domingo, 19 de maio de 2013

Azenha rejeita culpar PIG e vê identidade entre Dilma e mídia

As atuais relações entre o governo Dilma e a mídia foram desmistificadas e examinadas com raro rigor pelo jornalista Luiz Carlos Azenha, em um comentário postado este final de semana no Facebook, que me foi indicado pela blogueira Rosangela Basso, do Maria da Penha Neles.

O texto, que pode ser lido na íntegra aqui ou ao final deste post, rejeita o disseminado mito segundo o qual "o governo Dilma é refém da mídia ou sofre de síndrome de Estocolmo" e detalha, com argumentação e exemplos contundentes, a atual confluência de interesses entre um e outro ente a partir da aposta de Dilma em "despertar o 'espírito animal' do capital privado, nacional e internacional", como forma de alcançar o, neste momento, segundo Azenha, imprescindível crescimento econômico.

Eu teria considerações a fazer quanto à primazia exclusiva que a análise de Azenha atribui ao crescimento econômico, à necessidade de analisar mais detidamente o modelo desenvolvimentista arcaico e autoritário escolhido pelo governo Dilma para propiciar tal crescimento, bem como o fato de ele destoar do que foi prometido na campanha eleitoral – notadamente através do amplo recurso a privatizações, execradas pela então candidata - e, por fim mas não por último, à necessidade de contrastar, na análise, tais metas econômicas e tais meios para obtê-las a um crescimento que até agora tem se revelado pífio.

Mas deixemos tais reflexões para outra ocasião, pois o centro do meu interesse neste post é sublinhar causas e efeitos da negligência de parte da blogosfera e das redes sociais para a mudança nas relações entre governo e mídia, tais como apontadas por Azenha.

Se a disseminação do acesso à internet trouxe em seu bojo uma saudável desconfiança para com a mídia corporativa, por outro lado - como o demonstra uma série de pesquisas -, tem aguçado a tendência para uma certa modalidade de sectarismo ideológico e para a formação de "igrejinhas" em que os membros se congraçam por preferências, afinidades e posicionamentos em comum.

Tal dinâmica, entre diversos outros efeitos, tem feito com que um número considerável de blogueiros e ativistas de rede social continue, dia após dia, a insistir numa narrativa maniqueísta em que o centro de todos os males é o tal de PIG – a mídia corporativa -, enquanto a sacrossanta administração petista seria uma vítima inocente das deturpações alheias. Isso se dá a despeito do cada vez mais indisfarçável conservadorismo do governo Dilma e de uma relação deste com a mídia que, pelas razões que Azenha alude, há muito deixou de ser de aversão mútua e de hostilidade deliberada (como fora, em ampla medida, no tempo de Lula),

Um exemplo cabal das distorções desse processo vem da forma como o jornalismo econômico tem sido tratado, acusado de de fazer "terrorismo" com o governo Dilma como parte de seu antipetismo arraigado. Ora, a questão aqui não é se o presidente é do PT, do PSDB ou do PMDB; se ele se chama Dilma, Lula, Itamar Franco ou Figueiredo: o jornalismo econômico brasileiro é um braço do mercado financeiro global, ele ataca todo e qualquer governante e toda e qualquer medida que não se amolde ao paradigma neoliberal o qual cultua.

Se há uma maior identificação midiática com os tucanos, é, como ironiza Azenha, porque "eles prestam melhores serviços". Mas, ainda segundo ele, é evidente a identificação da mídia com o "novo PT" de Dilma e de Paulo Bernardo nos "objetivos macro".

Talvez à adoção de um critério de análises que, ao invés de adotar o antipetismo da mídia como uma premissa recorrente e onipresente, seja, atualmente, mais criterioso e preciso levar em conta fatores como o alinhamento ou não das medidas tomadas pelo governo Dilma em relação a uma agenda neoliberal e à postura que historicamente a mídia brasileira tem tomado no que concerne a questões sociais e desenvolvimentismo econômico.

Porém, ao insistirem numa visão tão maniqueísta como caricata das relações entre mídia e governo, o que esses setores da blogosfera e das redes sociais fazem é, paradoxalmente, avalizar o retrocesso conservador patrocinado pela gestão Dilma dotando-o de um viés anticorporativo e antimidiático que simplesmente não existe na atual administração federal – muito pelo contrário.

Abaixo, o texto de Azenha:


"Uma querida amiga disse num debate que o governo Dilma é refém da mídia ou sofre de síndrome de Estocolmo, a escolher. Discordei.

Acho que existe uma diferença de fundo entre os governos Lula e Dilma. Lula, sindicalista, estava aberto a atender aqui ou ali aos movimentos sociais, que o apoiaram com firmeza num momento em que os projetos sociais como o Bolsa Família enfrentaram forte oposição da direita.

Dilma sabe que seu futuro e o dos aliados depende de crescimento econômico. E claramente optou por despertar o "espírito animal" do capital privado, nacional e internacional.

Depois da ascensão social do precariado, através do fortalecimento do mercado interno, temos agora a ocupação de vazios geográficos do Brasil, especialmente no Nordeste, mas também na Amazônia.

Vi com meus próprios olhos, no caminho para Imperatriz, Maranhão, a expansão do agronegócio, nos mesmos moldes que se deu em outras regiões do Brasil: concentração de terras, transformação do pequeno agricultor em empregado e êxodo para as cidades; forte presença de empresas como a Monsanto e a Bunge, ou seja, do capital internacional que penetra no campo em associação com interesses locais. Nenhum sinal de reforma agrária.

Isso tem relação com um fenômeno que escapa ao nosso controle: o capital financeiro hj especula intensamente com o valor das commodities, da soja ao minério de ferro, do petróleo ao milho.

De tal forma que a tentativa de Hugo Chávez de interferir no preço internacional do petróleo rendeu a ele o papel de inimigo público número um da mídia internacional.

Até intangíveis "créditos de carbono" foram inventados para especular.

A especulação chega à posse da terra: é só olhar a compra ou o arrendamento de grandes extensões para a produção de alimentos na África, para atender ao imenso mercado asiático.

A ideia de que o neoliberalismo sofreu um golpe fatal com a crise de 2008 é uma farsa: a concentração de riqueza se aprofunda, com a formação de um punhado de oligopólios controlando cada setor da economia em escala global. Nunca na História deste planeta tão poucos foram tão influentes na política através da compra de mandatos populares via financiamento de campanha. Tanto faz se de partido de direita ou esquerda, republicano ou democrata, petista ou tucano.

