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terça-feira, 31 de maio de 2016

O estupro e a "esquerda"

Com a repercussão do abominável caso de estupro coletivo no Rio, o país neste momento se equipara, na percepção mundial da violência sexual contra a mulher, com a Índia - uma sociedade de patriarcalismo milenar e repressão estrutural às mulheres -, como apontado no artigo em que Dorrit Harazim traça, com brilho, paralelos com o tristemente célebre caso ocorrido em 2015 em Nova Deli.

Tal constatação torna-se ainda mais chocante quando levamos em conta que o Brasil foi administrado, nos últimos 14 anos, por governos ditos de esquerda. Dos quais, por mais complexas e atenuantes que possam ser as imposições da realpolitik, com seu arco de alianças e compromissos, esperava-se que trabalhassem no sentido de aprimorar a qualidade das relações sociais e das políticas de gênero - seja através do estímulo ao debate, de campanhas específicas, da instauração de fóruns e mecanismos que promovessem a diversidade, a tolerância, o respeito, a consensualidade, o esvaziamento e coibição das potências de violência na seara sexual.

Mas não. Em primeiro lugar porque se tratou de uma "esquerda" forte em um pragmatismo econômico baseado em exportação de commodities e estímulo ao consumismo interno, mas ignorante, desinteressada e defasada no que concerne a plataformas biopolíticas.

Em segundo, porque o partido no poder repeliu as tendências internas e os partidos à esquerda, mostrando-se, entretanto, extremamente elástico em relação a composições com as forças conservadoras. Um dos principais efeitos de tais escolhas é que acabou manietado por lideranças protorreligiosas cujo poder veio a se fortalecer, mais e mais, açulado justamente por sua aliança com o poder federal de turno. Este, por sua vez, contrariando seu discurso histórico e traindo, seguidas vezes, coletivos e organizações que o apoiaram nas eleiçõs, deu vazão uma bola de neve de moralismo barato, repressão rexual e recuos constrangedores em relação às políticas de gênero.

As estatísticas mostram, de forma indubitável, que a barbárie sofrida pela jovem de 16 anos está longe de ser um caso isolado - pelo contrário: coletivo ou não, contra mulheres (em sua maioria), mas também contra homens, gays ou transgêneros, o estupro é um crime disseminado, cotidiano, em relação ao qual paira um silêncio cúmplice na sociedade brasileira. As tentativas de caracterizar a vítima como lasciva, leviana, vadia, participante de bacanais, puta - como se qualquer destas condições justificasse o estupro -, constituem uma clara intenção de culpar a vítima, exemplificando de forma cabal tais estratégias de negação e mudez.

Não seria justo culpar tão-somente este ou aquele governo por um fenômeno disseminado de violência social fermentado por décadas - nominalmente, a (in)cultura do estupro. Mas tampouco seria correto isentá-los de responsabilidades: achar que o estupro coletivo do Rio - com o deboche sádico como corolário e indício de convicção de impunidade - está dissociado, por um lado, da cada vez mais danosa associação entre o poder de corporações mercantis/religiosas e o poder político, e, por outro - e na contramão do mundo - do retrocesso das políticas públicas concernentes a sexualidade e questões de gênero observado no Brasil neste milênio seria incorrer na mais crassa ingenuidade (ou fanatismo).


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Dilma e a solução fácil: aumento de impostos



Com a arrecadação em queda livre devido à crise, o governo de Dilma Rousseff mostra-se incapaz de entregar o superávit primário que o czar Levy prometera ao mercado, amargando um rombo nas contas da ordem de R$ 30 bilhões. Em vez de recuar de um ajuste fiscal que só beneficia o mercado financeiro, mas é prejudicial à população e ao país, dá mostras de ver o aumento generalizado de impostos como única saída para o impasse.

Com efeito, no 7 de setembro, após a menção a “sacrifícios necessários” no discurso de Dilma, Mercadante anunciou explicitamente a intenção de aumentar tributos. Ontem, após citar a Espanha dos 50% de jovens desempregados como exemplo de ajuste fiscal bem feito, Levy admitiu que estuda elevar o Imposto de Renda de pessoa física. Passando da ação à prática, Temer agendou encontro com governadores com o objetivo de acertar o aumento (e o novo reparto) da CIDE, que incide sobre combustíveis.



Falácia neoliberal
Durante décadas, o discurso contra a alta carga de impostos no Brasil praticamente se circunscreveu aos setores mais conservadores da sociedade, os quais, de forma consciente ou não, alimentaram a crença em um Estado mínimo, que se limitasse às suas tarefas político-administrativas, legando à iniciativa privada a tarefa de administrar – e lucrar com – a Educação, a Saúde, os transportes, a Cultura, entre outras áreas.

Bastaram as administrações de perfil neoliberal de Collor e Fernando Henrique Cardoso, com suas tentativas de desmonte do Estado, para dar mostras mais que suficientes de que o grau de eficiência da iniciativa privada quando faz as vezes de Estado é diretamente proporcional ao lucro que aufere – e vice-versa. O resultado é que tanto sub-áreas como preservação cultural ou medicina preventiva tendem a ser sistematicamente negligenciadas, quanto alunos, pacientes e passageiros que não podem pagar ficam sem acesso a Educação, Saúde e transportes.



Mudança de postura
Talvez a relativa tolerância da maior parte da sociedade brasileira para com os altos impostos que paga tenha algo a ver com isso, com a aceitação tácita, ainda que contrariada, de que, em um país de tão pronunciadas desigualdades sociais, os impostos funcionariam como uma espécie de pedágio expiatório por viver melhor do que a maioria de necessitados.

Assim, ainda que algum protesto contra a carga tributária sempre houvesse, ele acabava descartado como uma lamentação, um #mimimi das elites. Nos últimos anos, no entanto, é perceptível o crescimento da insatisfação com os impostos no Brasil.



No limite
Em primeiro lugar, porque eles se tornaram insuportavelmente altos e não param de crescer, pesando muito no bolso dos cidadãos, tanto nos descontos na folha de pagamento dos assalariados quanto nas planilhas dos empregadores, notadamente os de baixo e médio portes.

Qualquer pessoa em contato com micros e pequenos empresários sabe que o custo de se empregar funcionários tornou-se extremamente dispendioso, e a urgência, neste caso, é para que se diminuam impostos, em vez de aumentá-los. Tudo somado, a impressão é que, em termos tributários, atingimos o limite do suportável.



