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segunda-feira, 23 de maio de 2016

O caso Jucá e a reação às denúncias

A mídia publica uma denúncia fatídica contra um ministro ou outro personagem central do governo; o desgaste, para ambos, é imediato e avassalador; o personagem é demitido, de acordo com uma lógica do tipo "perder os anéis para manter o dedo".

Esse processo se repetiu diversas vezes nos governos Lula e Dilma - e agora, ocorre pela primeira vez no de Temer. Para além da discussão sobre a legitimidade de um e de outro governo, observam-se ao menos duas diferenças no modo de reagirem: a primeira é que o padrão da reação petista era delongar: sem propriamente defender o acusado, adiava-se sua demissão, com o exército "progressista" culpando a "mídia golpista". Ao final, após semanas de desgaste, com a persistência do que J.B. Thompson chama de "escândalo político-midiático", o indigitado ia pra rua.

A segunda, com raras exceções (como Palocci), é que, durante os anos petistas, a demissão correspondia a a um exílio na Sibéria: ao menos institucional e publicamente, o demitido perdia poder de influência e mesmo de interlocução com o governo. Já Jucá "cai pra cima": não só volta para o Senado, mas com a chancela política de Temer, que chegou a declarar "precisar" dele lá.

À primeira vista, do ponto de vista da estratégia administrativa, a rapidez com que Temer agiu tenderia a ser vista como um ponto positivo, comparada à letargia desgastante de Lula e Dilma para com os denunciados. Por outro lado, a reafirmação da importância do Jucá senador para o Temer soa como um flanco de vulnerabilidade , o qual sugere o prolongamento do desgaste do governo, ainda que em outro patamar..

Talvez seja cedo para prognósticos. A reação da sociedade e dos demais atores políticos é quem deve determinar seu desfecho. Mas uma coisa parece certa: a denúncia do caso Jucá pela Folha de S. Paulo demonstra, uma vez mais e para os que ainda teimam em se recusam a ver, que, malgrado seus inúmeros problemas e tendenciosismos, a mídia como inerentemente golpista e antipetista é uma falácia ideológica, desmentida pelos fatos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Folha e o colunismo moleque

Por uma dessas estranhas coincidências da vida, comecei a ler o livro que reúne o melhor das colunas de Otto Lara Resende para a Folha de S. PauloBom dia para nascer (Companhia das Letras, 1994) - no mesmo dia em que o diário paulista anunciava Kim Kataguri como seu novo colunista.

Difícil imaginar um contraste mais pronunciado, que melhor explicite a epifania de decadência e perda de rumo por parte de um órgão de imprensa que, nos anos 80 e 90, fez muitos nutrirem esperanças de um salto de qualidade no jornalismo brasileiro.

A prosa de Otto é fluente, enxuta, perpassada por uma ironia tão sutil quanto inteligente, mineiríssima, e por um criticismo político que denota critério, evitando tanto generalizações quanto um certo niilismo negativista que há tempos se tornou corrente. Informada sem soar pedante, pontuada por referências e comparações históricas, sugere uma mente arejada, que surpreende o leitor ao abordar o noticiário com ângulos e associações inusitadas. Leveza, cultura, inteligência.



Abandono da ética
Desnecessário afirmar que nada remotamente similar a isso é oferecido pelo novo contratado da Barão de Limeira – um garoto com Ensino Médio que, já em sua coluna de estreia, maltrata a língua portuguesa e a verdade ao chamar de terroristas cidadãos que, exercendo um direito constitucional. protestaram contra o aumento do preço das passagens de ônibus, sendo por isso massacrados pela PM paulista.

O uso de força excessiva e gratuita por parte das forças policiais, bem como o recurso a uma tática repressiva internacionalmente reputada como desumana – o “caldeirão de Hamburgo”, em que os manifestantes são cercados de todos os lados, sem possibilidade de fuga, enquanto bombas lhes são atiradas –, se, com exceções como o brilhante artigo de Eliane Brum no El País, passou quase em branco na mídia nacional, chocou colunistas internacionais e vem repercutindo muito mal no exterior. Não será surpresa se, num futuro próximo, vier a gerar sanções contra o Brasil, como ocorreu com o tratamento que o governo Dilma dispensa à questão indígena.

Porém, o jornal dos Frias, que sempre se auto-outorgou o título de bastião avançado da ética e dos Direitos Humanos, confirma, com a contratação do agitador semiletrado, que hoje restringe tais temas à cosmética do marketing.

Trata-se, no caso, de uma escolha deliberada, que é mercadológica (mirando o leitorado jovem e o nicho do jornalismo neocon, fenômeno nos EUA, que no Brasil tem a Veja como combalido carro-chefe), mas sobretudo política (a aposta na retomada da mobilização popular pró-impeachment).



Binarismo e desvio de função
A contrapartida, além do agravamento da debandada dos assinantes antigos, é que fornece mais munição para a eterna choradeira do petismo contra a imprensa em geral e contra a Folha em particular – um lacrimário que é hoje o principal bode expiatório a desviar as atenções (e impedir a autocrítica) das responsabilidades dos governos petistas, após mais de 13 anos no poder, pelo deplorável estado de coisas no Brasil de hoje. E que se baseia em uma quimera, pois finge ignorar tanto a colaboração frequente de mandarins do neopetismo - como André Singer, Breser Pereira e Jessé de Souza – quanto a atuação de colunistas como Gregório Duvivier, Guilherme Boulos e de Janio de Freitas em seu outono chapa-branca.

De uma forma ou de outra, o jornal, em vez de aperfeiçoar sua atuação como divulgador de notícias e de análises que informem o leitor e melhor o capacitem para a formação de sua própria visão crítica, prefere investir no acirramento de uma luta político-ideológica binária, maniqueísta, em preto-e-branco sem contrastes, que já se desmontrou reiteradas vezes incapaz de fazer o país avançar.

Para além da intensificação de tal distorção da função da imprensa e da aposta em um beligerantismo ideológico primário, a nova contratação reduz, para além do suportável, o nível cultural, intelectual e de articulação de ideias que se espera do colunismo político.



Diagnóstico preciso
Trata-se de uma estratégia que, atendo-se às consequências propriamente jornalísticas, a professora e jornalista Sylvia Moretzsohn disseca com propriedade e contundência em carta à ombudskvinna em que comunica o cancelamento da assinatura do jornal:

“Várias vezes, antes desta, estive para tomar essa atitude. No momento em que se cunhou a expressão "ditabranda". No caso da ficha falsa da Dilma: não só pelo fato, mas pelos seus desdobramentos, a incapacidade de reconhecer o erro, a canhestra justificativa de que não se poderia afirmar que a ficha era verdadeira nem que era falsa (brilhante jornal que, na dúvida, publica...). Na decisão de contratar o Reinaldo Azevedo.

