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terça-feira, 21 de junho de 2016

Haddad na encruzilhada eleitoral

Uma maioria maciça de 55% dos eleitores considera a gestão Haddad ruim ou péssima, registra pesquisa do Ibope divulgada hoje. Para 33% ela é regular e para meros 12%, ótima ou boa.

Haddad é, ainda, o candidato com a maior rejeição, com 46%, um índice que supera em quatro pontos o limite-padrão de viabilidade eleitoral estabelecido pelos especialistas para eleições em dois turnos.

Cabe assinalar, ainda, ser provável que essa pesquisa - feita entre os dias 16 e 19 - tenha captado só parcialmente o desgaste do prefeito em decorrência de sua política desumana para com os moradores de rua, amplamente perceptível nos fóruns públicos e redes sociais (que o apelidaram, significadamente, de Maldadd).

Pode-se argumentar que, na eleição anterior, em 2012, Haddad também largou mal, foi subindo, subindo e saiu vitorioso no segundo turno, enquanto Serra e Russomano [que tinha, na primeira pesquisa eleitoral, os mesmíssimos 26% ora captados pelo Ibope] decaíram. Só que ele era então uma novidade, quase um outsider, o jovem e promissor acadêmico com uma passagem tida (então) como brilhante à frente do Ministério da Educação.

Agora, a situação inverte-se: ele é situação e terá de enfrentar não só o ônus e o desgaste de quatro anos à frente da Prefeitura, mas a concorrência de candidatas que, como ele, têm origem no petismo, vivência na esquerda e experiência administrativa, como Marta Suplicy (PMDB) e Luiza Erundina (PSOL) - as quais, com, respectivamente, 10% e 8%, aparecem à sua frente na pesquisa Ibope.

Além disso, os reflexos da derrocada moral e política do PT no âmbito nacional devem cobrar um alto preço. Como explicar, de forma eticamente coerente, que Gabriel Chalita, que até ontem era pupilo dileto de Temer - a quem os petistas acusam de golpista - tenha sido o escolhido para ser vice na chapa de Haddad?

Tudo somado, mesmo com toda a máquina estatal e a expertise marqueteira, tudo indica que será uma tarefa árdua para o PT reeleger-se para a prefeitura de SP - a mais simbólica e maior esperança do partido de administrar um orçamento público de grande porte a partir das eleições deste ano.


(Foto retirada daqui)

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Haddad pode aliar política e cultura

Fernando Haddad assumiu hoje o cargo de prefeito de São Paulo gerando muita expectativa e com enormes desafios à frente. Alguns são inerentes à maior cidade de um país que vem, nos últimos anos, passando por um processo de realocação positiva de classes sociais e, em decorrência, de mudanças no padrão de consumo de estratos da população - o que gera maior demanda por serviços e tende a afetar negativamente a ecologia urbana.

Outros derivam do cenário de terra arrasada deixado por oito anos de gestão do demotucanato, caracterizada pela insensibilidade social, pelo autoritarismo no trato com os cidadãos e pela leviandade na administração da coisa pública, cuja maior evidência é a contraposição dos péssimos serviços de transporte, saúde e educação à dívida de R$69 milhões que lega ao prefeito recém-eleito. (A propósito, a Lei de Responsabilidade Fiscal é para todos ou só para uns poucos?)

A gestão Kassab, que chega ao fim amplamente rejeitada pela população, pode ser resumida em três itens, inter-relacionados entre si: extração de benefício privado da coisa pública, abandono da cidade e da população (há bairros periféricos que simplesmente deixaram de ser atendidos por linhas de ônibus aos finais de semana) e moralismo populista, visando gerar factoides ocasionais, de modo a dar a impressão de governabilidade. O resultado é o caos atual.

Para enfrentar o desafio de reverter esse quadro, Haddad cercou-se de um secretariado que prima por uma formação acima da média, com nomes como o da respeitada economista e professora da USP Leda Paulani (Planejamento, Orçamento e Gestão), de Juca Ferreira, que possivelmente foi, ao lado de Gilberto Gil, o melhor ministro da Cultura que o país já teve, e do arquiteto e doutor pela FAU-USP Fernando de Mello Franco (Desenvolvimento Urbano), encarregado de reformar o polêmico projeto de reurbanização do centro de São Paulo, Nova Luz. Em meio a outros nomes de maior ou menor destaque, macula o secretariado a inclusão do espancador de mulheres Netinho de Paula (Igualdade Racial) e, graças ao acordo pré-eleitoral com Maluf, a cessão da socialmente crucial secretaria da Habitação a uma eminência parda do PP.


Existe amor em SP?
Em seu discurso de posse, cujo mote foi "derrubar o muro da vergonha que separa a cidade rica da cidade pobre", o novo prefeito elencou suas prioridades, concedendo natural e compreensível primazia a questões eminentemente econômicas, com o combate à miséria e a busca do reequilíbrio das contas públicas disputando cabeça a cabeça a primeira colocação. Vêm secundados por uma pauta característica do que seria um governo de centro-esquerda, com destaques para itens como saúde pública, assistência social e moradia popular.

Discursos de posse costumam não passar, no Brasil, de peça de ficção e entretenimento, como bem sabem aqueles que continuam esperando que Dilma Rousseff dê à educação a prioridade que, em seu discurso de exatos dois anos atrás, reiteradas vezes prometeu – e que a realidade tem tratado de reduzir a mera conversa mole, como a recusa em sequer negociar com os professores federais e a truculência com que foram tratados na longa greve de 2011 exemplificam cabalmente. Feita esta ressalva, a fala de Haddad destaca-se por duas razões:

  1. Denota planejamento e organicidade, ao distinguir com clareza prioridades, problemas evidentes e eventuais e objetivos para enfrentá-los, o que o diferencia dos discursos recheados de platitudes genéricas;
  2. Mais importante, ousa avançar para além do pragmatismo burocrático e do convencionalismo político, evocando uma referência cultural – a canção de Criolo -, para, desmentindo-a, afirmar que "existe amor em SP" e conclamar por um novo padrão de convivência na metrópole que cultive "a solidariedade, a fraternidade e o amor ao próximo".

