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domingo, 12 de julho de 2009

O Arrebatador Cinema da Índia

(Fotos retiradas daqui, dali e dacolá)

Ao contrário do que talvez se pudesse esperar, a abordagem – estereotipada mas pretensamente respeitosa – da cultura indiana pelo produto midíático de maior público no país - a "novela das oito" - não teve como um de seus efeitos o crescimento substancial da curiosidade a respeito da principal referência estética de Caminho das Índias: a produção audiovisual indiana, destacadamente seu cinema.

No Ocidente, a imagem do cinema indiano esteve por muito tempo associada, sobretudo, à figura do diretor Satyajit Ray (1921-1992), que em 1956 venceria a Palma de Ouro em Cannes com A Canção da Estrada (Pather Panchali, 1955) – primeiro filme da “Trilogia de Apu”, sobre a qual o blog Cine-Filia traz detalhadas informações. Embora seja contemporâneo de outros grandes diretores da chamada “Era de Ouro” do cinema indiano – como Raj Kapoor, Mehboop Khan e Guru Dutt, o “Bergman indiano” -, Ray foi o mais famoso internacionalmente por razões que dizem respeito mais à relação entre festivais de cinema e mercado do que à eventual superioridade de seu inegável e abundante talento (processo semelhante - mas menos assimétrico - ocorreria no Japão, com a fama internacional de Akira Kurosawa em relação às de Kenji Mizoguchi e Yasujiro Ozu).

Não deixa de ser uma lástima que tais dinâmicas de reconhecimento público ainda hoje vicejem, pois não são poucos os pesquisadores de cinema – entre os quais me incluo – que consideram Guru Dutt (foto) um dos mestres da sétima arte em todos os tempos e achem simplesmente inacreditável que ele seja, no Ocidente, não apenas desconhecido do grande público mas negligenciado até mesmo por cinéfilos e estudiosos de cinema.

A partir dos anos 80, graças à proliferação dos festivais de cinema, à consolidação das comunidades indianas no exterior e ao incremento das facilidades de importação e circulação de filmes, a imagem do cinema indiano passa a ser mais associada aos filmes massivamente produzidos por “Bollywood” (o B vem de Bombaim, atual Mumbaim, que é, há décadas, o único centro produtor de cinema no mundo a superar Hollywood, ente outros quesitos, em número de produções/ano).

Produtos do ramo mais bem-sucedido do cinema indiano em termos comerciais, os filmes abrigados sob o rótulo "Bolywood", no mais das vezes produções de grande orçamento, obedecem a um sistema industrial altamente profissionalizado. Dos roteiristas aos técnicos no estúdio, da figurinista ao diretor de arte responsável pelos multicoloridos padrões cromáticos, dos coreógrafos aos cantores que dublam os astros nos diversos números musicais que ornam muitos dos filmes, todo o sistema produtivo trabalha em série e de modo praticamente ininterrupto, a realização de um filme sucedendo a de outro, num modelo de produção menos atomizado e de ritmo mais intenso do que o praticado atualmente em Hollywood.

A cereja do bolo desse esquema é, naturalmente, o star-system indiano, já que tradicionalmente no país, de forma ainda mais intensa do que nos Estados Unidos, é o elenco – sobretudo o protagonista masculino – o principal chamariz de público para os filmes. A atual grande estrela das telas indianas é o ator Shah Rukh Khan (ao centro, na foto que encima o texto), 43 anos, que sucedeu o grande ídolo dos anos 70/80 Amitabh Bachchan. Essa mudança significou uma revolução nos padrões estilísticos e temáticos concernentes ao protagonista – tema que debateremos futuramente em outro post.

Diversidade e riqueza cultural
Mas o cinema indiano vai muito além dos mestres de seu período clássico e e da exuberância multicolorida de “Bollywood”: a Índia contra com três grandes centros produtores – Mumbaim, Calcutá e Madras –, que lançam, anualmente, uma média de quase mil filmes. A maioria é falada em Hindi, mas há uma considerável produção em Tamil, Telugu e em Malayalam, e algumas dezenas de títulos falados em Bengali, Kannada, Gurajati e em Marathi. Na verdade, quase todos os 21 idiomas/dialetos falados no país são contemplados com a produção de ao menos um filme por ano.