Mas tudo tem limite.

Não se trata, obviamente, da minha rejeição a posições de direita. Eu sempre achei que um jornal deve buscar a pluralidade. Mas é preciso buscar também a substância. Como disse uma colega, também professora e jornalista, colunista não é o sujeito que simplesmente vai lá e dá uma opinião: é alguém que traz informação original e qualificada. Definitivamente, não é o caso desse rapaz, que não tem condições de estar em nenhum jornal que se leve a sério.

Todo jornal faz suas escolhas. Ao acolher certos colaboradores, escolhe também o público que quer preservar e, consequentemente, o que pode dispensar.”


(Foto de Otto Lara Resende retirada daqui)

domingo, 15 de julho de 2012

Os bárbaros de mira torta


A comemoração dos 80 anos de Janio de Freitas acabou por gerar subsídios para uma reflexão mais profunda acerca do futuro do jornalismo e de suas relações com o público e com a internet, seja pela reação emocionada do homenageado, seja pelas reações agressivamente desqualificadoras de comentaristas virtuais.

Com uma trajetória que se confunde com a modernização da imprensa brasileira, “tido e havido como o maior mito vivo do jornalismo”, como o caracteriza Claudio Julio Tognolli, Janio de Freitas pertenceu, com destaque, a três redações míticas: na do Diário Carioca comandado por Pompeu de Sousa, a qual Matias M. Molina descreve como alegre e franca, foi diagramador e repórter; em meados dos anos 50, como redator-chefe, acompanharia de perto e protagonizaria a modernização da revista Manchete; e, em seu momento profissional mais celebrado, comandaria a reforma gráfica e editorial que transformaria o seboso Jornal do Brasil no arejado e inteligente JB dos anos 60 e 70 – lido e cultuado por gregos e troianos e, na opinião de muitos, o melhor diário já disponível por estas plagas.


Um modernizador
Nas últimas três décadas, o carioca Janio manteve, na Folha de S. Paulo, uma coluna política que inicialmente se destacou por antecipar, de forma espetacular, a corrupção em concorrências públicas, feito que lhe valeu os principais prêmios jornalísticos do país. Caracterizado pela independência e pelo destemor com que emite opiniões, não raro na contramão das tendências dominantes - seja a respeito do partido a ou b ou mesmo contra o comportamento da imprensa, inclusive do veículo no qual trabalha -, seu espaço no jornal acabou por constituir uma espécie de oásis de sensatez e senso crítico em meio ao rancor antipetista que os Frias impuseram à linha editorial na última década.

Pois bem, em matéria sobre seus 80 anos, esse profissional, que tem opiniões com as quais se pode concordar ou não, mas cujas contribuições para elevar o nível da análise política e para estimular um desenvolvimento mais aguçado do senso crítico não podem ser negligenciadas, foi equiparado por comentaristas a “viúvas chorosas da ditadura”, classificado como pertencente à “direita conservadora” e chamado de “fariseu”, “mentiroso”, “vendido” e, é claro, a serviço do "PIG".


Mídia em seu pior momento
Há, de fato, razões de sobra para o descrédito e mesmo para o rancor que a ação da imprensa (e da mídia corporativa, de forma geral), no Brasil, provoca. Se, em termos mundiais, a crise financeira e de credibilidade vivenciadas pela imprensa na última década vêm afetando, com raras diferenças de monta, a quase totalidade dos países democráticos, em parte por conta da competição com a internet – como aponta o próprio Jânio na matéria citada -, em nosso país a situação se agrava consideravelmente devido à atuação marcadamente partidária, aos preconceitos de classe e aos interesses econômicos e políticos que opõem a plutocracia midiática ao governo federal petista.

Exemplos a ilustrar tal distorção, altamente prejudicial ao exercício do jornalismo, não faltam: a revista Veja, que já era um caso caricatural de antipetismo, com seus “blogueiros” que latem e suas dezenas de capas com denúncias mirabolantes, foi flagrada sendo pautada por ninguém menos que Carlos Cachoeira; a Folha de S. Paulo considera que tivemos uma ditabranda no país, publicou ficha policial falsa da candidata Dilma Rousseff na capa de uma edição dominical e deu espaço para um lunático em crise de abstinência acusar o presidante da República de estupro; e a Rede Globo a cada eleição participa de uma grande armação, da edição do debate Lula x Collor aos sequestradores de Abílio Diniz com camiseta do PT; do caso Proconsult à bolinha de papel na careca do Serra.


Constatações desagradáveis
Ainda assim, e na iminência de se completar uma década de intensa crítica de mídia via blogosfera - e, mais recentemente, redes sociais -, é forçoso reconhecer que a imprensa brasileira não se desacreditou de todo, já que não deixou de exercer, com algum grau de efetividade, o seu papel de fonte de informação para dezenas de milhares de pessoas e que mesmo alguns dos principais blogs não corporativos – como, por exemplo, o de Luis Nassif ou o Conversa Afiada de Paulo Henrique Amorim –, não obstante sua visão crítica à mídia, continuam a ter a imprensa convencional como principal fonte, transformando diariamente em posts e submetendo aos comentários matérias dos principais jornais. O blogueiro progressista Eduardo Guimarães, em post recente, chegou a identificar episódios em que colunistas consagrados claramente desguiaram-se da linha editorial do jornal.

Tais fatos demonstram, entre outras coisas desagradáveis, que, no momento, não passa de miragem a premissa de que os blogs estariam substituindo a imprensa – e não só devido à constatação de que a produção de material jornalístico original – como reportagens ou entrevistas – é ainda por demais incipiente na blogosfera, mas - o que é muito mais grave - que, em uma medida não desprezível, a imprensa ainda pauta parte considerável da blogosfera, incluindo alguns dos blogs de maior audiência.


Nem sempre  tudo é PIG
É preciso, portanto, para o bem da análise, interrogar de forma mais complexa e sistemática a relação entre política e jornalismo – vale dizer, entre fato político e interpretação ideológica via editoração – no país. Isso inclui, necessariamente, a adoção de uma visão mais matizada e criteriosa sobre a ação da mídia corporativa, que permita colocar em perspectiva e explicitar não apenas seu tendenciosismo e sua ação manipuladora - como a de um partido político disfarçado, como frequentemente é o caso no Brasil -, mas suas contradições e estratégias de compensação que, apesar de tudo, continuam a assegurar-lhe penetrabilidade e algum grau de confiabilidade - ainda que em menor escala, se comparado ao de um passado já não tão recente.

