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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Filme sobre Thatcher supera armadilhas


No história recente, poucas figuras públicas deixaram mais evidentes as ambiguidades e contradições entre questões de gênero e política do que Margaret Thatcher.

Numa sociedade caracteristicamente conservadora, sua ascensão de filha de pequenos comerciantes a primeira-ministra da Grã-Bretanha – e, daí, a uma das principais lideranças mundiais de seu tempo - a torna, por si só, um símbolo da emancipação feminina, dos novos papeis e das potencialidades de ascensão e de representação social da mulher no século XX. Para o bem ou para o mal, credencia-se, em decorrência, como um ícone feminista.

Por outro lado, seus quase 12 anos no poder marcam o momento de afirmação do neoliberalismo sem freios, do enfraquecimento do Estado, do desmanche dos sindicatos e da legislação trabalhista, com gravíssimas consequências sociais para os pobres e para a classe trabalhadora – algumas delas perdurando até nossos dias. É impossível para um humanista ou para qualquer pessoa que preze mais os seres humanos do que o mercado de capitais avaliar como positivo o legado de sua liderança.

É precisamente ante o dilema acima referido que se depara a produção franco-britânica A Dama de Ferro, a cargo de Phyllida Lloyd, consagrada diretora inglesa de ópera.  Antes do filme ser rodado, ela declarou que a intenção era contar a história de Thatcher a partir de um ponto de vista feminista e concentrado na figura humana da retratada, incluindo uma incursão pelos seus anos recentes, reclusa, senil e acometida de demência.

O resultado surpreendente positivamente. O filme, que não se limita a retratar superficialmente o que há de controverso em relação a Margaret Thatcher, deixa claro os danos que o thatcherismo causou à sociedade britânica, seja através profunda insensibilidade social da administradora ou do seu envolvimento entusiasmado no dispendioso e desnecessário derramamento de sangue nas Malvinas.

Colabora sobremaneira para tal feito um roteiro inteligente - a cargo de Abi Morgan -, que contextualiza essas questões tanto através da fala de personagens (“o maior desemprego desde 1930, o mais baixo volume de produção industrial desde 1920”), quanto de trechos de telejornais (reais ou fictícios), além do recurso a impressionantes sequências documentais (onde se vê, por exemplo, um enorme contingente  policial tentando em vão conter a fúria da multidão que protesta contra a repressão às greves).

É evidente que, em se tratando de um produto audiovisual para o grande público, há simplificação, falta de detalhamento e mesmo uma certa condescendência para com a retratada, decorrentes de sua humanização como personagem. Ainda assim, o resultado não é nada ingênuo politicamente.

O esforço relativamente bem-sucedido em conciliar a visão feminista e a avaliação crítica das políticas thatcheristas ajuda a explicar a recepção fria que a obra teve na Inglaterra - pois, por um lado, tal retrato, devido aos efeitos benevolentes da citada humanização da personagem, tende a desagradar os críticos de Thatcher; e, por outro lado, a abordagem crítica sem meias-tintas de sua atuação política tende a contrariar àqueles que a apoiam ou com ela simpatizam. De concreto, pessoas dos círculos próximos à ex-governante protestaram, em entrevistas à imprensa inglesa, pelo que consideram invasão de privacidade alegadamente promovida pelo filme ao retratar sua senilidade.


Meryl Streep, como a Thatcher idosa e sofrendo de demência, tem uma daquelas atuações impressionantes que me fazem defender – a sério – a ideia de que ela deveria ser decretada hors-concours nas premiações para melhor atriz. Já como a "Dama de Ferro" de meia-idade, vivendo sua ascensão e queda como primeira-ministra, embora também ofereça uma performance superlativa em termos de empostação de voz, modo de olhar e gestual de mãos e braços, ressenti-me tanto da ausência, na composição da personagem, de um certo modo de caminhar típico de Thatcher (que pode ser visto em vídeos da época e que a atriz só reproduz ao final do filme), quanto de uma expressão facial mais encruada e maquiavélica (foto à direita), em comparação com a expressão clean e sutilmente cínica de Streep (que evidentemente tem um rosto bem mais bonito que o da ex-primeira-ministra). Mas tais observações, vistas em relação ao todo da atuação, não passam de detalhes, baseados em uma expectativa inflacionada de reprodução do real a qual a própria Streep por vezes parece induzir.

Colabora para a performance de La Streep – que declarou reiteradas vezes ter profundas divergências políticas com Thatcher, mas grande interesse em sua trajetória enquanto mulher - o impressionante trabalho de maquiagem (única categoria, além da de atriz, pela qual o filme é indicado ao Oscar). Mereceria destaque também a atuação de Harry Lloyd como o jovem Denis Thatcher – o marido empresário que colaborou decisivamente para que a jovem Thatcher fosse aceita nos altos círculos ingleses, foi seu companheiro por décadas e com quem, em seus delírios senis, a Margaret idosa dialoga.

As qualidades que permitem fazer uma avaliação positiva da produção, ao longo do texto citadas, estão longe de fazer de The Iron Lady um grande espetáculo cinematográfico. Mas o fato de, no conservadorismo social e cinematográfico vigente, o filme conseguir escapar com galhardia e incisividade da armadilha de glorificar a personagem retratada - e ainda oferecer mais uma grande performance de uma dama da interpretação - não é um feito a ser menosprezado.


