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sexta-feira, 3 de abril de 2009

Milk

Em termos estritamente cinematográficos, Milk está longe de ser um grande filme. Mas alcança resultados notáveis como produto de massa que enfatiza, com sensibilidade e contundência, a pertinência da luta pelos direitos das chamadas minorias – no caso, dos homossexuais norteamericanos nos anos 1970.

Um dos segredos do filme para atingir tais resultados advém de uma abordagem da questão que, ao contrário do que se tornou usual nos últimos tempos, abdica tanto dos excessos do politicamente correto quanto da exaltação de uma idealizada hipersexualidade gay - não raro semi-explícita e visando o choque – eventualmente combinada à ridicularização dos conservadores contrários às suas causas. A despeito de tais estratégias representativas serem política e artisticamente válidas, Milk, ao optar por uma narrativa mais convencional e ao situar a luta no campo dos direitos civis, da conquista do espaço público e do direito por livre manifestação afetivo/sexual, faz o filme e a causa que defende atraentes para públicos muito mais amplos, além de promover uma simbiose com os métodos políticos que caracterizaram a própria militância da personagem-título, o ativista gay e político Harvey Milk (1930-1978), um dos primeiros candidatos assumidamente homossexuais a ser eleito para cargo público nos EUA.

A sequência-clímax na qual toma forma a idéia de que a luta das minorias sexuais insere-se na própria evolução da humanidade (e que portanto seria uma luta de todos, à revelia da opção sexual de cada um) é de grande beleza plástica e impacto e equivale a uma epifania. Cenas de uma multidão, de velas à mão, protestando contra o assassinato de Harvey Milk, são comentadas por uma melodia lírica, cujo volume varia conforme a intencionalidade dramática, enquanto as seguintes palavras são narradas pela voz do ativista (que deixara gravações na qual aventava a hipótese de vir um dia a sofrer um atentado):

- “Se meterem uma bala em minha cabeça, deixe que ela arrombe a porta de todos os armários. Peço que o movimento continue, porque ele não diz respeito a ganhos pessoais, ao ego, nem ao poder. Mas sim a nos mostrarmos lá fora, não apenas os gays mas os negros e os asiáticos, e os velhos e os deficientes físicos. Aqueles entre nós sem esperança, os que desitiram. E eu bem sei que não se pode viver com esperanças sozinho, mas sem esperança não vale a pena viver.”

Embora o resto do filme não esteja à altura dessa sequência, a trama é apresentada através de um roteiro bem-amarrado, que transmite de forma eficiente tanto a evolução de Harvey Milk em seus anos-chave, de anônimo quarentão em crise em Nova Iorque a líder da efervescente cena gay de São Francisco nos anos 1970, quanto do intenso debate público que opôs, de um lado, defensores dos direitos das minorias e, de outro, grupos religiosos conservadores que queriam, entre outros objetivos, expulsar todos os professores gays das escolas do país (através da chamada Proposta 6). No entanto, devido justamente ao didatismo histórico e ao superdiomensionamento da personagem de Milk (já que, por razões de economia dramática, é sempre a partir dele que o panorama nacional da mobilização pró-reformas é fornecido) essa eficiência narrativa não deixa de transmitir um quê de telefilme.

Tal impressão é reforçada pelo recurso abundante a imagens de arquivo, geralmente em vídeos de baixa resolução. Através desse material, toma-se contato com importantes fases da trajetória de Milk – por exemplo, o momento em que sua morte é anunciada por uma porta-voz - e da luta entre militantes e apoiadores da causa gay e seus opositores, estes representados sobretudo através de pronunciamentos da cantora Anita Bryant, ligada à igreja batista sulista da Flórida. Como observa Jair Tavares, Bryant acaba sendo uma das personagens do filme, mesmo não sendo interpretada por uma atriz, mas sim como presença virtual através registros documentais.

Destacam-se, do ponto de vista formal, em Milk, A Voz da Igualdade (título que o filme recebeu no Brasil -país que, como se sabe, gosta de inovar nessa área) um figurino que recria, às vezes com elegância, às vezes com humor, a moda gay dos anos 70, e uma utilização tão econômica quanto eficiente da trilha de Danny Elfman (inspirada em árias de óperas clássicas, uma predileção de Milk) para fins dramáticos. O gosto de van Sant pelas idiossincrassias imagéticas, embora claramente auto-reprimido (pois trata-se de produção mai$ntream), se evidencia em alguns enquadramentos inusuais nos quais, bem ao seu estilo, a estranheza não significa acréscimo de sentido ou sugestão alternativa de interpretação. Só uma firula, nada mais.