A recorrência com que o termo PIG é assacado pode ser compreendida a partir de sua pregnância e da crítica mordaz que de imediato faz, sobretudo no ambiente veloz e informalmente dialógico das redes sociais, mas sua transformação em um diagnóstico definitivo, imutável e sempre válido sobre a imprensa e a mídia pode eventualmente ser, como mostram os fatores acima aludidos, não apenas questionáveis, mas improcedentes.



Jogo de interesses
Assim, sua consumada transformação em uma arma multiuso, bradada contra toda e qualquer acusação feita contra o governo petista, pode revelar-se nem sempre justificada e eventualmente perigosa, pois tende a negligenciar a autocrítica em favor da instauração de um processo vicioso de atribuição de culpa ao mensageiro. Há algo de profundamente totalitário nessa atitude.

Tal processo – e as distorções decorrentes - é facilmente observável nas ultimamente não tão raras questões em que os interesses do governo e da plutocracia midiática são coincidentes, como, por exemplo, na alteração, para menos, da aposentadoria dos servidores públicos ou na privatização dos aeroportos. Nesses casos, não só os ataques da imprensa se transformam em elogios, mas estes são reproduzidos nos blogs e nas redes sociais, gerando, por vezes, situações curiosas, como, por exemplo, um perfil que vive xingando o PIG retuitar um editorial elogioso d'O Globo.

Ante essa lógica malandra, que reduz a imprensa a PIG quando é contra o partido do sujeito, mas a prestigia quando ela é elogiosa, dá vontade de perguntar: afinal, é PIG ou não é?


Discursos totalitários
Não obstante a gravidade da questão midiática no Brasil – tantas vezes abordada neste blog -, o uso genérico e descriterioso do termo PIG traduz uma sobreposição, na arena virtual, de determinados interesses político-partidários ao resultado de análises ponderadas, caso a caso, mais rigorosas e embasadas, resultando, por sua repetição ad nauseum, numa grave distorção.

Tão grave quanto negar ao octogenário Janio de Freitas o reconhecimento pelo grande jornalista que ele é e foi.



(Fotografia de Jorge Araújo/Folhapress, retirada daqui)

domingo, 6 de maio de 2012

Jornalismo político perde os últimos escrúpulos


O consórcio midiático capitaneado por Editora Abril, Rede Globo e Grupo Folha tem deixado claro que a cobertura que dispensará à CPI do Cachoeira será variada: diálogos e pensamentos obtidos graças a dons mediúnicos de jornalistas, elementos de ficção interessada, ilações as mais absurdas, inverdades a granel e, sobretudo, muita inversão dos fatos.

Em compensação, a reprodução fiel e equilibrada do conteúdo dos autos e dos acontecimentos – essa obsessão dos chatos - será, dispendiosa, deixada de lado. A palavra de ordem nos telejornais e jornalões é ocultar ao máximo o conluio entre crime organizado e imprensa, preservar os acusados pertencentes ao demotucanato e dar um jeito de envolver, com o máximo de publicização, aliados do governo federal. Foi o que se viu e leu, esta semana, no cada vez mais vergonhosamente tendencioso jornalismo político praticado no país.


Inversão de culpa
Assim agindo, essa mídia, após banalizar as denúncias de corrupção com tapiocas e caronas, quer agora fazer crer aos desavisados e às velhinhas de Taubaté que o mais grave caso documentado de crime organizado desta década, envolvendo, em seu epicentro, políticos do alto escalão do DEM, não passa de mais um dentre tantos “malfeitos” dos incorrigíveis petistas.

Ora, é apostar muito alto na ingenuidade de eleitores que, em sua maioria - como as três últimas eleições presidenciais deixaram claro -, demonstram ter mais confiança na própria capacidade de avaliação de suas opções eleitorais do que na palavra de comentaristas políticos, por mais irrepreensivelmente aparados que sejam os bigodes destes.


Dissidências
Extinguem-se, assim, as esperanças – de resto, ilusórias - de que a mídia nativa pudesse aproveitar o ensejo que a CPI lhe oferece para redimir-se das práticas tão distantes do bom jornalismo quanto próximas da ilegalidade golpista que caracterizaram sua ação na última década.

Mas seria impreciso afirmar que nada mudou na esfera midiática após o escândalo Cachoeira-Demóstenes-Veja. Por um lado, emissoras não filiadas a tal consórcio midiático – notadamente, a Rede Record – têm dado mostras de que pretendem cobrir o caso de forma condizente, doa a quem doer. Tanto o site R7 quanto a TV Record e, sobretudo, a Record News vêm fornecendo aquela que é, até o momento, a melhor, mais completa e menos parcial das coberturas acerca do caso, a anos-luz do jornalismo-carochinha ficionado por suas concorrentes.



Vozes contrárias
Outra decorrência da CPI – e da constatação de que sua cobertura pelos grandes veículos de mídia permaneceria preso a vicissitudes e partidarismos – é que várias publicações, nos bolsões minoritários da imprensa que vinham, há tempos, insistindo em praticar jornalismo de fato – Carta Capital à frente -, disseram adeus a qualquer eventual pudor corporativo e passaram a escancarar o envolvimento da mídia no esquema ora apurado pela CPI.

Acrescente-se a tal quadro a constatação de que tanto a nomeação de Brizola Neto ao Ministério do Trabalho quanto o enfrentamento do governo federal aos bancos - no sentido de que estes reduzam suas taxas de juros - têm sido motivo de reação corporativista do referido consórcio midiático, reação esta que fornece, uma vez mais, provas da subserviência da mídia corporativa ao capital financeiro em detrimento dos interesses dos cidadãos (“Um jornal a serviço do Brasil” é o dístico da Folha de S. Paulo. Resta saber a qual Brasil se refere).


Combate urgente
Tudo somado, a campanha eleitoral deste ano deve ser particularmente atribulada, pois se em campanhas anteriores a mídia corporativa já agia como partido político de oposição à aliança governista, este ano tal postura deve ser açulada pela reação às próximas revelações da CPI do Cachoeira e pelo incentivo em espécime que deve vir dos baús da banca contrariada.

Nada disto é positivo para a evolução da democracia brasileira e das práticas republicanas no país, mas, ao contrário do que acontecia em um passado não tão distante, ao menos se pode contar, agora, com um (difuso e em minoria, mas efetivo) poder de contrainformação, seja dos setores minoritários da mídia ou, com mais pujança, dos blogs e redes sociais. 