Ralos e assimetrias
Em segundo lugar, porque, graças a distorções como o imposto sobre consumo ser 12  vezes mais alto do que o imposto que incide sobre patrimônio, a arrecadação fiscal, no Brasil, está estruturada de um modo tal que reproduz e intensifica a assimetria socioeconômica entre as classe sociais, com as camadas menos favorecidas pagando proporcionalmente mais imposto do que as classes alta e média-alta.

Em terceiro lugar, porque a contrapartida que o governo deveria dar aos cidadãos em troca de tributos tão altos deixa a muito a desejar, com serviços públicos morosos e ineficientes, uma malha arcaica de mobilidade urbana, indíces intoleráveis de violência e uma sensação de insegurança disseminada. Coroa o bolo a cereja da corrupção, com escândalos sucessivos, de vários governos e partidos, e envolvendo cifras monumentais, o que faz o cidadão se sentir um otário cujos impostos que paga com sacrifício vão para o ralo dos esquemas paralelos e para os bolsos ja recheados de uma corja.



Governo perdulário
Diretamente a tais mazelas conectado, em quarto lugar, verifica-se uma forte sensação de desperdício e mal direcionamento no uso que o governo faz dos tributos que arrecada, sensação açulada por um ministério com 38 titulares, pela disponibilização de viagens e apartamentosa granel à “corte” e por uma série de mordomias para os altos escalões dos Três Poderes, benesses com as quais a imensa maioria dos cidadãos, submetida a duras e longas jornadas entre casa e emprego, não pode sequer sonhar.

E afinal, se a situação demanda tanta economia como Dilmaalardeia, há de se perguntar se o governo não deveria, por exemplo, diminuir os gastos com publicidade, que somaram quase R$5 bilhões nos dois últimos anos e, em plena crise, continuam correntes, como se pode constatar facilmente ao ligar a TV ou folhear os principais jornais e revistas. Há de se questionar também se são realmente imprescindíveis os vultosos gastos com viagens governamentais para fins meramente promocionais ou com o gigantesco aparato – que no 7 de setembro incluiu até muros de aço isolando uma enorme área central de Brasília – mobilizado para os eventos públicos presidenciais, cujo custo com segurança é inversamente proporcional aos indices de aprovação da administração Dilma nas pesquisas.



Privilégios injustificados
Por fim, o quinto fator de insatisfação com o quadro tributário brasileiro vem da constatação de que há isenções que não se justificam, com determinados agentes sociais continuando a receber o privilégio indevido de não pagar impostos mesmo quando a situação fiscal é gravíssima e se cogita penalizar ainda mais aqueles que já muito contribuem. Dois casos se destacam: o da isenção para entidades religiosas e o da não-tributação (ou tributação ínfima) de grandes fortunas.

Em um Estado cuja Constituição determina que seja laico, não há nenhuma justificativa para a isenção de impostos a entidades religiosas. A rigor, a manutenção de tal contradição em pleno século XXI evidencia ainda mais o absurdo e o arcaísmo da situação – e os maldisfarçados interesses políticos que a determinam.

Pois, se qualquer trabalhador ou comerciante, mesmo o mais humilde, é obrigado a pagar impostos, por que instituições ligadas a igrejas seculares, que lucram fortunas com ensino e eventos, devem ser poupadas de contribuírem com uma porcentagem de suas receitas? Qual a razão para que seitas que, com dinheiro em grande parte amealhado entre os estratos mais pobres da sociedade, constróem templos faraônicos e compram canais e horários televisivos deixem de ter tributada umam fração de seus lucros em prol do bem comum, como ocorre com as demais empresas e insituições do país?



Incoerência e elitismo
De forma similar, não se encontra justificativa racional que sustente, em um tal quadro social, que donos de enormes fortunas – que, para maximação de seus ganhos não produtivos, já contam com o acesso a contadores e especialistas tributários inacessíveis ao resto da população – sejam poupados da obrigação de contribuir com aliquotas proporcionalmente maiores como forma de redistribuir renda, ainda que em doses homeopáticas.

A desculpa do ministro Levy, ao alegar que tal medida geraria uma arrecadação “pouco significativa” soa mais como um ato de solidariedade de classe do ex-alto executivo do Bradesco do que como um dado econômico efetivo, e por duas razões: primeiro, porque a maioria dos países que adota a tributação de fortunas tem obtido de tal dispositivo receitas fiscais relevantes; segundo, porque o grau de relevância do montante a ser arrecadado depende da disposição e coragem para estipular alíquotas condizentes com o montante das fortunas e com as necessidades do país.

Mas não. A tesoura de Levy tem preferido cortar, com excessiva disposição, os direitos trabalhistas de desempregados, pensionistas e trabahadores, bem como as verbas para Educaçao, Saúde e Mobilidade Urbana (as três áreas mais afetadas até agora). E já estão confirmados para o ano que vem cortes nas áreas sociais, nominalmente no programa de habitação Popular Minha Casa, Minha Vida.


Inversão de valores
Neste momento de agravamento da crise econômica, um aumento generalizado de impostos seria uma dura e injusta medida contra os assalariados e os empregadores, que já estão sendo muito sacrificados pela recessão – a qual, aliás, tenderia a agravar-se ainda mais com a diminuição do poder de compra e de investimento que tal assalto fiscal traria.

E tanto sacrifício para quê? Simplemente para o governo agradar ao mercado financeiro – ou seja, aos bancos -, pagando os juros da dívida pública e cumprindo a meta socialmente irresponsável de um alto superávit primário, resguardando os afortunados e à custa de uma maioria de desfavorecidos, como tem sido a regra no governo Dilma.

É uma dupla e amarga ironia que, por um lado, um partido que alguns ainda teimam em classificar como de esquerda entregue o comando da economia a um economista neoliberal célebre pela avidez com que corta gastos públicos; e, por outro lado, que o neoliberalismo sui generis de tal ministro inclua aumento generalizado de impostos, o que acaba por punir de forma mais incisiva os pobres e remediados que um partudo dito de esquerda deveria defender.



(Charge de autoria desconhecida retirada daqui)

terça-feira, 30 de julho de 2013

"Se não voltar em Dilma, vai votar em quem?"

- "Se você não votar em Dilma, vai votar em quem?" - A pergunta, em tom passivo agressivo, costuma ser dirigido a quem quer que, sem identificar-se com o conservadorismo, dê mostras de estar desiludido com o atual governo e com o estágio de setores essenciais como Educação, Saúde, Meio Ambiente e Transportes após mais de uma década de administração petista.

