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terça-feira, 21 de julho de 2009

O artista e a vespa

A literatura de Chico Buarque não é pra um dioguinho qualquer.

Como se sabe, o infante terrível da Veja andou atacando o cantor e compositor após a participação deste na Festa Literária Internacional de Parati (FLIP). Nas suas críticas, dioguito emprega o método usual: muita agressividade, pouco conteúdo (coluna disponível aqui, ao final de uma análise que a disseca com primor).

Na era da informação, no entanto, não adianta berrar, é preciso ponderar e convencer. Então proponho que analisemos com algum detalhe e recorrendo a fontes bem mais autorizadas do que dioguinho, a literatura produzida por Chico Buarque, para em seguida debatermos as razões de tanto ímpeto destrutivo contra um dos poucos grandes artistas brasileiros que não fomentam a cultura da celebridade nem o estrelismo.

A produção livresca de Chico Buarque, de acordo com a maioria dos críticos literários que se debruçaram analiticamente sobre sua obra, insere-se, com destaque, na tradição romanesca brasileira. Segundo o poeta, editor, critico literário e professor de Literatura Brasileira na USP, Augusto Massi:

“Estamos diante de um escritor de mão cheia e que, desde Estorvo, vem alterando o campo de forças da nossa tradição literária (...) no confronto com a visão de mundo de outros excelentes narradores, como Milton Hatoum e Marçal Aquino, seus livros suscitam questões mais amplas, complexas e agudas. Dentro dessa perspectiva, é preciso sublinhar que os três romances, Estorvo (1991), Benjamim (1995), Budapeste (2003), formam um ciclo narrativo notável (...) Budapeste, o mais bem realizado dos três, é o melhor romance brasileiro dos últimos 30 anos. Só Raduan Nassar alcançou o mesmo nível de realização formal.”

Confesso que me surpreendi ao ler a afirmação de Massi quanto a Budapeste. Primeiro, porque, há pouco mais de dois anos, logo após ler o livro, expressei opinião praticamente idêntica, em email a uma amiga – a professora de Jornalismo da UFF, Sylvia Moretzsohn. Segundo, e mais importante, porque cansei de ouvir, nos meios que, parafraseando o sociológo Renato Ortiz, praticam religiosidade popular nas discussões sobre cultura no Brasil, que Chico Buarque era um escritor medíocre e Budapeste o pior livro da trilogia iniciada com Estorvo. Como se vê, a vespa da intriga, como diria Orestes Barbosa, não se limita a picar certos colunistas...

Para José Miguel Wisnik - que não apenas atua na academia, mas compartilha com Chico o ofício de compositor:
“Tecnicamente, Budapeste é um romance do duplo, tema clássico na literatura ocidental desde que a identidade do sujeito tornou-se problema e enigma (...) Na criação literária, no entanto, o escritor é o duplo de si mesmo, por excelência e por definição, aquele que se inventa como outro e que escreve, por um outro, a própria obra”
É sobre esse último paradoxo, multiplicado por meio de artíficios narrativos que veremos a seguir, que o livro em questão se desenvolve.

O fato de o protagonista-narrador de Budapeste ser um ghost writer e tradutor instaura três niveis narrativos - o linguistico, o metalinguistico e trans-linguistico. Interessa mais a inventividade formal e os intrincados jogos de sentido que essa estrutura proporciona do que a história do tradutor errante e de identidade trocada em si – embora esta não deixe de ser plena de criatividade e fruição.

Budapeste não é tao tenso, tão instaurador de uma psicologia subjetiva perturbada e obsessiva a partir do narrador, como os dois livros anteriores de Chico. Mantém uma aguda e sofisticada critica social - sem explicitá-la, como nas melhores músicas do periodo ditatorial -, notadamente através do encruamento do inconsciente colonizado do brasileiro que vem à tona através do choque do protagonista com a cultura européia e, na sua volta ao Brasil, pela sua mudança de postura em relação ao país. Mas há, em comparação com os outros livros do autor, mais humor em Budapeste, às vezes auto-irônico e de quando em quando hilário (como na descrição das noitadas de música no botequim "Chamego de Gambá”).

Com um dominio seguro da técnica literária, Buarque oferece uma narrativa muito “amarrada”, muito cheia de referências pop e culturais e de jogos sub-reptícios de palavras e sentidos. A obsessão do personagem central pela impenetrável língua húngara, somada à visão que seus clientes internacionais têm do Rio, propiciam a mais deliciosamente sutil (porém incisiva) critica à globalizacao que tive o prazer de ler num livro nacional de ficção.