Delineia-se um combate tão intenso quanto necessário.


(Imagem retirada daqui)
 

quarta-feira, 7 de março de 2012

Três anos de Cinema & Outras Artes


Hoje o blog faz três anos. A pretexto de celebrar a data, este post traz uma reflexão sobre a blogosfera e a atividade política nas redes sociais nesse período.

O Cinema & Outras Artes nasceu no bojo das manifestações contra a Folha de S. Paulo por ter empregado o neologismo “ditabranda” para se referir ao período militar e, em seguida, agredido covarde e seguidamente os professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, que ousaram protestar em cartas ao jornal.

O episódio acabou por constituir um momento marcante, um ponto de inflexão das relações entre público e imprensa no país. Pois até ali, malgrado o peso determinante que os interesses empresariais e políticos sempre exerceram na atuação e na orientação editorial das publicações brasileiras, algumas destas – a Folha, notadamente – ainda vinham sendo relativamente bem-sucedidas em vender uma imagem de pluralismo e de ao menos um esforço de imparcialidade.

Depois da “ditabranda”. da publicação de uma ficha policial falsa da candidata Dilma na capa de uma edição dominical e de demais episódios eticamente deploráveis – as acusações alopradas de um Cesinha, o factoide Lina Vieira, entre outros - a máscara caiu de vez. Houve uma debandada de assinantes, a imagem do jornal ficou seriamente arranhada, vozes informadas de ex-leitores – entre eles vários antigos colaboradores - passaram a criticá-lo reiteradamente e aquela aura que a Folha cultivara desde as reformas implementadas por Claudio Abramo nos anos 70 – e que atingiu o ápice nas campanhas pelas Diretas Já - se desfez.


Política versus Cinema
Foi justamente após voltar do protesto organizado por Eduardo Guimarães em frente ao prédio do jornal, na alameda Barão de Limeira, que a decisão de fazer o blog foi concretizada. Procurando por imagens do evento, deparei-me com o também recém-criado O Descurvo, de Hugo Albuquerque (que, creio, foi o primeiro leitor do Cinema & Outras Artes – e primeiro comentarista assíduo). Logo no início, quando mais um blog perdido na imensidão da blogosfera parecia fadado a ser completamente ignorado, ele desempenhou o papel de um grande incentivador e deu dicas preciosas ao neófito inseguro ante o indecifrável “informatiquês”.

A intenção sempre foi a de que fosse um blog com conteúdo original, principalmente análises com algum grau de profundidade – o que certamente restringiria o público, mais acostumado, à época, de modo geral, a blogs com textos curtos, muitas vezes com humor ou relatos pessoais. Como o próprio título evidencia, cinema deveria ser o assunto principal. A política já estava entre os interesses secundários (como se pode ver no cabeçalho do blog, que é o mesmo desde aquela época), mas acabou predominando – um pouco porque a feitura do blog coincidiu com um período profissional em que me afastei do cinema e me reaproximei do jornalismo e das salas de aula; outro tanto porque acabei embarcando nos embates políticos que tiveram lugar na internet, no bojo da campanha presidencial, e tomei gosto pela coisa.

Ao completar três anos e fazer este balanço, chego à conclusão de que, no Brasil, em relação à blogosfera, houve avanços, digamos, institucionais, mas estes têm tido um ritmo bem menor do que inicialmente eu supunha. Por exemplo, nos primeiros meses, enquanto começava a fazer este blog, era também colaborador do Observatório da Imprensa. No veículo criado por Alberto Dines - em que a maior parte dos artigos versava, naturalmente, sobre a mídia convencional - eu tinha a preocupação de chamar a atenção dos leitores para a diversidade, a qualidade e a importância que a blogosfera e as redes sociais vinham adquirindo em relação ao jornalismo. Isso acabou por me obrigar a olhar a blogosfera “de fora”, de uma maneira mais ampla e mais crítica.


Avanços necessários
Estimulado por essas reflexões, publiquei alguns textos em que argumentava, por exemplo, a favor da urgente constituição de uma rede de advogados para proteger os blogueiros de processos oportunistas (uma tática coercitiva que vem sendo empregada, de forma pontual, em alguns estados brasileiros – e que é uma ameaça concreta em cada período eleitoral), ou ressaltando a necessidade de a blogosfera superar a crítica de mídia e investir na produção de material jornalístico original – sobretudo reportagens (uma necessidade que é reconhecida há tempos por alguns dos principais blogueiros, mas, com a alegação de dificuldades operacionais, dificilmente levada a cabo, mesmo porque remete a - e deriva de - um problema recorrente nas redes sociais, que é a excessiva dependência da TV. O Twitter, por exemplo, tem, eventualmente, pautado a mídia. Mas há muitos dias ali que a impressão que fica é de que se trata de uma aplicação para comentários televisivos e não de uma tremenda ferramenta comunicacional, particularmente revelante para o jornalismo).

Outra questão premente diz respeito à sustentabilidade econômica dos blogs, pois, desculpe informar, leitor(a), mas esse papo da direitona – e agora também  de uma certa dita esquerda – de que o governo nos sustenta é mentira. A blogosfera pode até continuar forte e com algum grau de renovação por muito tempo devido ao voluntarismo de cidadãos e cidadãs motivados, mas, do ponto de vista estrutural, o que asseguraria prosseguimento e estimularia melhoria de qualidade da atividade blogueira seria a obtenção de meios para que ao menos um bom número de blogueiros pudesse se sustentar através de tal atividade.

Trata-se de questões que vêm sendo encaminhadas, é certo – e o fato de fóruns como o #blogprog servirem para articular e fazer andar tais discussões é um dos motivos que me levam a vê-lo sob uma luz positiva -, mas não tratadas com a velocidade, a efetividade e a divulgação necessárias.


Via de duas mãos
Uma outra questão que, na minha opinião e na de vários blogueiros que conheço, precisa ser urgentemente atacada é a hegemonia excessiva de blogs consagrados e a manutenção, numa zona de sombra, de uma série de blogs que têm, há tempos, se esforçado para produzir com regularidade material original e crítico. Chega a ser enjoativo o quanto se vê sempre os mesmos blogueiros sendo convidados para eventos e para representar a “classe”. É preciso renovar.