Este último movimento, somado a atenção que Haddad demonstrou ter, em declarações anteriores, para a relação entre cultura e política, traz em si um potencial que, se devidamente trabalhado, pode significar um diferencial do novo prefeito em relação a seus antecessores na cadeira da prefeitura, petistas ou de oposição: a capacidade de estabelecer um diálogo com os setores – jovens, em sua maioria – que anseiam por uma práxis política que incorpore elementos culturais e estéticos ao que veem como domínio exclusivo da economia, do gerenciamento administrativo strictu sensu e dos jogos de poder.


O fator cultura
Trata-se de um anseio difuso, mas facilmente captado por quem convive com a juventude. Que, na política tradicional, tal anseio seja passível de aferição em fenômenos que comumente despertam a ira dos petistas de carteirinha – como a candidatura de Marina Silva à presidência ou de Marcelo Freixo à prefeitura carioca – é mais uma evidência das potencialidades inauditas de Haddad do que uma evidência demeritória contra ele.

Seja como for, para além da ênfase que o novo prefeito venha a dar ao que se convencionou restritivamente chamar de "questões sociais" e à economia, as potencialidades de intervenção no cenário cultural – e, portanto, na autoimagem – da cidade mostram-se evidentes. Para isso, é preciso trabalhar com presteza para que a cidade volte a ter uma identidade cultural e que a cultura deixe de estar a reboque do mercado – como esteve na última década -, como objeto de consumo virtualmente exclusivo da elite.

Nos últimos anos, os espaços culturais sob a administração da prefeitura foram sucateados e a "Virada cultural" tornou-se praticamente o único evento a atrair a população de média e baixa renda – além de muita suspeição em relação aos contratos firmados entre prefeitura e representantes dos artistas. A gestão de Marilena Chaui à frente da secretaria de Cultura na gestão Erundina permanece como um exemplo de uso inteligente e democrático do aparato municipal de cultura, destacadamente do Centro Cultural São Paulo, que tem ótima localização e facilidades de acesso. Um exemplo a ser estudado.

Redimensionada e ampliada pelas facilidades trazidas pela tecnologia digital e pelo tutano antenado do secretário Juca Ferreira, a cultura, se não ficar cerceada pelos ditames da economia, tem tudo para ser um elemento de distinção não apenas da gestão, com benefícios evidentes à cidade, mas do perfil do próprio Haddad como político, que ora começa a ser definido.


(Foto retirada daqui)

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A esquerda e os ataques autoinfligidos

O debate em torno da renúncia de Luiza Erundina à candidatura à vice-prefeitura de São Paulo, para além das questões políticas concretas às quais se liga – como a aliança do PT com o PP de Maluf ou a escolha de um novo candidato a vice - evidenciou importantes aspectos acerca dos debates e dilemas políticos da esquerda - e de sua relação com o conservadorismo - em um contexto no qual as redes sociais assomam à posição de fórum comunicacional dos mais relevantes, por vezes determinante.

Esse cenário traz em seu bojo uma série de benefícios imediatos e de possibilidades de comunicação, interação e, em algum nível, de participação política – as quais, aprofundadas e institucionalizadas à medida que a tecnologia e a inclusão digital avancem, tendem, a médio prazo, a revolucionar o próprio modo de inserção político-eleitoral dos cidadãos no âmbito de uma ciberdemocracia.


Movimento de manada
Por outro lado, essas transformações operadas na confluência da tecnologia, da comunicação e da política, embora eminentemente positivas, não estão desprovidas de armadilhas, de riscos de manipulação e de possibilidades temerosas várias, os quais acabarão por demandar autocrítica, ajustes e precauções por parte dos próprios agentes comunicacionais e políticos.

Assistimos neste momento, no Brasil, à disseminação de uma das mais potencialmente danosas dessas práticas, cuja diifusão tem sido extremamente facilitada pelas chamadas novas tecnologias: o ataque pessoal desqualificador em massa. Ele constitui, de qualquer maneira, uma prática a se lamentar, mas mais ainda porque ora se dá no interior da própria esquerda, em um processo autofágico de agressões mútuas. Isso já vinha ocorrendo, pontualmente e em escala menor, há algum tempo, mas atinge uma especie de ápice através do processo de agressiva difamação contra Erundina que teve lugar nas redes sociais já na noite de terça-feira (19/06) e se manteve intenso durante todo o dia de ontem e de hoje.


De santa à vilã
Uma sucessão de pseudo-denúncias, do tipo “Veja a foto do pacto de Erundina com Quércia”, “Você sabia que partido de Erundina é ninho de ex-malufistas?” ou “Deputados estaduais do PSDB fizeram uma vaquinha para ajudar Erundina? [por que e em quais circunstâncias, é claro, não dizem]”, além da indefectível ressurreição do caso do Tribunal de Contas proliferaram ontem na internet, não raras vezes reproduzidas pelos mesmos perfis que três dias atrás vibravam com sua indicação a vice.

Ora, há toneladas de fotos de praticamente todos os políticos da geração de Quércia com ele, inclusive de Lula, e o PMDB quercista – do qual chegou a tomar parte o vice-presidente Michel Temer – foi e - evidentemente não mais com essa denominação - continua a ser, parcialmente, integrante do maior partido aliado no PT em âmbito federal. E o próprio Nassif, que ontem condenou o gesto de Erundina, sustenta que ela "foi alvo de uma tentativa de golpe por parte do Tribunal de Contas do Município (TCM)", caso cujos desdobramentos finais acabariam por mobilizar gente de todos os partidos em solidariedade à respeitável figura política que ela é (pois, ao contrário do que algumas mentes tacanhas pensam, opositores não são necessariamente inimigos figadais e mesmo entre políticos profissionais pode, eventualmente, haver solidariedade).


