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domingo, 17 de julho de 2016

O legado petista nas Comunicações

A questão da comunicação não só permanece como um grave problema a afetar a democracia brasileira, como, ao final de um período de 13 anos em que a dita esquerda esteve no poder, intensificou-se ainda mais. Tanto o advento da TV digital quanto a difusão do acesso à internet tiveram, em relação a democratização e melhoria da qualidade do debate político, efeitos muito menores, pontuais e contraditórios do que os esperados. Tal façanha se deve, em grande parte, ao misto de inação e ação partidarizada nas políticas comunicacionais dos governos Lula e Dilma.


Legado da ditadura agravado durante a redemocratização, os problemas estruturais da mídia, identificados e corroborados por estudos diversos, acadêmicos ou não, permanecem, na essência, os mesmos do início do milênio: concentração das concessões televisivas em um punhado de plutocracias familiares, concessões radiofônicas utilizadas como moeda de troca política, mecanismos ineficazes para coibir o jornalismo difamatório e fazer valer, em tempo hábil, o direito de resposta; ausência de planejamento e de políticas efetivas de democratização da comunicação em curto, médio e longo prazos.







Conluio com as teles
A "novidade" mais notável é a extensão de tal perfil concentrador e antirrepublicano ao universo da telefonia celular e da internet, em que dois ou três conglomerados empresariais - as chamadas teles - monopolizam o mercado. Em conluio com interesses empresariais e eleitorais - e em comum acordo com o governo de turno - patrocinaram o fracasso do Plano Nacional de Banda Larga, que, anunciado na primeira eleição de Dilma Rousseff como meio de massificação do acesso à internet no país, revelou-se (mais) um golpe eleitoral.


No bojo de tal processo, as teles solidificaram-se como as principais doadoras eleitorais, agravando o jogo de interesses por trás do "faz-de-conta" das agências reguladoras, herança dos anos tucanos mantida incólume pelo petismo. Assegurou-se, assim, a prática de preços extorsivos em troca de um serviço muito abaixo dos padrões internacionais, um dos mais altos índices de exclusão digital entre países em desenvolvimento, e - em flagrante afronta aos direitos do consumidor - a corrente ameaça de impor limites ao uso da internet, com cobranças extras e até bloqueio do sinal.






Militância e jornalismo

Se, no que tange ao seu funcionamento estrutural, as mídias digitais apresentam problemas de tal gravidade, a situação, em termos de políticas de conteúdo, não é menos pior. Em vez de criar meios e mecanismos de incentivo à produção jornalístico-midiática diversificada e crítica, preferiu-se injetar recursos públicos em blogs e sites de exacerbada (embora quase nunca assumida) militância em prol de certas forças políticas. Como resultado, instaurou-se não só a confusão entre militância partidária e jornalismo, mas entre defesa de um governo capitaneado por uma aliança entre PT, PMDB e PSD com esquerdismo - o que teve como agravante um movimento de reação na forma de proliferação de sites e blogs situados na extrema-direita do espectro político-ideológico.


No bojo de tal processo, a própria crítica de mídia, que desempenhou um papel desmistificador e de alta relevância republicana nos primeiros, digamos, 15 anos dede o início da operação comercial da internet no país, expondo pela primeira vez, de forma crua e clara, o tendenciosismo e as ligações políticas e corporativas dos meios de comunicação, acabou por degenerar numa vicissitude, uma prática diária de agitprop maníaca e maniqueísta. Pois denúncias ou críticas contra as forças políticas defendidas pelo agentes virtuais ditos progressistas são tratadas, INVARIÁVEL E AUTOMATICAMENTE, como comprometidas ou "golpistas". Tal processo, ao recusar, a priori, o confronto analítico com qualquer critica, fato ou problema - inclusive os reais -, acaba por corresponder ao fornecimento de salvos-condutos incondicionais e eternos às forças políticas de devoção de tais agentes, eternizando bodes expiatórios os quais dificultam ou mesmo impedem que aquelas pratiquem a necessária autocrítica e a eventual correção de rumos.



Descritério e dissimulação


Para completar, tais agentes virtuais, levando a hipocrisia ao paroxismo, não se furtam a divulgar amplamente as notícias e análises produzidas pelos mesmos meios ditos não confiáveis ou "golpistas" quando estas são favoráveis às forças políticas que defendem. Dois pesos, duas medidas.

Como seria de se esperar, em um ambiente comunicacional contaminado por tal grau de maniqueísmo, a relação entre a mídia corporativa e o governo é analisada quase que exclusivamente como oposição e enfrentamento. Tal perspectiva, marcada pelo vitimismo, despreza nuances e negligencia ou finge não se dar conta das muitas ocasiões e tópicos em que as ações governamentais foram corroboradas ou mesmo defendidas pela mídia -  caso da tunga, digo, reforma da Previdência dos servidores públicos no governo Lula, das privatizações (" concessões", em novilíngua petista), do leilão do Pré-Sal, da escolha  de Joaquim Levy para comandar a economia no segundo governo Dilma, da repressão aos protestos de junho de 2013 e da Copa pela Força Nacional, entre tantos outros.






Linhas auxiliares

Enquanto era uma alvissareira novidade às manipulações do conluio mídia-mercado, tal atividade de militância travestida de jornalismo conseguiu, ante um público considerável, passar-se por avanço. Mas hoje, quando o caráter de linha auxiliar do petismo é evidente - e corroborado tanto pela divulgação das provas de destinação de vultosas verbas públicas quanto pelo anúncio de candidaturas eleitorais de blogueiros ditos progressistas - tornou-se, sobretudo, um canal para doutrinação de convertidos, agravando ainda mais o efeito-bolha propiciado pelas redes sociais.


Uma das consequências mais nocivas de tal processo é que, em um efeito-cascata generalizante, não só o próprio termo "blogosfera" como, em larga medida, a atividade jornalística alternativa na internet foi estigmatizada como partidarizada e militante, portanto, pouco ou nada confiável como informação e análise - não raras vezes (como cada vez mais pessoas se apercebem) tanto ou mais do que aquelas produzidas pelo establishment jornalístico. Entre a mídia-mercado e a mídia-partido, um vácuo.







Atraso e descompasso

Não só se perdeu, assim, uma janela de oportunidade histórica de criação de nichos jornalísticos alternativos sólidos, críticos e plurais, fora do tacão dos conglomerados midiáticos ou das forças partidárias; mas, como reação ao engodo de se traficar militância sob o rótulo de jornalismo, estigmatizou-se, de forma genérica, a possibilidade de que tal avanço - comum, hoje, à arena pública da maioria dos países democráticos - venha a acontecer no curto ou médio prazos. 