Em vez destes mandatos moldarem o campo de jogo das grandes corporações, são elas que cada vez mais definem os limites aceitáveis da atuação política, especialmente em países nos quais o estado é historicamente frágil.

No Brasil, além da agregação de grandes áreas do Nordeste ao agronegócio, temos a continuidade do projeto dos militares para a Amazônia, que o Lúcio Flávio Pinto define como colonialismo interno: a produção de energia para uso pelas mineradoras se sobrepõe a qualquer outro objetivo estratégico do governo Dilma na região

Olhem os nomes das empresas que compõem os consórcios de construção e quais serão os grandes consumidores e vocês vão entender o jogo.

O desmonte do Ibama e do Incra, pois, não é por acaso. O distanciamento e a má vontade com os movimentos sociais não reflete autismo ou incapacidade política de Dilma: é uma escolha.

Em resumo, o PT no Executivo federal adota um rumo que não ofende, pelo contrário, que agrada tanto ao Jorge Gerdau, conselheiro da presidenta, quanto aos sócios internacionais da Vale.

Considerando que estes estão entre os grandes anunciantes da nossa mídia, faz todo o sentido que a Dilma injete dinheiro na Globo, na Veja e na Folha.

Para além das reportagens raivosas ou pisadas no tomate, que refletem a preferência dessa mídia pelos tucanos -- que, inegavelmente, prestam melhores serviços -- há uma identidade nos objetivos macro. O governo Dilma não é refém da mídia, mas parceiro, e ninguém reflete melhor isso que o ministro Paulo Bernardo, que consegue agradar ao mesmo tempo ao capital nacional (Globo) e ao internacional (teles).

Acreditem: Bernardo é Dilma e Dilma é Bernardo. Ambos representam, gostem ou não, a "nova face" do PT."

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Governo promove volta triunfante das privatizações

Os petistas e Miriam Leitão têm algo em comum: ambos estão eufóricos com a nova rodada de privatizações promovida pelo governo Dilma, que em um dia entregou à iniciativa privada a estrutura portuária brasileira e boa parte do petróleo nacional, com exceção do Pré-Sal.

Desta vez o governo petista, que contraria uma vez mais o discuso antiprivatização com o qual se elegeu, não se importou sequer em disfarçar a privatização, apelidando-a de "concessão" ou recorrendo às novas regras alteradas pelo governo Lula: fez uso do velho modelo normativo para privatização vigente durante o governo FHC, que tanto criticou e contra o qual se colocou como alternativa diferenciada.

No desenrolar dos leilões de petróleo, caiu por terra também o velho discurso nacionalista que ajudou a eleger o PT: a multinacional Exxon (EUA) arrematou um bom naco do petróleo brasileiro, assim como a OGX, do cada vez mais polêmico Eike Batista, que continua a ser inexplicavelmente subsidiada por cofres públicos, à revelia de seus monumentais prejuízos recentes e num processo altamente ilustrativo de que o governo Dilma, a exemplo de seu antecessor tucano, continua a praticar a privatização à brasileira, ou seja, financiada com dinheiro público a juros subsidiados.

Enquanto o governo Dilma continua a entregar o país ao capital privado, inclusive estrangeiro, agindo de forma exatamente contrária ao que apregoou que faria no período eleitoral - quando adotou um forte discurso antiprivatização que ora se confirma, uma vez mais, mero truque eleitoreiro -, o povo parece sequer se dar conta do que acontece, narcotizado pelas facilidades de consumo (qualquer semelhança com o "milagre brasileiro" dos militares não é mera coincidência), iludido por uma mídia que é odiada pelos petistas mas que apoia entusiasticamente tais medidas (Wiliam Waack estava radiante no Jornal da Globo), e alienado por um fla-flu político entre PSDB e PT que se mostra, cada vez mais, uma disputa entre semelhantes: um péssimo, o outro menos pior.


(Imagem retirada daqui e manipulada digitalmente de forma a produzir novo sentido semântico)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Razão x Moralismo na Questão das Drogas

O debate sobre a questão das drogas volta a ocupar um lugar de destaque na agenda pública, no bojo da realização do I Congresso Internacional sobre Drogas, em Brasília, do noticiário sobe internação compulsória de viciados em crack no Rio e em São Paulo e às vésperas da votação de mais um projeto de lei sobre a tema, de autoria do deputado da base aliada Osmar Terra (PMDB/RS), que reinstitui a criminalização do usuário.

Como narra Walter Maierovitch, "preocupados com o projeto retrógrado do deputado", os participantes do congresso, que reuniu especialistas de todo o mundo, decidiram enviar uma carta à presidente Dilma, alertando para os riscos de um retrocesso militarista no trato do tema e defendendo a descriminalização de drogas, com seu uso sendo tratado no âmbito da saúde pública. Ainda que, com a notável exceção de Carta Capital, a maior parte da mídia corporativa tenha, como apontou Sylvia Debossan Moretzsohn em ótimo artigo sobe a questão, se mantido alheia ao debate, ele ferve nas caixas de comentários, nos blogs, nas redes sociais.



A razão relegada
Poucos temas ilustram de forma tão clara a oposição entre os argumentos da razão e os preconceitos moralistas – e a persistência destes ante aqueles - do que a discussão sobre a questão das drogas, notadamente no que diz respeito à proposta de descriminalização do uso de drogas leves, medida que passou a ser defendida pela maior parte dos especialistas no assunto após o fracasso do modelo militarista de "guerra às drogas" impostos pelos EUA nas últimas quatro décadas.

Assim, por mais que estudos e pesquisas obedientes aos mais rigorosos protocolos demonstrem, de forma cabal, a falência de tal política, e que um número expressivo de especialistas no tema afiance os benefícios econômicos, sociais e psicológicos de um modelo em que o uso pessoal de drogas deixe de ser crime e o comércio destas - como o do álcool ou do tabaco - passe a ser regulamentado e supervisionado pelo Estado, persiste, em setores da população, um grande estigma, uma ojeriza de origem moralista intrínseca a qualquer proposta que apregoe distensão na repressão ao uso de drogas.



Falência de um modelo
Além do estigma que, a partir da reação conservadora às promessas liberalizantes dos anos 60, circunda a opinião pública sobre as drogas, a retomada de uma visão mistificadora e preconceituosa do tema vem sendo, há tempos, estimulada no país, tento atingido o paroxismo no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando uma série de campanhas publicitárias, baseadas justamente na caracterização do usuário como o dínamo financiador e primeiro elo do tráfico de drogas, foi durante anos veiculada. Que FHC tenha mudado radicalmente de opinião e seja hoje um dos principais defensores do abandono do modelo de "guerra às drogas" constitui, malgrado a incoerência, mais uma forte evidência da falência do antigo modelo.