Mas o que mais me fascina em Budapeste é o modo como Chico se relaciona com o universo feminino, seja na descrição que faz da sensual, prática e hiperativa mulher do protagonista; no retrato da relação do protagonista-narrador com ela – marcada por um misto de atração sexual irresistível e esgotamento de qualquer outra fonte alimentadora de convivência cotidiana –; ou , sobretudo, no modo como Buarque simula reproduzir os pensamentos dela como se adentrasse no íntimo do pensar e do sentir feminino.

Essa última característica ecoa uma prática reiterada do Chico compositor – e um dos motivos que o tornaram um dos compositores favoritos das divas da canção brasileira -, herdada de uma de suas mais notáveis influências estilísticas, o grande compositor de samba dos anos 30/40 Wílson Batista: o ato de assumir, na primeira pessoa, uma subjetvidade feminina e a partir dela se expressar. (Um tanto paradoxalmente, essas incursões pelo feminino servem, em Budapeste, à confecção de um complexo retrato da condição masculina na contemporaneidade.)

A influência da música na literatura de Chico Buarque é também explorada por Samuel Titan Jr., professor de Teoria Literária na USP - e que atuou como moderador da mesa em que Chico e Milton Hatoum debateram na última Flip -, em análise do novo livro do compositor, Leite Derramado, reproduzida pelo site português Ìpsilon:
"Sem ter nada de superficialmente musical, o fraseado de Chico Buarque tem o mesmo acabamento rítmico de suas melhores canções; sem cair na oralidade fácil, sua prosa recolhe as sugestões mais poéticas e as camadas mais crassas do registro coloquial brasileiro e as transfigura segundo as necessidades da invenção romanesca". Considera ainda que, "sem o menor traço de exibicionismo letrado", os romances de Chico "revisitam e actualizam o melhor da produção literária e ensaística brasileira, do Machado de Assis de 'Dom Casmurro' aos romancistas da década de 1930, da prosa modernista ao ensaísmo da geração de seu pai, Sérgio Buarque de Holanda".

Chilique rancoroso
Mas é pra lá de óbvio que não é de literatura que se trata o chilique de dioguinho, valendo-se do auxílio luxuoso duvidoso da escritora irlandesa desconhecida com sobrenome de uísque vagabundo. Trata-se, sim, de dois sentimentos humanos, demasiadamente humanos: a inveja e o rancor.

Inveja porque Chico Buarque é inegavelmente um homem muito bonito e, mais do que isso, charmoso, inteligente, íntegro, dono de um estilo em que convivem a fina ironia e a capacidade de rir de si mesmo. Além disso, como sói acontecer com os talentos autênticos, prefere a modéstia à arrogância, esta uma muleta dos que se sabem medíocres e vendidos ao grande capital.

Rancor porque Chico Buarque é não apenas um ícone da esquerda, mas, mais do que isso, um ícone POPULAR da esquerda. Quem acompanhou as reações de reverência autêntica e de gratidão demonstrada por hordas de "populares" durante os preparativos e o desfile apotéotico que Chico fez pela Mangueira em 1998 sabe do que estou falando.

Trata-se de exemplo raro de pessoa pública que não só teve um papel preponderante no combate à ditadura mas manteve suas posições quando a política saiu de moda, substituída pelo culto às celebridades. Durante todo o período de retomada da democracia, procurou amiúde reiterar posições esquerdistas nas entrevistas que deu, sem abdicar, a um tempo, de uma análise sofisticada do contexto político e da recusa em servir de farol e líder – enfatizando a todo momento estar expressando sua visão política pessoal.

Além disso, é adepto do exercício da democracia no âmbito de sua profissão: a cada eleição presidencial, convida todos os candidatos e alguns membros da classe artística para reuniões em sua casa. Ouve as propostas de todos e, ao final do processo, sem interferir no juízo de seus colegas, comunica-se com a imprensa e declara seu voto. Deixemos a fama de Chico de lado por ora: já imaginaram o avanço democrático que poderíamos ter se os membros destacados de cada classe profissional agissem dessa maneira?

Durante a ditadura militar – que coincide com o ápice de sua carreira– foi um dos compositores mais visados pela censura vigente, mas não cansou de fustigar e ridicularizar o regime, valendo-se de artifícios os mais diversos, inclusive a invenção – com direito a entrevista ao Jornal do Brasil - de um compositor de morro inexistente, com o improvável nome de Julinho de Adelaide, para driblar a censura. É possível recriar a história dos “anos de chumbo” através das canções de Chico: a traição à democracia (“Até pensei”, “Os inconfidentes”, sobre poema de Cecília Meirelles), a tortura (“Cálice”, em parceria com Gil, “Fado tropical”, com Ruy Guerra), a insegurança de se viver num estado policial (“Acorda, amor”, sob o pseudônimo de Julinho de Adelaide), a ação da censura (“Meu caro amigo”, parceria com Francis Hime), a afirmação da esperança (“Quando o carnaval chegar”, Apesar de você”), a denúncia da mentira do “Brasil grande” (“Bye, bye, Brasil”, com Menescal) e o hino em forma de samba anunciando o fim do arbítrio (“Vai passar”), entre tantas outras músicas.