Ou seja, em termos de políticas de comunicação, o legado de mais de uma década da dita esquerda no poder inclui não apenas a manutenção, regiamente alimentada por generosas verbas públicas, do poder desproporcional de uma corporação midiática erigida em torno de um canal de TV, mas um modelo concentrador e abusivo de mídias digitais, além da preferência por patrocinar - até na TV pública, um avanço democratizante, se se guiasse por princípio republicanos - a ação de militantes protopartidários em detrimento do estímulo à diversificação e à crítica em moldes apartidários. Um retrocesso imensurável, pelo qual o país seguirá pagando um alto preço. 



(Imagem retirada daqui)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Especialistas de estimação

Um dos efeitos mais bizarros da difusão das redes sociais é que tem especialistas, profissionais reconhecidos e gente com reputação de séria para respaldar virtualmente qualquer opinião, em qualquer disciplina.

Se aquela ideia do Swift de matar crianças de rua para fazer salsicha com a carne delas e acabar com a fome no mundo for lançada no Facebook ou no Twitter, aposto que vão aparecer nutricionistas e sociólogos com projeção nacional para respaldá-la.

E, na dinâmica atual das redes, em que - como várias pesquisas mostram - as pessoas tendem a se juntar em grupos com interesses e ideologias afins, o resultado é que praticamente qualquer posição, por mais esdrúxula e insustentável que seja, acaba corroborada por opiniões de peso.

Em última análise,o efeito é que muitos tornam-se convictos de sua posição - e da legitimidade desta, a despeito de critérios objetivos de validação.

Durante os anos 90, antes da web 2.0, disseminou-se o prognóstico de que a internet diminuiria significadamente o prestígio e a função social dos especialistas. Talvez esteja acontecendo o oposto: eles se tornaram onipresentes, independente de posicionarem-se com a maioria ou com grupelhos.

Desnecessário apontar que, em um cenário político de polarização extrema, tal processo atinge o paroxismo - e com resultados os mais nefastos.



(Imagem retirada  daqui)

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

A campanha na lama

Há tempos tornou-se frequente, no jornalismo brasileiro, uma crítica generalista à internet, tida e descrita como “terra de ninguém”, meio de expressão de ódios represados e ataques pessoais. As caixas de comentário dos portais e dos jornais e a correspondência eletrônica endereçada aos jornalistas seriam a prova cabal do baixo nível.

O choque de Chico Buarque ao se defrontar, pela primeira vez, com a agressividade na rede tem sido citado de forma recorrente por profissionais de imprensa como exemplo de que estão certos: para muitos, durante um longo período, um ídolo quase unânime, exemplo de beleza, talento e combatividade, o compositor de “Apesar de você” descobriu que um número não desprezível de internautas o considera um velho caquético e merecedor das piores pragas e impropérios. Reagiu com humor.



Esvaziamento da política
Durante anos, enxerguei nessa crítica à internet um misto de parcialidade (pois só retrata o lado negativo da web), preguiça (de pesquisar, descobrir e valorizar suas fantásticas possibilidades, comparativamente maiores) e, sobretudo, orgulho ferido de jornalistas contra o meio que lançou a imprensa e a mídia, de modo geral, em uma dupla crise: comercial, graças à diversidade e ao volume de informação oferecida, muitas vezes gratuitamente; e de credibilidade, já que ficou muito mais fácil investigar e divulgar as omissões, armações e erros midiáticos, bem como desvendar os interesses que eventualmente os motiva.

Tais ressalvas continuam, em larga medida, a parecer-me válidas, mas ora mostram-se relativizadas pelo modo como a política vem sendo instrumentalizada pela internet nas eleições atuais, num processo em que ao esvaziamento da reflexão mais aprofundada corresponde a disseminação de um festival de ataques baixos e tentativas de desqualificação do opositor, transformado em inimigo a ser aniquilado.



O protagonismo das redes
As redes sociais têm tido um papel fundamental em tal processo. Seu poder mobilizador deriva do fato de, por um lado, inserirem-se como um elemento cotidiano na vida de muitos cidadãos e, por outro, retroalimentarem tanto os marqueteiros de campanha quanto a cobertura midiática. Isso se dá, em primeiro lugar, pela própria natureza das redes sociais, velozes, voláteis e baseadas em uma lógica de agrupamento de pessoas com ideias, gosto ou preferências afins, e com tendência a facilitar a criação de “ondas”, movimentos de manada intensos, porém breves.

A duração de tais movimentos, medidos em horas, no máximo dias, faz com que sirvam como uma luva, por um lado, para o marqueteiro político, ávido por um feedback diário para fazer correções pontuais no desempenho de seu candidato; e, por outro lado, para a imprensa, notadamente a diária, cuja periodicidade tende a combinar com a do ciclo de renovação dos temas nas redes, e a mídia, engessada pelas proibições da Justiça Eleitoral e necessitada de pautas que aliem o interesse do leitor/espectador e as eleições.



Egolatria
Pode-se argumentar, como contraponto, que as redes sociais fizeram com que aumentasse o interesse geral por política. Isso pode até ser verdade, porém a política nas redes sociais tende a ser presa de uma economia libidinal tipicamente pós-moderna, sendo submetida às recompensações egoicas do internauta, renovadas em intervalos de poucos segundos, a cada “curtir” no Facebook ou “RT” ou favoritada no Twitter. Trata-se de um processo que, do ponto de vista subjetivo, encerra-se em si mesmo, porém gerando graves consequências por ocupar sub-repticiamente o lugar – e, em determinado grau, dificultar o exercício – da reflexão e do debate aprofundado sobre questões políticas.

Temos, portanto, uma lógica alimentada pelo próprio modo de operação do usuário com a rede social, em que o espaço para a explanação de projetos políticos e para o debate e o embate de propostas é, em grande parte, ocupado em prol de uma espécie de jogo competitivo cujo objetivo varia entre uma mesquinha recompensa egoica e a questionável realização de marketing eleitoral de colocar um tema entre os mais debatidos do dia.



Mercenários virtuais
Esse cenário, por si só preocupante em uma democracia com tantas urgências e com tanta carência de propostas planejadas no médio e longo prazos, agrava-se com a ação de agentes contratados pelos partidos para, no mais das vezes sem identificarem-se como tal, agir nas redes sociais em prol de determinada(s) candidatura(s).

Fora do radar da Justiça Eleitoral, operando diuturnamente e sob a coordenação do marketing das campanhas, esses agentes, frequentemente com uma formação política precária ou quase nula, pouco colaboram para o debate ou para o aprofundamento desta ou daquela questão: sua função é martelar slogans, plantar suspeitas e desferir ataques que atendam aos objetivos traçados pela estratégia de marketing do partido.



Ataque deliberado
Mas o protagonismo das redes sociais e, nelas, a indistinção entre cidadãos engajados e mercenários não seriam suficientes para explicar o baixíssimo nível das eleições presidenciais deste ano – mesmo porque as redes sociais já eram atuantes em eleições anteriores e, embora partidários de um e de outro candidato se digladiassem entre si e um certo nível de baixaria sempre houvesse, jamais praticamente monopolizaram a campanha como ocorre agora.