Um comentário ao texto de Maierovitch resume a persistência de tal estratégia simplista de culpabilização: "Sem usuário não tem droga nem traficante. Cadeia para os usuários!!", escreve o leitor José Carlos Castilho. Para além de se constituir numa quimera tão irrealizável quanto totalitária, um dos principais problemas com esse tipo de raciocínio é que se baseia na premissa de que ao aumento da repressão e encarceramento de usuários corresponde a diminuição (e eventual extinção) do número de pessoas que usam drogas. Trata-se, no entanto, de uma correlação falsa, que persiste no senso comum, mas que vem sendo seguidamente desmentida pela realidade, como o comprova a experiência de diversos países em que, à revelia do investimento de fortunas em repressão, o número de usuários mantém-se estável ou mesmo aumenta ano após ano.

Ou seja, de acordo com essa lógica baseada tão-somente na repressão, o governo, além de infringir as liberdades individuais, vê-se obrigado a arcar, todo mês e de forma crescente, com uma fortuna em gasto direto – seja no aparato de segurança repressivo ao usuário, seja no custeio do encarceramento deste – e indireto – na utilização de parte da pauta do Judiciário para os trâmites legais relativos a cada autuação ou como forma de suprir o déficit na cadeia produtiva gerado pelo aprisionamento de milhares de cidadãos. E tudo isso para atingir resultados pífios ou mesmo negativos, num eterno e custoso enxugar gelo.



Direito recreativo
Em oposição a uma possível maioria que prefere se ater aos estereótipos e ao moralismo no que concerne à questão das drogas, rejeitando as evidências advindas do campo acadêmico e científico, um contingente expressivo mas aparentemente minoritário de usuários de maconha e de cidadãos que apoiam sua descriminalização não consegue entender como drogas comprovadamente mais nocivas à saúde – como o álcool e o tabaco – têm livre circulação na sociedade enquanto cidadãos podem voltar a correr o risco de ser presos pelo simples ato de ingerir fumaça de uma planta, prática que, na pior das hipóteses, pode vir a prejudicar apenas o próprio usuário e que, de qualquer maneira, por caracterizar-se como decisão individual e isenta de danos a terceiros, não deveria caber ao Estado regular.

Não parece correto, a essa minoria e a um número crescente de cidadãos, que, numa sociedade hiperconsumista, que proporciona e estimula toda sorte de vícios – muitos altamente nocivos -, alguém deva arcar com os graves custos – pessoais, profissionais, familiares, psicológicos – de uma prisão apenas por fazer uso recreativo da maconha. E afigura-lhes claro que poder fazer tal uso de forma legalizada, sem contato com a bandidagem, e em que o produto, de qualidade supervisionada, recolheria os impostos correspondentes, gerando dividendos públicos, seia o mais benéfico para o usuário, para o Estado e para a sociedade.

Além do que, assegurar o direito das minorias é uma característica distintiva das democracias avançadas. 


(Imagem retiada daqui e manipulada digitalmente) 

domingo, 12 de maio de 2013

O falso debate sobre os médicos cubanos

O anúncio de que o governo Dilma deve trazer seis mil médicos cubanos para atuarem nas regiões Norte e Nordeste, feito pelo ministro Antonio Patriota (Relações Exteriores), tem causado fortes reações, tanto dos que apoiam a medida quanto dos que a rejeitam, num embate em que o peso das paixões ideológicas - sempre abrasivas quando envolvem Cuba – com frequência se sobrepõe à reflexão criteriosa.

Assim, no bojo da repercussão do anúncio de tais medidas, ao invés de um debate de facto sobre o atual quadro geoeconômico da medicina no país, assistiu-se, por um lado, a manifestações pobres em fatos mas ricas em preconceitos contra o regime cubano e de inverdades contra seu mundialmente reconhecido sistema de saúde; e, de outro, a um esforço para impugnar o protesto de associações de médicos como "virulenta reação" de uma "elite corporativista", numa demonstração de que a desqualificação, tática-mór do jornalismo neocon, faz escola no debate público brasileiro, inclusive entre contendores que se apresentam como progressistas.



Narrativa reduciomista
Tais discussões exemplificam um processo que vem ocorrendo com uma frequência preocupante no Brasil em relação ao debate de dilemas específicos da área social: ao invés de se refletir acerca de soluções efetivas, que levem em conta a concretude do problema em seus diversos aspectos e procurem atender, na medida do possível, as demandas de todos os atores sociais envolvidos, cria-se uma narrativa maniqueísta e fortemente idealizada que, ignorando a complexidade de nosso atual quadro social, tende, por alguns, a desqualificar a priori qualquer iniciativa que não se amolde ao figurino do capitalismo neoliberal vigente no último quarto de século; e, por outros, a opor uma elite insensível e malvada ao resto da população, acrescentando a crença ingênua de que o governo petista sempre ao lado desta se coloca, com medidas invariavelmente corretas. O dogmatismo se sobrepondo à razão.

A polêmica sobre a vinda dos médicos cubanos é exemplar nesse sentido. Ante os protestos suscitados pelo anúncio da medida, criou-se uma contra-narrativa que apela para uma generalização desmedida a qual tem tipificado os médicos – tanto as dezenas de milhares de profissionais anônimos que se recusam a ir trabalhar no Norte/Nordeste, quanto os que se declaram contrários à vinda dos cubanos – como uma elite preconceituosa e socialmente insensível, a qual a vinda redentora dos idealistas e generosos médicos cubanos viria vingar.

Na internet e nas redes sociais, os fanáticos e ingênuos de plantão, que se apresentam como pertencentes à esquerda, difundem essa falácia diuturnamente, fingindo desconhecer que a situação dos médicos brasileiros, em sua ampla maioria, é bem outra, submetidos a cursos universitários de qualidade duvidosa e a um sistema de saúde que, tanto em sua versão estatal quanto privatizada, os remunera mal e oferece péssimas condições de trabalho, além de virtualmente nenhum estímulo à necessária atualização em um campo do conhecimento que se renova constantemente, com novas descobertas científicas e novos métodos e processos de cura.