Vem, de ordinário, acompanhada de duas listas: uma contrapõe os números da economia e de indicadores sociais ao final do governo FHC e após uma década de petismo; a outra desqualifica minuciosamente os prováveis opositores a Dilma nas eleições do ano que vem, culminando com o realçar de qualidades da atual mandatária, das óbvias às inauditas, passando pelas menos evidentes.


Distorções metodológicas
Como a primeira lista exaustivamente demonstra, não restam dúvidas de que, em termos de economia – e, sobretudo, de conquistas sociais por esta proporcionada – os petistas batem de goleada os tucanos. Isso, no entanto, não impede a constatação de algumas distorções relativas à lista.

As duas primeiras são de cunho histórico e metodológico: comparar os oito anos dos tucanos com os 10 anos e meio dos petistas denota descritério, posto que o tempo disponível aos primeiros para consolidar melhorias seria, dessa forma, cerca de 30% do que o disponível aos últimos. A comparação justa e cabível no caso seria entre a presidência de FHC e a de Lula, ambas de dois mandatos de igual duração. Neste caso, igualmente, a supremacia desta ante aquela em virtualmente todos os quesitos de economia social mostra-se pronunciada.

Deriva diretamente de tal descritério a segunda e mais grave distorção inerente às listas petistas de convencimento: ao comparar o legado de FHC com o de Lula e Dilma indistintamente e em bloco, impede-se que o eleitor tenha uma correta dimensão das falhas e acertos do governo da atual mandatária. Pois, com o perdão pela obviedade, o antecessor imediato desta não é o sociólogo de triste memória, mas, para o bem ou para o mal, Lula, o arquiteto do "novo Brasil" que aí está. Desnecessário assinalar que se trata de uma omissão deliberada, pois não só a candidata petista tende a sair muito mal na foto na contraposição a seu mentor e sucessor imediato, mas tal comparação daria ao público em geral, de forma didática, a dimensão de sua problemática administração e a explicação das razões de fundo para as manifestações populares deflagradas a partir de junho.



Meras desqualificações
Quanto à segunda lista que é volta e meia apresentada aos eleitores desencantados, novos ou antigos, ela prima pela desqualificação dos opositores ao petismo. Trata-se de uma arte que o PT sempre cultivou, mas que atingiu novos patamares com a assimilação, nos últimos anos, dos métodos do jornalismo neocon de Veja e similares, os quais implicam na ausência de limites ou bom senso e na concepção do opositor - e dos críticos do partido, mesmo se eventuais - como inimigo.

Independentemente de quem sejam os concorrentes, trata-se de um método abjeto. Se esta avaliação talvez pareça menos evidente quando o opositor em questão é, digamos, um Aécio Neves, advindo de um partido com um histórico de enfrentamento feroz com o petismo - incluindo vários golpes baixos -, ela mostra-se rigorosamente justa quando se observa o tratamento ora dispensado pelo partido e seus militantes a figuras que até ontem eram, na condição de aliados ou mesmo estrelas petistas, pelos próprios exaltadas, como, respectivamente, o governador de Pernambuco Eduardo Campos (PSB/PE) ou Marina Silva (sem partido), ex-senadora do Acre pelo próprio PT.



De exemplar à execrada
O caso da acriana é particularmente exemplar como evidência da memória curta, da volubilidade de critérios e da lógica "quem não está conosco está contra nós" do petismo em sua fase ultrapragmática. Quadro formador do petismo e por este formado, Marina foi durante décadas saudada como uma personalidade política especial dentro do partido: expoente amazônico e seu maior expert em políticas ambientais, compôs, durante décadas, uma espécie de arquétipo feminino de Lula, na origem humilde, na ascensão intra partidária a partir das bases, no reconhecimento internacional.

Esse era o status de Marina Silva até 2008, quando, após cinco anos de uma atuação sem precedentes, saudada e premiada nacional e internacionalmente, como ministra do Meio-Ambiente do governo Lula, pede demissão ao final de uma série de conflitos com a chefe da Casa Civil e gerentona do progressismo a qualquer custo, a hoje presidente Dilma Rousseff.

Do dia para a noite, a proeminente aliada vira persona non grata nas hostes petistas, despertando a fúria por ter ousado primeiro enfrentar, depois rejeitar um projeto político baseado na relativização da ética para alianças partidárias e em um modelo arcaico de desenvolvimentismo na área econômica. Com o lançamento de sua candidatura à Presidência em 2010, pelo PV, consuma sua transformação, aos olhos petistas, em um ser pestilento, repositório de tudo que há de repulsivo e condenável na política nacional.

- "Ela é crente!" - brada o petista típico, listas nas mãos, como se se referisse a um assassino de bebês, como se professar uma religião fosse impedimento ao exercício da Presidência, como se o próprio governo Dilma não fosse o playgound do neopentecostalismo, determinando vetos presidenciais contra kits educativos, patrocinando um vergonhoso atraso nas questões relativas a comportamento e a gêneros sexuais, zombando da cidadania e dos Direitos Humanos ao deixar, por desinteresse, um representante do atraso como Marco Feliciano presidir a comissão legislativa relativa ao tema.



Jovens eleitores x anacronismos
Em pleno 2013, a quem os petistas pensam que enganam com tais estratégias discursivas, com tais discrepâncias entre discurso e prática, com uma concepção de política em que o gozo da ética e da legitimidade pertence exclusivamente aos membros do partido, e os que a eles se opõem, na opinião pública ou na arena eleitoral, são concebidos como inimigos aos quais se destina a desqualificação e o extermínio?

Os protestos nas ruas, a despeito de sua virulência e espontaneidade, não parecem estar servindo de alerta – e isso se dá em grande parte graças à mitomania do partido, viciada em livrar-se das críticas atribuindo-as exclusivamente à má vontade da mídia, e que tem sido internamente bem-sucedida em atribuir as manifestações a novos bodes expiatórios, como o Facebook e até misteriosos organismos internacionais. Mas o fato inconteste é que, nas próximas eleições, jovens entre 18 e 25 anos devem vir a ter um papel decisivo. Para eles, que tinham entre 6 e 13 anos quando FHC transferiu o poder a Lula e passaram toda a vida sob o o governo do PT, as listas de convencimento petistas, com suas comparações maravilhosas, tendem a ser não apenas anacrônicas, mas contraproducentes: anseiam pelo novo, mas lhes é oferecido uma mirada no retrovisor, focada em um passado que sequer viveram.