Pois o que nós estamos assistindo, não raro enojados, é fruto de estratégia deliberada de marqueteiros, ciente das características pouco aprofundadoras das redes sociais e do estado de “eterno presente” em que tendem a manter o internauta, engajado como que num videogame em que batalha por seu candidato.

Sabem que esse formato competitivo, baseado na recompensa egoica pessoal e na identificação de grupo, sob o comando de suas diretrizes, tem como consequências óbvias o primado dos ataques estereotipados, pespegados através de slogans martelados ad infinitum, em detrimento das nuances, ponderações e do aprofundamento necessários a um debate efetivo de projetos políticos. Assim, serve, ainda, como uma forma de acobertar a ausência de um programa de governo detalhado por parte de algumas forças políticas, desviando a atenção dos eleitores para questões incomparavelmente menos importantes, como quantas curtidas recebeu seu post no Facebook ou qual a tag que terminou o dia em primeiro lugar nos trending topics do Twitter, se a dos apoiadores de Dilma, de Marina ou de Aécio.




Estratégia da desqualificação
Nenhuma dessas três candidaturas mais competitivas está, evidentemente, isenta de um certo grau de agressividade nas redes socais – o que, de certa forma, vem a corroborar o que foi dito sobre a natureza de tal meio virtual. A rigor, seria, porém, injusto dizer que tais manifestações violentas se equivalem ou que são meramente reativas. A estratégia traçada pelos marqueteiros das campanhas acaba por influenciar de forma determinante o grau de agressividade nas redes e, desse modo, o PT assumiu, nestas eleições presidenciais, o papel que tradicionalmente era atribuído ao PSDB de José Serra, como o partido cujos militantes virtuais têm feito um uso mais agressivo da rede e sobre o qual recai o maior número de suspeitas quanto à ação de agentes pagos.

E como Marina Silva é, até o momento, a candidata que efetivamente ameaça a continuação do projeto petista de poder, a campanha contra ela, ininterrupta desde o final do velório de Eduardo Campos, atingiu um grau de agressividade que talvez só a de Fernando Collor contra Lula, em 1989, tenha logrado igualar.

Em mais uma prova de que história só se repete como farsa, o PT reedita, neste momento, contra Marina Silva, a campanha do medo da qual foi alvo em 2002. Desta feita, porém, com a própria presidente Dilma Rousseff encarnando a Regina Duarte da vez, numa tática ofensiva ao passado político do PT, à candidata petista e à liturgia da Presidência.



Enfraquecimento da democracia
Assiste-se, assim, a um verdadeiro festival de baixarias, em que o trato civilizado entre ex-aliados, hoje em oposição, dá lugar a uma catarse em que o ódio serve de alimento às agressões pessoais. Para além de seu significado em termos propriamente partidários, trata-se de um retrocesso lamentável para a ainda jovem democracia brasileira.

Pois, fenômeno global, o aspecto por demais cosmético do marketing político na atualidade, por mim abordado em outro artigo), introduz por si uma transformação – da política em objeto de consumo – altamente negativa para o avanço democrático.

A corrente despolitização das eleições, transformadas num jogo de difusão de boatos, meias verdades e tentativas incessantes de desqualificação pessoal do adversário vai além: desqualifica a própria democracia, enfraquecendo-a, num gesto irresponsável e temerário para o futuro politico do país.



Reação institucional
Urge, porém, que os setores democráticos da sociedade brasileira se unam para que medidas sejam tomadas no sentido de impedir que os ataques baixos e o esvaziamento dos debates dominem as futuras eleições no Brasil.

Há de se aprimorar a legislação eleitoral, adaptando-a a tempos cibernéticos, e de se estabelecer uma ação mais efetiva da Justiça Eleitoral: a exigência de que todos os partidos apresentem programas de governo detalhados, com indicativo da fonte de receitas e adequação a normas preestabelecidas, um maior espaço para o debate de política na mídia e nos meios educacionais, além de punições efetivas e rigorosas no sentido de coibir as campanhas difamatórias e o jogo baixo seriam medidas bem-vindas no curto prazo.

Faz-se necessário, o quanto antes, que mídia e sociedade organizada trabalhem no sentido de diminuir o peso do marketing político e das táticas de desqualificação e enfrentamento através do incentivo constante ao diálogo com o poder e ao debate de programas partidários e demandas sociais antes e durante as eleições, no sentido de resgatar, também na política, o “tempo da delicadeza” de que, em uma de suas mais belas canções, nos fala Chico Buarque.


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Publicado originalmente no Observatório da Imprensa. Foram feitas pequenas alterações.






domingo, 20 de abril de 2014

Subsídios para o debate eleitoral

Um dos traços mais marcantes do debate público sobre política, no Brasil, tem sido a proliferação de boatos, ataques pessoais e preconceitos diversos, em detrimento da discussão de temas urgentes e concretos, associados a questões propriamente políticas, aos modelos adotados e suas alternativas e no que implicam para o nosso futuro como nação.

É fácil constatar tal processo: basta consultar as redes sociais ou puxar conversa aleatoriamente nas ruas para que cresça a possibilidade de nos defrontarmos com "fatos políticos" como a transformação de Lula de cachaceiro em milionário global (sendo que não há provas de que ele seja nem uma coisa, nem outra), de seu filho em dono de frigoríficos e corporações telefônicas, ou com a certeza, baseada no mero achismo, de que o PT é o partido que mais roubou em toda a história republicana.

Ao assim agir, a oposição trabalha contra si e facilita tremendamente a manutenção da hegemonia eleitoral petista, pois deixa de apresentar programas e projetos para o país, preferindo apostar em uma boataria difamatória que pode ate servir de válvula de escape para suas frustrações e preconceitos de classe, mas, justamente por seu vazio programático, é eleitoralmente inócua. Pior: ao apostar no escândalo moralista, perde-se a chance de apontar os muitos e graves erros do governo Dilma, que se tornam cada vez mais evidentes a parcelas do eleitorado, como mostram as pesquisas.



Por outro lado, nos escaninhos virtuais governistas e entre os petistas em geral, proliferam, como método prioritário de ação política, as outrora criticadas desqualificações pessoais de críticos e oposicionistas (mesmo dos que até ontem de manhã eram parceiros do partido). Isso, por sua vez, leva à repetição, em sentido inverso, do tipo de ataques acima citados, com a proliferação das acusações de que Aécio Neves seria um bêbado e cocainômano e caricaturando Marina Silva como uma fanática religiosa a soldo do Itaú (como se a presença – e o poder decisório - de religiosos não fosse imensa no governo Dilma e a candidatura desta não tivesse entre seus patrocinadores grandes bancos, inclusive o Itaú, terceiro maior apoiador em 2010).

Para agravar a situação, a necessária autocrítica petista deu, há tempos, lugar à eleição da mídia como bode expiatório para toda e qualquer acusação ou má avaliação que envolva o atual governo, deixando de levar em conta que foi Dilma quem deliberadamente optou por não promover a regularização da mídia, guardando na gaveta o projeto que Franklin Martins lhe entregara pronto e preferindo ingenuamente tentar cooptar os veículos corporativos com afagos institucionais e polpudas verbas da Secom.

