresariais e políticos sempre exerceram na atuação e na orientação editorial das publicações brasileiras, algumas destas – a Folha, notadamente – ainda vinham sendo relativamente bem-sucedidas em vender uma imagem de pluralismo e de ao menos um esforço de imparcialidade.

Depois da “ditabranda”. da publicação de uma ficha policial falsa da candidata Dilma na capa de uma edição dominical e de demais episódios eticamente deploráveis – as acusações alopradas de um Cesinha, o factoide Lina Vieira, entre outros - a máscara caiu de vez. Houve uma debandada de assinantes, a imagem do jornal ficou seriamente arranhada, vozes informadas de ex-leitores – entre eles vários antigos colaboradores - passaram a criticá-lo reiteradamente e aquela aura que a Folha cultivara desde as reformas implementadas por Claudio Abramo nos anos 70 – e que atingiu o ápice nas campanhas pelas Diretas Já - se desfez.


Política versus Cinema
Foi justamente após voltar do protesto organizado por Eduardo Guimarães em frente ao prédio do jornal, na alameda Barão de Limeira, que a decisão de fazer o blog foi concretizada. Procurando por imagens do evento, deparei-me com o também recém-criado O Descurvo, de Hugo Albuquerque (que, creio, foi o primeiro leitor do Cinema & Outras Artes – e primeiro comentarista assíduo). Logo no início, quando mais um blog perdido na imensidão da blogosfera parecia fadado a ser completamente ignorado, ele desempenhou o papel de um grande incentivador e deu dicas preciosas ao neófito inseguro ante o indecifrável “informatiquês”.

A intenção sempre foi a de que fosse um blog com conteúdo original, principalmente análises com algum grau de profundidade – o que certamente restringiria o público, mais acostumado, à época, de modo geral, a blogs com textos curtos, muitas vezes com humor ou relatos pessoais. Como o próprio título evidencia, cinema deveria ser o assunto principal. A política já estava entre os interesses secundários (como se pode ver no cabeçalho do blog, que é o mesmo desde aquela época), mas acabou predominando – um pouco porque a feitura do blog coincidiu com um período profissional em que me afastei do cinema e me reaproximei do jornalismo e das salas de aula; outro tanto porque acabei embarcando nos embates políticos que tiveram lugar na internet, no bojo da campanha presidencial, e tomei gosto pela coisa.

Ao completar três anos e fazer este balanço, chego à conclusão de que, no Brasil, em relação à blogosfera, houve avanços, digamos, institucionais, mas estes têm tido um ritmo bem menor do que inicialmente eu supunha. Por exemplo, nos primeiros meses, enquanto começava a fazer este blog, era também colaborador do Observatório da Imprensa. No veículo criado por Alberto Dines - em que a maior parte dos artigos versava, naturalmente, sobre a mídia convencional - eu tinha a preocupação de chamar a atenção dos leitores para a diversidade, a qualidade e a importância que a blogosfera e as redes sociais vinham adquirindo em relação ao jornalismo. Isso acabou por me obrigar a olhar a blogosfera “de fora”, de uma maneira mais ampla e mais crítica.


Avanços necessários
Estimulado por essas reflexões, publiquei alguns textos em que argumentava, por exemplo, a favor da urgente constituição de uma rede de advogados para proteger os blogueiros de processos oportunistas (uma tática coercitiva que vem sendo empregada, de forma pontual, em alguns estados brasileiros – e que é uma ameaça concreta em cada período eleitoral), ou ressaltando a necessidade de a blogosfera superar a crítica de mídia e investir na produção de material jornalístico original – sobretudo reportagens (uma necessidade que é reconhecida há tempos por alguns dos principais blogueiros, mas, com a alegação de dificuldades operacionais, dificilmente levada a cabo, mesmo porque remete a - e deriva de - um problema recorrente nas redes sociais, que é a excessiva dependência da TV. O Twitter, por exemplo, tem, eventualmente, pautado a mídia. Mas há muitos dias ali que a impressão que fica é de que se trata de uma aplicação para comentários televisivos e não de uma tremenda ferramenta comunicacional, particularmente revelante para o jornalismo).

Outra questão premente diz respeito à sustentabilidade econômica dos blogs, pois, desculpe informar, leitor(a), mas esse papo da direitona – e agora também  de uma certa dita esquerda – de que o governo nos sustenta é mentira. A blogosfera pode até continuar forte e com algum grau de renovação por muito tempo devido ao voluntarismo de cidadãos e cidadãs motivados, mas, do ponto de vista estrutural, o que asseguraria prosseguimento e estimularia melhoria de qualidade da atividade blogueira seria a obtenção de meios para que ao menos um bom número de blogueiros pudesse se sustentar através de tal atividade.

Trata-se de questões que vêm sendo encaminhadas, é certo – e o fato de fóruns como o #blogprog servirem para articular e fazer andar tais discussões é um dos motivos que me levam a vê-lo sob uma luz positiva -, mas não tratadas com a velocidade, a efetividade e a divulgação necessárias.


Via de duas mãos
Uma outra questão que, na minha opinião e na de vários blogueiros que conheço, precisa ser urgentemente atacada é a hegemonia excessiva de blogs consagrados e a manutenção, numa zona de sombra, de uma série de blogs que têm, há tempos, se esforçado para produzir com regularidade material original e crítico. Chega a ser enjoativo o quanto se vê sempre os mesmos blogueiros sendo convidados para eventos e para representar a “classe”. É preciso renovar.