- "Não votar em Dilma é votar na direita" – conclui o petista típico, em uma oração que resume de forma cabal a pobreza binária de seu raciocínio, a (por si questionável) arrogância exclusivista na qual se baseia e a escassez de alternativas as quais sua visão autocentrada deixa de enxergar.


(Imagem retirada daqui e manipulada digitalmente)

terça-feira, 7 de maio de 2013

Com Afif e PSD, Dilma amplia alianças à direita

O anúncio de que o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, foi convidado para o ministério de Dilma, assumindo a Secretaria da Micro e Pequena Empresa, expande ainda mais os já dilatados limites da aliança federal capitaneada pelo PT, redesenha o cenário para as eleições presidenciais do ano que vem e causa estupor em militantes, simpatizantes e apoiadores do atual governo.

Afif é figurinha carimbada do conservadorismo paulista e uma das estrelas do PSD, a agremiação "nem de esquerda, nem de direita, muito pelo contrário" fundada por Gilberto Kassab, o qual, a despeito do péssimo desempenho à frente da prefeitura de São Paulo, mostrou-se capaz de articular o que é hoje a terceira maior bancada partidária no Congresso – numa contradição que, açulada pela voracidade com que o petismo se atirou nos braços do neoaliado, muito diz a respeito da relação entre meritocracia, ética e política no Brasil.

É difícil, para parte do eleitorado, compreender como Afif, um político que nas últimas eleições fez campanha apoiando o PSDB, tendo sido desde então nada menos do que o vice do cacique tucano Geraldo Alckmin, possa, do dia para noite - e sem maiores explicações -, ser recebido de braços abertos pela aliança petista. Não há como dissipar a impressão de que alguém foi ou está sendo enganado nessa história.



Pauta conservadora
Para além da confusão na mente de parte do eleitorado e de questões relacionadas a coerência e programa partidário, a aliança com o PSD levanta, uma vez mais e de forma aguda, dúvidas acerca de qual o limite que distingue a ampliação da hegemonia da aliança capitaneada pelo PT e a descaracterização desta através da incorporação de pautas ditadas pelos novos aliados à direita.

Sim, pois é preciso uma dose cavalar de ingenuidade – ou de ignorância política – para não se dar conta de que cada aliança selada significa a incorporação de uma pauta estranha àquela com a qual o governo foi eleito. Que tais alianças se deem com partidos à direita do espectro político – o que tem sido a norma da atual administração federal petista – implica, inescapavelmente, em mais um retrocesso em um governo que, exceção feita à política de juros, tem se caracterizado por um conservadorismo atroz.



Retrocessos
Senão, vejamos: na mesma segunda-feira em que foi anunciado o convite a Afif, César Gaviria, ex-presidente da Colômbia, deu ótima entrevista à Folha de S. Paulo em que, levando em conta a bem-sucedida experiência colombiana no trato da relação entre drogas e violência, faz duras críticas às atuais políticas brasileiras para a questão e às propostas de diminuição da maioridade penal e de punição do usuário. Deixando evidente nosso atraso em relação à América Latina no trato do tema – agravado no governo Dilma, acuado sob pressão religiosa -, chega a declarar que "Dói em mim ver o que está ocorrendo no Brasil, pensando em soluções tão contraindicadas e alheias ao que está acontecendo no mundo".

A questão das drogas e da criminalidade é apenas um exemplo do retrocesso vivido pelo país durante o governo Dilma, ao qual poderiam ser acrescidos diversos outros, em sua maioria graves, tais como:

      1. O descaso para com o genocídio indígena, seja em seu formato cotidiano (desnutrição infantil, alcoolismo, alto índice de suicídios), no enfrentamento com o aliado ruralista ou no bojo de megaobras como Belo Monte;
      1. A timidez extrema nas políticas de gênero, que continua a negligenciar a questão do aborto, adia temas já resolvidos na pauta da maioria das democracias e tem deixado homossexuais sujeitos rotineiramente à violência urbana;
      1. A leniência (ou mesmo cumplicidade) com as ameaças recorrentes ao Estado laico;
      1. O desmonte e sucateamento das políticas culturais herdadas da gestão Gil/Juca Ferrira no MinC, o retrocesso no trato dos direitos autorais no âmbito da cultura digital e a instrumentalização político-partidária da Cultura;
      1. A perpetuação e o estímulo – via ProUni – a um modelo de ensino superior privado de péssima qualidade, oligopolizado e que viola de forma recorrente a legislação trabalhista no trato que dispensa aos professores;
      1. Ameaça de sucateamento do ensino superior público, com lei que, na prática, proíbe a exigência de diplomas de mestre ou de doutor nos concursos para os novos professores das universidades federais;
      1. Sobreposição do desenvolvimentismo a todo custo aos anteparos ecológicos legais, cujo exemplo cabal é o descumprimento impune das cláusulas estipuladas nas licenças ambientais para a construção da usina de Belo Monte;
      1. Desinteresse em promover a democratização das comunicações no país, explicitada, por um lado, na recusa em promulgar uma Lei de Meios que - a exemplo do que acontece nas democracias avançadas e em vários de nossos vizinhos sul-americanos - regularize em bases republicanas a atividade midiática; e, por outro, na recusa em valer-se de outro critério que não o de audiência para distribuição das verbas publicitárias federais via Secom.


Alianças cobram seu preço
O quanto tamanho retrocesso se deve à ânsia desmedida por hegemonia político-partidária via alianças com forças da direita - e dos compromissos com estas deriva-se - é matéria que caberá aos cientistas políticos do futuro decifrar. O certo é que tal guinada conservadora contradiz vários compromissos de campanha da candidata Dilma - inclusive a recusa às então tão criticadas privatizações, as quais agora, candidamente apelidadas de "concessões", se tornaram recorrente política de Estado.

Em decorrência, a atenção do governo Dilma parece estar ora concentrada em um lugar outro que não seus compromissos programáticos, dividida entre a obsessão economicista e a prioridade à reeleição. Quanto a esta, a aliança com o PSD consagra a hegemonia parlamentar da atual administração federal e deve dar à presidente-candidata um tempo de TV consideravelmente maior ao de seus concorrentes nas eleições de 2014. Vários analistas políticos consideram que, com isso, ela passou de forte candidata a virtualmente imbatível.

Pode ser. Resta saber, no entanto, a que custo e com quais alterações programáticas. Pois, se conservando a aliança com o PMDB e premida pelos compromissos assumidos com setores religiosos, o primeiro mandato de Dilma já foi muito mais conservador do que o prometido – e um claro retrocesso em relação ao governo Lula, em áreas como Cultura, Direitos Humanos, Ecologia, Educação e Saúde - causa temor vislumbrar o que pode vir a ser um seu segundo mandato escorado na bancada evangélica e no neoaliado PSD.