Quem perde nesse jogo viciado entre governo e oposição é o país e seus cidadãos, de ordinário já submetidos, nas últimas décadas, a um processo de hegemonia do marketing na politica que tende a dissimular o programático e o ideológico em prol da transformação dos candidatos em embalagem e produto. Vide "Collor, o caçador de marajás" e "Lulinha paz e amor".

No entanto, após mais de 11 aos de petismo o poder – período mais do que suficiente para que o improviso fosse substituído por medidas planejadas -, há muitas e sérias questões cujo debate, preterido pela boataria ofensiva e pelo jogo de desqualificações acima descrito, mostra-se, neste momento, de fundamental importância.

Abaixo, dez questões cuja discussão acrescentaria muito ao debate pré-eleitoral, ao contrário do que acontece se o país continuar a discutir se Lulinha é dono da Friboi ou se Eduardo Campos é filho de Chico Buarque de Hollanda:

    1) Por que, após décadas de grande melhoria, os índices de analfabetismo infantil voltaram a crescer durante o governo Dilma, que alega priorizar a Educação e cujos programas de renda mínima exigem que os filhos sejam mantidos na escola?

    2) A gestão da Saúde, após 11 anos, mostra-se incapaz, por um lado, de aperfeiçoar a qualidade e expandir o atendimento prestado pelo SUS; por outro, os planos de saúde estão mais caros do que nunca, custam a muitos pacientes idosos mais da metade de seus rendimentos e frequentemente exigem que o paciente recorra à Justiça para ter acesso a procedimentos um pouco mais caros. A tal quadro o governo contrapõe o Mais Médicos, que espalhou mais de 13.000 médicos por áreas remotas para prestar atendimento básico. Devemos estar satisfeitos com tal "modelo" de gerenciamento da saúde pública?

    3) Ao menos desde o final da ditadura, o direito constitucional de protestar vinha sendo respeitado no país, com exceção de um ou outro governador tucano que usava a PM para reprimir manifestações. A partir de junho do ano passado, todo e qualquer protesto público vem sendo reprimido com violência policial, sendo que o governo Dilma tem sido pródigo em colaborar para tal quadro, inclusive com o envio da Força Nacional para reprimir manifestantes. Devemos aceitar passivamente tal afronta a direitos constitucionais?

    4) De modo similar, o governo Dilma vem, desde o início, recusando qualquer diálogo com grevistas e com o movimento sindical, não raro reprimindo-os com violência física, como fez com os professores universitários em 2012. É esse modelo de relacionamento do poder com reivindicações trabalhistas que queremos para o país?

    5) Os índios vêm sendo vítimas de um verdadeiro genocídio nos governos Lula e Dilma. Por um lado, isso se dá graças ao modelo arcaico de desenvolvimento baseado no consumo e em enormes hidrelétricas; por outro, em decorrência da aliança entre o governo e grandes latifundiários. O resultado é o menor índice de demarcação de terras desde os anos 1970 e um aumento de 271% no número de mortes de indígenas durante as presidências petistas. É assim que queremos que os índios brasileiros sejam tratados?

    6) Embora o governo alegue que a inflação está sob controle, há uma sensação disseminada de que os preços dispararam, renovada a cada ida ao supermercado, a cada viagem, a cada refeição em restaurante. Isso se deve, em grande parte, à maquiagem que o governo aplica ao cálculo dos índices inflacionários, manipulando-os de forma a baixá-los artificialmente. Além disso, é público e notório que, por razões eleitorais, o governo Dilma está segurando os preços de combustíveis e energia elétrica, num procedimento que gera tensão inflacionária constante e deve provocar estouro de custos ao consumidor em 2015. É saudável esse grau de falseamento de índices recorrente no governo Dilma ou seria desejável que estes refletissem com fidelidade o aumento dos preços?

    7) De modo análogo, há uma acentuada discrepância entre o "pleno emprego" comemorado pelo governo, os índices do DIEESE (nos quais o PT sempre se baseara antes de assomar ao poder, e cujos índices atuais são o dobro do IBGE) e a sensação geral quanto ao tema (quase todo mundo conhece muitas pessoas desempregadas). Ao contrário do que apregoa o senso comum, pesquisas independentes mostram que, no Brasil atual, quanto mais qualificado o profissional, menores as chances de ele conseguir emprego. Para além dos índices oficiais, qual é a realidade do mercado de trabalho na era petista?

    8) A mídia brasileira segue sendo uma das mais concentradas do mundo, nas mãos de seis famílias que praticamente a monopolizam. O Direito de Resposta foi abolido pelo STF e o partidarismo e a  difamação grassam nas rádios e TVs, que são concessões públicas sujeitas constitucionalmente à obediência a certos preceitos, como o caráter educativo. Na imensa maioria dos países desenvolvidos, a adoção de parâmetros que regularizam a atividade midiática é prática estabelecida, sedo que Argentina e Inglaterra criaram recentemente legislações específicas a esse respeito. Como avaliar a inação petista ante tal questão?

    9) O governo Dilma alega priorizar a Educação, e o fato que corroboraria tal afirmação seria, segundo ela, a expansão do ensino superior, cuja disponibilidade de vagas praticamente dobrou desde 2002. Porém há quem sustente - lembrando o exemplo do ensino secundário durante a ditadura - que dobrar o número de alunos sem o correspondente aumento da contratação de professores equivale ao sucateamento do sistema educacional. E antigas e novas universidades apresentam deficiências estruturais, como goteiras, falta de carteiras e ausência de bibliotecas/enorme defasagem de acervo. Além disso, permanecem intocáveis velhos problemas da universidade brasileira, como os concursos fraudados, os professores e funcionários fantasmas e a privatização disfarçada de serviços. Como avaliar a política petista para as universidades?
10) O incremento da democracia participativa foi uma das principais reivindicações das Jornadas de Junho. No entanto, embora ela fizesse parte das práticas do velho PT, foi preterida pelo governo Dilma em prol de uma gestão pública extremamente personalista e centrada, que pouco delega a assessores e não estabelece nenhuma forma direta de participação popular, quanto mais em âmbito decisório. É a manutenção desse modelo arcaico de democracia que queremos para o país?

(Imagem retirada daqui)


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A política e as redes

O debate político brasileiro tem sofrido forte influência da internet, meio que não só reavivou, em muita gente, o interesse por política e o hábito cotidiano de discuti-la, mas deu voz a uma diversidade de atores na arena, acabando com o monopólio da mídia corporativa.