Cerca de trinta milhões de indianos vão ao cinema diariamente (aproximadamente 3% da população do país) e, na presente década, mais de 9o% das receitas de bilheteria, em média, disseram respeito à produção nacional. Além de hegemônico internamente, o cinema indiano tem mercado cativo no sudeste asiático, no Oriente Médio e em boa parte da África. Durante décadas objeto de culto restrito às comunidades indianas no exterior, vive hoje um processo de popularização no Ocidente – nos EUA, Reino Unido e França destacadamente.

A presença marcante da cultura popular indiana – milenar ou contemporânea -, combinada ao volume de produção e à influência de distintos modelos representacionais, gera um cinema extremamente rico em sua diversidade, com uma forte tradição em termos de documentário, duas grandes escolas ficcionais, características regionais distintas e crescente experimentalismo. Vale a pena conhecer melhor essa filmografia vibrante, que envolve o espectador, seja através do apelo popular produzido pela mistura de gêneros, canções, cores e sensualidade de sua produção mainstream (estas últimas evidenciadas na foto da atriz Kajol, logo acima); pela sinceridade e agudeza dos seus filmes de “temática social”; ou pelo rigor e personalidade de seu “cinema de autor” (aqui, em inglês, uma ótima seleção de títulos para quem deseja se iniciar no cinema indiano, organizada por dois especialistas no tema).

Infelizmente, ainda viceja no Brasil, mesmo em setores soi disant cultos e intelectualizados, uma espécie de versão debochada do Orientalismo de que nos fala Edward Said, traduzida na tendência a apregoar o multiculturalismo da boca pra fora mas continuar torcendo o nariz, ignorando ou folclorizando o que vem do Oriente, sobretudo se se trata de algo popular. Assim, com a exceção de uns poucos iniciados, os cinéfilos brasileiros seguem privados do contato sistemático com uma das mais ricas, originais e diversificadas cinematografias do globo. É mesmo uma pena, sobretudo se pensarmos o quanto o próprio cinema brasileiro teria a ganhar com esse contato.

15 comentários:

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Excelente post, e mt necessário! Já conheço ha um bom tempo o fantástico cinema indiano, graças à um amigo que, afinal, é indiano e esteve em minha casa há alguns anos para depois visitar o país ensinado sua técnica de desenho para movimentos soociais, mas é outro assunto!=)

Assisti alguns excelentes filmes sobre a independência indiana, como Rang de Basanti (meu favorito), Lage raho munna bhai dentre outros.

Apesar de nos parecer absurdamente toscas as musicas nos filmes, a dança, alguns conseguem um melhor resultado que o nosso querido PRabhu Deva!=)

Maurício Caleiro disse...

Obrigado, Raphael.

De fato, os filmes sobre a independência indiana são maravilhosos - o meu preferido é Lagaan (Ashutosh Gowariker, 2001), em que os indianos enfrentam os ingleses num jogo de críquete.

Quanto a acharmos os musicais toscos, eles andam superproduzidos ultimamente, mas conservando aquele quê brega que é a graça do troço (rs)!

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Eu ainda não consegui tempo pra assistir Lagaan. Tenho no PC, achei as benditas legendas (o que é pior) mas tempo? Tow procurando!=)

Bem, as musicas tem seu sentido mas msm em Rang de Basanti - que é um puta filme político, desobediência civil incrível - tem certas musicas q só se mijando de rir pela tosquice super-produzida!=)

MAs vale cada minuto!

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Só lendo e aprendendo um pouquinho de cinema com o amigo. Mas é incrível como a Índia, um país com um PIB per capta bem menor do que o nosso, consiga ter uma produção desse porte - ainda que num modelão de linha de montagem, com suas exceções, claro.

É notável como a própria China continental tem avançado nesse sentido - ainda que as restrições internas à liberdade de expressão dificultem esse processo.