Uma renovação seria benéfica a todos e fortaleceria a blogosfera como um todo. Os encontros de blogueiros (e, nestes, a composição das mesas) são um dos meios para levar a cabo tal tarefa, mas é preciso que mais blogueiros de renome sigam o exemplo dos seus pares que abrem espaço e republicam (ou divulgam nas redes sociais) posts de autores menos conhecidos, pois há uma queixa crescente – e a meu ver justificada - contra blogueiros de ponta que, embora sejam, há tempos, exaustivamente citados, jamais lincam ou indicam posts que não sejam de sua própria autoria,.


Mudanças bruscas
Nesses três anos, o cenário da blogosfera mudou muito. Duas mudanças foram (ou têm sido) marcantes. A primeira é a diminuição brusca do número de comentários que passou a acontecer tão logo as redes sociais (o Facebook e o Twitter, notadamente) se firmaram como o local de debate por excelência. Por mais que um post seja nelas debatido, a escassez de comentários teve - e tem - uma ação psicológica desestimulante em mim. Como disse alguém, o comentário é o alimento do blogueiro.

A segunda mudança, mais recente e muito mais relevante, deriva da própria relação entre blogosfera e política: finda a eleição presidencial, a ação conjunta empreendida pela maior parte dos blogs de esquerda (mesmo dos que não apoiaram no primeiro turno a candidatura petista) se desfez. Deu lugar, inicialmente, ao questionamento dos rumos do governo Dilma (questionamento o qual, aqui neste blog, começou cedo, no segundo mês de governo, quanto publiquei um post intitulado “Primavera digital chega ao fim”, que acabou republicado em diversos outros locais e gerou bastante polêmica). Nele manifestava minha frustração ao constatar que o o governo Dilma não só não aprofundaria o modelo neo-keynesiano adotado por Lula dois anos e meio antes, mas promoveria um retorno a parâmetros neoliberais – o que, infelizmente, se confirmou indubitavelmente nos meses seguintes, com a obsessão com o déficit nominal zero, a privatização dos aeroportos e, mais grave, da aposentadoria dos servidores públicos. Agora cogita-se o impensável: a alteração das leis trabalhistas.

A união verificada durante os embates eleitorais estava, é certo, fadada a se esvair – e, de certa maneira, é positivo que tal tenha ocorrido, permitindo um debate mais nuançado e diversificado. Em relação ao Cinema & Outras Artes, isso permitiu – para decepção de uns e contentamento de outros – deixar claro que não se tratava de um órgão político petista, como a alguns por momentos pareceu (o que me levaria a rir muito quando tomei ciência disso), mas de um blog de jornalismo que defende certas princípios de esquerda, não abdicando, no entanto, de criticar – ou mesmo de renegar, a depender dos desdobramentos futuros – o governo o qual pareceu melhor representar tais princípios.


Tríplice fronteira
Embora, a rigor, alguma gradação possa ser observada, poderíamos, a título de esquematização e inevitavelmente recorrendo a generalizações, dividir a blogosfera de esquerda, hoje, em três grandes grupos. Um, já citado através da menção ao próprio Cinema..., é o dos blogs que mantêm um apoio crítico à aliança e ao governo comandados pelo PT.

Outro, mais homogêneo, é formado por blogs que continuaram a apoiar incondicionalmente o governo Dilma, faça o que ele fizer – o que, como já coloquei em um post recente, acaba, na minha opinião, por enfraquecer o poder da blogosfera de pressioná-lo a honrar os compromissos assumidos nas eleições e faz coincidir as posições de tais blogueiros com as da grande mídia no que tange ao apoio à primazia que o governo concede ao mercado e à adoção de algumas das principais premissas neoliberais.

Um terceiro e último grupo seria formado por blogueiros de esquerda que, por convicção anterior ou decepção posterior, recusam e combatem a aliança petista. É, talvez, o mais heterogêneo dos grupos, reunindo apoiadores dos pequenos partidos, entusiastas da figura de Marina Silva, ecologistas decepcionados com o modelo de desenvolvimento e com Belo Monte, além de críticos avulsos.

Penso que a interlocução seria mais fluida e a própria ação política bem mais proveitosa se não se tivesse formado esse quadro quase estanque e essas “igrejinhas” fechadas em si mesmas. Mas não chega a causar estranheza e não é, de forma alguma, um fenômeno circunscrito à blogosfera brasileira – ele diz respeito, um tanto, à própria natureza humana, e, muito, à atual conformação do campo político no país.

O que extrapola o campo do polemismo civilizado é um coletivo que se diz de esquerda publicar um texto apócrifo com graves e não comprovadas acusações pessoais e ilustrá-lo com a foto de uma blogueira cujo principal capital é a credibilidade que levou anos para construir. Se essa tal esquerda se satisfaz com argumentações a la Augusto Nunes e táticas pessoais desqualificadoras à moda de Veja, problema dela. Mas com acusações sem prova em textos não assinados ela sai do campo do debate democrático para o da calúnia anônima.


Por que blogar?
Durante todo esse tempo, uma questão tem aparecido, intermitente: por que manter um blog? Por que dedicar tempo, pesquisar, lutar com as palavras (“a luta mais vã”, segundo Drummond), revisar, se irritar com a tecnologia e seu instável humor, monitorar e responder os comentários? O que nos move a fazer tudo isso, sem receber um mísero real em troca? Nunca consegui responder satisfatoriamente essa questão. Atualmente, a resposta, além do compromisso com os leitores e leitoras que seguem o blog, une uma mistura de desejo de incentivar o debate e de exercer, de alguma forma, a participação política para além do momento de digitar o voto na urna. Mas ela varia de tempos em tempos.