Veja faz escola
De qualquer modo, não é o debate sobre a procedência ou não de tais acusações o que interessa aqui, e sim chamar a atenção e alertar preventivamente para um fenômeno mais ou menos recente nas redes sociais e que, se devidamente manipulado pelos setores conservadores, pode gerar ainda mais divisões e conflitos de monta no interior das forças que lhes fazem oposição.

Pois tais práticas, por si, já demonstram o quanto setores da esquerda na internet têm seguido e mimetizado os métodos cafajestes que tomaram conta da imprensa brasileira ma última década, a partir da atuação militante da revista Veja – notadamente do autoexilado Diogo Mainardi e de dois de seus “blogueiros” de aluguel - na verdade, um par de jornalistas com alguma expertise e habilidades retóricas de seminaristas aplicados, que as utilizam para distorcer e desvirtuar feitos e projetos da centro-esquerda e, sobretudo, para difamação e desqualificações pessoais.


Gasolina na fogueira
Os “novos” métodos que agora infelizmente maculam a atuação de setores da esquerda pouco diferem, na prática, dos que há pouco eram virtualmente exclusivos do esgoto jornalístico o qual alegam deplorar, valendo tudo para a agressão e a desqualificação pessoal. Incluem até mesmo um personagem que se oculta por detrás de um pseudônimo – Stanley Burburinho – que passa boa parte do dia desencavando e difundindo material que, repercutido nas redes sociais, possa ser usado para desqualificação de quem quer que se oponha ao projeto político petista, na linha de partido. Vem desse ser covardemente protegido pelo anonimato boa parte das “acusações” contra Erundina.

Que um número considerável de perfis - inclusive os de pessoas reais de que gosto e respeito (ou respeitava) – reproduza, com intenção vingativa e difamatória, “acusações” como as parágrafos acima reproduzidas não passaria de algo a se lamentar, como evidência de baixeza e de imaturidade política, não fosse o fato de que tal estratagema não apenas interdita o debate, necessário ao avanço democrático e à solução dos eventuais impasses – ainda mais em um momento como o atual -, mas açula ódios e discórdias já à flor da pele em decorrência da aliança com Maluf e da renúncia de Erundina.


Táticas mistificadoras
O arco de tais ações comporta tanto agressões as mais abjetas, como procedimentos claramente mistificadores ou falseadores - como escandalizar-se com uma reprodução de uma declaração totalmente descontextualizada de Erundina, ou as tentativas de tentar caracterizar como artificial a revolta causada pela aliança com Maluf devido ao fato de o PP já ser um aliado nacional do PT. Ora, o PP nacional é invisível para a maioria da população e Lula nunca se prestou a ir beijar a mão de Maluf na mansão deste no Jardim América para selar a aliança, fornecendo imagens para a mídia se refastelar - o que, somado ao carnaval que os petistas entusiastas de tal aliança fizeram, comprova, por si, a especificidade de sua importância.

Já em São Paulo, no âmbito de uma eleição municipal, a força das lideranças locais é imensuravelmente maior e Paulo Maluf é um cacique, enfraquecido, mas ainda capaz de se eleger seguidas vezes deputado, o que o ajuda a manter à distância a letárgica e elitista Justiça brasileira. Em seu reduto, ele continua sendo o  símbolo máximo da corrupção (como criminoso internacionalmente procurado pela Interpol) e do desrespeito aos Direitos Humanos (fiador da Rota em seu pior momento e da repressão periférica em bases classistas e raciais). Além disso, é o mais destacado dos políticos paulistas ainda na ativa surgidos sob os auspícios da ditadura militar - ou seja, o retrato acabado da pior direita patrimonialista, um antagonista histórico e, este sim, figadal do PT, um estranho no ninho petista.


O melhor dos iguais?
Isso nos leva a um segundo aspecto preocupante da questão: o modo como setores da esquerda defenderam a aliança com uma figura política com tamanha folha corrida impressionou (e continua a impressionar) não apenas pela desfaçatez e ausência de escrúpulos, com a adoção de um pragmatismo exacerbado que desconsidera qualquer aspecto ético, mas pela agressividade com que reagiram contra os que ousaram criticar ou se opor a tal aliança - não só recusando, no mais das vezes, qualquer debate em bases civilizadas, mas procurando culpá-los pelas derrotas passadas e desqualificá-los como ingênuos, preos a um moralismo tacanho, "acusando-os" de "puros" (ver ótimo texto do jornalista Leandro Fortes a respeito).

A questão que se coloca, no limite, é: se, para tais setores da esquerda, a ética ficou reduzida a algo arcaico e dispensável tanto no trato com os que com eles divergem (ainda que no mesmo campo político) quanto, relegado a mero empecilho contraproducente, do ponto de vista eleitoral, em que a aliança com uma das mais nefastas figuras políticas brasileiras – pior, só Bolsonaro – em troca de um minuto e meio na TV se justifica, com tudo que isso inexoravelmente traz como simbologia de conivência com a corrupção e com a violência de Estado, o que distinguiria a esquerda em termos de conduta ética e o que haveria de diferencial em seu projeto político em relação ao que os partidos de centro e de centro-direita oferecem?
- “Vira o poder pelo poder. Assim não voto mais no PT” - ouvi recentemente de uma amiga antes entusiasmada com a candidatura Haddad. [Não estou endossando que não haja diferenças entre o projeto petista e o da centro-direita – é claro que há, notadamente em termos de políticas sociais -, mas procurando demonstrar os efeitos simbólicos passíveis de se depreenderem de tal aliança.]

Caindo em armadilhas
Assim, incutir, como um cavalo de Troia, a aliança com o maior símbolo do conservadorismo populista – e, como já dito, da corrupção e do desrespeito aos Direitos Humanos - no seio de uma extremamente promissora candidatura de centro-esquerda não foi o único sucesso recente da direita, em São Paulo. A adoção das estratégias desqualificadoras típicas do jornalismo serrista é, hoje, prática corriqueira no interior da própria centro-esquerda. E quem se beneficia tanto com Maluf na chapa petista quanto com a esquerda trocando baixarias desqualificadoras entre si são apenas os opositores de Haddad, Serra notadamente. Por isso, às vezes passa-se a impressão que o PT está caindo como patinho nos ardis do conservadorismo - e o faz agredindo os que tentam alertar para o perigo, os quais poderia ao menos ouvir.