Na antiga União Soviética, grandes cineastas como Tarkovsky se viram às voltas com a censura e as interferência da burocracia, mas quando o país desabou e o que foi construído não foi muito melhor, praticamente acabou-se o cinema russo - tirando uma ou outra coisa de Sokurov.

Cá no Brasil, prosseguimos na tentativa de criar essa estrutura de um cinemão comercial, mas que é um verdadeiro pneu murcho. A impressão que eu tenho como espectador é que falta criatividade.

Paulo Morais disse...

Belo post! Não tinha conhecido este blog ainda, já está favoritado aqui. Me explica uma coisa: já algum tempo venho procurando torrents de filmes indianos pra baixar, mas não tenho encontrado. Creio q um ou outro título a gente possa encontrar legendado em português de Portugal. Mas mesmo que seja legendado ou falado em inglês... a gente encontra por aí? Seria uma forma de furar o bloqueio da indústria cultural e ter acesso a outros tipos de produção.

Abraços,
Paulo

Maurício Caleiro disse...

Paulo,

Bem-vindo ao blog. Confesso que não entendo nada de torrents, mas, como os filmes indianos são popularíssimos em boa parte do mundo, creio ser muito fácil achá-los na internet. Com legendas em português deve ser mais difícil, mas em inglês, deve haver um monte deles.

------X-----

Hugo,

Concordo contigo que o atual momento do cinema brasileiro não é dos melhores - "murcho" é um adjetivo pra lá de adequado para descrevê-lo. Isso se deve a uma série de razões, que vou discutir num post em breve.
O cinema russo também, como você coloca, decaiu muito, com raras exceções.
Quanto à questão da riqueza do cinema em contraste com o baixo PIB per capita indiano, há de se relativizar este último, pois ele não reflete as pronunciadas assimetrias econômicas do país - e, parafraseando uma metáfora que durante anos foi aplicada ao Brasil, o cinema ocupa a porção Bélgica da Índia...

------x-----

Raphael,

Tempo é o que mais vc vai precisar p/ assistir a Lagaan, pois, se me lembro bem, dura um pouco mais de 4horas...


Um abraço a todos.

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Caleiro, apenas para saber, qual sua opinião sobre a época da Pornochanchada? Khouri, Sady Baby, Bajon e outros?

Caça-niquel, subversão, protesto social ou só putaria?

Eu particularmente adoro o cinema marginal da boca do lixo e, através dele, conheci os grandes Jesus Franco, Joe D'amato e etc, da corrente Sexploitation, nunexplotation e etc.

Luis Henrique disse...

Oi pessoas,

Mesmo se tivéssemos acesso a 10% da filmografia indiana, ainda haveria um grande problema: por onde começar? 1000 filmes por ano não é mole não... Maurício, tem mais recomendações?

As produções chinesas modernas tem ficado cada vez melhor, na minha opinião. 'Todo mundo' já viu pelo menos um filme do Zhang Yimou (que, aliás, conseguiu o prodígio de dirigir o Jet Li num filme bom). Em geral, há dois 'grandes gêneros' do cinema chinês atual: as grandes produções de ação/aventura situadas na China imperial, e os road movies que sempre expressam algum desejo de reencontro dos personagens consigo mesmos e com a terra em que vivem.

Já o cinema russo fez escola(s) e história. Desde o Potemkin foi popular (pelo menos) no 'ciclo cult' mundial. Mas eu me pergundo por que decaiu tanto assim após o fim da URSS...

Um grande abraço a todos.obs

Maurício Caleiro disse...

Raphael,

Eu sou um fã de carteinha da pornochanchada, particularmente do período que vai de 1971 a 1974. Há verdadeiras obras-primas nessa época - e não me refiro apenas a Reichenbach, Sady, Mossy e cia. Depois, até 80, 81 fica mais comercial mas ainda tem muita coisa aproveitável. Depois disso vira pornô e aí contam-se nos dedos os fiulmes quese salvam.

Só um detalhe: Khouri aproveitou-se (no bom sentido) da pornochanchada, mas ele a precede e a supera, e sempre fazendo aquele cinema pessoal dele, em que o erotismo está quase sempre presente. Mas imagino que vc já saiba disso, certo?