O jornalista Tácito Costa, editor do site Substantivo Plural, comenta o processo:
"As redes sociais abriram uma fenda na monolítica imprensa tradicional, que durante séculos monopolizou os canais de comunicação como alicerces de seu poder e dos seus interesses. Definitivamente, acabou o tempo da comunicação unidirecional. Um pouco antes da explosão das redes, os sites e blogs já tinham equilibrado esse jogo, oferecendo contraponto indispensável aos conglomerados da mídia e, com isso, fortalecendo a pluralidade e a democracia,"
Deflagrados a partir da confluência entre desenvolvimento, barateamento e difusão de tecnologias digitais e num contexto em que a passividade do espectador dá lugar à interatividade, os resultados concretos dessa atividade virtual se fazem sentir em fenômenos mais ou menos recentes e por vezes antagônicos entre si, como a emergência da chamada blogosfera progressista, o uso do tumblr como ferramenta para o humor político e a mobilização popular via redes sociais. Estas, além de se constituírem, cotidianamente, como arena pública de debates, tiveram papel relevante nas manifestações de junho e acabam de servir de meio para deflagração de "rolezinhos" em shoppings. No bojo da Copa e da campanha eleitoral, prometem seguir dominando a cena em 2014.



Bolha de certezas
Não obstante positivo em sua essência, o debate político que se dá via redes sociais traz, inerentes, aspectos contraditórios ou mesmo intrinsecamente negativos, os quais se tornam mais evidentes à medida que a interação por elas proporcionada se torna um elemento rotineiro no cotidiano de cidadãos e cidadãs.

Talvez o mais evidente - e empobrecedor - deles, na seara política, seja a tendência à formação de "igrejinhas", em que a timeline [o conjunto de perfis seguidos e que te seguem] tende a se apresentar expurgada dos perfis que expressam opiniões francamente contrárias ou divergentes às do dono da conta, acabando por forjar uma falsa unidade discursiva em prol do ideário, partido ou programa político por este professado. Assim, seu universo político pessoal é conservado em uma espécie de bolha que, embora perfurada amiúde pela própria impossibilidade de se prever e vetar toda e qualquer opinião contrária, o mantém no mais das vezes preso, a um tempo, de convicções que seus pares reafirmam a todo instante e do contato com a multiplicidade de opiniões divergentes – dinâmica que lhe impede acesso a uma visão realista da intensidade da oposição à linha política que defende.



Carimbador maluco
Deriva de tal dinâmica um segundo efeito dessa "segmentação opinativa" inerentes às redes sociais: a tendência, em um cenário político pobre em termos de diversidade e fortemente concentrado na oposição PT X PSDB, a "carimbar" as opiniões de acordo com a régua estabelecida por tal dicotomia.

Assim, se você defender o Bolsa Família ou mostrar simpatia pelos condenados do "mensalão" é grande a probabilidade de ser carimbado como simpatizante do PT ou mesmo xingado de "petralha" e termos derivados, os quais, disseminados a partir do jornalismo neocon, explicitam a intolerância e a tentativa de desqualificação do que entendem por esquerda.

Já se você ousa defender a classe média ou dá pinta de pender para uma posição com tinturas de conservadorismo ou de liberalismo econômico, se tornam grandes as chances de ser repelido pelas hostes dominantes nas redes e carimbado como "coxinha", o xingamento máximo do petismo militante, não obstante a ascensão de pobres à classe média ser comumente desfraldada pelos próprios partidários como principal conquista dos governos petistas.



Desqualificação a priori
Nesse cenário polarizado, há pouco espaço para nuances ou para assimilação de críticas que procuram ir além da dicotomia PT x PSDB. É sintomático dessa intolerância a evocação do fantasma dos anos FHC – ou seja, elitismo, precariedade social e crise econômica – à mínima restrição dirigida ao governo petista: Com tais reações, o debate é interditado por uma confusão deliberada entre a crítica pontual à atual administração e a negação total do petismo em prol do que seria inapelavelmente, de acordo com a reação citada, a única alternativa: o retorno aos anos FHC. Trata-se de uma atitude que não só revela-se autoritária e diversionista ao se recusar a debater os termos específicos da crítica, mas, mostrando ignorar não só a significação última do dito marxista de que a história só se repete como farsa, não se apercebe que se a volta ao Brasil do ex-presidente fosse uma mera questão de deixar de optar pelo PT, então seria porque as mudanças por este partido promovida, nos últimos 11 anos, não foram suficientes sequer para nos colocar a salvo de tal perigo como uma ameaça imediata (muito pelo contrário, até as privatizações estão de volta, sob patrocínio petista).

Em decorrência da tendência a pouca tolerância com opiniões nuançadas – no sentido de não circunscritas à troca de chumbo entre petistas e peessedebistas -, cria-se um processo vicioso de desqualificação a priori das críticas, denunciadas na origem como ideologicamente tendenciosas e cujo teor sequer é levado em conta, e de restrição à sua circulação, seja através da recusa pessoal (e legítima) a repercuti-la nas redes sociais, seja na recusa (dissimulada) dos blogs de grande audiência em repercutir opiniões que se oponham frontalmente às linhas partidárias que efetivamente (mas não assumidamente) apoiam.



Boicote autoritário
Destarte, malgrado o pleno direito à expressão e as múltiplas modalidades possibilitadas pela internet, acaba-se por observar-se atualmente, no que concerne ao debate político brasileiro, o germe de um processo de caráter totalitário, por vezes macartista, de abafar vozes críticas divergentes, processo este em que tem papel precípuo as paixões partidárias e é protagonizado por entidades virtuais que até recentemente se publicizavam como pluralistas e progressivas.

Trata-se, em última analise, de um fator de retrocesso no debate púbico, pois enquanto as paixões partidárias se manifestarem como elementos de desqualificação e de repressão à livre abordagem crítica dos problemas, será a fé se sobrepondo à razão, até na seara política. Verdadeiros democratas não temem o debate.


(Imagem de Joseph McCarthy retirada daqui)

quarta-feira, 21 de março de 2012

Visão cultural anacrônica caracteriza audiência pública de Ana de Hollanda na Câmara


A audiência pública de Ana de Hollanda na Comissão de Educação e Cultura (CEC) da Câmara dos Deputados, realizada ao final da manhã de hoje, dissipa qualquer eventual dúvida quando ao anacronismo de sua visão das relações entre cultura e internet.

Foi um espetáculo deprimente: ante arguidores em sua maioria anestesiados, desinteressados, a ministra da Cultura demonstrou não possuir os conhecimentos mínimos requeridos de um gestor cultural em sua posição, ostentando uma postura que choca pelo primarismo – expressado numa visão reducionista da cultura tão-somente enquanto produto cultural comercializável -, pelo conservadorismo – em contraste com o discurso da candidata Dilma – e, sobretudo, pelo atraso intelectual - ficou claro que as concepções de Ana quanto às relações entre produção cultural, mercado e internet apresentam uma defasagem de décadas e não se coadunam com os fluxos culturais que caracterizam o mundo contemporâneo.

A ministra afirmou temer pelo futuro da cultura brasileira devido à pirataria e à internet. Ou seja, para ela, a rede mundial de computadores, cujas imensas possibilidades de produção e circulação cultural são exaltadas por pesquisadores do porte de um Jesus Martín-Barbero, representa uma ameaça, e não um devir. 