Problema crônico
O Norte e Nordeste brasileiro apresentam uma grande carência na área de saúde, com um déficit de médicos e demais profissionais, em relação ao Sul/Sudeste (que concentra 70% dos doutores), em dimensões ainda mais pronunciadas do que as históricas assimetrias sócio-econômicas entre tais regiões, as quais vêm sendo reduzidas em ritmo acelerado na última década. Enquanto o Distrito Federal apresenta uma média de 4,02 médicos por mil habitantes – seguida de 3,57 em São Paulo e 2,58 no Rio de Janeiro -, em alguns estados da Amazônia Legal há um médico para cerca de 1200 habitantes.

A dificuldade para atrair médicos para essas regiões é um problema antigo e que se tem mostrado infeso às tímidas medidas até agora tomadas para combatê-lo. Ela se origina já no estágio de formação do futuro profissional, visto que pesquisas demostram uma clara tendência do  recém-formado em fixar-se em áreas próximas às quais cursou a faculdade. Se vontade política houvesse e a intenção fosse realmente trabalhar para resolver a questão , esse mal de origem poderia ser combatido pelo governo com relativa facilidade, com o MEC coibindo a concentração excessiva de cursos de Medicina no Sul/Sudeste e os oferecendo em maior número nas regiões carentes de profissionais, diretamente através das universidades federais ou de forma indireta, estimulando sua oferta através do ProUni. Atualmente, os cursos de medicina desovam todo ano 13 mil novos profissionais, dos quais menos de 3000 vão trabalhar nos estados com carência de profissionais de saúde.



Modelo híbrido
A essa questão formativa somam-se fatores estruturais, tais como a lógica mercantilista e classista que caracteriza o modelo de saúde brasileiro, mezzo público, mezzo privado; o atraso estrutural da economia do Norte/Nordeste, o qual acaba por gerar problemas eventualmente graves, que vão de falta de saneamento básico a maior dificuldade de acesso a educação e bens culturais; além dos efeitos do arraigado preconceito contra tais regiões no Sul e Sudeste, o qual tende a perpetuar uma visão anacrônica que amplifica aspectos negativos e subestima potencialidades.

Independentemente do mérito acerca da vinda dos médicos cubanos, o certo é que, por sua própria natureza transitória, ela não se apresenta como uma solução – ou sequer um encaminhamento de solução – para o caso, e sim como um mero paliativo, destinado a durar alguns meses e a gerar algum dividendo eleitoral, antes que a situação da saúde no Norte e Nordeste volte a apresentar os crônicos problemas de sempre, cuja solução o atual governo federal se comprometera a encaminhar à época das eleições, antes que o ministério da Saúde passasse a oscilar, esquizofrenicamente, entre o fortalecimento do SUS, a privatização do sistema ou a improvisação emergencial que ora ameaça se tornar a regra.



Ameaça aos direitos trabalhistas
Porém, em termos trabalhistas, o precedente que a vinda dos médicos cubanos abre é perigosíssimo. Se a moda pega, o governo – este ou os que virão, eventualmente ainda mais conservadores - pode vir a resolver importar contingentes de trabalhadores estrangeiros a cada crise setorial, o que representaria uma séria ameaça aos direitos trabalhistas, aos sindicatos, ao poder reivindicatório dos trabalhadores e ao recurso legal à greve como forma de pressão.

Assim, a repercussão do caso dos médicos cubanos evidencia o altamente contraditório apoio que tantos que se dizem de esquerda têm dado a uma medida que é, na essência, profundamente antissindical e contrária aos direitos trabalhistas - no caso, de uma classe que, embora goze de algum status e prestígio social, está muito longe, no Brasil, de receber o devido reconhecimento, seja em termos salariais ou de condições de trabalho. É certo que chegamos em um ponto da história política brasileira que muitos que se dizem de esquerda apoiam prvatizações e medidas antitrabalhistas, mas imaginemos qual seria a reação desses mesmos setores que hoje saúdam entusiasticamente a chegada dos médicos cubanos se, no futuro, um governo conservador acabar com uma mobilização de professores federais trazendo seus pares angolanos, moçambicanos ou portugueses. Ou se, ante a carência de engenheiros em determinadas regiões do país, o governo importar em massa profissionais de países capitalistas em crise.

Além disso, é preciso atentar para um paradoxo tão curioso quanto nocivo: o fato de que o governo brasileiro está, na prática, se valendo da situação anômala a qual, graças em grande parte a um criminoso boicote ditado pelos EUA, foi submetida a economia cubana  – em que os salários dos trabalhadores são simbólicos, se comparados aos padrões internacionais, sendo complementados por cotas de alimentos e de roupas e pelo acesso a um sistema de educação e de saúde de bom nível – para suprir um problema geoeconômico de um país capitalista. Problema este agravado pelo misto de falta de vontade política e incompetência gerencial  de um governo profundamente identificado com o consumismo capitalista, o qual tem estimulado ao máximo, no altar do desenvolvimentismo a todo custo, à revelia de ponderações écológicas, éticas ou sociológicas.



Com a palavra, o ministro
Ante a forte reação contrária que a proposta suscitou entre a comunidade médica e na mídia, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, fez divulgar nota afirmando que, para além da vinda dos médicos cubanos, o governo "continua analisando" medidas para a questão e formas de reverter a distribuição assimétrica de profissionais de saúde no Norte/Nordeste em relação às demais regiões do país.

Ora, o PT está no governo federal há mais de dez anos, não pode mais agir como um neófito em fase de reconhecimento do terreno. Teve tempo mais do que suficiente para analisar em detalhe um problema estrutural antigo como o da distribuição de médicos no território nacional, apresentar propostas e implementá-las. No entanto, além de não mover uma palha para reconfigurar o panorama do ensino de medicina no país, prefere, como tem feito em outras áreas, adotar a medida mais fácil e menos custosa - mesmo porque temporária e meramente profilática -, ao invés de buscar encaminhar um conjunto de decisões que vise solucionar efetivamente o problema, o que necessariamente exigiria mais investimento, mais tempo e mais supervisão, e não ofereceria as facilidades marqueteiras que a trupe de médicos em forma de anunciada panaceia proporciona.

Infelizmente, o adesismo cego tem feito com que blogueiros e colunistas simpáticos ao governo - e lenientes com a recusa deste em promover os avanços para os quais fora eleito - comprem acriticamente tais estratégias eleitoreiras e as corroborem, seja difundindo-as, seja procurando desqualificar os que as criticam, num processo inverso mas idêntico ao que acusam a mídia corporativa de fazer contra o governo.


(Desenho retirado daqui)




terça-feira, 7 de maio de 2013

Com Afif e PSD, Dilma amplia alianças à direita

O anúncio de que o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, foi convidado para o ministério de Dilma, assumindo a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, expande ainda mais os já dilatados limites da aliança federal capitaneada pelo PT, redesenha o cenário para as eleições presidenciais do ano que vem e causa estupor em militantes, simpatizantes e apoiadores do atual governo.