Uma renovação seria benéfica a todos e fortaleceria a blogosfera como um todo. Os encontros de blogueiros (e, nestes, a composição das mesas) são um dos meios para levar a cabo tal tarefa, mas é preciso que mais blogueiros de renome sigam o exemplo dos seus pares que abrem espaço e republicam (ou divulgam nas redes sociais) posts de autores menos conhecidos, pois há uma queixa crescente – e a meu ver justificada - contra blogueiros de ponta que, embora sejam, há tempos, exaustivamente citados, jamais lincam ou indicam posts que não sejam de sua própria autoria,.


Mudanças bruscas
Nesses três anos, o cenário da blogosfera mudou muito. Duas mudanças foram (ou têm sido) marcantes. A primeira é a diminuição brusca do número de comentários que passou a acontecer tão logo as redes sociais (o Facebook e o Twitter, notadamente) se firmaram como o local de debate por excelência. Por mais que um post seja nelas debatido, a escassez de comentários teve - e tem - uma ação psicológica desestimulante em mim. Como disse alguém, o comentário é o alimento do blogueiro.

A segunda mudança, mais recente e muito mais relevante, deriva da própria relação entre blogosfera e política: finda a eleição presidencial, a ação conjunta empreendida pela maior parte dos blogs de esquerda (mesmo dos que não apoiaram no primeiro turno a candidatura petista) se desfez. Deu lugar, inicialmente, ao questionamento dos rumos do governo Dilma (questionamento o qual, aqui neste blog, começou cedo, no segundo mês de governo, quanto publiquei um post intitulado “Primavera digital chega ao fim”, que acabou republicado em diversos outros locais e gerou bastante polêmica). Nele manifestava minha frustração ao constatar que o o governo Dilma não só não aprofundaria o modelo neo-keynesiano adotado por Lula dois anos e meio antes, mas promoveria um retorno a parâmetros neoliberais – o que, infelizmente, se confirmou indubitavelmente nos meses seguintes, com a obsessão com o déficit nominal zero, a privatização dos aeroportos e, mais grave, da aposentadoria dos servidores públicos. Agora cogita-se o impensável: a alteração das leis trabalhistas.

A união verificada durante os embates eleitorais estava, é certo, fadada a se esvair – e, de certa maneira, é positivo que tal tenha ocorrido, permitindo um debate mais nuançado e diversificado. Em relação ao Cinema & Outras Artes, isso permitiu – para decepção de uns e contentamento de outros – deixar claro que não se tratava de um órgão político petista, como a alguns por momentos pareceu (o que me levaria a rir muito quando tomei ciência disso), mas de um blog de jornalismo que defende certas princípios de esquerda, não abdicando, no entanto, de criticar – ou mesmo de renegar, a depender dos desdobramentos futuros – o governo o qual pareceu melhor representar tais princípios.


Tríplice fronteira
Embora, a rigor, alguma gradação possa ser observada, poderíamos, a título de esquematização e inevitavelmente recorrendo a generalizações, dividir a blogosfera de esquerda, hoje, em três grandes grupos. Um, já citado através da menção ao próprio Cinema..., é o dos blogs que mantêm um apoio crítico à aliança e ao governo comandados pelo PT.

Outro, mais homogêneo, é formado por blogs que continuaram a apoiar incondicionalmente o governo Dilma, faça o que ele fizer – o que, como já coloquei em um post recente, acaba, na minha opinião, por enfraquecer o poder da blogosfera de pressioná-lo a honrar os compromissos assumidos nas eleições e faz coincidir as posições de tais blogueiros com as da grande mídia no que tange ao apoio à primazia que o governo concede ao mercado e à adoção de algumas das principais premissas neoliberais.

Um terceiro e último grupo seria formado por blogueiros de esquerda que, por convicção anterior ou decepção posterior, recusam e combatem a aliança petista. É, talvez, o mais heterogêneo dos grupos, reunindo apoiadores dos pequenos partidos, entusiastas da figura de Marina Silva, ecologistas decepcionados com o modelo de desenvolvimento e com Belo Monte, além de críticos avulsos.

Penso que a interlocução seria mais fluida e a própria ação política bem mais proveitosa se não se tivesse formado esse quadro quase estanque e essas “igrejinhas” fechadas em si mesmas. Mas não chega a causar estranheza e não é, de forma alguma, um fenômeno circunscrito à blogosfera brasileira – ele diz respeito, um tanto, à própria natureza humana, e, muito, à atual conformação do campo político no país.

O que extrapola o campo do polemismo civilizado é um coletivo que se diz de esquerda publicar um texto apócrifo com graves e não comprovadas acusações pessoais e ilustrá-lo com a foto de uma blogueira cujo principal capital é a credibilidade que levou anos para construir. Se essa tal esquerda se satisfaz com argumentações a la Augusto Nunes e táticas pessoais desqualificadoras à moda de Veja, problema dela. Mas com acusações sem prova em textos não assinados ela sai do campo do debate democrático para o da calúnia anônima.


Por que blogar?
Durante todo esse tempo, uma questão tem aparecido, intermitente: por que manter um blog? Por que dedicar tempo, pesquisar, lutar com as palavras (“a luta mais vã”, segundo Drummond), revisar, se irritar com a tecnologia e seu instável humor, monitorar e responder os comentários? O que nos move a fazer tudo isso, sem receber um mísero real em troca? Nunca consegui responder satisfatoriamente essa questão. Atualmente, a resposta, além do compromisso com os leitores e leitoras que seguem o blog, une uma mistura de desejo de incentivar o debate e de exercer, de alguma forma, a participação política para além do momento de digitar o voto na urna. Mas ela varia de tempos em tempos.

Por fim, há a questão do estímulo e da perda de estímulo. Competindo com outras tarefas, em sua maioria remuneradas, e com os prazos sempre curtos por estas determinados, o blog acaba ficando meio de lado em épocas em que se acumulam muitos trabalhos (como no segundo semestre do ano passado). Mais relevante do que isso, há o fator psicológico, que é recorrente: há, de tempos em tempos, períodos de profundo desânimo, em que postar parece uma atividade banal e em que a pouca repercussão soa como um sinal a mais a confirmar a inutilidade do blog. Nessas épocas é sempre custoso escrever, não se acha assunto, o texto não avança ou só o faz penosamente. Isso ocorreu, uma vez mais, há uns dois meses. E eu estive a ponto de parar.

Daí, de repente, vem uma vontade de escrever, os assuntos brotam, o texto flui de um modo tal que é preciso refreá-lo no córtex cerebral para que as ideias não escapem. Até quando esse estímulo súbito vencerá o desânimo? Sinceramente não sei, mas acredito que é justamente do produto da mediação entre a ânsia pela escrita e a satisfação de ver o texto pronto – e, assim, tomar parte, mínima que seja, no ente comunicacional publicamente efetivo que é hoje a blogosfera brasileira – que é gerado o impulso que toca o blog para frente. Aos que embarcaram na viagem comigo, muito obrigado.