De qualquer forma, os danos da aliança com Maluf estão feitos e, mesmo que ela viesse a ser revertida – o que parece irreal -, foi dada,de livre e espontânea vontade, à mídia a foto de Lula com Maluf que ela explorará à exaustão. Tal aliança fatalmente levará a candidatura de Haddad a perder votos em setores da esquerda, mas a chance de derrotar, a um tempo, o serrismo e o PSDB em São Paulo impõe-se como elemento natural a, malgrado todas as rusgas, impelir a centroesquerda comandada pelo PT a buscar a união na cidade.


Trégua necessária
Parece, portanto, inteligente – e producente - que, como medida inicial, sejam suspensas as agressões, difamações e desqualificações no interior da esquerda. Agredir Erundina ou quem quer que seja não contribui em nada para a erradicação dos tucanos em SP, pelo contrário. Voltar a criar um clima propenso ao diálogo e parar de ver um inimigo em cada simpatizante que ousa fazer uma crítica polida à condução da candidatura Haddad soam como medidas profiláticas.

Ademais, a centro-esquerda dependerá de capacidade de articulação e de pressão para que a escolha do candidato a vice na chapa petista recaia em uma figura capaz de somar – e não apenas votos. Após meter Maluf goela abaixo da militância, é hora de ao menos procurar apaziguar a esquerda e acenar claramente contra o neoliberalismo e a favor de avanços sociais e respeito aos Direitos Humanos. Isso não cicatrizaria de imediato as feridas, mas começaria seu tratamento, ao invés de avivá-las. Neste momento, já seria um feito.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Resposta ao post de Nassif sobre Erundina

O jornalista e blogueiro Luis Nassif publicou hoje um texto, intitulado "Luiza Erundina: tudo por uma foto" em que analisa a renúncia da deputada federal (PSB/SP) à candidatura de vice-prefeita pelo PT/SP, na chapa liderada por Fernando Haddad. O texto que se segue ao mencionado post, abaixo reproduzido, é uma resposta às críticas de Nassif.

"Luiza Erundina: tudo por uma foto"

"Tenho um carinho histórico por Luiza Erundina.

Quando foi alvo de uma tentativa de golpe por parte do Tribunal de Contas do Município (TCM) devo ter sido o único jornalista a sair em sua defesa. Tinha o programa Dinheiro Vivo, na TV Gazeta, de público majoritariamente empresarial. Externei minha indignação que teve ter tido algum peso na decisão do presidente da FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) Mário Amato, de visitá-la com uma comitiva de empresários, hipotecando-lhe solidariedade.

Defendia-a também quando operadores do PT criaram o caso Lubeca. E, recentemente, o Blog conduziu uma campanha de arrecadação de fundos, para ajudar Erundina a pagar uma condenação injusta dos tempos em que foi prefeita.

Sempre admirei sua luta pelos movimentos sociais, das quais sou periodicamente informado por irmãs lutadoras.

Por tudo isso, digo sem pestanejar: ao pedir demissão da candidatura de vice-prefeita de Fernando Haddad, Erundina errou, pensou só em si, não nas suas bandeiras políticas nem nos seus movimentos sociais. Foi terrivelmente individualista.

À luz das entrevistas que concedeu ontem, constata-se que os motivos foram fúteis. Estava informada da aliança do PT com Paulo Maluf; chocou-se com a foto  de Lula e Haddad com ele. Foi a foto, não a aliança, que a chocou.

A foto tem uma simbologia negativa, de fato. Aqui mesmo critiquei o lance. Mas apenas simbologia. Não se tenha dúvida de que, eleito Haddad, Erundina seria a vice-prefeita plena para a periferia, seria os movimentos sociais assumindo uma função relevante na administração municipal.

No entanto, Erundina abdicou dessa missão, abriu mão de suas responsabilidades em relação aos movimentos sociais, devido ao simbolismo de uma foto. Ela sabia que, eleito Haddad, seria mínima a participação do malufismo na gestão da prefeitura; seria máxima a intervenção de Erundina nas políticas sociais.

Poderia ter dado uma entrevista distinguindo essas posições, externando sua repulsa do malufismo, mas ressaltando a diferença de poder entre ambos.

Mas Erundina se sentiu preterida, não por Haddad, mas por Lula, que deixou-se fotografar com Maluf e não com Erundina.

Seu gesto foi para punir Lula, pouco importando o quanto prejudicaria seus próprios seguidores, os movimentos sociais. Ela abriu mão de um cargo que não era seu, mas de seus representados, para punir Lula.

E quem ela procura para a retaliação? Justamente os órgãos de imprensa que mais criminalizam os movimentos sociais, que tratam questão social como caso de polícia. Coloca a bala no revólver e o entrega à revista Veja. A quem ela fortaleceu? Ao herdeiro direto do malufismo na repulsa aos movimentos sociais: Serra.

Saiu bem na foto da mídia, melhor do que Lula com Maluf, mas a um preço muito superior. E quem vai pagar a conta são os movimentos sociais, pelo fato de sua líder ter abdicado de um cargo que a eles pertencia."

Fim do texto de Nassif.
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Uma primeira questão a ser analisada diz respeito à premissa adotada pelo título e reproduzida pelo post: Erundina teria renunciado "por uma foto", ou seja, por atenção e holofotes midiáticos. Teria sido mesmo essa sua motivação? Parece pouco provável. Em primeiro lugar, porque Erundina está na política profissional há quase quatro décadas e em nenhum momento demonstrou avidez por holofotes midiáticos - pelo contrário: discrição e a recusa em modelar o seu discurso de acordo com o que a mídia quer ouvir são duas características distintivas de sua atuação.

Em segundo, porque, se se mantivesse candidata, ela teria, no mínimo, mais de três meses de exposição diária, sendo que exclusivamente positiva nas propagandas eleitorais. Achar que ela trocou tudo isso por uma exposição momentânea na mídia e a qual, ao mesmo tempo em que a promove, incita ódios exacerbados entre sinpatizantes do partido mais votado do país parece pouco lógico.