Afif é figurinha carimbada do conservadorismo paulista e uma das estrelas do PSD, a agremiação "nem de esquerda, nem de direita, muito pelo contrário" fundada por Gilberto Kassab, o qual, a despeito do péssimo desempenho à frente da prefeitura de São Paulo, mostrou-se capaz de articular o que é hoje a terceira maior bancada partidária no Congresso – numa contradição que, açulada pela voracidade com que o petismo se atirou nos braços do neoaliado, muito diz a respeito da relação entre meritocracia, ética e política no Brasil.

É difícil, para parte do eleitorado, compreender como Afif, um político que nas últimas eleições fez campanha apoiando o PSDB, tendo sido desde então nada menos do que o vice do cacique tucano Geraldo Alckmin, possa, do dia para noite - e sem maiores explicações -, ser recebido de braços abertos pela aliança petista. Não há como dissipar a impressão de que alguém foi ou está sendo enganado nessa história.



Pauta conservadora
Para além da confusão na mente de parte do eleitorado e de questões relacionadas a coerência e programa partidário, a aliança com o PSD levanta, uma vez mais e de forma aguda, dúvidas acerca de qual o limite que distingue a ampliação da hegemonia da aliança capitaneada pelo PT e a descaracterização desta através da incorporação de pautas ditadas pelos novos aliados à direita.

Sim, pois é preciso uma dose cavalar de ingenuidade – ou de ignorância política – para não se dar conta de que cada aliança selada significa a incorporação de uma pauta estranha àquela com a qual o governo foi eleito. Que tais alianças se deem com partidos à direita do espectro político – o que tem sido a norma da atual administração federal petista – implica, inescapavelmente, em mais um retrocesso em um governo que, exceção feita à política de juros, tem se caracterizado por um conservadorismo atroz.



Retrocessos
Senão, vejamos: na mesma segunda-feira em que foi anunciado o convite a Afif, César Gaviria, ex-presidente da Colômbia, deu ótima entrevista à Folha de S. Paulo em que, levando em conta a bem-sucedida experiência colombiana no trato da relação entre drogas e violência, faz duras críticas às atuais políticas brasileiras para a questão e às propostas de diminuição da maioridade penal e de punição do usuário. Deixando evidente nosso atraso em relação à América Latina no trato do tema – agravado no governo Dilma, acuado sob pressão religiosa -, chega a declarar que "Dói em mim ver o que está ocorrendo no Brasil, pensando em soluções tão contraindicadas e alheias ao que está acontecendo no mundo".

A questão das drogas e da criminalidade é apenas um exemplo do retrocesso vivido pelo país durante o governo Dilma, ao qual poderiam ser acrescidos diversos outros, em sua maioria graves, tais como:

      1. O descaso para com o genocídio indígena, seja em seu formato cotidiano (desnutrição infantil, alcoolismo, alto índice de suicídios), no enfrentamento com o aliado ruralista ou no bojo de megaobras como Belo Monte;
      1. A timidez extrema nas políticas de gênero, que continua a negligenciar a questão do aborto, adia temas já resolvidos na pauta da maioria das democracias e tem deixado homossexuais sujeitos rotineiramente à violência urbana;
      1. A leniência (ou mesmo cumplicidade) com as ameaças recorrentes ao Estado laico;
      1. O desmonte e sucateamento das políticas culturais herdadas da gestão Gil/Juca Ferrira no MinC, o retrocesso no trato dos direitos autorais no âmbito da cultura digital e a instrumentalização político-partidária da Cultura;
      1. A perpetuação e o estímulo – via ProUni – a um modelo de ensino superior privado de péssima qualidade, oligopolizado e que viola de forma recorrente a legislação trabalhista no trato que dispensa aos professores;
      1. Ameaça de sucateamento do ensino superior público, com lei que, na prática, proíbe a exigência de diplomas de mestre ou de doutor nos concursos para os novos professores das universidades federais;
      1. Sobreposição do desenvolvimentismo a todo custo aos anteparos ecológicos legais, cujo exemplo cabal é o descumprimento impune das cláusulas estipuladas nas licenças ambientais para a construção da usina de Belo Monte;
      1. Desinteresse em promover a democratização das comunicações no país, explicitada, por um lado, na recusa em promulgar uma Lei de Meios que - a exemplo do que acontece nas democracias avançadas e em vários de nossos vizinhos sul-americanos - regularize em bases republicanas a atividade midiática; e, por outro, na recusa em valer-se de outro critério que não o de audiência para distribuição das verbas publicitárias federais via Secom.


Alianças cobram seu preço
O quanto tamanho retrocesso se deve à ânsia desmedida por hegemonia político-partidária via alianças com forças da direita - e dos compromissos com estas deriva-se - é matéria que caberá aos cientistas políticos do futuro decifrar. O certo é que tal guinada conservadora contradiz vários compromissos de campanha da candidata Dilma - inclusive a recusa às então tão criticadas privatizações, as quais agora, candidamente apelidadas de "concessões", se tornaram recorrente política de Estado.

Em decorrência, a atenção do governo Dilma parece estar ora concentrada em um lugar outro que não seus compromissos programáticos, dividida entre a obsessão economicista e a prioridade à reeleição. Quanto a esta, a aliança com o PSD consagra a hegemonia parlamentar da atual administração federal e deve dar à presidente-candidata um tempo de TV consideravelmente maior ao de seus concorrentes nas eleições de 2014. Vários analistas políticos consideram que, com isso, ela passou de forte candidata a virtualmente imbatível.

Pode ser. Resta saber, no entanto, a que custo e com quais alterações programáticas. Pois, se conservando a aliança com o PMDB e premida pelos compromissos assumidos com setores religiosos, o primeiro mandato de Dilma já foi muito mais conservador do que o prometido – e um claro retrocesso em relação ao governo Lula, em áreas como Cultura, Direitos Humanos, Ecologia, Educação e Saúde - causa temor vislumbrar o que pode vir a ser um seu segundo mandato escorado na bancada evangélica e no neoaliado PSD.



Ideologia, pra viver
A um ponto tal que se mostra necessário questionar, neste momento, se um governo submetido a tais alianças pode vir a atender, de fato e em que bases, a uma pauta de centro-esquerda ou, ao contrário, se o que faz é dar fôlego ao conservadorismo em um raro momento histórico em que este se encontra claramente desprestigiado em nosso país.

