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terça-feira, 7 de julho de 2009

O PT e a Síndrome de Pollyanna


Durante anos ouvi e li críticas ao Partido dos Trabalhadores (PT). Como elas vinham mais de setores conservadores do que de partes da esquerda, e como eram publicadas na imprensa em número muito maior do que as que se referiam a outros partidos, sempre as encarei com desconfiança.

Algumas me pareciam francamente injustas – como a recorrente acusação de que o PT se valia de denuncismo como principal forma de oposição aos governantes dos outros partidos. Basta pesquisar nos anais do Congresso o número de vezes que o partido votou a favor de medidas propostas pela base aliada de FHC porque as julgava procedentes (e compará-lo com as vezes que o PSDB e o DEM fizeram o mesmo em relação à Presidência de Lula), para que tal afirmação se mostre inverídica. Mais: ante o denuncismo real e exacerbado que desde a posse de Lula é a única forma de “fazer política” de uma oposição (PSDB, DEM, PPS) que, apoiada pela “grande mídia”, viciou-se num jogo de derruba-presidente, chega a ser hipócrita atribuir tal característica unicamente ao PT, como de ordinário diversos colunistas o fazem.

Isso não quer dizer que o moralismo não fosse um dos traços definidores – e, como veremos, uma razão central para algumas das maiores crises – do partido. Mas, a despeito dessa característica, havia espaço para a prática política pragmática - comportamento que não se verificou nos partidos que fazem oposição a Lula quando este assomou à Presidência.

Ascenção marcada por recuos e hesitações
Com a dèbâcle do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partido dos Trabalhadores passou a ser, desde sua criação em 1980 e ao menos até o momento anterior aos preparativos para a campanha presidencial de Lula em 2002, o partido mais capacitado para representar a esquerda. E não apenas por contar com os melhores quadros entre sindicalistas, intelectuais, economistas e demais profissões; mas por oferecer o mais elaborado conteúdo programático, mesmo porque este era ferozmente debatido nas disputas entre os grupos internos do partido – disputa essa que, embora fosse um prato cheio para a mídia explorar suas divisões internas, fazia do PT a agremiação política mais arraigadamente democrática. (Só para efeito de comparação, lembremos que o PSDB escolhe seus candidatos reunindo seus quatro caciques em torno de uma garrafa de vinho num restraurante 5 estrelas.)

Assim foi até o momento em que o Partido dos Trabalhadores começou a ganhar eleições importantes. A passagem de pedra a vidraça fez muito mal à agremiação. Começou com Maria Luiza Fontenelle, eleita prefeita em Fortaleza em 1984 e largada pelo partido às traças quando passou a ser sabotada pelo neocoronelismo cearense; se repetiu com Thelma de Souza (eleita prefeita de Santos em 1988) e, sobretudo, com a primeira grande conquista eleitoral do partido, a prefeitura de São Paulo, através da derrota que, em 1989, Luiza Erundina impingiu a Paulo Maluf (e à mídia, que distorceu os números das pesquisas eleitorais o quanto pôde, fazendo-os saltarem bruscamente na véspera da eleição).

Considero Luiza Erundina a dirigente mais injustiçada da história política do Brasil. O estudo do comportamento da mídia em relação a sua não menos do que brilhante administração pertence ao saldo devedor da academia e dos estudos de mídia para com a população brasileira. Pois não é que em meio ao boicote da imprensa, do empresariado e da burguesia paulista (e não apenas paulistana, pois a resistência a ela transcendia a cidade), o PT resolve brincar de Pollyanna e dar “apoio crítico” a prefeita que elegeu? “Apoio crítico” a uma administração sitiada por todos os lados equivale, como diria minha avó, a entregar a rapadura pro inimigo. E foi precisamente o que aconteceu, com a cidade entregue à direita mais retrógrada e corrupta nos 12 anos seguintes.

Mas eis que, aos trancos e barrancos, devido em grande parte ao governo antiBrasil e antipovo do PSDB de Fernando Henrique Cardoso, a possibilidade efetiva do três vezes candidato Luís Inácio Lula da Silva vencer a eleição presidencial começou a brilhar no horizonte no segundo semestre de 2001. E assim, por vias transversas, entramos na delicada questão da relação de Lula com os “movimentos sociais” (categoria sociológica, aliás, que precisa urgentemente ser rediscutida).

Lula, o PT e a realpolitik
A versão corrente assegura que Lula teria deixado à míngua os “movimentos sociais”, preferindo se aliar a forças conservadoras e a seus velhos caciques políticos como forma de garantir condições de se eleger presidente em 2002. Seu então escudeiro José Dirceu teria sido o arquiteto e muitas vezes o negocista de tais alianças. Endossei algumas vezes essa versão, pois trata-se de um fato.