Por fim, há a questão do estímulo e da perda de estímulo. Competindo com outras tarefas, em sua maioria remuneradas, e com os prazos sempre curtos por estas determinados, o blog acaba ficando meio de lado em épocas em que se acumulam muitos trabalhos (como no segundo semestre do ano passado). Mais relevante do que isso, há o fator psicológico, que é recorrente: há, de tempos em tempos, períodos de profundo desânimo, em que postar parece uma atividade banal e em que a pouca repercussão soa como um sinal a mais a confirmar a inutilidade do blog. Nessas épocas é sempre custoso escrever, não se acha assunto, o texto não avança ou só o faz penosamente. Isso ocorreu, uma vez mais, há uns dois meses. E eu estive a ponto de parar.

Daí, de repente, vem uma vontade de escrever, os assuntos brotam, o texto flui de um modo tal que é preciso refreá-lo no córtex cerebral para que as ideias não escapem. Até quando esse estímulo súbito vencerá o desânimo? Sinceramente não sei, mas acredito que é justamente do produto da mediação entre a ânsia pela escrita e a satisfação de ver o texto pronto – e, assim, tomar parte, mínima que seja, no ente comunicacional publicamente efetivo que é hoje a blogosfera brasileira – que é gerado o impulso que toca o blog para frente. Aos que embarcaram na viagem comigo, muito obrigado.



(Imagem retirada daqui)

domingo, 4 de março de 2012

Ato falho de Serra reflete mentalidade tucana


Em um samba composto em parceria com Maurício Tapajós, o grande letrista Aldir Blanc contrapõe o Brasil – território lúdico-mítico de “Sertões, Guimarães, bachianas” e de “Jobim, sabiá, bem-te-vi” - ao Brazil – projeção ditatorial de um país subalterno e ignorante, condenado a imitar os modismos, a estética e o consumismo norte-americanos. Gravada magnificamente por Elis Regina, “Querelas do Brasil” tornou-se, se não um sucesso, um objeto de culto nacional.


Que me perdoe Aldir (cujas crônicas boêmias e malandras eu cultuo como a objetos de arte feitos do mais genuíno humor), mas a lembrança da música foi a primeira coisa que me veio à cabeça ao ver José Serra chamando o país que sonhou um dia governar de Estados Unidos do Brasil.

Para além do aspecto cômico da fala e do que revela de desconhecimento histórico básico, trata-se de uma troca de palavras significativa, que explicita – como o clássico ato falho freudiano que é - a visão de mundo do político peessedebista e evoca a dinâmica da relação entre o nacional e o internacional em um passado não muito distante.


Nunca fomos tão vira-latas
Refiro-me, é claro, aos oito anos em que Fernando Henrique Cardoso esteve no poder, um período durante o qual o deslumbre com o que fosse estrangeiro atingiu um tal nível de transbordamento que só pode ser equiparado à vergonha de ser brasileiro exibida pelo tucanato e por seus eternos apoiadores na mídia – e por estes bombardeada noite e dia à população.

Não que a baixa auto-estima nacional fosse uma novidade trazida pelo tucanato. Nelson Rodrigues, antes da Copa de 1958, afirmava que o “complexo de vira-latas” - por ele definido como "a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo" - era o principal adversário do "escrete canarinho". Mais importante: toda uma reflexão sobre o país, dominante por quase duas décadas a partir de fins dos anos 50 - e que seria tematizada de forma recorrente pela produção cultural do período - identificava no atraso estrutural da nação e em sua condição de subdesenvolvimento a chave para compreender seus problemas e superá-los.


Razões de fundo
A novidade trazida por Collor e aprofundada pelos tucanos foi que o complexo de inferioridade do brasileiro deixou de se apresentar apenas como um sintoma (a ser, portanto, mitigado à medida que a defasagem estrutural fosse sendo superada) para se tornar objeto de culto, a ser estimulado e agravado - tarefa da qual se incumbiram com deleite jornais, revistas e programas televisivos (cujo exemplo acabado é o anacrônico Méanrratan Conéquichion). 

Em uma época em que globalização e neoliberalismo ainda eram largamente compreendidos como termos obrigatoriamente indissociáveis - como se pode aferir pela leitura de alguns dos principais textos teóricos da primeira metade dos anos 90 -, tal operação se deu, sobretudo, devido a um imperativo ditado pelo receituário do Consenso de Washington, adotado como princípio orientador das políticas de Estado: a necessidade de predispor ideologicamente o público a se convencer,  primeiro, de estarmos condenados a ser uma nação atrasada e subalterna ante a superioridade insuperável do "primeiro mundo". Em segundo lugar, de que a única solução para nossa redenção seria acatar os pressupostos da "nova ordem econômica mundial" ditada pelos EUA e, enxugando ao máximo o tamanho e as funções do Estado brasileiro, em torno de tal país orbitar, abrindo mão de nossa identidade como nação e aceitando passivamente a incapacidade de comandar nosso destino. O objetivo final a coroar tal empreitada seria a adesão à ALCA, o tratado de "livre-comércio" engendrado por Washington e que - como o exemplo mexicano o demonstra de forma cabal - fatalmente levaria o Brasil a um penoso retrocesso econômico e social.


Príncipes e jecas
É dentro dessa lógica que se insere o fato de que o príncipe – digo, o presidente – de turno, no seu chilique mais aloprado, tenha reagido à pressão popular contrária às medidas recessivas que tomara afirmando que “os aposentados são vagabundos e os brasileiros, caipiras”. O adjetivo “caipira”, nesse contexto, é não só utilizado no intuito claro de desqualificar, mas de atingir seus alvos com uma grave acusação de ignorância e desconhecimento do que seja o mundo. O caipira, para FHC, não diz respeito ao ser social, inserido em uma cultura telúrica e historicamente premido por um processo de "persistências" e "alterações", de que nos fala Antonio Candido - mas a um emblema estático da brasilidade como traço negativo. Daí resulta um paradoxo: para o outrora celebrado sociólogo, todos os brasileiros são caipiras, e o problema de ser caipira é justamente ser brasileiro.