(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Primavera digital chega ao fim

O debate político brasileiro vive um momento tenso e contraditório. Embora seja inegável o salto qualitativo propiciado por uma maior penetração de blogs não-corporativos nos dois ou três últimos anos, certos vícios que caracterizaram a atuação de setores da blogosfera no período cobram, enfim, o custo de sua incongruência.

Pertence à lógica mais elementar, inescapável, a conclusão de que se o governo Dilma impinge ao país, neste momento, um duríssimo choque anticíclico - como não se viu igual sequer no turbulento início da presidência de Lula, herdeiro da “herança maldita” tucana – o faz porque há um grave problema com as contas deixadas pelo ex-presidente. Negar a evidência de um pronunciado déficit equivale a incorrer em desonestidade intelectual em nome de interesses político-ideológicos[1].

E distorcer os fatos em nome de tal modalidade de interesses é precisamente a acusação que, de forma muito justa, é recorrentemente feita contra a mídia corporativa. Portanto, os blogueiros que apoiam incondicionalmente o governo, não importando quão graves sejam as medidas que este toma, não estão se apercebendo do risco de se igualarem ao “Pig” que tanto criticam.


Dicotomias burras
De minha parte, estou cheio dessas divisões absolutistas e maniqueístas entre nós (os puros) e eles (os corruptos), PT x PSDB, blogosfera independente x mídia corporativa, Lula x FHC, Brasil x EUA. Que me desculpem os fanáticos, mas o mundo não é em preto e branco.

Também me encheu o simplismo fácil com que se usa o termo multiuso PIG (Partido da Mídia Golpista) como explicação para todos os males que nos afligem, como se uma atividade complexa e que envolve milhares de profissionais pudesse ser sempre, inapelavelmente, em qualquer contexto, associada a um rótulo jocoso que não poucas vezes tem servido de bode expiatório e de desculpa para que a esquerda deixe de olhar para seu próprio umbigo e reconhecer seus erros e contradições.

E, por fim, embora considere Lula, disparado, o melhor presidente que o país já teve, não estou disposto a consentir com seu processo de canonização e mitificação, em pleno andamento, e que o presume um ser perfeito, imune a mancadas ou erros e isento de responsabilidades, com uma manada feroz atacando, a la Inquisição Espanhola, quem ousa fazer qualquer restrição ou crítica. Ora, uma das grandezas maiores de Lula, tanto no espectro político quanto humano, é precisamente ter aprendido com seus erros e derrotas e a partir deles se aprimorado para se tornar o excelente presidente que foi e o notável ser humano que é. Santificar Lula, na verdade, o diminui, ao invés de engrandecê-lo.


Cai na real, blogosfera
Não bastasse essa crise ética que se manifesta em setores da blogosfera e os torna similar, em dissimulações interesseiras, à mídia corporativa que tanto criticam, Dilma Rousseff, após ter dispensado, por conta do episódio da licença Creative Commons no MinC, um tratamento no mínimo desrespeitoso aos ativistas digitais que tanto a apoiaram, presta-se ao lamentável papel de voar de Brasília para São Paulo para prestigiar, ao lado de toda a fauna tucana, os 90 anos da publicação que mais decaiu eticamente no Brasil na última década, a ponto de dar voz a um aloprado que “denunciou” Lula como estuprador e de estampar ficha policial falsa da pré-candidata Dilma na capa. E compareceu à festa na capital paulista sem um mísero pedido de desculpas em troca.

Ante a reação indignada de setores da blogosfera contra esse autêntico tapa na cara dos que, gratuita e dedicadamente, tanto lutaram pela candidatura Dilma e contra a mídia corporativa que a Folha representa, a reação foi um histérico cala-a-boca, seguido de tentativas grosseiras de desqualificação do interlocutor. Mal posso acreditar que depois de todos os escândalos e absurdos de um jornal que denunciei implacavelmente, vivi para ver alguns petistas igualarem-se a Marcelo Tas e elogiar a Folha por gozar as próprias mancadas. Foi um espetáculo doloroso.

O “argumento” dos que defendem incondicionalmente a presença de Dilma na Barão de Limeira? "Não era a pessoa Dilma Rousseff quem lá estava, mas a presidenta". Trata-se de uma premissa duplamente falaciosa: em primeiro lugar, porque não é possível dissociar uma de outra, e foi uma presidenta esquerdista, ex-guerrilheira, de um governo vilipendiado pela imprensa quem o povo brasileiro elegeu. Em segundo porque não há razão objetiva nenhuma para um presidente prestigiar a festa de um grupo privado de comunicação, ainda mais sendo este um dos principais responsáveis pela derrocada ética do jornalismo brasileiro. Se Dilma acha que com esse gesto angariará a leniência dos Frias então estamos mesmo perdidos.


Momento é de Desencanto
A nova presidente fez sua opção, e é pela mídia corporativa. Seu desprezo pela militância virtual que a ajudou a eleger-se é evidente e mesmo se algum desagravo vier a público nos próximos dias será meramente reativo, prêmio de consolação. O simbolismo do gesto da presidenta acabou por transferir a crise, da imprensa para a blogosfera.

Foi, como disse, um tapaço na cara da blogosfera – o qual, espero, derrube nossa auréola, faça-nos despertar e sair da bolha de certezas e auto-congratulação em que muitos de nós nos metemos. Aliás, uma das coisas mais assustadoras no maravilhoso mundo não tão novo dos blogs é seu excesso de certezas e escassez de dúvidas, o seu sem-número de opiniões mas sua carência de embasamento.

De minha parte, neste momento de desencanto, sinto que o momento é de voltar aos livros, buscar na sabedoria de longo prazo que só eles oferecem inspiração e subsídios para entender mais esse tremendo retrocesso da esquerda brasileira.
Eduardo Guimarães afirmou ontem que perdeu muitos negócios por conta da dedicação a seu blog e à militância virtual; eu, para me dedicar a esta e a este espaço bem mais modesto, não perdi dinheiro, mas adiei o lançamento de livros e diminuí minha produção como autor acadêmico. É momento de rever prioridades e de aquietar meu lado militante e minha identificação com movimentos e partidos. Este blog continuará, mas com uma pauta mais diversificada e com textos mais leves, fiel à paixão ao jornalismo, ao cinema e à cultura em geral.
A despeito de seu triste e revoltante final, foi gratificante tomar parte da primavera digital. Mas, como diz a canção, todo carnaval tem seu fim.