O poder da imagem
Além dessa premissa questionável, o texto omite que Erundina renunciou à posição de vice mas se comprometeu a continuar fazendo campanha, ou seja, a atuar junto às bases sociais do partido, embora com menos proeminência - dado que desmonta um dos principais argumentos de Nassif, de que Erundina "abriu mão de suas responsabilidades em relação aos movimentos sociais".

Há, ainda, dois pontos altamente questionáveis no artigo: o primeiro é a afirmação de que uma foto é "só simbologia", fingindo desconhecer que simbologia é a essência, o fator preponderante em uma eleição. E sendo que a foto em questão, de Lula "beijando a mão" de Maluf na mansão deste - comprada sabe-se lá com que dinheiro -, é até agora, e tende a continuar sendo por um bom tempo, a imagem-símbolo da campanha.


Para além da Veja
O segundo ponto questionável é aproveitar-se da disseminação de justificado sentimento antimídia para tipificar Erundina como uma espécie de parceira da Veja - e, portanto, de Serra. "Coloca a bala no revólver e o entrega à revista Veja" é um período indigno do jornalista equilibrado que Nassif costuma ser, trai o (em seu caso, particularmente justificável) ódio subjacente à revista dos Civita e, escrito com o fígado, evidencia as reais motivações do ataque a Erundina. 

Porém, haja simplismo: para além das maquinações da mídia, o fato é que tanto a surpreendente desistência de Erundina, como a aliança do outrora combativo PT com o político de cujas práticas deriva o verbo "malufar" são, inquestionavelmente, matéria de interesse jornalístico, de Veja inclusive.

  
Protagonismo das redes
A bem da verdade, quem alienou movimentos sociais e beneficiou Serra, quando Erundina ainda "era" vice,  foi o PT/SP ao se aliar à mais nefasta figura do conservadorismo populista paulista, um individuo que não pode botar os pés fora do país sob risco de ser preso pela Interpol. Quem convive com petistas e com os movimentos sociais sabe que foi a partir dessa aliança esdrúxula que uma parte talvez minoritária, mas certamente volumosa da militância passou a se dizer "broxada" e "sem tesão" pela campanha. 

E, como boa matéria de Luciano Coutinho no Observatório da Imprensa revela, foi ao receber esse feedback negativo de setores da militância nas redes sociais que Erundina convenceu-se de que deveria renunciar à candidatura - um gesto que não pode, portanto, ser classificado de "terrivelmente individualista" nem de dar-se sem levar em consideração os movimentos sociais. Pelo contrário: como observa Coutinho, "O episódio marca o momento em que as novas mídias se sobrepõem à mídia tradicional numa disputa eleitoral no Brasil".

Quem tudo quer...
Ainda mais importante: por paradoxal que pareça, a decisão de Erundina, não obstante prejudicial, neste momento, à candidatura petista, tem tido um efeito renovador, ao escancarar o autoengano da direção e de muitos militantes, dispostos a vender a alma, a mandar "às favas os escrúpulos",  em troca de um minuto e meio na TV.

A culpa pelo desastre é deles, quem deu uma banana aos movimentos sociais ligados ao PT foram eles, quem impôs uma decisão vinda de cima, acabando com a tradição de democracia interna do PT são eles, que devem agora responder por suas ações, ao invés de transferirem covardemente o ônus destas a terceiros, que tiveram o desplante de expô-los como mero mercadores. Erundina não pode ser responsabilizada por agir de forma límpida e restituir a primazia da ética sobre o ultrapragmatismo.

Gesto desmistificador
Sua atitude é o contrário de uma ação individualista e covarde, de prima-dona, como sugere Nassif: é um gesto de extrema coragem e de altruísmo, que renuncia à possibilidade iminente de ascensão ao poder e à chance única de encerrar sua carreira política em alto estilo; um gesto que tem e terá consequências dolorosas, que já lhe cobram um preço altíssimo, através da agressão de petistas descontentes que ora tudo fazem para transformá-la em um pária e em conspurcar sua imagem (até com Demóstenes Torres ela foi hoje comparada...). 

Achar que a figura pública diferenciada que ela sempre foi ousou um gesto tão redentor e que acarreta tantos revezes pessoais só para "ficar bem na foto" é indigno de Erundina - e de Nassif.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

A greve do metrô e os discursos falaciosos

A forma como o governo peessedebista de São Paulo e seu braço ideológico-comunicacional - a mídia corporativa – reagiram à greve dos metroviários evidencia, uma vez mais, a intolerância para com as manifestações reivindicatórias trabalhistas e o caráter profundamente repressor das relações entre poder, comunicação e demandas sociais no estado.

Tendo rejeitado a oportunidade, oferecida pelo sindicato da categoria, de manter o metrô funcionando, com catracas livres, enquanto se desenrolavam as negociações, o governador Geraldo Alckmin preferiu privar a população de usar tal meio de transporte, sob o pretexto de “endurecer” as tratativas, confiante de que a mídia amiga colaboraria na responsabilização dos grevistas pelos transtornos que fatalmente decorreriam de tal decisão.


Pânico em SP
O resultado foi um dia de caos na cidade, cujo trânsito simplesmente travou em diversas regiões, com o recorde de 231 quilômetros de congestionamento impedindo trabalhadores de chegarem a seus empregos, prejudicando o transporte de bens e a oferta de serviços e gerando toda sorte de atrasos e desconforto à população. Para completar, a CET, numa decisão tão precipitada quanto pouco inteligente, suspendeu o rodízio, atulhando as ruas com um acréscimo médio de 20% de carros circulantes justamente num dia em que muitos trocariam o transporte público por veículos próprios.