Foi constrangedor ouvir uma figura ligada a uma tradição familiar caracterizada pelo culto à inteligência e pela participação política progressista proferir uma visão a um tempo tão retrógrada, desinformada e, ao mesmo tempo, tão contrária ao bem coletivo e favorável ao lucro privado. A ministra deu mostras de confundir troca de arquivos pela web com furto e, assim, chamou veladamente tais internautas de ladrões.

Causa enorme preocupação a constatação de que o órgão máximo de gestão da cultura brasileira está sob o comando de alguém tão despreparado. É ingenuidade, porém, a crença de que o problema do MinC seja de ordem individual e que uma simples troca de nomes resolveria a questão. Ana de Hollanda é uma peça da política federal de cultura do governo Dilma Rousseff, e qualquer mudança só será efetiva se a ideologia orientadora de tal política for alterada a favor de uma abordagem positiva da cultura digital, da retomada dos grandes projetos de inclusão cultural da gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira, hoje claramente boicotados, e do fim da visão mercadista e atrasada de direitos autorais que colocou o suspeitosíssimo Ecad no centro da cena cultural brasileira - a qual ora se encontra muito aquém de suas imensas potencialidades, em larga medida devido ao estrabismo cultural do Estado.

A audiência de Ana na Câmara dá-se em um momento em que a insatisfação acumulada pela classe artística, por ativistas digitais e pelos produtores culturais encontra-se na iminência de transbordar. Circula um manifesto, que une tanto artistas de centro-esquerda quanto do campo oposicionista, pedindo a substituição de Ana por Danilo Miranda, diretor cultual do SESC. Os ativistas digitais, que foram ponta-de-lança durante as eleições, formam certamente o grupo mais insatisfeito: se sentem traídos, dada a disparidade entre os compromissos com a cultura digital assumidos em campanha - para a qual contribuíram intensamente - e a postura mercantilista e corporativa assumida pelo MinC.

Dilma parece dar, cada vez mais e a um número cada vez maior de pessoas, a impressão de que seu governo concentra-se sobretudo em um esforço gerencial, alegadamente “desideologizado”, da economia – e que tudo o mais – políticas de gênero, educação, cultura - é supérfluo. A classe artística é numericamente pequena, mas tende a ser politicamente mais volátil e a ter um grande poder de influência. A insistência no retrocesso das políticas culturais, do qual Ana de Hollanda tornou-se o símbolo, além dos graves danos à cultura, à cidadania e à segurança jurídica na internet que já vem causando, pode vir a cobrar um alto preço eleitoral no futuro.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Reações a doença de Lula e à PM na USP evidenciam crise ideológica e cultural

As reações, na internet, a dois eventos recentes – o anúncio de que o ex-presidente Lula está com câncer e a atuação da PM na USP – têm causado perplexidade e repulsa pelo modo agressivo com que se expressam e pelo que evidenciam de falta de educação, preconceito e inadaptabilidade ao debate democrático. Mas, como veremos, há mais pontos em comum entre essas duas manifestações de intolerância do que à primeira vista sugerem.


Agressões ao doente
Receber a notícia de que alguém está com câncer – ou com outra doença tida como grave – costuma despertar compaixão no ser humano. Alguns atribuem tal reação a uma suposta bondade inerente à nossa espécie, acreditando que por baixo das máscaras que adotamos para a vida em sociedade vicejam corações plenos de boa intenção; os não-rousseaunianos, mais reticentes, afirmam tratar-se de uma reação ditada pelo instinto de preservação: o temor de que venhamos a padecer da mesma enfermidade faz com que nos identifiquemos com a dor alheia como forma de esconjurá-la.

Seja como for, considera-se que festejar e regojizar-se com o anúncio da doença alheia é reação que ultrapassa todos os limites do bom senso e da convivência em sociedade. É por isso que o que se viu, na internet mas também nas redações, logo após o anúncio de que Lula está acometido de um câncer na laringe, marca um dos pontos mais baixos do debate público no Brasil. No momento de maior fragilidade do ex-mandatário, deu-se vazão a todo o ódio e preconceito de classe acumulados nos anos em que ele esteve no poder.

O texto definitivo sobre o caso veio da pena cada vez mais afiada de Maria Inês Nassif, que entre outros pontos relevantes apontou que não é de hoje que o respeito mínimo devido a todo presidente eleito não tem lugar quando se trata de Lula da Silva – e que entre os que através de tal procedimento desrespeitam a instituição mesma da Presidência está a própria mídia, que deveria dar o exemplo.


Insultos aos estudantes
Pois nem bem as forças democráticas se recuperavam de tais excessos agressivos - que levaram até jornalistas notadamente conservadores a reclamar - e o país já se via diante de um novo efeito-manada, uma onda de insultos contra estudantes da USP que, em reação contrária à decisão (tomada em assembleia própria) de desocupar o prédio administrativo da FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas) decidiram ocupar a Reitoria para continuar protestando contra a ação da PM no campus, com revistas constantes, que culminaram na prisão de três alunos de Filosofia flagrados com um cigarro de maconha.

Daí em diante o que se viu, mesmo entre autointitulados esquerdistas, foi uma onda de protestos contra o que chamam de “os maconheiros da USP”. Mesmo deixando de lado a generalização descabida, há, em pleno século XXI – quando as principais democracias reconhecem que o uso de maconha é questão de foro pessoal e do âmbito da saúde, não da segurança pública - algo de intrinsecamente anacrônico no uso do ajetivo “maconheiro” como forma de promover estigmatização e desqualificação. Além disso, assim como ocorreu com a doença do ex-presidente, o que o fenômeno da reação virulenta à invasão da Reitoria da USP nos traz é, uma vez mais, o ódio de classe e os recalques de fundo psicológico, vindos à tona de forma agressiva e com vocabulário tosco. A internet enquanto catarse.


A herança do desmanche
A realidade, porém, é bem mais complexa do que os histéricos querem fazer crer. Como explica de forma detalhada o professor da USP Pablo Ortallado, em ótimo artigo, a violência na instituição está diretamente ligada a um processo de restrição cada vez maior do exercício da democracia interna. Por meio deste, a USP é, hoje, uma das universidades públicas brasileiras em que professores, servidores e alunos têm o menor peso nas decisões importantes, a cargo de colegiados de membros de instâncias burocráticas superiores que se transformaram em verdadeiros feudos, onde o poder se perpetua nas mãos de poucos.

Em decorrência disso, cerceia-se ao máximo o raio de ação política dentro das regras do jogo por parte de alunos, professores e funcionários. Ora, quem já passou por uma ditadura sabe: quando as regras reprimem o exercício da democracia, é dever do democrata desobedecer e lutar pela modificação delas. Achar que a brutal repressão institucional a que a USP vem sendo submetida nos últimos 20 anos iria ser aceita passivamente é subestimar a inteligência dos uspianos.