Da resposta a esta pergunta – e da postura que a partir daí a esquerda e a centro-esquerda tomarem – depende a possibilidade de movimentações que alterem esse quadro em que ampla hegemonia se confunde perigosamente com cooptação e desideologização da política.



(Post atualizado às 17h52min.Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Lobão e o marketing cultural neocon

O irromper de uma onda conservadora na mídia tem lugar em meados dos anos 90 com o jornalismo neocon nos EUA, sob a liderança da Fox News. Logo a tendência espraia-se por boa parte do mundo e, embora ora emita sinais de crise em decorrência do papel do neoliberalismo na crise econômica mundial, no Brasil ainda teima em se manter em evidência, notadamente a partir do conluio entre a Globo de Ali Kamel, a "nova" e marcadamente ideologizada Veja e os principais diários do Sul/Sudeste.

Algumas das características distintivas dessa "modalidade jornalística" são a primazia da desqualificação sobre a argumentação, dos recortes históricos ideologicamente determinados sobre a contextualização criteriosa, de truques retóricos de seminaristas sobre o desenvolvimento dialético das análises.


Truques e esquemas
Assim, como se pode facilmente constatar folheando as publicações mencionadas ou munindo-se de paciência e prestando atenção aos comentaristas globais, sobra agressividade, juízos peremptórios e ajustes da realidade a esquemas reducionistas que negativizam o que quer que não se encaixe ao modelito neoliberal.

Em compensação, tal jornalismo carece de análises matizadas, de questionamentos que superem dicotomias reducionistas e, eventualmente, de uma saudável admissão da dúvida, mesmo porque esta muitas vezes permanece, incômoda e latente, sob o peso das certezas definitivas produzidas por tais analistas simbólicos.


Filhos de Francis
Nesse novo ambiente, o recurso desabusado a opiniões conservadoras, as mais caricaturais, torna-se uma distinção de excelência. E se antes tais excessos se limitavam a Paulo Francis e a seus imitadores menos talentosos - logo seguidos por uma plêiade de jornalistas desorientados ante a visão dos tijolos do Muro de Berlim desabando sobre as aparentes ilusões que a esquerda alimentara ao longo do século XX (caso, por exemplo, de Clóvis Rossi) -, o histrionismo retrógrado passa, na atualidade, a requisito para atrair os holofotes e as páginas da mídia.

O exemplo cabal desse jornalismo neocon é, na imprensa, o blogueiro da Veja, cuja combinação de aparente destemor, moralismo afetado e modos de bedel serve como uma luva a jovens que, à desidentificação natural com o poder – ora na mão da centro-esquerda -, aliam, muitas vezes, péssima formação cultural e agudo complexo de inferioridade, combinação perfeita para se deixarem cooptar pela retórica barata e pelo maniqueísta do "tio" de Veja, o qual uma legião idealiza.



Síndrome de Fausto
Já na TV, malgrado os esforços de Marcelo Tas e sua indignação seletiva, o personagem que melhor encarna o espírito neocon é Arnaldo Jabor, com seu ódio desmedido e democrático, voltado a Venezuela, Bolívia, Argentina, Cristina Kirchner, Lula, Dilma, sem fazer distinção.

Trata-se de alguém que claramente não acredita mais no que diz, e a sua tristeza de intelectual que se vendeu para o sistema e tem plena consciência disso é uma latência tão mal reprimida em suas falsamente escandalizadas, pseudo-cômicas performances que se impõe, epifânica, a o que quer que ele esteja dizendo, à revelia do arsenal de caretas, trejeitos e exibicionismos verbais de que lance mão.

Assim, cada aparição do "maestro epilético" (apud Emerson Luis) é sempre impregnada da tragédia de sua trajetória, de pensador exuberante e cineasta talentoso, cultuado e respeitado pelos que hoje o abominam, a triste palhaço da direita, cada vez mais previsível e monotemático – e, portanto, cada vez mais anacrônico -, sobrevivendo das sobras que a carcomida plutocracia midiática de quando em quando lhe atira.



Happening e vácuo cultural
Divulgadas hoje, as reiteradas declarações de Lobão contra os guerrilheiros que lutaram contra a ditadura e os receptores de indenização pelos crimes cometidos pelo Estado ditatorial inserem-se na mesma lógica do jornalismo neocon, agora deslocada para uma atividade marqueteira na área cultural. Historicamente não se sustentam e, de tão absurdas e descoladas da realidade que são, não se credenciam – e nunca o farão, mesmo porque não é este o objetivo - para ser levadas a sério.

Tal estratagema só é bem-sucedido, é bem verdade, graças à soma de problemas estruturais do setor com as atuais fragilidades da área cultural, estas ditadas, em sua maioria, pela posição extremamente periférica que a cultura voltou a ocupar na agenda federal desde o início do governo Dilma e da recusa deste em assumir uma postura ativa, liberta das amarras ditadas pelos resquícios do neoliberalismo como orientador de políticas culturais no Brasil – do qual o modo de funcionamento das leis de incentivo que ora são o sustentáculo da quase totalidade da atividade cultural atual é o maior exemplo.



"Falem mal, mas falem de mim"
Seja como for, as declarações estapafúrdias e caricaturalmente conservadoras – além de, no caso, agressivas à verdade histórica e aos Direitos Humanos - provocam o happening e, daí, a repercussão desejada, cumprindo sua função de auto-divulgação pessoal através do escândalo.

Trata-se de um truque do qual, na música brasileira, o tropicalista Caetano Veloso é fundador e mestre, e cuja maestria ao praticá-lo só rivaliza com seu talento como compositor e cantor – mas este quesito, o talento, ainda que sempre o tivesse em doses bem mais modestas, Lobão deixou de exibir, na melhor das hipóteses, no início dos anos 90. E lá se vão duas décadas em que o ex-enfant terrible do rock nacional "sumiu", tornando-se um desconhecido para as novas gerações, que agora ele tenta conquistar com truques de marketing neocon.



Disputa acirrada
De lá para cá, portanto e para tanto, virou isso: piadinhas sobre os torturadores "que só arrancaram uma unhazinhas"; o escândalo fácil buscado, com agressividade e desrespeito pela vontade popular, a cada entrevista; o talento, decadente, reprimido sobre uma pesada carga de inautenticidade voltada a agradar a mídia corporativa.

Esta última característica é um denominador comum entre Lobão, Arnaldo Jabor e Marcelo Tas – o trio midiático que disputa com avidez, palmo a palmo, o cargo de bobo da corte da direita derrotada.