Como se vê, mesmo se não levarmos em conta sua responsabilidade na penosa situação trabalhista que levou os metroviários à greve, o governo é, em larga medida, responsável pela caótica situação imposta à capital paulista. Porém, logo de manhã o governador Alckmin deu o tom do que seria o discurso das autoridades: jogar a população contra os grevistas, atacá-los pesadamente, promover a velha tática peessedebista da desqualificação das forças que se lhe opõem (chamando, no caso, os grevistas de “grupelho radical”), procurar caracterizar a greve como política e eleitoreira (no que contou com os backing vocais de José Serra, logo ecoados pelas folhas amigas).


Regredimos
Ora, toda greve é política, e é preciso ser ou um completo ignorante em teoria política ou um manipulador mal-intencionado para fingir desconhecer tal obviedade. De modo similar, sendo as eleições um marco cronológico central da agenda política, seria de se esperar uma sua instrumentalização a favor da efetividade dos movimentos reivindicatórios grevistas. Assim é no mundo todo, há tempos. Portanto, nem o fato óbvio de serem as greves políticas, nem a decorrência lógica de apresentarem correlação com as eleições as torna menos legítimas – pelo contrário: sua maior legitimidade justifica-se justamente pelo aumento da possibilidade de seu grau de eficácia. Afinal, como afirma Walter Benjamin, “Se a justiça é o critério dos fins, a legitimidade é o critério dos meios”.

Porém, na anacrônica São Paulo da segunda década do século XIX – digo, XXI -, o discurso de tonalidades fascistoides proferido pelo governador ecoou durante todo o dia, repetido à exaustão nas rádios e TVs, pelo próprio e por seus ventríloquos na mídia, no partido e na militância: a culpa pelo caos na cidade era de grevistas fora da lei, manipulados por pequenos partidos de esquerda que, por sua vez [e contrariando sua atuação efetiva nas casas legislativas] estavam a serviço, naturalmente, do PT. 


Jornais que ladrem
Enquanto nas ruas, nos lares e nas redes sociais mitômanos tucanos praticavam tais modalidades de escapismo, a mídia corporativa se esmerava em produzir uma narrativa jornalística cujo fim precípuo era atacar ou criminalizar o movimento trabalhista, incluindo manchetes como “Metroviários cobram de barriga cheia” e o grande destaque dado à fala do eterno candidato Serra segundo quem "Metrô e CPTM sofrem com sabotagens" (afirmação com a qual se pode eventualmente até concordar, a depender de a quem se atribui a sabotagem, se aos governantes ou a outrem). 

Destacou-se, particularmente, pela agressividade inaudita com que atacou os grevistas, o Jornal da Globo, que tem se constituído, cada vez mais, em exemplo de jornalismo sacrificado em prol do faccionismo político-partidário, constituindo-se, assim, em matriz do conservadorismo mais tacanho na programação “noticiosa” da TV aberta. Lugar-comum a virtualmente todas as coberturas, é "a greve" quem teria provocado o caos, e nunca a incompetência dos governantes para bem administrar os transportes, evitando-a.

Não é preciso evocar a imaginação para projetarmos como seria a reação dessa mesma mídia se se tratasse de um governante petista, ao invés de um tucano, a enfrentar paralisações reivindicatórias no setor de transportes: com efeito, conserva-se fresca na memória da democracia brasileira a forma implacavelmente acusatória como as ex-prefeitas Luiza Erundina e Marta Suplicy foram responsabilizadas pelos locautes patronais que deixaram milhões de paulistanos sem transporte, quando o que estava em jogo era tão-somente o aumento dos lucros já exorbitantes proporcionados pela exploração, nas condições sabidas, do transporte público na cidade - e não o aumento do salário-base de trabalhadores, de aviltantes R$ 1.154 para insuficientes R$1.225, como na greve de ontem.


Gás, bomba
Para completar o cenário protofascista da São Paulo de nossos dias não poderia faltar a violência policial, praxe de qualquer manifestação realmente popular no estado – o que exclui, evidentemente, “cansados” e neoudenistas de escol. Ontem, só para variar, manifestantes, grevistas e hordas de trabalhadores foram reprimidos com bombas de efeito moral e balas de borracha em pelo menos dois pontos da cidade (Largo Treze de Maio, em Santo Amaro e nas imediações da estação Corinthians-Itaquera do metrô).

Graças a tal quadro, o clima que se respira hoje na maior cidade do país, no campus da Cidade Universitária ou em qualquer espaço público em que se concentrem grupos de populares – seja para reivindicações, protestos ou lazer – se assemelha demais e perigosamente àquele dos anos de ditadura, com a presença ostensiva de forças policiais e a possibilidade iminente de repressão violenta, mesmo quando o processo é pacífico e a legalidade de sua realização assegurada por decisão judicial, como se viu recentemente. Nas manifestações de ontem, uma mulher foi presa acusada de incitar o depredamento de estação e de desacato. A pergunta que fica é: não haveria outro modo de uma força policial com dezenas de profissionais lidar com uma só protestante mais exaltada?


Mediadora propôs aumento maior
Enquanto isso, o mandatário de voz mansa e mão pesada sussurrava para a mídia que "A greve é cruel", como se se referisse a um ente autônomo que, para existir ou deixar de acontecer, não dependesse das ações que ele próprio, como governador, decidisse tomar ou deixar de tomar.

Ao final do dia, evidenciando, uma vez mais, que todo o transtorno imposto à população poderia ter sido evitado com um mínimo de responsabilidade administrativa, respeito aos paulistanos e melhor equacionamento de despesas governamentais (cortando, por exemplo, os milhões que gasta comprando, sem licitação, a revista Veja ou a Folha de S. Paulo), o governo aumentou sua oferta de aumento salarial para 6,17% e de correção percentual de benefícios em índices bem menores do que os reivindicados. Mesmo estando abaixo dos 6,45% propostos, em audiência conciliatória, pela desembargadora Anélia Li Chum e muito aquém dos 14,99% de aumento real reivindicado pelos metroviários, estes, deixando claro que não são os intransigentes nem os vilões da história, fecharam um acordo e voltaram aos trabalhos. 

Aguardarão agora, como não poderia deixar de ser na São Paulo atual, pelas investigações que nada menos do que três promotorias, designadas pelo Ministério Público, farão sobre a greve de um dia.