Luis Henrique,

Você viu o link que eu pus para uma lista de filmes indianos? Tem coisas ótimas lá. Pessoalmente, eu recomendaria todos os filmes do Guru Dutt (especialmente "Eternal Thirst"), "Swades", "Phir Bhi Dil Hai Hindustani", "Lagaan", "Deewar" (versão de 1975), "Nizhalkkuthu", "Barsaat", "Meghe Dhaka Tara", entre outros.

Quanto cinema chinês, se você incluir o cinema de Hong Kong também, aí o nível cresce extraordinariamente.

Um abraço,
Maurício.

Raphael Neves disse...

Muito bom o post, Maurício.

Eu moro na "Little India" (Jackson Heights) e aqui há dezenas de lojas de dvd's. Vou procurar alguns do "Bergman"!

A saída da minha estação de metrô fica ao lado do, creio, único cinema 100% indiano de Nova York. E, o tal do Shah Rukh Khan ilustra um outdoor de uma marca de relógio. Rapaz, é Índia pra todo o lado!

Abraço,
Rapha

Maurício Caleiro disse...

Oi, Raphael,

Ótima vizinhança, hein (rs)! Muito mais divertida do que os subúrbios WASP.

Deve ter um monte de restaurantes indianos também, né? Eu adoro "Lamb vindaloo extra hot" e, sobretudo, "Indian spiced soup". Já provou? É tão forte que até dá barato (rs..)...

Se for mesmo procurar o "Bergman", saiba que "Eternal thirst" (o título indiano é "Pyaasa") é o grande clássico dele (e, na minha opinião, um dos 10 melhores filmes da história do cinema).

Um abraço,
Maurício.

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Obra prima do Sady? haha! Ele já é da fase final, anos 80, brabo! Mas engraçado, é um dos meus favoritos pela absurda crítica social, apesar dos filmes serem absolutamente toscos.

Pouca gente sabe ou se importa em saber que o sexo na maiora das produções - fosse explícito ou não - era maneira de atrair público e não mera putaria. Era a forma de grandes diretores financiarem seus filmes.

Claro, alguns tinham esta temática, era o objetivo, mas os grandes usavam como crítica e como maneira de vender.

Já no caso do Sexploitation europeu não só era crítica, como maneira de atrair público mas fazia parte do filme.

GRandes filmes de terror Sexploitation como Porno Holocaust e Vampyros LEsbos não seriam nada sem as cenas pesadas de sexo (em especial no segundo, o Franco era mais light).

No fim a turba chama de pornô! Que òdio, haha! Ainda que, cá entre nós, eu seja um admirador do pornô francês dos anos 70-80.

Maurício Caleiro disse...

Tsavkko,

De fato, fiz confusão na hora de escrever, mas deixa pra lá... Não estou aqui pra ficar me justificando nem pra provar conhecimento pra ninguém.

Essa questão do sexo ser pra atrair público e, em decorrência, investimento, precisa ser matizada. Isso sem dúvida ocorreu na "fase heróica" da Boca e em muitas das produções do Galante até o fim dos anos 70. A partir da crise do início dos 80 (e mais ainda depois, com a chegada do vídeo), a história é outra. Claro que iconoclastas como Sandy aproveitaram a oportunidade para imiscuir intencionalidades autorais, mas, convenhamos, são raríssimas exceções.

Do Sady, gostei muito do "Emoções sexuais de um jegue". Acho que entraria na minha listinha dos 10 mais da pornochanchada...

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Sem dúvida, concordo plenamente, já pros anos 80 a coisa deu uma virada.

Do Sady fico com o primeiro, emoções sexuais de um cavalo, excelente.

Aliás, o teu conhecimento está provado, um deslize é o de menos!

Luis Henrique disse...

Desculpe, Maurício, o link passou desapercebido. Em todo caso, obrigado pelas recomendações.

Mas não acredito que vocês gostam de pornochanchada! Tudo bem, já que mencionou Hong Kong, confesso que adoro um Shaw Brothers de vez em quando...

Um abraço