Além e acima de tais quesitos paira a atuação de Sean Penn, herdeiro tardio da grande tradição interpretativa do Actor’s Studio – aquela de James Dean, Marlon Brando e Paul Newman. Seu Harvey Milk, embora visceralmente humano, encarna elementos caros à persona sexual mítica do homem gay urbano fin de siècle, dividido entre a transgressão sexual, a militância e a tragédia: seu sorriso, embora não deixe de trair tensão, irradia um hedonismo constante que, eventualmente combinado a olhares com um brilho de agudeza, transmuta-se em humor hilário ou alegria extrema – enquanto o resto de sua face transmite todo o sofrimento de um homem com uma vida privada conturbada, que junta forças para sobreviver à tragédia de se confrontar com o suicídio de seus três grandes amores. Ademais, há uma impressionante semelhança entre o ator e o Harvey Milk real (que você pode conferir no vídeo abaixo, trailer de um documentário integralmente disponível no youtube). Como o comprovam fotos e atuações pregressas de Sean Penn, ela não se dá apenas por similaridades fisionômicas, mas por intenso exercício de controle da expressividade facial, combinado a um gestual "precisamente espontâneo" e a um extraordinário trabalho de voz (tom, dicção, sotaque, respiração) - características que, somadas, resultam numa performance exímia, que fez por merecer o Oscar de Melhor Ator.




Embora retratando uma personagem do passado, Milk está intrinsicamente ligado ao presente histórico, pois, como aponta um arguto comentarista, "a analogia com a América pós-Obama se faz ainda maior nesse filme, já que também envolve política, eleições e um candidato com idéias novas e revolucionárias que tem que superar preconceitos”. Raphael Neves, do blog Politika etc. detalha ainda mais a ligação passado-presente, ao observar que “A mesma eleição que elegeu Obama na Califórnia (Milk, assim como ele, usava a "esperança" como lema) também incluiu o voto contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Para reverter isso, os ativistas lutam contra a chamada Proposta 8. Passados trinta anos do assassinato de Milk, passada a onda de preconceito contra os portadores do HIV (no início, a AIDS era chamada de 'doença gay', lembra?), há ainda nos Estados Unidos uma batalha sem fim contra o preconceito e o conservadorismo”.

sábado, 7 de março de 2009

Estreia pífio carbono de "Cidade de Deus"


Quem leva o Oscar a sério? Todos os anos, ali pelo fim de fevereiro, início de março, essa pergunta é repetida mundo afora. São poucas as pessoas a responder "eu levo!". Mas, no dia da premiação, é aquela audiência na casa das centenas de milhões mundo afora.

A dissimulação é compreensível: como levar seriamente em conta uma premiação que nunca contemplou mestres como Hitchcock, Max Ophüls e Fritz Lang e que só concedeu duas estatuetas meio de esgueio a Charles Chaplin: uma pela música de Luzes da Cidade (Limelight, 1952) e outra, honorária (que ele, aos 83 anos, se conservasse o ativismo político da juventude teria feito muito bem em recusar)?

Mas não é preciso olhar para o passado distante para questionar os Academy Awards: nos últimos anos, produções atolados de estatuetas têm-se revelado mera repetição de fórmulas (neé, Benjamin Button?) ou mesmo filmes medíocres - como Shakespeare in love ou Chicago - quando “confrontados” no multiplex mais próximo.

Quem quer ser um milionário (Slumdog Millionaire), contemplado com 8 estatuetas e que estreou recentemente no circuito nacional, não foge à regra. Dizer que o filme foi influenciado por Cidade de Deus é eufemismo. Ele copia descaradamente a estrutura narrativa, o tema (a evolução de um grupo de crianças pobres, com suas trajetórias reconstituídas em flashback a partir do único personagem que se tornou um adulto bem-sucedido, exatamente como no filme aqui produzido) e até os padrões fotocromáticos da obra dirigida por Fernando Meirelles e Kátia Lund. A coisa é tão descarada que até um clímax dramático baseado na violência brutal contra crianças os dois filmes têm em comum. (como acontece com o filme de Meirelles e Lund, Quem quer ser um milionário também tem dois diretores: o inglês Danny Boyle e o indiano Loveleen Tandan. O fato de você, eu e o resto dos mortais só termos ouvido falar do primeiro não tem nada a ver com herança colonialista, claro que não, imagina...).

O que diferencia essencialmente o filme estrangeiro é que a ação se passa na Índia (no caos urbano de Mumbai) e há um suspense, meio bobo, que atravessa toda a narrativa: conseguirá o ex-menino de rua que protagoniza o filme ficar milionário ganhando o prêmio máximo de um desses jogos televisivos estilo Sílvio Santos? Tan, tan, tan, tan...

Deve-se, a bem da verdade, reconhecer que o diretor Danny Boyle demonstra todo seu talento. Pena que este se resuma a dar um tratamento de videoclip frenético, anfetamina pura, à narrativa – o que, somado aos tiques maneiristas de cinema indiano, diluições “pra inglês ver”, trazidos por Tandan, sumariza toda a originalidade do filme. Oito Oscars? É pouco, por que não 12?

Muitos críticos apontaram que a exageradamente generosa premiação a Quem quer ser um milionário - reforçada pelo prêmio de Melhor Atriz coadjuvante para a espanhola Penélope Cruz - seria um indício do ímpeto multiculturalista que estaria a assolar a “academia”. Será mesmo? Enquanto a exigência de que os filmes concorrentes sejam falados em inglês, a tendência é que ela siga preferindo a bugiganga-pastiche aos originais de qualidade.