(Imagem retirada daqui)



quarta-feira, 24 de abril de 2013

Dilma e a mídia: um olhar critico

No futuro, quando os historiadores forem examinar o período que hoje vivemos no Brasil, irão se deparar com uma questão das mais contraditórias: a relação do governo Dilma Rousseff com a mídia.

A administração Lula, diretamente afetada pela condição de primeiro governo de centro-esquerda do país desde a deposição de João Goulart, em 1964, não teve disposição ou não foi capaz de implementar uma Lei de Meios que democratizasse as comunicações e, assim, coibisse a transformação de parte da mídia em usina de escândalos, factoides e desqualificações. A inação talvez se explique, parcialmente – embora não se justifique -, pela própria virulência de tal transformação, que manteve durante boa parte do mandato o governo nas cordas, bombardeado por uma sucessão de denúncias, reais ou fabricadas, num processo de permanente chantagem que atinge seu ápice – mas de modo algum seu fim - durante o "mensalão".

Porém se, por conveniência ou medo, o ex-presidente Lula manteve intacta a arcaica estrutura comunicacional do país, limitando-se a redirecionar parte das verbas publicitárias federais de modo a também irrigar rádios e imprensa regionais - e, em bases ínfimas, órgãos da internet -, não se furtou a legar à sua sucessora, através do trabalho incansável de Franklin Martins à frente da Secom, um projeto fundamentado de regulamentação das comunicações e um plano viável para expansão da banda larga a curto e médio prazos.

Candidata encarregada de dar prosseguimento e aprofundar o legado de Lula, a expectativa, há exatos três anos, era que Dilma, se vitoriosa, tão logo assumisse, encaminhasse tais projetos e priorizasse a questão comunicacional através da promulgação de uma Lei dos Meios que regulamentasse, em bases republicanas, a atividade midiática, democratizando de fato a área comunicacional no país.



Requisitos da democracia
Trata-se de uma bandeira histórica da esquerda brasileira e de condição sine quae non para o exercício pleno da cidadania, tal como fundamentado por uma linhagem de pensadores vigorosos – de Perseu Abramo a Venício A. de Lima –, os quais demonstraram de forma comprovada, com dados e exemplos comparativos, o jugo oligárquico, o caráter antidemocrata e o atraso estrutural que caracterizam a mídia corporativa no Brasil. Que tais características tenham, na última década, potencializado o ódio de classes e transformado, não raramente, a mídia em um raivoso porta-voz da oposição acrescenta ainda mais urgência à questão das comunicações no país.

Como antídoto a esta realidade incompatível com uma democracia em consolidação, têm sido recomendados, como elementos essenciais internacionalmente consagrados, a proibição da propriedade cruzada dos meios de comunicação – ou seja, que uma mesma empresa de comunicação tenha imprensa, rádio e TV em uma mesma região -, a diversificação de opções e a democratização do acesso a meios e conteúdos. Ainda dentro de tal espírito, os novos tempos digitais tornam imprescindível a inclusão da expansão da banda larga a preços acessíveis e condições técnicas condizentes, de modo a incorporar parte do ainda enorme contingente de excluídos digitais.



Flerte com a mídia
Malgrado as altas expectativas suscitadas por uma administração que recebeu o país em muito melhores condições do que FHC o legara a Lula, o governo Dilma, porém, logo deu mostras de que não pretendia contemplar tal agenda. Um primeiro movimento de recuo tem lugar já ao final da campanha eleitoral, com a seguinte declaração, daí em diante recorrente, em versões variadas, mas conservando a mesma ideia-base: "Prefiro o barulho da imprensa livre do que o silêncio das ditaduras". A meu ver, o jornalista Paulo Nogueira foi quem melhor dissecou os sentidos inerentes a tal acacianismo.

Espécie de Carta ao Povo Brasileiro para a questão comunicacional, tais palavras foram a senha, para a plutocracia midiática, de que o governo não apoiaria uma Lei dos Meios e de que não haveria retaliação contra os abusos cometidos durante o período eleitoral – os quais incluem, entre inúmeros outros exemplos, uma ficha policial falsa da candidata petista na capa de edição dominical da Folha de S. Paulo e os esforços do Jornal Nacional e de seus experts de encomenda para transformar em chumbo uma bolinha de papel atirada à fronte do oposicionista José Serra.

Daí por diante a história é conhecida: primeiro a nova presidente flertou com a mídia corporativa, posando para capa da Veja, cozinhando ao lado de Ana Maria Braga, chegando a voar de Brasília a São Paulo para confraternizar com o alto tucanato num rega-bofe promovido pela Folha de S. Paulo, jornal de propriedade de uma empresa privada de comunicação.



Usina de escândalos
Deu em nada, ou seja, a mídia continuou a praticar o mesmo jogo de derruba-presidente da era Lula, com capas estapafúrdias, um exercício cotidiano da negatividade e do ódio incompatível com o bom jornalismo, denúncias semanais que permaneciam nas manchetes até que os acusados fossem demitidos pelo governo – e, como o comprovam o caso do ex-ministro Orlando Silva e da ex-secretária Erenice Guerra, quando, meses mais tarde, a Justiça os decretasse inocentes, sequer uma matéria viria a ser publicada, quanto mais um pedido de desculpa ou um destaque minimamente proporcional à denúncia.

Clara fica não apenas a leviandade das acusações – e o mau jornalismo que isso denota -, mas a constatação de que o interesse da mídia nunca foi a moralização da coisa pública, mas tão-somente a escandalização com objetivos eleitoreiros ou golpistas.

Pelo contrário, com a coincidência cronometrada – inaceitável em um país verdadeiramente democrático – do julgamento do mensalão com as eleições de 2012, os grupos de comunicação, em clave de espetáculo, deram vazão a um verdadeiro linchamento midiático, no melhor estilo esfola-e-mata, incluindo uma narratividade dramática composta de bandidos, mocinhos e de um herói solitário e vingativo, como convém à fabulação do totalitarismo.



Frutos do "mensalão"
O resultado não poderia ser outro: um acirramento de ânimos de parte a parte, uns celebrando a única vitória do conservadorismo na última década (ainda que obtida "no tapetão" e não nas urnas); outros – e aqui se incluem muitos dos que até então vinham defendendo, por estrategismo ou por temor, a parcimônia do governo para com a mídia – vociferando contra o que concebem como uma aliança golpista entre mídia e Justiça, destinada a, num futuro próximo, melar os resultados das urnas se este continuar a desapontá-las.