Ideologia, pra viver
A um ponto tal que se mostra necessário questionar, neste momento, se um governo submetido a tais alianças pode vir a atender, de fato e em que bases, a uma pauta de centro-esquerda ou, ao contrário, se o que faz é dar fôlego ao conservadorismo em um raro momento histórico em que este se encontra claramente desprestigiado em nosso país.

Da resposta a esta pergunta – e da postura que a partir daí a esquerda e a centro-esquerda tomarem – depende a possibilidade de movimentações que alterem esse quadro em que ampla hegemonia se confunde perigosamente com cooptação e desideologização da política.



(Post atualizado às 17h52min.Imagem retirada daqui)

domingo, 27 de janeiro de 2013

A dor de uma tragédia evitável

O mais trágico de calamidades como o incêndio que matou 232 pessoas, em ampla maioria jovens, em Santa Maria (RS), é a certeza de que poderiam ser evitadas.

Para isso, bastaria que as leis fossem eficazes, que as autoridades fizessem cumprir as leis e que a sociedade cumprisse a sua parte.


Funcionamento suspeito
As investigações acerca do incêndio hão de revelar as condições exatas que propiciaram a tragédia. Mas não é preciso mais do que bom senso para se dar conta de que uma boate com apenas uma saída estreita - a um ponto tal que os bombeiros tiveram de perfurar um buraco na parede para resgatar os corpos - simplesmente não poderia receber um público da ordem de centenas sem que oferecesse uma rota de fuga alternativa, com barras antipânico.

Sabe-se que o alvará de funcionamento da casa de shows estava vencido, mas que seu funcionamento estava assegurando por uma liminar assinada por um juiz. As informações são de que isso seria, pasmem, um procedimento corriqueiro: a autoridade judiciária autoriza o funcionamento ante um plano de segurança que, quando efetivamente implantado, permitirá ao estabelecimento requerer novo alvará.


Modelo anti-incêndio
Mas mais do que apontar os responsáveis, parece urgente que sejam tomadas medidas de forma a evitar que tragédias como essa se repitam. O Brasil, há tempos, tem primado por copiar e transplantar para cá, acriticamente, políticas sociais geradas no ambiente específico dos Estados Unidos, como exemplificam a visão estritamente policialesca no combate às drogas, a defesa da Intolerância Zero na segurança pública, a expansão de um sistema prisional privatizado, a Lei Seca, entre tantos outros exemplos.

Tenho frequentemente a sensação de que copiamos muito do que seja ruim ou questionável e negligenciamos aquilo que nos aperfeiçoaria. Por exemplo, tornaríamos nossos estabelecimentos bem mais protegidos contra tragédias como essa se adotássemos o modo como lá os imóveis, comerciais ou domiciliares, de todos os tamanhos, são obrigados a oferecer saídas claramente sinalizadas, extintores em dia e à mão, detectores de fumaças e, em alguns casos, portas corta-fogo e antipânico, tudo isso garantido por inspeções periódicas e por eventuais multas em caso de negligência.

Cabe ressalvar que considero o vigilantismo social detestável quando voltado a aspectos morais das condutas – e isso se aplica, em alguma medida, à Lei Seca, cuja implementação no Brasil, a meu ver, carece de discussões aprofundadas em relação aos direitos e deveres dos cidadãos. As proteções anti-incêndios acima citadas são, porém, de outra ordem, não intrusivas na esfera comportamental, não suscetíveis à manipulação moralista: medidas técnicas e eficientes que, sem afetar absolutamente as liberdades individuais, se efetivamente implementadas dariam uma contribuição decisiva à prevenção e à minimização de danos causados por incêndios – os quais, como o caso de Santa Maria demonstra de forma eloquente, tanta dor pode causar às suas vítimas diretas e indiretas.


Momento é de solidariedade
Sendo o incêndio em Santa Maria uma tragédia em proporções mundiais, fez muito bem a presidente Dilma Rousseff em cancelar sua participação no encontro de cúpula conjunta do Mercosul e do Mercado Comum Europeu e voar imediatamente de Santiago, no Chile, para o interior gaúcho. Tragédias desse montante demandam a presença do mandatário máximo, se não pelo maior e mais velozmente eficaz poder de fazer cumprir decisões urgentes que demandam mobilização nacional, mas pelo simbolismo em termos de solidariedade e apoio ao povo de Santa Maria, notadamente aos familiares e amigos das vítimas da tragédia. Ademais, ao se encontrar com estes no ginásio da cidade, Dilma, que já havia se emocionado a ponto de interromper sua fala em Santiago, mostrou-se profunda e sinceramente abalada.

Que a oposição e seus aliados na mídia corporativa critiquem a presidente pelo que entendem por medidas eleitoreiras, como vêm fazendo, pode até, no limite, fazer parte do jogo político, mas caracteriza-se, antes e acima de tudo, como uma atitude mesquinha que tende a ser compreendida como insensível, inoportuna e deslocada do sentimento de solidariedade e luto ora dominante. Mais bonito faria a oposição se declarasse por ora suspendido os enfrentamentos políticos e, em uníssono, se unisse com os demais poderes e com o povo brasileiro em solidariedade às vítimas da tragédia. Mas isso seria esperar demais da mais medíocre oposição da história da política brasileira.


Respeito à dor 
Porém, talvez ainda pior do que a atitude dos políticos oposicionistas e seus porta-vozes midiáticos seja a reação de alguns grupos religiosos nas redes sociais, que se aproveitam desse momento de perda para espalhar seus discursos moralistas toscos, eivados de culpas, as quais querem impingir às vítimas, agravando a dor de seus entes queridos. Tal atitude é o exato contrário do que se espera de quem se diz seguidor do cristianismo, cujo legado principal é o amor ao próximo, a caridade e a fé na redenção.

Neste momento tão difícil, em que tantas famílias sofrem a perda de pessoas queridas, que pais terão de vivenciar o drama inatural de enterrar seus filhos, que toda uma cidade, todo um estado, se mobiliza para atenuar as dores das vítimas, não é momento de moralismo barato ou de revanchismo, mas de altear pensamentos e coração no desejo de que os afetados pela tragédia tenham força para vivenciar e superar este momento, sublimarem-se para além da dor e reconstruírem suas vidas. 

