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terça-feira, 21 de junho de 2016

Haddad na encruzilhada eleitoral

Uma maioria maciça de 55% dos eleitores considera a gestão Haddad ruim ou péssima, registra pesquisa do Ibope divulgada hoje. Para 33% ela é regular e para meros 12%, ótima ou boa.

Haddad é, ainda, o candidato com a maior rejeição, com 46%, um índice que supera em quatro pontos o limite-padrão de viabilidade eleitoral estabelecido pelos especialistas para eleições em dois turnos.

Cabe assinalar, ainda, ser provável que essa pesquisa - feita entre os dias 16 e 19 - tenha captado só parcialmente o desgaste do prefeito em decorrência de sua política desumana para com os moradores de rua, amplamente perceptível nos fóruns públicos e redes sociais (que o apelidaram, significadamente, de Maldadd).

Pode-se argumentar que, na eleição anterior, em 2012, Haddad também largou mal, foi subindo, subindo e saiu vitorioso no segundo turno, enquanto Serra e Russomano [que tinha, na primeira pesquisa eleitoral, os mesmíssimos 26% ora captados pelo Ibope] decaíram. Só que ele era então uma novidade, quase um outsider, o jovem e promissor acadêmico com uma passagem tida (então) como brilhante à frente do Ministério da Educação.

Agora, a situação inverte-se: ele é situação e terá de enfrentar não só o ônus e o desgaste de quatro anos à frente da Prefeitura, mas a concorrência de candidatas que, como ele, têm origem no petismo, vivência na esquerda e experiência administrativa, como Marta Suplicy (PMDB) e Luiza Erundina (PSOL) - as quais, com, respectivamente, 10% e 8%, aparecem à sua frente na pesquisa Ibope.

Além disso, os reflexos da derrocada moral e política do PT no âmbito nacional devem cobrar um alto preço. Como explicar, de forma eticamente coerente, que Gabriel Chalita, que até ontem era pupilo dileto de Temer - a quem os petistas acusam de golpista - tenha sido o escolhido para ser vice na chapa de Haddad?

Tudo somado, mesmo com toda a máquina estatal e a expertise marqueteira, tudo indica que será uma tarefa árdua para o PT reeleger-se para a prefeitura de SP - a mais simbólica e maior esperança do partido de administrar um orçamento público de grande porte a partir das eleições deste ano.


(Foto retirada daqui)

sábado, 25 de setembro de 2010

Marina, a mídia e os eleitores

Ainda que explicado por dar sobrevida aos seus objetivos políticos - mantendo acessa, em fogo baixo, a possibilidade de segundo turno -, o contagiante entusiasmo da mídia por Marina Silva nos últimos dias não deixa de ter algo de tristemente irônico e contraditório.

Não que a fascinação da mídia pela candidata verde seja inusitada: como tive oportunidade de demonstrar em um artigo acadêmico apresentado ao congresso da Compolítica em dezembro último – e depois, atualizado e reformatado, ao congresso da International Association of Media and Communicaton Research (IACMR), onde foi bem recebido por brasilianistas franceses -, deslumbre é o substantivo-chave para descrever a forma como as três principais revistas semanais cobriram a candidatura da senadora acreana no primeiro mês após ser anunciada.

Tal deslumbre “apoiava-se” numa única pesquisa, de metodologia altamente questionável, feita por um obscuro instituto e que sustentava que Marina largava contando com “de 12 a 14% da intenção de votos”; em editoriais repletos de wishful thinkings, que previam, em poucas semanas, o protagonismo da candidata; e numa completa repaginação do visual de Marina, que de temerária ecologista petista passou, num passe de mágica, a produto de ponta do marketing político (a platéia da PUC/SP foi às gargalhadas quando eu mostrei, lado a lado, as fotos que Veja, IstoÉ e Época publicavam dela quando era ministra e os verdadeiros editais de moda – num deles, com Marina pousando de terninho em um bosque, sob luz trabalhada – que tiveram lugar tão logo ela anunciou ser candidata).


Longa hibernação
Porém, depois desse entusiasmo inicial veio uma longuíssima, aparentemente interminável, fase de estagnação, durante a qual nenhuma das alvissareiras previsões da grande mídia para sua candidatura se cumpriu: ela parecia incapaz sequer de alcançar os dois dígitos.

Na penúltima sexta-feira, no entanto, após mais de um ano de estagnação, Marina conseguiu superar tal barreira psicológica, atingindo 11% das intenções de voto segundo o Ibope - instituto cujas pesquisas, como as do Datafolha, têm despertado suspeitas e acusações. Uma semana depois, a acreana subiu mais dois pontos. Com 13% dos votos, continua a anos-luz de Dilma Rousseff – que, de acordo com o mesmo instituto, tem 55%, ou seja 43 pontos a mais – e mesmo de José Sera, com 31%.

Acontece, porém, que o cálculo que interessa à oposição e à mídia – que neste momento são, com raríssimas exceções, uma coisa só – é que Dilma teria, agora, 9% a mais de votos do que a soma de seus adversários – cinco pontos a menos do que tinha a semana passada. Como se sabe, se a soma dos votos dos adversários superar o número de votos de Dilma haverá segundo turno.

Desnecessário identificar que vem daí o renovado entusiasmo da mídia por Marina Silva – da mesma mídia que sempre a tratou como uma entidade política anacrônica, incompetente, “aferrada ao passado” (Leonardo Attuch ,em 2009, na IstoÉ), capaz de diagnósticos “dolorosamente temerários” (André Petry, em 2008, na Veja).


Sob a mira da história
Será uma lástima e uma triste ironia se Marina Silva, com a belíssima história de vida que tem e com a dignidade que por tanto tempo fez por merecer, venha efetivamente se prestar a esse triste papel de servir tão-somente como alavanca à pior direita, dando sobrevida ao moribundo José Serra – o político mais nocivo e potencialmente perigoso à democracia brasileira desde a abertura política, como as baixarias de sua campanha corroboram.

É preciso, neste momento, que aqueles dentre os eleitores de Marina que realmente prezam pelo futuro do país e pela evolução da sociedade em termos sociais e democráticos reflitam acerca das conseqüências colaterais de seu voto. Ele certamente não elegerá Marina, mas pode servir para encerrar uma era de acelerada inclusão social - em que mais de 30 milhões saíram da pobreza -, de projeção internacional do Brasil e de aprimoramento do diálogo com a sociedade,substituindo-a pelo retorno à insensibilidade social neoliberal, à subserviência colonizada aos EUA e ao descolamento entre governo e sociedade civil que caracterizam as administrações tucanas.

Os eleitores de Marina estão prontos para assumir o ônus desse retrocesso?