[1] No que concerne especificamente a tais problemas de caixa, a minha crítica não é a Lula por tê-la deixado – isso fatalmente aconteceria no bojo de um crescimento expressivo da economia, ainda mais em ano eleitoral -, mas à retomada da ortodoxia neoliberal promovida por Dilma para lidar com a questão, priorizando uma vez mais o mercado e o grande capital - em detrimento de assalariados e desempregados - ao invés de adotar medidas menos traumáticas, alongando o perfil do pagamento da dívida e fazendo valer o poder de barganha que o Brasil, ótimo pagador, angariou nos últimos anos. Porém, o próprio esforço dos que não admitem nenhuma crítica a Lula ou a Dilma para negar o buraco no caixa é sintomático do quão contaminados estão por premissas do ideário neoliberal no que tange à administração da macroeconomia do país. É a prova da presença insidiosa do neoliberalismo em mentes que se crêem de esquerda.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

O velho jornaleiro

Um dia desses, ao voltar a São Paulo para visitar meus pais, descendo a principal rua do bairro onde morei dos três anos ao final da adolescência – um enclave português no subúrbio –, tomei um susto ao notar que a banca de jornais de “seu” Ari transformara-se em um ponto comercial vulgar, de venda de acessórios para motos.

“Seu” Ari era um nissei muito franzino, de uma educação e de uma dignidade evidentes por trás dos óculos de aros finos e dos cabelos precocemente grisalhos. As primeiras vezes que fui à sua banca – na verdade, uma portinha de um metro de largura, dando em um fundo corredor ladeado por dezenas de revistas - ele devia ter uns 40 e poucos anos e já tinha essa aparência, enquanto eu começava a sair da infância rumo à puberdade.

Foi quando comecei a ler com regularidade jornais e revistas. O Jornal do Brasil já deixara de ser o mítico JB, a grande referência na imprensa brasileira dos anos 60/70, e a Veja era ainda uma revista bem-escrita e com atraente projeto gráfico, e, embora ligeira, às vezes leviana e sempre de má vontade com a cultura nacional, a anos-luz do panfleto obscurantista que ora se tornou.


Aparências mantidas
O grande jornal brasileiro era a Folha de S. Paulo, ainda beneficiário das reformas promovidas por Claudio Abramo e de uma alardeada obsessão pelo profissionalismo que ao menos mantinha as aparências. Nessa época meu interesse por política era superficial, eu tendia a pular os cadernos iniciais e devorar a Ilustrada, que, a cargo de jovens jornalistas – com o reforço de pesos-pesados como Sergio Augusto e, para o bem ou para o mal, Paulo Francis -, modernizava a crítica cultural e, abrindo-se ao universo pop-rock mais atual, ajudava a tornar respirável a lentíssima abertura política que marcou os estertores da ditadura.

Logo, a Folha ganharia ainda mais cacife, ao se transformar no principal porta-voz das Diretas-Já na imprensa.


Tempos idos
Lembro claramente de chegar algumas vezes da balada e, resistindo ao sono e à tentação de afanar um exemplar da pilha que ficava em plena calçada, ao relento, ficar esperando “seu” Ari abrir a banca. Ele aparecia pontualmente às 05h (e ia embora às 19h), e na eventualidade de eu, "durango", ter gastado todo o meu dinheiro na noite, deixava que eu “pendurasse” – e ainda trocava algumas palavras gentis com o pirralho impertinente. Um gentleman.

Eram outros tempos. Hoje sabemos que o outrora promissor jornal tornou-se uma publicação mesquinha, apequenada por um diretor de redação aloprado, que não hesita em publicar fichas policiais falsas na capa, em atacar grosseiramente respeitados professores universitários, em valer-se de um militante desequilibrado para difamar com leviandade o mais popular presidente do país - cujos méritos se recusa a reconhecer - , em criar factóide atrás de factóide no afã de fazer valer seus interesses político-econômicos, dando uma banana para o leitor, cujas opiniões menospreza.

Ou seja, a partir de um certo momento, instaura-se uma incompatibilidade evidente entre uma publicação tão negligente para com a ética profissional e a dignidade civilizada de alguém como “seu” Ari.


Cai o pano

A última vez que o vi, em uma visita anterior a São Paulo, fiquei impressionado ao constatar o quanto envelhecera: os cabelos, agora ralos, tornaram-se todos brancos; estava encurvado, alquebrado pelo peso dos anos, e, por trás dos óculos agora mais grossos, sua fronte se tornara um feixe flácido de rugas. Só restava, no fundo dos olhos, um brilho agudo de sabedoria - e, intacta, sua dignidade.

Não obstante tal constatação, já nessa ocasião a metáfora contrapondo a débâcle física do jornaleiro e a decadência dos jornais e revistas que comercializava impôs-se, epifânica.

A transformação, em um ponto comercial vulgar, da banca de jornais da qual “seu” Ari retirou, por uma vida, seu sustento, forma, assim, uma alegoria - e um presságio – para o destino da grande imprensa brasileira. A qual, ao renunciar ao jornalismo em prol da defesa de interesses corporativos,atentando contra sua função institucional, republicana, e desrespeitando o leitor, só restará cumprir sua sina. E o fará sem um pingo da dignidade do velho jornaleiro.


(Foto retirada daqui)

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

A volta do "jornalismo do mas"

Ultimamente, parcela da mídia corporativa brasileira, um pouco por começar a inalar o incenso da falência, um pouco para fingir, aos ainda incautos, que pratica jornalismo equilibrado, tem procurado dissimular o ódio a Lula e a Dilma e o apoio ao tucanato e a seu candidato.

Assim, nas últimas semanas têm aparecido em setores da imprensa, com uma freqüência inaudita, artigos aparentemente justos com os fatos, e que insinuam, enfim, reconhecer méritos – esporádicos e mínimos que sejam – em uma administração federal apoiada, segundo as pesquisas, por cerca de 73% da população, em média.

O aparente equilíbrio jornalístico, porém, não resiste a um ou dois parágrafos, pois logo tem lugar o chamado “jornalismo do mas”, em que à mera menção do que possa ser positivo no governo Lula dá lugar a uma avalanche de conjunções adversativas – mas, porém, contudo, todavia, e por aí vai – que introduzem arrazoados sem razão e diabólicas diatribes na tentativa de convencer o leitor de que não é bom o país crescer, que essa história de deixar de obedecer cegamente aos EUA não vai dar certo e que o Bolsa-Família sustenta vagabundos.