E para que, um dia, Santa Maria volte a ser uma cidade encantada.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O retorno da polemista destemida

Camille Paglia está de volta. Após anos de relativa calmaria, a polemista desbocada que fez furor ao longo dos anos 90 com seus ataques ao establishment acadêmico, suas críticas ao caráter repressivo e vitimizante do feminismo norte-americano e sua ojeriza ao pós-estruturalismo francês de Foucault & cia, lança o livro Glittering Images: A Journey Through Art from Egypt to Star Wars, no qual dá sequência à sua revisão do cânone artístico, buscando ampliá-lo para além dos limites eurocêntricos e, como o título indica, incorporando artefatos gerados no âmbito da cultura pop.

A primeira polêmica derivada do livro foi ocasionada pela publicação, como artigo, de um trecho de sua introdução pelo jornal italiano La Republica. No texto, que já está disponível em português, Paglia põe a mão na ferida ao elencar como uma das razões da atual marginalização das artes o isolamento dos artistas entre pares, fazendo com que percam o contato com as pessoas comuns, das quais desprezam e zombam os gostos e os valores.

"Uma ortodoxia monolítica abandonou os artistas em um gueto de opiniões óbvias e os cortou fora das ideias novas. Nada é mais banal do que o dogma progressista, segundo o qual um valor chocante automaticamente confere importância a uma obra de arte. A última vez que isso foi verdade foi, talvez, no fim dos anos 1970, com as fotografias homoeróticas e sadomasoquistas de Robert Mapplethorpe […] Quem subordina a arte à agenda política contemporânea é tão culpado por literalismo rígido e por propaganda quanto um pregador vitoriano ou um burocrata stalinista qualquer", provoca ela.

Mas suas críticas não se dirigem apenas ao universo liberal dos artistas. Para ela, que se diz discípula e foi orientanda de Harold Bloom, os conservadores, "Apesar dos seus toques de trombeta por um retorno da educação ao cânone ocidental, se comportaram como filisteus provincianos com relação às artes visuais". Traçando um paralelo entre a iconoclastia e a frugalidade artística do protestantismo e a exuberância artística e imagética do catolicismo, ela lamenta, por um lado, que "os conservadores cristãos nunca permitiriam exibir nas escolas públicas os heroicos nus da arte ocidental. O puritanismo norte-americano hesita na suspeita conservadora de que há uma feitiçaria na beleza."

Por outro lado – e aqui está o centro da polêmica -, Paglia, em um momento de forte e disseminado sentimento antirreligioso no Ocidente - notadamente entre a jovem esquerda e os liberais -, não só reconhece que "uma quantidade enorme da melhor arte ocidental foi intensamente religiosa", como tem a coragem de sustentar que "Embora em seu nome se tenham cometido males, a religião tem sido uma força enorme de civilização na história do mundo. Zombar da religião é algo pueril, sintomático de uma imaginação atrofiada. Porém, essa posição cínica tornou-se de rigor no mundo artístico, um motivo a mais para a banal superficialidade de grande parte da arte contemporânea à qual não restou nenhuma grande ideia."

Um erro grave da publicação do trecho da introdução do livro em forma de artigo é, na minha opinião, não permitir a contextualização de tal posicionamento de Paglia em relação à postura incisiva que há décadas mantém como militante pró-sexo e pró-pornografia, contrária, como reiteradamente afirma, a qualquer intervenção do Estado e da religião institucional na vida sexual dos cidadãos. Ela, nos trechos em questão, está claramente falando a partir da perspectiva da historiadora e da cultora da arte, e como testemunha desesperada da dêblacle desta ante o que vê como conspurcação por ideais políticos que pouco ou nada têm a ver com excelência artística. Ao menos uma nota explicativa deveria ter sido publicada.

Ainda assim, é prazeroso saber que Paglia, depois de tanto tempo, mantém a coragem de ir contra a corrente e dizer coisas que muitos não querem ouvir, sobretudo por saberem-nas verdadeiras. 


(Imagem retirada daqui) 

sábado, 7 de maio de 2011

STF e homoafetividade: rumo a um país verdadeiramente democrático

Ao reconhecer por unanimidade a união civil homoafetiva, o STF honrou a Constituição, resistiu bravamente às pressões de setores conservadores e recuperou-se, ao menos momentaneamente, do maior desgaste de sua história, vivenciado durante o governo Lula, sob a liderança tacanha de Gilmar Mendes.

Trata-se de uma decisão histórica, que traz um sopro de renovação à atmosfera algo pesada que vem marcando o início do governo Dilma, eivado pelo retorno ao economicismo neoliberal primário. O resultado do julgamento do STF coloca o Brasil em pé de igualdade com nações em que os indivíduos não são discriminados por sua sexualidade, mitigando a distorção secular que cobrava de gays e lésbicas o cumprimento de todos os deveres cívicos, negando-lhes, no entanto, a contrapartida em direitos que os demais cidadãos e cidadãs usufruem.

A decisão, embora ansiosamente esperada, de certa forma surpreende. Havia o temor (justificado) de que a ascensão de novos e volumosos estratos neopentecostais – aliados, no caso, a setores conservadores do catolicismo – pudesse vir a tornar a esfera pública brasileira impermeável a avanços comportamentais, seja no campo da sexualidade ou, por exemplo, em relação à questão das drogas. A reação moralista e em bloco ao tema do aborto, vista na última eleição, reforçava tais temores.

Mas a alta corte não se deixou influenciar, cumprindo de forma digna sua missão. E não apenas ao estabelecer jurisprudência, mas fornecendo diretrizes legais que servirão de balizas para o tratamento do tema em termos sociais e educacionais.

Setores conservadores reagiram de forma ruidosa, como seria de se esperar, com os Bolsonaros da vida, à falta de argumentação racional, cuspindo fogo pelas ventas. Por outro lado, na internet e nas redes sociais, o clima foi de euforia e de congratulação. Um número enorme de pessoas, casadas, solteiras, das mais diversas inclinações sexuais, comemorou a decisão como uma grande conquista da cidadania.

Em meio à celebração, no entanto, o desabafo incluiu ataques indistintos a religiões e aos que nelas crêem. Tendo em vista os enfrentamentos pregressos e as reiteradas tentativas de intromissão indevida das instituições religiosas em questões públicas, não é de se entranhar que eles ocorram. Mas, idealmente, são dispensáveis - além de pouco inteligentes do ponto de vista tático, ainda mais se considerarmos que a batalha agora se deslocará para o Congresso, que deve regulamentar a decisão, dando a palavra final quanto a casamento e adoção de filhos por homossexuais.