(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 7 de julho de 2009

O PT e a Síndrome de Pollyanna


Durante anos ouvi e li críticas ao Partido dos Trabalhadores (PT). Como elas vinham mais de setores conservadores do que de partes da esquerda, e como eram publicadas na imprensa em número muito maior do que as que se referiam a outros partidos, sempre as encarei com desconfiança.

Algumas me pareciam francamente injustas – como a recorrente acusação de que o PT se valia de denuncismo como principal forma de oposição aos governantes dos outros partidos. Basta pesquisar nos anais do Congresso o número de vezes que o partido votou a favor de medidas propostas pela base aliada de FHC porque as julgava procedentes (e compará-lo com as vezes que o PSDB e o DEM fizeram o mesmo em relação à Presidência de Lula), para que tal afirmação se mostre inverídica. Mais: ante o denuncismo real e exacerbado que desde a posse de Lula é a única forma de “fazer política” de uma oposição (PSDB, DEM, PPS) que, apoiada pela “grande mídia”, viciou-se num jogo de derruba-presidente, chega a ser hipócrita atribuir tal característica unicamente ao PT, como de ordinário diversos colunistas o fazem.

Isso não quer dizer que o moralismo não fosse um dos traços definidores – e, como veremos, uma razão central para algumas das maiores crises – do partido. Mas, a despeito dessa característica, havia espaço para a prática política pragmática - comportamento que não se verificou nos partidos que fazem oposição a Lula quando este assomou à Presidência.

Ascenção marcada por recuos e hesitações
Com a dèbâcle do Partido Comunista Brasileiro (PCB), o Partido dos Trabalhadores passou a ser, desde sua criação em 1980 e ao menos até o momento anterior aos preparativos para a campanha presidencial de Lula em 2002, o partido mais capacitado para representar a esquerda. E não apenas por contar com os melhores quadros entre sindicalistas, intelectuais, economistas e demais profissões; mas por oferecer o mais elaborado conteúdo programático, mesmo porque este era ferozmente debatido nas disputas entre os grupos internos do partido – disputa essa que, embora fosse um prato cheio para a mídia explorar suas divisões internas, fazia do PT a agremiação política mais arraigadamente democrática. (Só para efeito de comparação, lembremos que o PSDB escolhe seus candidatos reunindo seus quatro caciques em torno de uma garrafa de vinho num restraurante 5 estrelas.)

Assim foi até o momento em que o Partido dos Trabalhadores começou a ganhar eleições importantes. A passagem de pedra a vidraça fez muito mal à agremiação. Começou com Maria Luiza Fontenelle, eleita prefeita em Fortaleza em 1984 e largada pelo partido às traças quando passou a ser sabotada pelo neocoronelismo cearense; se repetiu com Thelma de Souza (eleita prefeita de Santos em 1988) e, sobretudo, com a primeira grande conquista eleitoral do partido, a prefeitura de São Paulo, através da derrota que, em 1989, Luiza Erundina impingiu a Paulo Maluf (e à mídia, que distorceu os números das pesquisas eleitorais o quanto pôde, fazendo-os saltarem bruscamente na véspera da eleição).

Considero Luiza Erundina a dirigente mais injustiçada da história política do Brasil. O estudo do comportamento da mídia em relação a sua não menos do que brilhante administração pertence ao saldo devedor da academia e dos estudos de mídia para com a população brasileira. Pois não é que em meio ao boicote da imprensa, do empresariado e da burguesia paulista (e não apenas paulistana, pois a resistência a ela transcendia a cidade), o PT resolve brincar de Pollyanna e dar “apoio crítico” a prefeita que elegeu? “Apoio crítico” a uma administração sitiada por todos os lados equivale, como diria minha avó, a entregar a rapadura pro inimigo. E foi precisamente o que aconteceu, com a cidade entregue à direita mais retrógrada e corrupta nos 12 anos seguintes.

Mas eis que, aos trancos e barrancos, devido em grande parte ao governo antiBrasil e antipovo do PSDB de Fernando Henrique Cardoso, a possibilidade efetiva do três vezes candidato Luís Inácio Lula da Silva vencer a eleição presidencial começou a brilhar no horizonte no segundo semestre de 2001. E assim, por vias transversas, entramos na delicada questão da relação de Lula com os “movimentos sociais” (categoria sociológica, aliás, que precisa urgentemente ser rediscutida).

Lula, o PT e a realpolitik
A versão corrente assegura que Lula teria deixado à míngua os “movimentos sociais”, preferindo se aliar a forças conservadoras e a seus velhos caciques políticos como forma de garantir condições de se eleger presidente em 2002. Seu então escudeiro José Dirceu teria sido o arquiteto e muitas vezes o negocista de tais alianças. Endossei algumas vezes essa versão, pois trata-se de um fato.

Mas, ao mesmo tempo, de uma meia-verdade. É a conclusão que cheguei após muito meditar sobre a questão e consultar documentos de época. Pois o que essa versão omite é que, quando do início da negociação de Lula/Dirceu com os petistas, parte do partido agiu, uma vez mais, de forma intransigente, querendo impor certas demandas irreais e um padrão de alianças que teria, na prática, inviabilizado a vitória da candidatura Lula. Portanto, as reiteradamente criticadas alianças firmadas pela realpolitik adotada por Lula já por ocasião da campanha presidencial (que, note-se, era menos elástica do que a atual, por razões que veremos a seguir) deve ser creditada não somente ao pragmatismo-trator da dupla Lula-Dirceu, mas também ao misto de intransigência, falta de visão política e “pollyanismo” de setores do próprio PT.