Por outro lado (mas em lógica análoga), dizer que algo é “de Primeiro Mundo”, embora fosse uma expressão antiga, tornou-se, nos anos FHC, moeda corrente, a expressão valorativa por excelência. Enquanto a população sofria com os baques que a economia do país sofria à mínima crise internacional (fosse ela russa, mexicana ou dos "tigres asiáticos), o desprezo ao que fosse nacional e o ódio ao que fosse estatal eram incentivados pelo tucanato no poder e pela mídia corporativa (que apoiou o governo FHC com uma subserviência deslumbrada e acrítica indigna de ser chamada de jornalismo). Foi nessa toada - e exibindo o salário do mais abonado magistrado como se fosse a regra entre o funcionalismo - que se convenceu parte da população de que as privatizações modernizariam o país e acabariam com os "barnabés" (a gíria pejorativa com que 9,9 de cada dez colunistas - esses mesmos que aí estão - se referiam aos trabalhadores empregados pelo Estado)


Cenário em mutação
O pós-11 de setembro, com a diminuição do poder norte-americano, a ascensão dos BRICs e a chegada ao poder – na América Latina, sobretudo – de governantes de centro-esquerda, trouxe, aos poucos, uma mudança de cenário, a qual, somada às possibilidades interativas da web 2.0 e ao grande acréscimo na inclusão digital mundial, permitiu vislumbrar que o fenômeno globalizante e a ideologia neoliberal não eram, sempre e necessariamente, indissociáveis. Havia, percebeu-se, aspectos da globalização - como um maior volume de interação transnacional, a ação comunicacional e político-social a partir da internet ou a troca gratuita de arquivos de áudio e vídeo - que permitiam, na verdade, contra-atacar pontualmente e questionar o neoliberalismo. 

É no âmbito desse novo cenário que o governo Lula, a partir de sua política externa - caracterizada por prioridade às relações Sul-Sul e aos BRICs, parcerias e auxílio aos países mais pobres da América do Sul, África e Oriente Médio e ímpeto de representar países em desenvolvimento em fóruns internacionais, recusa à Alca e tentativa de diminuição do poder de influência dos EUA no país - e de sua atuação cultural interna - em que se destacam a valorização da cultura nacional, a pulverização das verbas para além do eixo Rio-SP, e a inclusão sócio-cultural via Pontos de Cultura -, paulatinamente insere uma nova dinâmica no imaginário acerca do locus do Brasil e do brasileiro no contexto de um mundo globalizado. 

Um aspecto muito importante a ressaltar em relação a esse processo é constatar que a redenção de um complexo de inferioridade secular, ainda que se dê, atualmente, de modo parcial e para parcelas da população, não foi substituída, via de regra, por um nacionalismo tacanho nem por um patriotismo fanático. 


Provincianismo em crise
Há de se considerar, como pontos polêmicos a discutir, a presença do exército brasileiro no Haiti e o temor crescente, entre alguns de nossos vizinhos sul-americanos, de que o Brasil esteja se tornando imperialista (acusação que não é nova: trabalhando como jornalista na Bolívia, em 2001, fui fisicamente agredido por skinheads que demonstravam ódio ao “imperialismo brasileiro”). 

Mas é preciso ser obtuso ou desonesto para negar que a melhora da economia real verificada na última década, com decréscimo substancial das taxas de desemprego e aumento do poder de compra, a ascensão de uma nova e volumosa classe média, bem como o acesso - ou o incremento do acesso - a bens de consumo durável, lazer, acesso digital e viagens aéreas acabaram por modificar para melhor a auto-imagem de parcela revelante da população - um fenômeno que tende a se tornar ainda mais evidente ante a contraposição da atual situação brasileira à grave crise econômica que ora aflige, infelizmente, a população dos EUA e de vários países europeus a amargar uma penosa débâcle social. 

Além disso, não obstante os muitos desafios postos ao Brasil em termos de redução da desigualdade, saúde, educação e demais itens da pauta dos direitos humanos avançados, tanto o grau quanto o perfil axiológico da visibilidade do país no exterior são hoje maiores e mais positivos do que nunca. "A crítica permanente ao Brasil está fundada em excesso de provincianismo", observou o sociólogo Alberto Carlos Almeida, em artigo no Valor Econômico. E com um número cada vez maior de brasileiros viajando ao exterior, cada vez mais gente descobre que a oposição simplista entre um país incompetente e fadado ao fracasso e um "primeiro-mundo" perfeito e irretocável não passa de uma falácia. -  o que, evidentemente, também reverte em acréscimo da auto-estima nacional.


A volta do atraso
Tudo isso faz com que o discurso negativista sobre o país, só enxergando suas mazelas, além de alimentar provincianos convictos, tenha se tornado uma das principais bandeiras dos setores conservadores, mais um componente a se juntar ao discurso moralista que se tornou praticamente a única estratégia discursiva de uma oposição que não tem projeto para o país e que há mais de uma década combate o governo de turno valendo-se tão-somente de ataques neoudenistas.
 