Um tal cenário, viabilizado pela decisão de improváveis senhores de togas negras, acena para um país realmente democrático, onde viceje uma dinâmica sexual, social e afetiva realmente democrática. Tivemos um breve vislumbre dessa possibilidade na última quinta-feira. Que ela se concretize, em breve, como realidade.


(Foto retirada daqui)

domingo, 24 de outubro de 2010

Eleições: campanha do ódio ameaça democracia

Nos últimos dias o Brasil voltou a ser manchete na imprensa internacional. Porém, o motivo do interesse por nosso país tem sido bem diverso, agora, do demonstrado meses atrás, quando publicações como El País, The New York Times e Le Monde estampavam, em capa, reconhecimento a um presidente advindo do operariado e promotor de políticas sociais que reestruturaram uma das mais desiguais sociedades do planeta - tirando mais de 30 milhões da pobreza -, além de coordenador do realinhamento estratégico, para além da órbita norte-americana, de um país até então periférico na ordem mundial.

Os olhos da imprensa mundial para o Brasil agora, como de ordinário faziam antes do governo Lula, refletem uma visão negativa do país, expressando ora preocupação com o despudor com que a religião foi e continua sendo explorada eleitoralmente ante temas como aborto e homossexualidade; ora noticiando, de forma jocosa (não poderia ser diferente) o escarcéu que José Serra e Rede Globo armaram em torno de uma bolinha de papel atirada contra o candidato tucano.


O candidato sem programa
Enquanto isso, Serra vai caindo nas pesquisas, mas ainda se mantém em patamares, a meu ver, surpreendentemente altos para um candidato que sequer se preocupou em apresentar um programa de governo, quanto mais condizente e factível, limitando-se a promessas pontuais que até os economistas midiático-tucanos consideram irrealistas.

Não que tal lacuna chegue a surpreender: dos vários eleitores de Serra que conheço – na universidade, nas ruas, ou entre amigos e parentes – nenhum se declara como tal por conta de propostas para o país ou por uma razão ideológica strictu sensu.

No máximo, apresentam uma racionalização – no sentido freudiano do termo, ou seja, uma explicação lógica coerente mas que encobre seus verdadeiros motivos -, ainda assim reativa, acusando o petismo de corrupto ou de promover o “aparelhamento” do Estado. Mas ora, para ficar só no exemplo mais gritante, quem tem em suas hostes Paulo Preto – um sujeito que, segundo a Isto É, não só é acusado de nepotismo e de, segundo os próprios tucanos, ter desviado R$4 milhões, mas que foi preso EM FLAGRANTE como receptor de jóia roubada – não tem moral para falar de corrupção. E, com a filha do receptador tendo sido empregada pelo próprio erra, muito menos de aparelhamento. Portanto, alegar tais motivos como justificativa de voto é incoerente e não cola mais, deixando evidente que a razão de fundo de tal escolha eleitoral não significa adesão a determinada proposta política, mas uma reação ditada pelo ódio de classe contra o lulismo e o seu legado.

Assim, a campanha de Serra é a campanha do ódio porque sua candidatura encarna o sentimento contra Lula e o que ele representa, contra esse novo Brasil em que jovens da periferia vão à universidade, empregadas domésticas andam de carro e a classe D viaja de avião. Presas desse irracionalismo reativo, pouco importa, para as elites e os setores wanna be elite que a sustentam, que a candidatura tucana não seja propositiva. Em outras palavras : o ódio é tamanho que, ante a possibilidade de continuação da inclusão social da Era Lula, preferem passar um cheque em branco a um político sem propostas e que nunca terminou um mandato sequer.


Desrespeito à democracia
Afigura-se extremamente negativo para a democracia tal processo, pois abre mão do contrato social implícito entre eleitor e candidato, consubstanciado em um acordo por meio do qual aquele vota neste em troca do cumprimento, anda que inescapavelmente parcial, de um determinado conteúdo programático pré-estabelecido.

É a essa lógica contratual que seguiu a campanha de Lula em 2002 – prometendo criar 10 milhões de empregos e, ao final, gerando mais de 14 milhões – e, agora, a de Dilma Rousseff. Senão, vejamos: enquanto Serra utiliza o horário eleitoral gratuito não para apresentar projetos, mas para sustentar o ridículo atroz do #bolinhagate, como parte de uma pantomima não menos patética e que vai na contramão dos fatos – vide os comunicados do partido e da candidata nos últimos dias -, segundo a qual “o PT estimula a violência”, Dilma tem, dia após dia, apresentado os itens programáticos de seu projeto de governo: meio ambiente, indústria naval, inclusão digital, entre outros temas específicos.

Por sua vez, após chafurdar na boataria religiosa, ser autuada distribuindo comida em troca de votos e protagonizar o #bolinhagate, a campanha de Serra volta a viver de ataques contra a adversária, municiados pela mídia amiga -esta, descompromissada de uma mínima ética jornalística e ciosa da impunidade, aja como agir. Mandando às favas os escrúpulos – como em um certo dezembro – e sem demonstrar o mínimo apreço pela incipiente democracia brasileira, a qual humilha com o despudor de seus métodos truculentos, o tucano aposta na negatividade para ganhar as eleições. No momento, só não enxerga quem não quer ver que está armando o clima para um confronto físico e público, o qual, seja protagonizado por quem for (mesmo que por um provocador tucano inserido na multidão), a culpa recairá sobre os petistas.


O novo astral da campanha de Dilma
Enquanto Serra, sob o patrocínio da Rede Globo, Veja e congêneres, trava o seu combate nas trevas, parecendo "acreditar que o povo, em toda a parte, é uma entidade incapaz e como tal deve ser tratado" - como afirmou Gilson Caroni Filho em um artigo imperdível -, o país vai de vento em popa: o desemprego é o menor já medido e, enquanto boa parte do mundo vive as agruras da crise, com pesados contra-efeitos sociais, estamos em vias de consolidar, em questão de meses, o maior crescimento econômico em 30 anos - só que, desta vez, com inclusão social. É insano imaginar que o povo de um país possa abrir mão de tal cenário em prol de um aventureiro sem nada a oferecer exceto sua obsessão em se tornar presidente.