Agrava essa situação o modelo urbanístico adotado pela universidade paulista, que é criticado, entre outros, pela arquiteta e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU/USP) Raquel Ronik, o qual colaboraria para a segregação social no campus e entre moradores da cidade e uspianos, como apontam os alunos de Relações Internacionais Leonardo Calderoni e Pedro Charbel, em artigo que denuncia a forma manipuladora como o conceito de autonomia é instrumentalizado pela mídia e pelas autoridades universitárias.

O PSDB tem um papel preponderante nesse estado de coisas, não só porque, à frente do governo de São Paulo há 17 anos, é co-responsável pelo estágio urbanístico-social-institucional da USP, mas porque José Serra - que não nomeou o candidato a reitor que ocupava o primeiro lugar na lista tríplice, preferindo o polêmico Rodas - e Geraldo Alckmin estavam a cargo do governo nas duas vezes em que a Tropa de Choque da PM, num ato inimaginável numa verdadeira democracia, invadiu o campus – a mais recente na manhã de hoje -, utilizando de violência desmedida contra estudantes desarmados.


PM no campus
A reação de apoio à ação da polícia, mesmo nas raras vezes em que é expressada de forma polida e educada, evidencia o profundo conservadorismo que marca a sociedade brasileira atual. Trata-se de um paradoxo: no momento mesmo em que 28 milhões deixaram de ser miseráveis e 40 milhões ascenderam à classe média, e que o Brasil tornara-se efetivamente um player na política internacional, o debate sobre questões internas involui não apenas na forma (a difamação e os ataques pessoais substituindo o diálogo civilizado e a argumentação), mas também no conteúdo (com pressupostos que há pouco eram exclusivos de fanáticos de direita tornando-se de uso corrente entre os estratos médios e altos).

Seria preciso uma alta dose de auto-engano para não se aperceber que o país, tanto em termos culturais quanto ideológicos, claramente retrocedeu, se comparado àquele de 40, 50 anos atrás. Não há como comparar o nível das discussões públicas hoje, no Brasil, àquele que se deu, por exemplo, no bojo do processo de redemocratização do país.


Regredimos?
Antes que as palavras aqui ditas sejam distorcidas, cabe assinalar que não se quer com isso, de forma alguma, sugerir que o ambiente da ditadura era mais profícuo em termos culturais e ideológicos do que os atuais. Ainda que isso seja verdade em alguns períodos – notadamente entre 1964 e 1967, hiato que o crítico literário Roberto Shwarz qualificou como os “anos de hegemonia cultural da esquerda” -, isso se deve mormente ao ímpeto antiditatorial de artistas da coragem e do talento de um Chico Buarque ou de um Vianinha - e à necessidade de unir-se no combate a um inimigo em comum.

Na verdade, a crise ideológica e cultural que hoje uma vez mais se agrava tem como origem justamente a ação sistemática da ditadura contra as formas culturais mais autênticas e mais revolucionárias, em prol do investimento vultoso na constituição de uma sociedade televisiva de massas – uma herança que os civis de direita que marcaram o longo período de transição para a democracia só açularam, muitos com proveito eleitoral.


O preço da desideologização
Há uma década, a centro-esquerda tem sido eleita, é verdade, mas, como as eleições que culminaram com a vitória de Dilma Rousseff evidenciaram de forma inconteste, não foi através de uma proposta programática de perfil ideológico - muito pelo contrário: tal como o “Lulinha Paz e Amor” de oito anos antes, a hoje presidenta submeteu-se ao regime padrão de marquetagem, chegando, ao final da campanha, ante as baixarias desmedidas de José Serra, a retroceder em questões de suma importância, como o aborto.

É precisamente quando se evidencializou de forma mais clara, àqueles que não se recusaram a ver, que a crise ideológica transcendia as questões colocadas pelo neoliberalismo, as quais dominaram o período imediatamente anterior (e, muitas delas, continuam na ordem do dia), e que a crise cultural, como qualquer crise estética, era também uma crise ética.

“Mas o importante é que eles venceram” - dirá o esquerdista pragmático. Sim, venceram, mas o preço que a sociedade brasileira como um todo vem pagando por essa recusa em um debate ideológico é uma despolitização da política, uma desideologização da esfera pública que ao final só beneficia os grandes grupos de mídia corporativa, os quais têm como interesse precípuo obter pontos no Ibope, e não levar cultura e educação ao público espectador, como “exige” a Constituição.


Dieta indigesta
A sobreposição do marketing à política e a naturalização das telecomunicações como meio de entretenimento – seja através das narrativas ficcionais das novelas ou das narrativas protojormalísticas dos telejornais – certamente desempenham um papel fundamental nesse processo de alavancagem do conservadorismo desinformado, pois não há como evoluir ética e ideologicamente com uma dieta de Datenas, Lucianos Huck, CQCs e coisas do gênero. Um país que, há 11 anos, quase para durante meses para assistir a Big Brother Brasil está profundamente enfermo em termos de ideologia, ética e estética – e negar isso em nome de uma suposta pluralidade democrática de escolhas é tapar o sol com a peneira.

E a relação entre política e mídia está diretamente imbricada na questão: cada vez que o governo Dilma demite um ministro após um factoide da Veja, não só estimula um jornalismo-denúncia - forte em escândalo mas fraco em evidências -, mas, ao fortalecer a posição da revista ante o público, está, na prática, incentivando a difusão de um ideário conservador (inerente à publicação) que transcende a política e se torna moeda corrente em questões comportamentais e culturais.

É pelas razões acima expostas que já passa da hora de os governos ditos de centro-esquerda renunciarem à ferrugem neoliberal que emperra o protagonismo do Estado na área cultural e tomarem as rédeas de um projeto de elevação do nível educacional e cultural do povo brasileiro, sob a pena não apenas de serem derrotados eleitoralmente, mas de legar ao futuro um país ainda mais conservador, ignorante e truculento do que o que herdaram.

domingo, 13 de março de 2011

A intolerância dos dilmistas

Espanta a intolerância para com críticas exibida, nas redes sociais, por muitos dos apoiadores incondicionais de Dilma Rousseff.

Esse é, muito provavelmente, um dos principais contra-efeitos do desenho de forças que, nos últimos três anos, dominou a blogosfera: acostumados a uma divisão maniqueísta, em que de um lado se irmanavam os defensores do lulopetismo e os críticos da mídia e de outro os adversários representados pelo tucanato e pela mídia amiga, os primeiros ressentem-se de discordâncias advindas do próprio campo da esquerda, e reagem com pedras à mão – um “método” antes quase exclusivo de trolls tucanos.

Além da agressão grosseira pura e simples, recorrente nas redes sociais, há as tentativas de desqualificação pessoal e as acusações imaginosas: esta semana, até a de “bullying virtual” foi assacada...

Há, ainda, a falsa generalização, que consiste em dizer que alguém “matou o governo Dilma” ou que escreveu o “epitáfio” deste só porque fez meia dúzia de críticas pontuais ao início da gestão.