Ora, é a essa mesma oposição a que José Serra pertence. E não é preciso nenhum esforço para enxergar no ora pré-candidato a prefeito de São Paulo a mesma empáfia, a mesma arrogância, o mesmo desprezo pelo Brasil e pelo povo brasileiro que o presidente a que serviu como ministro da Saúde e do Planejamento ostentou por oito anos - os quais só foram dourados na boca e na pena dos colunistas a serviço do mercado, pois para a maioria da população foram de penúria, desemprego e carestia. 

Mais do que um lapso eventual, a menção aos "Estados Unidos ao Brasil", feita por Serra, é a expressão do desejo de regresso a um estado de coisas em que as elites brasileiras traficavam a riqueza do país em troca das migalhas que se lhes atirava o grande capital internacional, enquanto o povo chafurdava no subemprego e na miséria.


(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, daqui e daqui)

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

A internet e o retrocesso do governo Dilma

Poucos duvidam que as novas possibilidades de comunicação trazidas pela internet arejaram e ajudaram a democratizar o debate público. Isso é particularmente notável - e benéfico - em sociedades nas quais a mídia encontra-se concentrada nas mãos de poucos - como é, notadamente, o caso do Brasil.

Aqui, a blogosfera e as redes sociais têm, de fato, servido à democracia, ao possibilitar a difusão do contraponto a uma mídia corporativa cuja ação orienta-se pelos ditames neoliberais e pelo culto ao deus mercado - e que, com raras exceções, tem se caracterizado, no âmbito da política partidária,  pelo apoio (e blindagem) que de ordinário fornece ao PSDB e pelo antipetismo (a não ser no que as administrações petistas se rendem ao mercado e ao neoliberalismo).

Os exemplos de tal atuação são inúmeros, e a crítica de mídia exercida no país na última década os tem catalogado e examinado, no mais das vezes, com propriedade. Mas, se o leitor prefere não confiar nesta afirmação genérica, basta que examine, por exemplo, o modo como a brutal ação policial em Pinheirinho foi (ou deixou de ser) noticiada pelos "grandes veículos", ou as maneiras como a recém-lançada candidatura de José Serra (PSDB/SP) tem sido retratada para, daí, tirar suas próprias conclusões.


Condescendência conservadora
A despeito dos muitos benefícios que têm trazido ao debate público no Brasil, há, no entanto, um aspecto regressivo inerente à blogosfera política brasileira e à militância nas redes sociais que não tem recebido a devida atenção. Esse ponto cego deriva de uma macro-divisão no modo de ação político-ideológico das esquerdas na internet: enquanto setores da blogosfera política (incluindo a maioria dos chamados "blogueiros progressistas") parecem guiar sua atuação a partir de certos parâmetros programáticos e ideológicos - permitindo-se, eventual e pontualmente, a crítica ao governo Dilma, se sua linha de atuação de tais parâmetros se afasta -, outros setores, numericamente volumosos - os quais vou chamar, à falta de um termo exato e sem intenção pejorativa, de "chapa-branca" - têm apoiado incondicionalmente o governo petista, independentemente do mérito de suas ações administrativas e do quanto ele deixa ou não de cumprir os compromissos assumidos na campanha eleitoral.

Tal configuração gera dois importantes contra-efeitos, ambos negativos. O primeiro é a divisão que a condescendência acrítica dos "chapa-branca" promove no próprio campo da esquerda, enfraquecendo, em decorrência, o poder da blogosfera de pressionar o governo Dilma a honrar os compromissos assumidos e procurar adotar políticas que ajudem o país a sair da órbita do neoliberalismo e a criar uma alternativa original em relação a um sistema econômico que tantos danos causou e continua a causar.

Como a mídia que dizem combater
O segundo contra-efeito é a criação de uma situação paradoxal no campo do debate político, pois nele neste momento com frequência convergem e se confundem tanto o conservadorismo da mídia hegemônica quanto o alegado "esquerdismo" de blogueiros chapa-branca que à mídia alegadamente se opõem - ambos, em suas argumentações, servindo para procurar incentivar e oferecer legitimidade ao crescente conservadorismo do governo Dilma e ao pragmatismo economicista que o tem caracterizado, bem como procurando desqualificar (não raro com os mesmíssimos argumentos e táticas agressivas) as vozes que ousam denunciar a cada vez mais negligenciada coerência político-ideológica da atual administração federal.

É exemplar do processo acima mencionado o apoio que tanto a mídia quanto tais blogueiros têm fornecido ao processo de privatização dos aeroportos (que a novilíngua chapa-branca prefere chamar de "concessão") e das aposentadorias dos servidores públicos federais - esta uma das principais e mais combatidas bandeiras da era FHC, ora encampada pelo governo Dilma e aprovada a toque pelo Legislativo, sob ecos de silêncio cúmplice ou de entusiasmo ressentido .

Assim, embora surgidos para, por um lado, colaborar para a vitória de uma força política dita progressista, anti-privatização e crítica ao neoliberalismo, e, por outro, para combater a mídia corporativa e denunciar suas táticas totalitárias, os blogueiros chapa-branca acabam não apenas por mimetizar desta um discurso único, impermeável ao contraditório, mas, pior, por a ela se juntar na defesa dos aspectos mais conservadores do atual governo federal. É com lamento que se constata que são, neste momento, uma força política conservadora, na acepção precípua da palavra.


A História não esquece
Só a inocência desinformada pode supor que a história não cobrará um preço ao governo Dilma pela traição ao discurso antiprivatização com o qual se elegeu, pelo recrudescimento voluntarioso das políticas de orientação neoliberal e pela tibieza para lidar com questões urgentes que geram reações de forças religiosas - e claro está que, chegado o momento, os inocentes úteis ou os arrivistas inescrupulosos que contribuíram para tal retrocesso também serão instados a pagar.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Filme sobre Thatcher supera armadilhas


No história recente, poucas figuras públicas deixaram mais evidentes as ambiguidades e contradições entre questões de gênero e política do que Margaret Thatcher.