Para completar, quando o jornal em questão é a Folha de S. Paulo, ao lado de uma matéria desse tipo há um box, intitulado “outro lado”, que, democraticamente, se dedica a ouvir... o mesmo lado, ou seja, os tucanos, demos e psolentos encarregados de entoar a cantilena dominante no artigo.

Na Folha, aliás, o tal “jornalismo do mas” não é novidade. Só que, no longo período em que o jornal parecia prestes a se tornar uma Veja diária – com direito a ficha falsa na capa, ataque de Frias a professores renomados, "denúncias" de Cesinha e anomalias do tipo -, essa exótica modalidade de jornalismo era de uso prioritário de seus colunistas – os quais, premidos pela necessidade de aparentar isenção, se viam, de quando em quando, obrigados a reconhecer um avanço ou outro, para logo em seguida sapecar um "no entanto" e começar a artilharia anti-Lula.

Por isso, a primeira vez que me apercebi do “jornalismo do mas” foi num artigo sobre Clóvis Rossi que escrevi para o Observatório da Imprensa e depois republiquei, com alterações, no blog. De lá para cá, tornou-se recorrente tal modalidade de apelação pseudo-jornalista, que não se restringe mais ao casmurro colunista e seus colegas que desempenham a mesma função no diário dos Frias.

Aliás, a Folha é, sem dúvida, o órgão que com mais frequência e da maneira mais deslavada tem recorrido a esse estratagema dissimulador, até para tentar convencer que à reforma gráfica recente do jornal, que tornou os infográficos ainda mais coloridos e pululantes, correspondeu uma revisão – com sinal progressista - de sua linha editorial. O que acontece, a bem da verdade, é exatamente o contrário, com colunistas mais liberais – como Paulo Nogueira Batista Jr. – tendo sido defenestrados, substituídos por imberbes colunistas de formação neocon.

O problema é que, longe dos círculos mais informados e da blogosfera de esquerda, há quem se deixe enganar pelo truque. Para meu espanto e decepção, tenho presenciado in loco tal fenômeno.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Frias e a reforma da Folha

A Folha de S. Paulo está de cara nova. Agora, além dos infográficos pululando em profusão, há todo um design padronizado, privilegiando o azul. Impossível não pensar em Dorian Gray, personagem de Oscar Wilde que mantém uma bela e jovem aparência física a ocultar uma essência putrefata e carcomida.

Não passa de coincidência, é claro, que azul seja a cor primária do PSDB e que, embora a mais recente pesquisa eleitoral presidencial divulgada pelo enquadrado Datafolha tenha constatado empate em 37%, Serra, em foto favorável (na medida do possível, é claro...), continue ocupando o canto superior esquerdo, em harmonia com o azul dominante que lhe é graficamente destinado, enquanto Dilma, em sisudo close, venha depois, devidamente borrada com o vermelho do comunismo comedor de criancinhas.

Como se sabe, o leitor do diário da Barão de Limeira – essa espécie de mulher de malandro que adora ser enganada - só foi informado do empate entre Serra e Dilma porque o outrora soi disant respeitável Datafolha, agora na mira do Ministério Público, subitamente divulgou números bem diferentes dos alegadamente auferidos por suas pesquisas anteriores. O receio que o motiva, porém, não é tanto a ponto de o site do instituto atualizar manchetes. Lá, a mais recente - das que dizem respeito às eleições presidenciais - é de 03/05 e faz companhia a outras em que Serra continua bem à frente. Ficam lá, mofando, misto de saudade e wishful thinking vindo do passado.

Mas não sejamos maldosos: talvez a demora em atualizar a página se deva à concepção anacrônica que os Frias têm da internet. A se basear nas palavras do intelectual da famiglia sobre o jornalismo na web, talvez eles sequer saibam o quão fácil é renovar um site. Vejam o que o chefe do clã, após cometer a declaração desprovida de clichês de que o jornalismo tem sete vidas, escreveu:

“Muito desse novo jornalismo tem qualidade discutível, quando não é produto de mera pirataria. Os blogs e o jornalismo cidadão parecem oportunidades promissoras, mas quase sempre seu alcance fica limitado, seja em termos de recursos ou abrangência, seja porque expressam visões demasiado particulares e engajadas. Para piorar, o jornalismo que emerge está eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconsequência”.
O velho Freud deve estar se remoendo no túmulo! Até um primeiroanista em Psicologia reconheria o quanto há de projeção referente a seu próprio jornal na fala de Frias. Faça um favor, leitor(a): releia o trecho pensando na Folha e gargalhe junto comigo.

Poderíamos utilizar a lógica para contrapôr à afirmação de que muito do jornalismo virtual teria qualidade discutível, a constatação decorrente de que há ilhas de qualidade – certamente muito mais recorrentes e de melhor qualidade do que na própria Folha, onde tal coisa é artigo rarefeito. Ou nos resfestelar apontando a contradição de alguém responsável há tantos anos pela Ilustrada e pelo Folhateen – que fazem um tal culto aos ídolos do pop/rock estrangeiro que até o nada nacionalista Caetano Veloso se viu instado a criticar-lhes – acusar o culto à celebridade. Mas minha parte favorita é quando Frias acusa os blogues de expressarem visões engajadas. Vindo de quem vem, é hilário.

Certamente para evitar tal risco, a reforma do jornal incluiu a demissão até do Paulo Nogueira Batista e a contratação de colunistas afinados com a linha editorial da Veja, digo, da Folha.

Frias prossegue, evidenciando que a sua teimosia em ser publisher está privando o público brasileiro de um humorista de mão cheia:

“Conforme mais pessoas imergem no oceano de dados e versões que giram pela rede, maior a demanda por um veículo capaz de apurar melhor, selecionar, resumir, analisar e hierarquizar. Esse veículo, no papel ou na tela, se chama jornal”.
Ou seja, tal qual uma Maria Antonieta recomendando ao povo que coma brioches, o publisher da Folha ainda acredita que seu diário, violador sistemático da ética jornalística, tem a função de hierarquizar a notícia de forma a conduzir o leitor – uma pretensão reveladora não apenas de seu anacronismo, mas de suas tendências autocráticas.

Ao ler o artigo de um dos próceres da plutocracia midiática, fica evidente que a crise da imprensa brasileira é ainda pior do que se imagina: ele não está entendendo nada, absolutamente nada da nova dinâmica da comunicação na era digital.

Mas numa coisa eu concordo com Frias Filho: o jornalismo tem sete vidas. A Folha está na sétima.


(Imagem retirada daqui)