Para piorar a situação, de posse do poder federal, à ingenuidade característica do partido somou-se a soberba (alguém conheceu arrogância maior do que a de José Dirceu no comando da Casa Civil?). Em política, trata-se de combinação explosiva, que acabou por envolver desastrosamente o PT num grande escândalo de corrupção que a mídia chamou de “mensalão”. Sou esquerdista, mas não estou entre os que fazem ginásticas retóricas para dizer que o “mensalão” não existiu (mesmo porque a atitude de dirigentes como Genoíno comprova o contrário). Mais do que isso: condeno tanto a prática de “caixa 2” do PT (que é do que se trata no dito “mensalão”) como a dos demais partidos que a adotam (que, segundo a crônica política, são todos. De qualquer modo, não nos esqueçamos de que o próprio mensalão que regaria o petismo brotou do governo tucano de Eduardo Azeredo, aquele parlamentar mineiro que quer censurar a internet mas não vai conseguir). Que fique claro: o fato de a prática ser disseminada não inocenta o PT, embora demonstre cabalmente tratar-se de problema estrutural, sistêmico.

Isso posto, o que interessa reter aqui é que a bandeira da moralidade que o partido brandira durante toda a sua história revelou-se subitamente falsa; o bom-mocismo e o “pollyanismo” que o distinguia - e que tantos danos causou ao desempenho de suas próprias administrações – não passava de jogo retórico. Ciente dessa realidade que fingiam desconhecer (ou melhor, cientes que já não podiam mais simular desconhecimento, pois a opinião pública o sabia), grupos de políticos abandonaram o partido por ocasião da denúncia do “mensalão”, migrando para o PSOL ou para outras siglas à esquerda, como o PSTU. Se a realpolitik de Lula já abarcava setores conservadores, ela se torna, como forma de repôr essa debandada, ainda mais elástica, chegando ao cúmulo de incluir políticos com a ficha corrida de Fernando Collor de Mello. Fica a pergunta: Lula teria condições de governabilidade sem tais alianças? Tendo a concordar com Luis Nassif quanto à resposta ser não (o que, convém frisar, não equivale a corroborá-las), pois:
“Há que se discutir os limites entre a real politik e a falta de coragem política. Em minha opinião, sem o realismo político e a incrível capacidade de fazer alianças e esvaziar armações, Lula teria caído. Mas sem a crítica aos pontos essenciais que foram deixados de lado, ele não teria avançado, especialmente nas medidas anti-cíclicas que impediram que o país fosse arrastado pela crise mundial”.
O retorno da Síndrome de Pollyanna
E eis que, após o longo período de discrição e low profile a que o partido se obrigou após o “mensalão”, a Síndrome de Pollyanna ataca de novo E justamente no momento em que o PT é o fiel da balança para a definição da saída ou não de Sarney da Presidência do Senado. Qualquer pessoa com mais de 2 neurônios já se deu conta que a fulanização das denúncias na figura do senador maranhense não passa de estratégia da oposição na briga pelo poder. Se não, vejamos: os “atos secretos” ocorrem há mais de 14 anos (começaram logo após o início da primeira Presidência de FHC); analistas políticos sérios e experientes como Janio de Freitas estimam que eles envolvem benefícios diretos a algo entre 80 e 90% da Casa, em suas diferentes formações ao longo dos anos; um dos maiores e mais espalhafatosos denuncistas, Arthur Virgílio (PSDB-AM), está envolvido até a raiz dos cabelos na falcatrua, por contratação inexplicada de parentes, pelo fato de um filho de um amigo seu receber salário de seu gabinete embora more na Europa, por um empréstimo mal explicado de U$10 mil dólares junto ao pivõ da crise, Agaciel Maia, além de devido a um desvio de R$723 mil do Senado para pagar o tratamento de saúde de sua mãe.

No entanto, "curiosamente", ele continua sendo uma das principais fontes da mídia, figurinha fácil no Jornal Nacional, onde volta e meia aparece afetando indignação e atacando Sarney como se moral para isso tivesse. A colunista Dora Kramer, que tem em seu currículo a glória de ser uma das "menininhas do Jô" (aarrgghhh!), defende Virgílio dia sim, outro também. Há limites até mesmo para a hipocrisia na política e na mídia brasileiras.

A consequência direta de uma eventual - e probabilíssima, se o PT o deserdar – saída de Sarney seria tão-somente entregar a Presidência da Casa a Marconi Perillo (PSDB-GO), político há décadas envolvido em denúncias de corrupção e em atos truculentos. Trocaria-se um “coronel” por outro. Que “moralização” é essa defendida pela mídia e pelos partidos de oposição que consiste na retirada de um presidente do Senado acusado de corrupção que apoia o governo e em sua substituição por outro senador acusado de corrupção, mas este ligado à oposição? Desnecessário responder.

Portanto, posicionar-se pela manutenção de Sarney no posto que ocupa não equivale a defender as práticas do político maranhense. Já me manifestei com clareza a respeito do que penso a seu respeito. Trata-se, isso sim, de assegurar o poder no Senado, conquistado nas urnas, nas mãos das forças que apoiam Lula e suas políticas progressistas – e não entregá-lo de bandeja à oposição privatista, renegada pelo voto popular e tão envolvida na corrupção sistêmica do Senado quanto os senadores da situação.

É preciso, portanto, que o PT demonstre ter um mínimo de profissionalismo político neste momento e pare com essa atitude hipócrita - e que tantos danos causou à imagem do partido - de bancar a Pollyanna. Do contrário, estará colaborando para o aumento considerável do poderio da oposição no Senado, numa mudança com potencial para influenciar decisivamente as próximas eleições presidenciais, já que o presidente da Casa tem plenos poderes para interferir na criação de CPIs e para comandar as votações de projetos do interesse do governo.

Espera-se que o Partido dos Trabalhadores, aos 29 anos de vida, demonstre alguma maturidade, pare de ameaçar repetir os mesmíssimos erros que já o prejudicaram no passado e desperte ouvindo o clamor que Antônio Mello fez em seu Twitter: “Gente, vamos nos ligar. Toda essa pseudobriga no Senado é entre Serra e Dilma. O resto é conversa pra boi dormir. Ou pra tucano acordar”.


(Fotomontagem a partir de imagem da capa do livro Pollyanna, de Eleanor H. Porter, retirada
daqui. Colocada à direita do post em "homenagem" ao espectro político que o PT insiste em beneficiar).