Mas, ao mesmo tempo, de uma meia-verdade. É a conclusão que cheguei após muito meditar sobre a questão e consultar documentos de época. Pois o que essa versão omite é que, quando do início da negociação de Lula/Dirceu com os petistas, parte do partido agiu, uma vez mais, de forma intransigente, querendo impor certas demandas irreais e um padrão de alianças que teria, na prática, inviabilizado a vitória da candidatura Lula. Portanto, as reiteradamente criticadas alianças firmadas pela realpolitik adotada por Lula já por ocasião da campanha presidencial (que, note-se, era menos elástica do que a atual, por razões que veremos a seguir) deve ser creditada não somente ao pragmatismo-trator da dupla Lula-Dirceu, mas também ao misto de intransigência, falta de visão política e “pollyanismo” de setores do próprio PT.

Para piorar a situação, de posse do poder federal, à ingenuidade característica do partido somou-se a soberba (alguém conheceu arrogância maior do que a de José Dirceu no comando da Casa Civil?). Em política, trata-se de combinação explosiva, que acabou por envolver desastrosamente o PT num grande escândalo de corrupção que a mídia chamou de “mensalão”. Sou esquerdista, mas não estou entre os que fazem ginásticas retóricas para dizer que o “mensalão” não existiu (mesmo porque a atitude de dirigentes como Genoíno comprova o contrário). Mais do que isso: condeno tanto a prática de “caixa 2” do PT (que é do que se trata no dito “mensalão”) como a dos demais partidos que a adotam (que, segundo a crônica política, são todos. De qualquer modo, não nos esqueçamos de que o próprio mensalão que regaria o petismo brotou do governo tucano de Eduardo Azeredo, aquele parlamentar mineiro que quer censurar a internet mas não vai conseguir). Que fique claro: o fato de a prática ser disseminada não inocenta o PT, embora demonstre cabalmente tratar-se de problema estrutural, sistêmico.

Isso posto, o que interessa reter aqui é que a bandeira da moralidade que o partido brandira durante toda a sua história revelou-se subitamente falsa; o bom-mocismo e o “pollyanismo” que o distinguia - e que tantos danos causou ao desempenho de suas próprias administrações – não passava de jogo retórico. Ciente dessa realidade que fingiam desconhecer (ou melhor, cientes que já não podiam mais simular desconhecimento, pois a opinião pública o sabia), grupos de políticos abandonaram o partido por ocasião da denúncia do “mensalão”, migrando para o PSOL ou para outras siglas à esquerda, como o PSTU. Se a realpolitik de Lula já abarcava setores conservadores, ela se torna, como forma de repôr essa debandada, ainda mais elástica, chegando ao cúmulo de incluir políticos com a ficha corrida de Fernando Collor de Mello. Fica a pergunta: Lula teria condições de governabilidade sem tais alianças? Tendo a concordar com Luis Nassif quanto à resposta ser não (o que, convém frisar, não equivale a corroborá-las), pois:
“Há que se discutir os limites entre a real politik e a falta de coragem política. Em minha opinião, sem o realismo político e a incrível capacidade de fazer alianças e esvaziar armações, Lula teria caído. Mas sem a crítica aos pontos essenciais que foram deixados de lado, ele não teria avançado, especialmente nas medidas anti-cíclicas que impediram que o país fosse arrastado pela crise mundial”.
O retorno da Síndrome de Pollyanna
E eis que, após o longo período de discrição e low profile a que o partido se obrigou após o “mensalão”, a Síndrome de Pollyanna ataca de novo E justamente no momento em que o PT é o fiel da balança para a definição da saída ou não de Sarney da Presidência do Senado. Qualquer pessoa com mais de 2 neurônios já se deu conta que a fulanização das denúncias na figura do senador maranhense não passa de estratégia da oposição na briga pelo poder. Se não, vejamos: os “atos secretos” ocorrem há mais de 14 anos (começaram logo após o início da primeira Presidência de FHC); analistas políticos sérios e experientes como Janio de Freitas estimam que eles envolvem benefícios diretos a algo entre 80 e 90% da Casa, em suas diferentes formações ao longo dos anos; um dos maiores e mais espalhafatosos denuncistas, Arthur Virgílio (PSDB-AM), está envolvido até a raiz dos cabelos na falcatrua, por contratação inexplicada de parentes, pelo fato de um filho de um amigo seu receber salário de seu gabinete embora more na Europa, por um empréstimo mal explicado de U$10 mil dólares junto ao pivõ da crise, Agaciel Maia, além de devido a um desvio de R$723 mil do Senado para pagar o tratamento de saúde de sua mãe.

No entanto, "curiosamente", ele continua sendo uma das principais fontes da mídia, figurinha fácil no Jornal Nacional, onde volta e meia aparece afetando indignação e atacando Sarney como se moral para isso tivesse. A colunista Dora Kramer, que tem em seu currículo a glória de ser uma das "menininhas do Jô" (aarrgghhh!), defende Virgílio dia sim, outro também. Há limites até mesmo para a hipocrisia na política e na mídia brasileiras.