Numa sociedade caracteristicamente conservadora, sua ascensão de filha de pequenos comerciantes a primeira-ministra da Grã-Bretanha – e, daí, a uma das principais lideranças mundiais de seu tempo - a torna, por si só, um símbolo da emancipação feminina, dos novos papeis e das potencialidades de ascensão e de representação social da mulher no século XX. Para o bem ou para o mal, credencia-se, em decorrência, como um ícone feminista.

Por outro lado, seus quase 12 anos no poder marcam o momento de afirmação do neoliberalismo sem freios, do enfraquecimento do Estado, do desmanche dos sindicatos e da legislação trabalhista, com gravíssimas consequências sociais para os pobres e para a classe trabalhadora – algumas delas perdurando até nossos dias. É impossível para um humanista ou para qualquer pessoa que preze mais os seres humanos do que o mercado de capitais avaliar como positivo o legado de sua liderança.

É precisamente ante o dilema acima referido que se depara a produção franco-britânica A Dama de Ferro, a cargo de Phyllida Lloyd, consagrada diretora inglesa de ópera.  Antes do filme ser rodado, ela declarou que a intenção era contar a história de Thatcher a partir de um ponto de vista feminista e concentrado na figura humana da retratada, incluindo uma incursão pelos seus anos recentes, reclusa, senil e acometida de demência.

O resultado surpreendente positivamente. O filme, que não se limita a retratar superficialmente o que há de controverso em relação a Margaret Thatcher, deixa claro os danos que o thatcherismo causou à sociedade britânica, seja através profunda insensibilidade social da administradora ou do seu envolvimento entusiasmado no dispendioso e desnecessário derramamento de sangue nas Malvinas.

Colabora sobremaneira para tal feito um roteiro inteligente - a cargo de Abi Morgan -, que contextualiza essas questões tanto através da fala de personagens (“o maior desemprego desde 1930, o mais baixo volume de produção industrial desde 1920”), quanto de trechos de telejornais (reais ou fictícios), além do recurso a impressionantes sequências documentais (onde se vê, por exemplo, um enorme contingente  policial tentando em vão conter a fúria da multidão que protesta contra a repressão às greves).

É evidente que, em se tratando de um produto audiovisual para o grande público, há simplificação, falta de detalhamento e mesmo uma certa condescendência para com a retratada, decorrentes de sua humanização como personagem. Ainda assim, o resultado não é nada ingênuo politicamente.

O esforço relativamente bem-sucedido em conciliar a visão feminista e a avaliação crítica das políticas thatcheristas ajuda a explicar a recepção fria que a obra teve na Inglaterra - pois, por um lado, tal retrato, devido aos efeitos benevolentes da citada humanização da personagem, tende a desagradar os críticos de Thatcher; e, por outro lado, a abordagem crítica sem meias-tintas de sua atuação política tende a contrariar àqueles que a apoiam ou com ela simpatizam. De concreto, pessoas dos círculos próximos à ex-governante protestaram, em entrevistas à imprensa inglesa, pelo que consideram invasão de privacidade alegadamente promovida pelo filme ao retratar sua senilidade.


Meryl Streep, como a Thatcher idosa e sofrendo de demência, tem uma daquelas atuações impressionantes que me fazem defender – a sério – a ideia de que ela deveria ser decretada hors-concours nas premiações para melhor atriz. Já como a "Dama de Ferro" de meia-idade, vivendo sua ascensão e queda como primeira-ministra, embora também ofereça uma performance superlativa em termos de empostação de voz, modo de olhar e gestual de mãos e braços, ressenti-me tanto da ausência, na composição da personagem, de um certo modo de caminhar típico de Thatcher (que pode ser visto em vídeos da época e que a atriz só reproduz ao final do filme), quanto de uma expressão facial mais encruada e maquiavélica (foto à direita), em comparação com a expressão clean e sutilmente cínica de Streep (que evidentemente tem um rosto bem mais bonito que o da ex-primeira-ministra). Mas tais observações, vistas em relação ao todo da atuação, não passam de detalhes, baseados em uma expectativa inflacionada de reprodução do real a qual a própria Streep por vezes parece induzir.

Colabora para a performance de La Streep – que declarou reiteradas vezes ter profundas divergências políticas com Thatcher, mas grande interesse em sua trajetória enquanto mulher - o impressionante trabalho de maquiagem (única categoria, além da de atriz, pela qual o filme é indicado ao Oscar). Mereceria destaque também a atuação de Harry Lloyd como o jovem Denis Thatcher – o marido empresário que colaborou decisivamente para que a jovem Thatcher fosse aceita nos altos círculos ingleses, foi seu companheiro por décadas e com quem, em seus delírios senis, a Margaret idosa dialoga.

As qualidades que permitem fazer uma avaliação positiva da produção, ao longo do texto citadas, estão longe de fazer de The Iron Lady um grande espetáculo cinematográfico. Mas o fato de, no conservadorismo social e cinematográfico vigente, o filme conseguir escapar com galhardia e incisividade da armadilha de glorificar a personagem retratada - e ainda oferecer mais uma grande performance de uma dama da interpretação - não é um feito a ser menosprezado.


(Fotos retiradas, respectivamente, daqui, dali e dacolá)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

PT, Kassab e os limites da realpolitik


A governabilidade, no sistema político brasileiro, pluripartidário e em grande medida dependente das casas legislativas – de um modo tal que há cientistas políticos que falam em “presidencialismo parlamentarista” - praticamente impõe a costura de alianças cuja elasticidade, via de regra, extrapola consideravelmente a faixa do espectro político no qual o partido vencedor das eleições se situa.