O nosso arguto historiador do futuro, beneficiando-se da perspectiva distanciada que o tempo dá e sem a obrigação de entrar no mérito da questão judicial, há de perceber que a insistência com que a conduta da mídia no "mensalão" foi invocada como um dos principais pretextos para regulá-la acabou, na verdade, por abrir flancos que beneficiaram os que à regularização se opõem. Não que a conduta da mídia durante o processo não tenha sido, em larga medida, questionável. Ela o foi, bem como, em ainda maior grau, o foram várias das decisões dos juízes, notadamente – mas não exclusivamente – a inversão do ônus da prova, o uso por demais inovador da teoria do domínio dos fatos e as condenações sem provas mas "permitidas pela literatura jurídica".

Ocorre, porém, que facilitou tremendamente a tarefa da mídia de se fazer de vítima e de confundir propositadamente o clamor republicano por um jornalismo que respeite ao menos uma deontologia básica e efetivamente sirva ao público, com os queixumes de uma parcela do eleitorado com sede de vingança pela derrota jurídica e política sofrida em um julgamento que, para a maioria leiga da população, transcorreu em normalidade. E, neste ponto convém frisar, tal impressão errônea se deu não só pela atuação tendenciosa da mídia, mas pelo misto de incompetência comunicacional, omissão e recusa deliberada das forças políticas ora no poder de denunciarem os interesses em jogo e as práticas para tal utilizadas no julgamento.



Agendas próprias
Nosso arguto historiador certamente também se dará conta de que o uso da pregnante sigla PIG (Partido da Imprensa Golpista) pode até ter sido uma maneira escrachada e efetiva de tipificar a mídia corporativa, em um cenário de enfrentamento aberto. Que o recurso à sigla não deixa de traduzir um desejo latente que a conduta de grande parte da mídia no período permitiu entrever. Mas que tal uso traz também em seu bojo um maniqueísmo que o exame detalhado dos fatos desmente, pois quando a agenda conservadora da mídia e a agenda dos governos federais petistas coincide, o alegado golpismo frequentemente dá lugar ao silêncio cúmplice ou à ratificação ponderada.

Não faltarão exemplos para que nosso historiador ilustre tal hipóteses. Três deles:
1) A mudez quase total da mídia durante a repressão do governo Dilma à greve dos professores federais, em 2012, que se alastrou por quatro meses e incluiu recusa ferrenha à negociação, articulação de um sindicato pelego para simular acordo e protestantes reprimidos a cassetetes na frente do MEC, em Brasília. Ante esse feito que nem FHC nem a ditadura militar ousaram, a mídia não emitiu um pio de protesto. Se a intenção fosse mesmo dar um golpe no governo seria um prato cheio para desconstruir negativamente a imagem de Dilma;

2) O entusiasmo dos colunistas econômicos quando o governo Dilma retomou as antes tão criticadas privatizações, então apelidadas de concessões e que, de início alegadamente limitada a três aeroportos, logo se expandiu para ferrovias, rodovias e mais um punhado de aeroportos. Se quisesse mesmo golpear Dilma, que fácil seria para a mídia colocar-lhe a pecha de mentirosa e incoerente, contrapondo imagens da candidata criticando ferozmente a privatização e da presidente a saudar-lhe;

3) O silêncio cúmplice da mídia para com as medidas de desoneração da folha de pagamentos, sem exigir dos setores beneficiados nenhuma contrapartida – como   a manutenção de empregos e de preços – e, como apontou o insuspeito Luis Nassif, sem que o Ministério da Fazenda aponte como cobrirá o rombo na Previdência que tais medidas certamente causarão. Ora, como o episódio evidencia, não há golpismo que resista à desoneração da folha, clamor de décadas do patronato brasileiro, curiosamente atendido por um governo que se diz de centro-esquerda.


Benefícios eleitorais
No futuro, nosso historiador talvez venha a sugerir que se a relação da mídia com o governo Dilma não foi tão marcada por um maniqueísmo golpista, como uma parcela pequena mas barulhenta da arena política quer fazer crer (pois a maioria do povo brasileiro estava à margem desse debate e não tinha ideia sequer do que signifique PIG), talvez seja necessário levar em conta que, malgrado a notória má vontade da mídia para com o petismo, a própria presidente se beneficiava, de um modo não evidente mas efetivo, desta relação.

Tal benefício talvez constituísse a principal explicação para os altos índices de aprovação de que a mandatária vinha gozando nos primeiros dois anos e meio de seu mandato, em que se verifica uma incorporação de setores conservadores da classe média – como, de forma notável, os que professam o neopentecostalismo -, comumente refratários ao petismo.

Ajuda a explicar também porque um ministro como Paulo Bernardo – que antes confraternizava alegremente nas redes sociais, prometendo para logo a democratização da banda larga, e hoje quer doar R$3bi para as teles privatizadas para que estas cumpram o que é obrigação contratual – goza neste momento não apenas de blindagem na imprensa, mas do acesso a vultosos apoios financeiros eleitorais, dos quais os candidatos governistas certamente também irão se beneficiar.

Ante esse cenário, a atual presidente não teria motivações eleitorais para rever os critérios de distribuição de verbas publicitárias federais, relativizando o cômputo da audiência como fator determinante e implementando uma estratégia que visasse, em alguma medida, a promover a inovação e a diversificação do campo comunicacional no Brasil. Suas motivações teriam necessariamente de ser de outra ordem, cívica, republicana – o que, entre outras coisas, contrariaria o pragmatismo eleitoral petista adotado na última década.



Questões em aberto
Entretanto, é apenas o nosso querido historiador, no futuro, quem saberá o desenlace desse e dos demais dilemas subjacentes à relação de Dilma Rousseff com a mídia corporativa – e quem poderá responder questões ora prementes, tais como:

  • Em que medida – se alguma - a manutenção de uma atitude passiva por parte da presidente traz efetivos benefícios eleitorais?

  • O que garante que esses segmentos conservadores que ora apoiam Dilma não a deixarão na mão, sob forte estímulo midiático, tão logo disponham de um candidato minimamente viável advindo de seu próprio espectro político?

  • Qual o limite de paciência de parcelas do eleitorado de esquerda que, tendo votado em Dilma, encontram-se exasperadas com o conservadorismo de sua gestão?

  • Faz mesmo sentido, para a centro-esquerda, vencer uma eleição em que as alianças e os compromissos assumidos impõem, na prática, uma agenda conservadora?

  • Até que ponto vale a pena sacrificar tudo – inclusive o direito republicano dos cidadãos brasileiros de viverem em uma sociedade com o setor comunicacional democratizado – em troca da realização de um projeto de poder?



(Imagem retirada daqui)