A consequência direta de uma eventual - e probabilíssima, se o PT o deserdar – saída de Sarney seria tão-somente entregar a Presidência da Casa a Marconi Perillo (PSDB-GO), político há décadas envolvido em denúncias de corrupção e em atos truculentos. Trocaria-se um “coronel” por outro. Que “moralização” é essa defendida pela mídia e pelos partidos de oposição que consiste na retirada de um presidente do Senado acusado de corrupção que apoia o governo e em sua substituição por outro senador acusado de corrupção, mas este ligado à oposição? Desnecessário responder.

Portanto, posicionar-se pela manutenção de Sarney no posto que ocupa não equivale a defender as práticas do político maranhense. Já me manifestei com clareza a respeito do que penso a seu respeito. Trata-se, isso sim, de assegurar o poder no Senado, conquistado nas urnas, nas mãos das forças que apoiam Lula e suas políticas progressistas – e não entregá-lo de bandeja à oposição privatista, renegada pelo voto popular e tão envolvida na corrupção sistêmica do Senado quanto os senadores da situação.

É preciso, portanto, que o PT demonstre ter um mínimo de profissionalismo político neste momento e pare com essa atitude hipócrita - e que tantos danos causou à imagem do partido - de bancar a Pollyanna. Do contrário, estará colaborando para o aumento considerável do poderio da oposição no Senado, numa mudança com potencial para influenciar decisivamente as próximas eleições presidenciais, já que o presidente da Casa tem plenos poderes para interferir na criação de CPIs e para comandar as votações de projetos do interesse do governo.

Espera-se que o Partido dos Trabalhadores, aos 29 anos de vida, demonstre alguma maturidade, pare de ameaçar repetir os mesmíssimos erros que já o prejudicaram no passado e desperte ouvindo o clamor que Antônio Mello fez em seu Twitter: “Gente, vamos nos ligar. Toda essa pseudobriga no Senado é entre Serra e Dilma. O resto é conversa pra boi dormir. Ou pra tucano acordar”.


(Fotomontagem a partir de imagem da capa do livro Pollyanna, de Eleanor H. Porter, retirada
daqui. Colocada à direita do post em "homenagem" ao espectro político que o PT insiste em beneficiar).

2 comentários:

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Como eu já coloquei reiteradas vezes, creio que a opção de Lula por Sarney acabou sendo uma decorrência lógica de um modo equivocado de lidar com as instituições - uma tentativa de ser mais realista do que a realidade.

Obviamente, o que motivam esses ataques ao Senador ampaense, como qualquer pessoa com dois neurônios pode perceber, são interesses meramente eleitorais e oportunistas.

O que se esconde por detrás de tudo isso são falhas sistêmicas nas estruturas de poder e essas sim é que devem ser trazidas à baila e debatidas - debater Sarney ou não Sarney equivale, ao meu ver, no Mousavi ou não Mousavi do Irã contemporâneo.

Ademais, uma questão que você trouxe nos post e eu julgo muito interessante, é história do "apoio crítico", um conceitinho que virou moda nos meios esquerdistas. Ora essa, todo apoio ou oposição deve decorrer de análise crítica prévia, o que não exclui um perene questionamento, mas torna essa história de apoio crítico uma besteira tremenda.

Nesse ponto, eu sou bem radical: Ou se apóia alguém/algo ou se está contra alguém/algo - restando a terceira hipótese de estar alheio à questão. Nesse sentido, o termo apoio crítico ganha uma significação política que, na verdade verdadeira, equivale ao cinismo centrista do pântano.

Eu, por exemplo, tenho uma posição clara: Sou apoiador do Governo Lula, o que decorre de uma análise crítica prévia da conjuntura e da correlação de forças da política brasileira atual. É o meu governo dos sonhos? Não. É a última bolacha do pacote? Também não é. Mas de acordo com o que nós temos à disposição de maneira concreta é a melhor opção - que, a seu devido tempo terá de ser superada, mas não destruída ou afastada.

Maurício Caleiro disse...

Hugo,

Perfeitas suas colocações. Concordo que há um hiper-pragmatismo e que o governo acabou dependendo demais de Sarney (como você coloca na resposta ao meu comentário no seu blog).

Agora, acho que a culpa deve ser repartida entre o governo propriamente dito (Lula e seus articuladores) e o (a princípio e teoricamente) principal partido de sustentação governista, o PT, pois este, ao invés de um apoio consistente, claudica e às vezes entrega o jogo - como fez quando entregou a Presidência do Senado nas mãos de Severino Cavalcanti, desobedecendo o acordo com Lula e lançando 2 candidatos.

É surreal ser apoiado por um partido que faz uma coisa dessas. E não foi, uma, nem duas, mas várias vezes - inclusive essa agora com o Sarney. Nesse ponto, o Lula tem que ter uma paciência admirável para lidar com isso.