A experiência histórica demonstra que a recusa na composição de alianças mais abrangentes tende a reduzir dramaticamente o raio de ação do governante ou mesmo engessá-lo. O caso mais grave talvez seja o da presidência Jânio Quadros – abortada por fatos que decorrem diretamente de sua reação ao sentir-se manietado por não gozar de maioria no Congresso. Ainda hoje, em que pese o recurso (muitas vezes abusivo) a medidas provisórias, sem tal maioria, conquistada nas urnas ou atingida eventualmente por meio de conchavos, o presidente corre o risco de se tornar presa do parlamento e incapaz de imprimir uma marca à sua administração.


Salto social
É dentro dessa lógica inescapável que se situa a aliança, em âmbito federal, comandada pelo PT, a qual teve lugar com a primeira presidência Lula. Por mais que nela a muitos cause repulsa a presença de velhos coronéis da política – cujo símbolo máximo é José Sarney -, ilude-se quem acha que sem o apoio parlamentar do PMDB e dos demais partidos que compõem com o governo teriam sido efetivadas as principais políticas que deram uma cara nova ao país na última década, notadamente as grandes reformas sociais operadas por tal aliança, por meio das quais quase 40 milhões de cidadãos e cidadãs deixaram a pobreza e a miséria foi substancialmente reduzida, com perspectiva de ser erradicada no curto prazo.

Trata-se, como ora reconhecido internacionalmente, de uma notável realização social, inconcebível e alegadamente inexequível há pouco mais de uma década, e que por si só evidencia a falácia dos que - à direita e à esquerda - se recusam a ver diferenças entre a administração petista e a peessedebista que a precedeu.

Em entrevista ao Estadão, o pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, disserta precisamente sobre os pontos acima referidos, sublinhando a importância da composição de alianças no modelo pluripartidário em voga, ressaltando as conquistas socioeconômicas da aliança federal capitaneada pelo PT e - inquirido sobre a possível aproximação com Kassab - afirmando que o fundamental é que “alianças tem que ser pautadas de tal maneira a não comprometer o objetivo do processo”.


Excesso de pragmatismo
Trata-se de uma meia-verdade. Pois os limites entre as necessidades ditadas pela realpolitik e a possibilidade de perda da identidade político-ideológica podem vir a ser muito tênues. O próprio Gramsci, principal teórico da questão da hegemonia, embora defensor, a priori, da constituição de alianças, não só as condiciona à existência, mínima que seja, de um denominador comum programático e à manutenção da possibilidade de realização de políticas que levem ao menos a um avanço em direção aos objetivos políticos originais, mas sublinha a importância crucial de se avançar em termos político-ideológicos.

Ora, inexiste denominador comum programático entre PT e Kassab (como, aliás, salienta o Diretório Municipal do PT/SP); tal aliança significa algo entre a abdicação de uma plataforma expressamente político-ideológica e sua revisão conservadora, e uma questão fundamental se coloca: que avanço político-ideológico se pode esperar da aliança com uma figura que se caracterizou, à frente da Prefeitura, pela promoção, em pleno século XXI, de políticas eugenistas, por atuar como coadjuvante do PSDB na promoção da violência oficial contra os cidadãos, pela agressividade no trato com os críticos, pela negligência das demandas sociais e pela pusilanimidade oportunista (“PSD não será de direita, não será de esquerda, nem de centro”)?

Fiar-se tão-somente em uma pragmática de resultados, negligenciando os princípios éticos, como ora fazem Haddad e setores do PT, pode mostrar-se ou não eleitoralmente danoso – mas, o que é certo e muito mais grave, deve colaborar para agravar o esvaziamento ideológico de nossa sociedade e para corroborar, com o carimbo de um partido tido como de centro-esquerda e de massas, para a corroboração da tipificação do universo da política como amoral ou mesmo perverso.


Questões para o futuro
O menosprezo à ideologia é hoje palpável não só no alto comando mas entre a militância petista – e é, na modesta opinião deste blogueiro, a mais perigosa das ameaças ao futuro do partido.

O pragmatismo – administrativo ou eleitoral - tem sido, até o momento, a única resposta que setores de militância petista tem dado a críticas consistentes em relação a medidas como a privatização dos aeroportos e o namoro do PT paulista com Kassab – críticas estas advindas de militantes, aliados, ex-aliados e do próprio campo da esquerda. Essa recusa insolente pode cobrar um preço alto: a questão, aqui, não é se um eventual pacto com Kassab vai ou não fazer com que a aliança comandada pelo partido vença as eleições – o que pode até acontecer -, mas os flancos que o partido está abrindo, a curto e médio prazo, ao renunciar a bandeiras históricas e ao ameaçar aliar-se com quem até ontem representava o antipetismo. No mínimo, perderá quadros valiosos, como já vem acontecendo.

Mas mesmo o pragmatismo que tem marcado o debate tem prestado pouca atenção a duas questões fundamentais, com as quais o eleitor vai se defrontar caso se efetive a aliança com Kassab:
1) Se o PT quer se apresentar, na capital paulista, como uma alternativa ao demotucanato, como fazê-lo se aliando justamente a uma figura política que ven sendo, por muito tempo e até ontem de manhã, um dos símbolos da hegemonia demotucana em São Paulo e de muito do que o PT combate?
2) Qual o limite, para a centro-esquerda, de relativização dos valores éticos e ideológicos, e a partir de que ponto, ao adotar esse relativismo, ela mimetiza valores conservadores, os relativiza enquanto tais, e com o conservadorismo se confunde?
A resposta a tais questões pode não só definir o rumo imediato do PT em São Paulo, mas ter, no médio prazo, consequências de monta para o partido e para o país.