(Fotos retiradas, respectivamente, daqui, dali e dacolá)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Os Descendentes e o cinema neo-humanista


O grande trunfo de Os Descendentes (The Descendants, 2011) é voltar-se para o retrato de pessoas comuns, abordando seu cotidiano, dramas e contradições com acento tragicômico – mas sem jamais apelar para o sarcástico de filmes como Beleza Americana ou de diretores como Todd Solontz (Bem-vindo à Casa de Bonecas; Felicidade).

Alexander Payne – dos ótimos A Confissão de Smith, com Jack Nicholson, e Sideways, com Paul Giamatti – é um diretor de outra cepa, que assimilou como poucos de seus conterrâneos as lições do neo-realismo italiano sobre a importância da observação do cotidiano, da criação de sentidos epifânicos através do realismo, da câmera como “seguidora” do protagonista. Dotado de um talento ímpar para gerar significações valendo-se principalmente da dinâmica interna da imagem - algo bem raro hoje em dia - e de um aguçado sentido da estética e da ética contemporâneas, vem se firmando, ao lado de nomes como Iñárritu, Kiarostami e Walter Salles como um dos diretores mais representativos do neo-humanismo no cinema.

Na era da edição frenética, em que as pesquisas mostram que as novas gerações, educadas na gramática visual MTV, tendem a dispersar sua atenção se as tomadas duram mais de sete segundos, a montagem de Descendentes - concebida por Payne e realizada por Kevin Tent, indicado ao Oscar-, sem jamais soar arrastada, preserva o delicado equilíbrio entre a dinâmica interna da sequência e sua duração, de modo a potencializar a geração de sentidos.

Tais qualidades são especialmente propícias a essa produção norte-americana, cujo tema central é a crise – pessoal, familiar, de masculinidade – de um advogado sovina, representante legal de sua enorme família em um negócio de terras, que, não bastasse defrontar-se com a esposa Liza à beira da morte por conta de um acidente, descobre que ela o traía e planejava o divórcio. A dificuldade para lidar com seus sentimentos – os quais nunca explicita – e para manter-se equilibrado o suficiente para administrar tal situação, somada à conflituosa relação com suas duas filhas – uma adolescente, outra prestes a ingressar na puberdade, ambas também vivenciando dilemas emocionais -, formam o substrato dramático da narrativa.

Em termos formais, a fotografia trabalha em baixo contraste a luz intensa do Havaí, de forma que mesmo o solar e o luminoso predominantes adquirem um quê de sóbrio e, às vezes, melancólico, sendo que as nuances pontuais de iluminação tendem a privilegiar o humano (faces, sobretudo) ante o peculiar esplendor da paisagem havaiana, que no mais das vezes não é realçada.

Ainda assim, colabora para dotar o filme de um certo exotismo a escolha do arquipélago havaiano como locação, dadas a a ambiência praiana típica e a mescla da cultura local – no vestir-se, na comida, nas expressões idiomáticas e, sobretudo na música (que serve de trilha sonora) – e norte-americana – a língua, sobretudo, mas também os códigos de conduta, como a indefectível niceness da esposa do amante de Liza. É questionável, porém, até que ponto tal ambiência realmente se insere dramaturgicamente na trama – como em Lost in Translation, de Sofia Coppola - ou se não passa de um penduricalho artificial a evidenciar o esgotamento do cânone e, numa manjada estratégia cinematográfica pós-moderna, a adicionar um tempero camp à trama.

A novata Shailene Woodley, como a filha adolescente que rompera com a mãe por flagrá-la com o amante, oferece uma performance só aparentemente discreta, cujo valor está justamente nas sutilezas - e que lhe valeram, até agora, nos EUA, quatro prêmios regionais e dois nacionais, incluindo o prestigioso National Board of Review, o prêmio nacional da crítica. Indicada ao Globo de Ouro, junta-se a Tilda Swinton, protagonista de Precisamos Falar sobre o Kevin, como uma das injustiçadas do Oscar 2012.

Já George Clooney, na pele do advogado sovina Matt King, ganhou o Golden Globe e pode levar também o Oscar, mas sua atuação está longe de oferecer as nuances interpretativas de que atores como Sean Penn e Anthony Hopkins são capazes e que um personagem tão complexo, em uma situação tão instável e conflituosa, demandaria. O máximo que consegue é expressar a dificuldade em administrar a contradição entre a raiva e a frustração interiores e a necessidade de manter as aparências e o autocontrole - além de, próximo ao final, permitir o vislumbre da chama de grandeza humana que pulsa no interior desse personagem dilacerado. Talvez grande parte do impacto de sua atuação advenha da surpresa em constatar que um galã como Clooney soa convincente na pele de um homem em plena phalic failure, traído pela esposa e ao mesmo tempo condoído e impotente ante sua morte, incapaz de funcionar como pai, um ser humano aparentemente bem-sucedido, mas que olha para trás e vê que o só o que fez na vida foi trabalhar e guardar dinheiro.

E é precisamente o modo sensível – mas nunca, jamais piegas – com que Payne conduz tais dilemas, e a profunda ressonância que o drama desse homem, de suas filhas e dos que orbitam em torno dessa família encontra na vida real cotidiana que faz com que Os Descendentes, mesmo sem ser um grande filme, mereça ser visto. Difícil sair do cinema impune e esquecê-lo na primeira esquina.


(Fotos retiradas, respectivamente, daqui e dali)