Talvez por estarem os eleitores tomando ciência de tal disparate, a campanha petista, após ser levada às cordas no início do segundo turno, passou a reagir ao bombardeio pleno de acusações mas vazio de propostas. Isso se deu de forma mais efetiva a partir do momento em que Dilma, sem abrir mão do viés propositivo, trouxe à baila o caso Paulo Preto, no debate da Band. A partir daí, com um momento culminante no evento com artistas e intelectuais no Teatro Casa Grande (RJ) – que, iconizada na imagem emocionada de Chico Buarque, artista prenhe de significações anti-autoritarismo, lhe conferiu uma respeitabilidade com que Serra não pode nem sonhar - , sua candidatura, vitaminada ainda pelo apoio de personalidades e intelectuais do Brasil e do exterior, tomou prumo.

E se em 2002 a esperança derrotou o medo; agora a verdade vencerá o ódio.


(Fotos retiradas, respectivamente, daqui e daqui.)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A campanha nas ruas e na mídia

Durante cada uma das primeiras eleições presidenciais após o fim da ditadura, o país era tomado por uma onda vermelha – em bandeiras, cartazes e faixas, bandeiras; nas praças, nos comícios, nos dias dos debates televisivos, até mesmo, durante a semana, nas ruas centrais das grandes cidades, onde sempre havia uma barraquinha do PT.

Três derrotas seguidas ensinaram ao partido que o entusiasmo aguerrido de sua militância não bastava: era preciso costurar acordos entre os setores de proa da sociedade, investir na conquista da hegemonia no interior dos estratos empresariais, industriais e financeiros. Como se tal projeto implicasse no esvaziamento da mobilização militante popular, já na vitória de Lula em 2002 - não obstante a grande festa popular que a celebrou -, não houve, nos comícios e nos momentos pré-eleições, aquela maré vermelha contagiante.



Círculo vicioso
Embora, nestas eleições, o PT continue produzindo, episodicamente, a cada comício, uma festa espontânea de entusiasmo popular com o qual o candidato tucano - a despeito de seus suspeitíssimos votos que, no mundo real, ninguém sabe de onde vêm -, não pode nem sonhar, criou-se, ainda antes da campanha, uma grande expectativa quanto à mobilização na internet – que foi e é expressiva, mas que claramente evidenciou os seus limites, com a ocorrência de um segundo turno em grande parte devido a ações de sabotagem e boataria nas periferias das grandes cidades.

E a ausência de uma mobilização que se antecipasse e reagisse ante tal fenômeno foi o primeiro grande vacilo da esquerda nestas eleições – mas não o único. Não obstante sua expressiva vitória nos estados e no Legislativo, ela voltou, nestas eleições, a cometer erros históricos.

O mais grave deles, evidentemente, é a sua divisão interna, com Marina Silva - movida por rancores e pelo ego ferido -, se deixando utilizar como massa de manobra pelo conservadorismo, apenas para levar as eleições ao segundo turno, para ser então descartada pela direita como se de um empecilho inútil, um subalterno servil, se tratasse, enquanto o PV de Sirkis e do derrotado Gabeira adere a Serra.


Mídia pauta esquerda
O segundo grande erro da esquerda – que acaba por também resultar em divisão – dá-se na forma de reações, invariavelmente negativas, aos enfoques idem que a - com o perdão do pleonasmo - mídia serrista dedica a Dilma. O caso da boataria anti-religiosa é ilustrativo: a mídia vinha carregando nas tintas na caracterização de Dilma como uma defensora feroz do aborto e do "casamento gay". Tal caracterização visava, obviamente, incendiar as já minadas pontes entre a candidata petista e o voto religioso (seja de setores evangélicos ou do catolicismo mais conservador).

Num gesto político inteligente e conciliador, Dilma se reúne com lideranças religiosas e firma um acordo assegurando que tomará um posicionamento equânime em relações a tais questões polêmicas. A mídia, "naturalmente" (se se considera natural o modus operandi do setor no Brasil, evidentemente), passa a caracterizá-la então como uma traidora da esquerda e, pasmem, uma ameaça ao estado laico. Até aí, noves fora nossa imprensa parcial, é o jogo jogado. O que espanta é ver esquerdistas-pollyanna caírem nessa.


História que se repete
Mesmo porque não se trata de novidade: procedimentos similares se deram inúmeras vezes antes, notadamente em relação a Lula e a tal Carta ao Povo Brasileiro, nas eleições vitoriosas de 2002: os jornais, tietes de FHC como ora o são de Serra, pintavam Lula como a encarnação da instabilidade e o inimigo dos mercados. Ao assinar o tal documento, no qual se comprometia com a estabilidade, o controle da inflação e o rigor fiscal, o hoje presidente passou a ser caracterizado pela mídia como um “vendido”, um traidor do projeto petista – e setores da esquerda, para variar, compravam acriticamente tal caracterização, quase provocando uma cisão em uma campanha destinada à vitória. Uma das raras vozes sensatas foi a do economista José Paulo Kupfer, que, ao contrário da manada na mídia e na esquerda, analisou criteriosamente o documento, concluindo que, a rigor, nada nele havia que impedisse ou mesmo constrangesse a implementação das políticas econômicas de cunho social que o PT sempre defendeu.

Pois, vamos aos fatos: a Carta ao Povo Brasileiro representou a adesão do governo capitaneado por Lula ao neoliberalismo? Impediu que se expandisse para um nível muito além do receitado pelo Consenso de Washington os programas de distribuição de renda que revolucionaram o país, criaram uma nova classe média e tiraram mais de 30 milhões de pessoas da pobreza? É evidente que não.


O inimigo é Serra
Mutatis mutandis, é o que acontecerá com o acordo de Dilma com os religiosos: longe de ameaçar o estado laico, como berram os mais alarmistas – mesmo porque é o Legislativo e não o Executivo quem pode efetuar mudanças nessa área -, trata-se, simplesmente, de um gesto de boa vontade e de reconciliação, num momento extremamente delicado da campanha, em que, pela primeira vez na história recente do país, a manipulação religiosa - via boatos - está sendo utilizada de forma massiva, açulando o ódio e evidenciando o despudor, o desapego, aqui sim, ao princípio do estado laico, além da desmedida sede de poder de José Serra, encarnação do que de pior pode acontecer ao país.

A hora não é de sedição, mas de calma, união e de sair às ruas – mais do que ficar atrás da tela do computador - apoiando a continuação de um governo popular e de satisfação dos anseios sociais secularmente reprimidos pelo conservadorismo brasileiro, que novamente mostra suas garras, involuntariamene auxiliado por soi-disant esquerdistas.


(Foto do comício em Joinville retirada daqui)