(Foto retirada daqui)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Os Descendentes e o cinema neo-humanista


O grande trunfo de Os Descendentes (The Descendants, 2011) é voltar-se para o retrato de pessoas comuns, abordando seu cotidiano, dramas e contradições com acento tragicômico – mas sem jamais apelar para o sarcástico de filmes como Beleza Americana ou de diretores como Todd Solontz (Bem-vindo à Casa de Bonecas; Felicidade).

Alexander Payne – dos ótimos A Confissão de Smith, com Jack Nicholson, e Sideways, com Paul Giamatti – é um diretor de outra cepa, que assimilou como poucos de seus conterrâneos as lições do neo-realismo italiano sobre a importância da observação do cotidiano, da criação de sentidos epifânicos através do realismo, da câmera como “seguidora” do protagonista. Dotado de um talento ímpar para gerar significações valendo-se principalmente da dinâmica interna da imagem - algo bem raro hoje em dia - e de um aguçado sentido da estética e da ética contemporâneas, vem se firmando, ao lado de nomes como Iñárritu, Kiarostami e Walter Salles como um dos diretores mais representativos do neo-humanismo no cinema.

Na era da edição frenética, em que as pesquisas mostram que as novas gerações, educadas na gramática visual MTV, tendem a dispersar sua atenção se as tomadas duram mais de sete segundos, a montagem de Descendentes - concebida por Payne e realizada por Kevin Tent, indicado ao Oscar-, sem jamais soar arrastada, preserva o delicado equilíbrio entre a dinâmica interna da sequência e sua duração, de modo a potencializar a geração de sentidos.

Tais qualidades são especialmente propícias a essa produção norte-americana, cujo tema central é a crise – pessoal, familiar, de masculinidade – de um advogado sovina, representante legal de sua enorme família em um negócio de terras, que, não bastasse defrontar-se com a esposa Liza à beira da morte por conta de um acidente, descobre que ela o traía e planejava o divórcio. A dificuldade para lidar com seus sentimentos – os quais nunca explicita – e para manter-se equilibrado o suficiente para administrar tal situação, somada à conflituosa relação com suas duas filhas – uma adolescente, outra prestes a ingressar na puberdade, ambas também vivenciando dilemas emocionais -, formam o substrato dramático da narrativa.

Em termos formais, a fotografia trabalha em baixo contraste a luz intensa do Havaí, de forma que mesmo o solar e o luminoso predominantes adquirem um quê de sóbrio e, às vezes, melancólico, sendo que as nuances pontuais de iluminação tendem a privilegiar o humano (faces, sobretudo) ante o peculiar esplendor da paisagem havaiana, que no mais das vezes não é realçada.

Ainda assim, colabora para dotar o filme de um certo exotismo a escolha do arquipélago havaiano como locação, dadas a a ambiência praiana típica e a mescla da cultura local – no vestir-se, na comida, nas expressões idiomáticas e, sobretudo na música (que serve de trilha sonora) – e norte-americana – a língua, sobretudo, mas também os códigos de conduta, como a indefectível niceness da esposa do amante de Liza. É questionável, porém, até que ponto tal ambiência realmente se insere dramaturgicamente na trama – como em Lost in Translation, de Sofia Coppola - ou se não passa de um penduricalho artificial a evidenciar o esgotamento do cânone e, numa manjada estratégia cinematográfica pós-moderna, a adicionar um tempero camp à trama.

A novata Shailene Woodley, como a filha adolescente que rompera com a mãe por flagrá-la com o amante, oferece uma performance só aparentemente discreta, cujo valor está justamente nas sutilezas - e que lhe valeram, até agora, nos EUA, quatro prêmios regionais e dois nacionais, incluindo o prestigioso National Board of Review, o prêmio nacional da crítica. Indicada ao Globo de Ouro, junta-se a Tilda Swinton, protagonista de Precisamos Falar sobre o Kevin, como uma das injustiçadas do Oscar 2012.

Já George Clooney, na pele do advogado sovina Matt King, ganhou o Golden Globe e pode levar também o Oscar, mas sua atuação está longe de oferecer as nuances interpretativas de que atores como Sean Penn e Anthony Hopkins são capazes e que um personagem tão complexo, em uma situação tão instável e conflituosa, demandaria. O máximo que consegue é expressar a dificuldade em administrar a contradição entre a raiva e a frustração interiores e a necessidade de manter as aparências e o autocontrole - além de, próximo ao final, permitir o vislumbre da chama de grandeza humana que pulsa no interior desse personagem dilacerado. Talvez grande parte do impacto de sua atuação advenha da surpresa em constatar que um galã como Clooney soa convincente na pele de um homem em plena phalic failure, traído pela esposa e ao mesmo tempo condoído e impotente ante sua morte, incapaz de funcionar como pai, um ser humano aparentemente bem-sucedido, mas que olha para trás e vê que o só o que fez na vida foi trabalhar e guardar dinheiro.

E é precisamente o modo sensível – mas nunca, jamais piegas – com que Payne conduz tais dilemas, e a profunda ressonância que o drama desse homem, de suas filhas e dos que orbitam em torno dessa família encontra na vida real cotidiana que faz com que Os Descendentes, mesmo sem ser um grande filme, mereça ser visto. Difícil sair do cinema impune e esquecê-lo na primeira esquina.


(Fotos retiradas, respectivamente, daqui e dali)




 
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