Mas é importante salientar que, ao contrário de boa parte do cancioneiro de protesto que vigeu à época em outros países latino-americanos (Argentina e Chile, destacadamente), as músicas de Chico Buarque transcendem a crítica política e sustentam-se no tempo como composições superlativas por si mesmas, à revelia do contexto político. Eis a marca do grande artista.

Desnecessário dizer que dieguinho, pena de aluguel rancoroso e de mal com o mundo, não pode nem sonhar com essas qualidades pessoais e com tamanho talento. Resta-lhe então dar asas a seu rancor e à sua inveja, ao mesmo tempo em que agrada o patrão plutocrata atacando um símbolo da esquerda. Mas chega de gastar tinta com esse peso-ameba das letras nacionais. A comparação definitiva entre dieguito e o filho de Sérgio Buarque já foi feita pelo jornalista Luiz Antonio Magalhães.

E este post não diz respeito a mediocridades, mas a um artista da mais fina cepa, um homem honrado e um autêntico ídolo popular; ao herdeiro dileto de Tom Jobim, por ele denominado "Maestro soberano": Chico Buarque de Hollanda.

(Foto retirada daqui)

8 comentários:

Hugo Albuquerque disse...

Porra, Maurício, acertou no alvo - é até difícil acrescentar mais alguma coisa. Pode-se traçar um paralelo da crítica de Mainardi em relação a Chico com a que Demétrio Magnoli fez ao Professor Kabengele Munanga: Independentemente da questão, a diferença moral e intelectual entre o crítico e o criticado é tão grande que a própria crítica já nasce tão viciada a ponto de ser impossível o debate.

Maurício Caleiro disse...

Hugo,

Você tem toda a razão, não dá pra comparar. Por absoluta incompatibilidade moral, intelectual - e eu acrescentaria, de talento!

Um abraço,
Maurício.

Claudio Costa disse...

É triste saber da existência do tal colunista de uma certa revista semanal pelo veneno que destila...
Por outro lado, conheço Chico Buarque desde a adolescência pela sua arte. Seu post é perfeito!

iaiá disse...

e após o excelente post e o brilhante comentário do hugo ( eu tb li os post do demétrio ao professor e a resposta do mesmo) só acrescento que a prova que a inveja não mata é que o dioguinho ainad tá vivo.
e para que não sabe ele adoar falar aos 4 ventos que não gosta de música. e isso explica muito.

João Villaverde disse...

Magistral, Maurício.

Sobre dioguinho, tem muito mais por trás disso aí. Vale a pena perguntar como ele conseguiu falar com a fonte se ele não estava na Flip. Se checarmos quem da revista Veja estava e quais os interesses comerciais/editoriais do dito cujo por trás de um "ataque" ao Chico, veremos que, no fundo, dioguinho nem escreveu a coluna (também não é a primeira vez que isso acontece).

Dioguinho tem um espaço, assinado por ele, que é ocupado rotineiramente por outros membros da revista. Ele funciona quase como aqueles personagens que o jornal esportivo Lance! criou para falar dos times. Os repórteres (e torcedores) é que escrevem a coluna, assinando com o nome falso, apenas para gerar polêmica.

Com dioguinho, no caso, a história é outra. Ele é usado para as jogatinas da turma de cima ou por outros de fora.

O pessoal da revista funciona como um todo. Na mesma semana que dioguinho "escreveu" a coluna criticando Chico Buarque, seu amigo reinaldinho escreveu no blog textos semelhantes, todos desancando Chico.

Uma farsa completa, do começo ao fim.

É isso, mais uma vez parabéns pelo texto Maurício.

Maurício Caleiro disse...

Obrigado, Claudio!

Também padeço da tristeza de saber que nossa mídia dá abrigo a alguém assim.


Iaiá,

Não gosta de música é? Tem ausência de gosto pra tudo, não é mesmo?


Villaverde,

Então, pelo que vc descreve, o O pessoal da revista funciona não apenas como um todo, mas como um toLdo, certo?

Obrigado a todos por prestigiarem o blog.

Diego Viana disse...

O mais divertido é um detalhe no final, em que ele fala em "teses de mestrado"... putz, o sujeito quer se fazer de sabidão e nem sabe que isso não existe...

Maurício Caleiro disse...

Diego,

É que o dioguito é muito chique, então ele esquece que está nesta república bananeira que detesta (as pessoas aplaudem até pôr-se-sol!, desespera-se) e pensa que tá nos states. Lá é tese de mestrado e dissetação de doutorado (não sei por que copiamos "errado" isso deles. Deve ser a tal da "incompetência criativa para copiar" de que fala o Paulo Emílio).

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