Blindagem autoritária
Mas, por mais que os intransigentes lamentem, Dilma e seu governo não são entes sagrados, inatacáveis, que devam ser preservados, imaculados, em uma bolha à prova de criticismo.

Tampouco o fato de que a gestão apenas se inicia, e tem muito tempo para se acertar – como espera-se que o faça - equivale a um dado que desautoriza a priori qualquer crítica - a não ser que o grau de autoritarismo seja tamanho que se queira estabelecer a partir de quando é permitido fazer críticas ao governo.

Ademais, a gestão tem menos de três meses, mas tomou tantas medidas controversas, contrárias ao discurso de campanha, que tem descontentado a muitos dos que a apoiaram entusiasticamente, enquanto surpreende de forma positiva a setores conservadores e da mídia corporativa, os quais se esforça para cooptar.


Política e fé
Dentre as estratégias genéricas de desqualificação, uma repetida com frequência pela pequena parcela dos apoiadores incondicionais do governo que reconhecem um mau começo é a de que devemos dar tempo ao tempo e, como ouvi um dia desses, que “no começo todos [os críticos] são PSOL, depois se acalmam”.

Além de não concordar com a generalização indevida de enquadrar qualquer crítica como alinhada ao PSOL – estratagema que pode vir a ser entendido, a depender do interlocutor, como uma forma de desqualificação -, tal postura espanta-me não apenas pela transformação da política em uma questão de fé, de certeza nas benesses vindouras, com todo o irracionalismo e fanatismo que tal mutação acarreta, mas pela dissociação pré-estabelecida entre os atos do governo e suas imediatas conseqüências e responsabilizações.

Pois achar que tudo é apenas uma questão de tempo equivale a isentar automaticamente e a priori a atual administração de todos os eventuais erros do presente em nome de bênçãos futuras que asseguradamente virão. “Como sabem que virão?” pergunto. Porque, respondem, a despeito dos dados atuais negativos, a fé cega nos diz que isso ocorrerá. Qualquer semelhança com sistemas de crença religiosa não é mera coincidência.

Outros preferem lembrar que o governo Lula também começou mal, com cortes orçamentais e "aperto de cintos", mas terminou em alto estilo, como se a administração do país fosse uma receita de bolo, bastando segui-la para obter os mesmos resultados. Desprezam, pois, o alerta do velho Marx, segundo o qual a história só se repete como farsa.


Egos feridos
Repetida amiúde, outra estratégia de desqualificação das opiniões discordantes é tachar seu emissor de arrogante e presunçoso, que “se acha a última batata frita do pacote”. À parte o dado cômico de tal “crítica” – e o que ela revela em termos de feridas egóicas - o que chama atenção é a renúncia ao questionamento e à crítica das ideias emitidas, em prol do ataque pessoal irrespondível.

Opiniões, a princípio, são feitas para ser refletidas, eventualmente aceitas, relativizadas ou rejeitadas. Descartá-las sem sequer considerá-las, desviando a atenção para uma alegada falta de qualificação ou para imaginosos traços de caráter de quem as emite, equivale a apostar no obscurantismo. Uma das grandes conquistas da internet é justamente o fim do monopólio da opinião por experts com anel de doutor no dedo e a substituição destes por cidadãos e cidadãs cujo trabalho será julgado pela pertinência (ou falta de pertinência) intrínseca ao material que produzem. Naturalmente, o que agrada a gregos tenderá a não agradar a troianos, mas, ao final, a tendência é prevalecer uma forma mais democrática de seleção.


Linchamento virtual
A despeito da natureza volátil da internet, penso que o ideal seria que àqueles que expressam suas opiniões de forma equilibrada, analítica, sem agredir a ninguém, fossem reservadas reações igualmente polidas, argumentativas e não-agressivas, ainda que discordantes.

Pois reagir com pedras nas mãos a comentários educados é coisa de turbas enfurecidas, não de quem diz professar a esperança na promoção da justiça social e no desenvolvimento do país por meios democráticos.

Do contrário, acabaremos por reproduzir, no seio da esquerda, a intolerância e a truculência que tanto criticamos na militância virtual tucana.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 23 de janeiro de 2011

Reações contra a blogosfera

Uma das formas mais efetivas de comprovar o quanto a blogosfera e as redes sociais se tornaram, nos últimos anos, relevantes forças na arena pública é atentar para o modo como são descritas pelos agentes do conservadorismo, na política ou na mídia.


Atestado de eficácia
Nesse sentido, é significativo que a pregnante referência feita pelo candidato derrotado José Serra ao que chamou de “blogs sujos” tenha vindo a público um dia antes do I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas: ela se tornou o grande tema da noite de abertura do evento, sendo recebida com ironia e júbilo pelos participantes. Júbilo? Sim, pois, como sublinhou Luis Nassif no breve discurso que proferiu após apresentar-se com seu grupo de chorinho, tal declaração, ao invés de desonrar a blogosfera, constitui, na verdade, o atestado incontestável de que sua ação efetivamente incomoda as forças que combate.

Já a maior parte da mídia corporativa – que tem atuado como oposição ao governo federal, como reconheceram o jornalista Fernando Rodrigues e a sindicalista patronal e executiva da Folha de S. Paulo Judith Brito – prefere empregar uma tática dupla em relação à blogosfera.


Jogo de desqualificações
Por um lado, procura desqualificar a internet porque esta seria, nas palavras reiteradamente usadas por colunistas corporativos, “terra de ninguém”, reino “da ignorância”, “dominada por hordas agressivas”, onde “troca-se o debate civilizado pela mera agressão” .

Reforçando essa tática de desqualificação, tende-se a instituir, na mídia, uma distinção entre jornalistas profissionais “isentos” e “militantes” - como se os blogueiros pensassem todos do mesmo modo e se mostrassem incapazes de argumentar com equilíbrio e racionalidade; e, por sua vez, os jornalistas fossem seres imaculados, livres de inclinações ideológico-partidárias e, acredite se quiser, infensos às pressões ditadas pelos interesses da corporação em que trabalham.


Jornalismo anacrônico
Em termos efetivos, tais lamúrias pouco fazem além de evidenciar o anacronismo e a recusa ao diálogo de gerações de jornalistas desacostumados ao debate e à crítica pública (a não ser minimamente, em editadas seções de cartas). Há agressividade na web? Basta, como tantos blogueiros fazem, ignorar os que agridem e ater-se aos que querem dialogar, mesmo que o façam através de críticas negativas. Utilizar-se da desculpa da agressividade – que não é monopólio dos que tendem a se opor à posição da mídia, muito pelo contrário – para recusar o diálogo não combina com democracia.

Ademais, enfraquece essas táticas desqualificadoras empregadas por colunistas e editorialistas o fato que as próprias corporações de imprensa para as quais trabalham valem-se, rotineiramente, de jornalistas profissionais travestidos de blogueiros – tais como Ricardo Noblat em O Globo, Josias de Souza na Folha Online e um certo tipo na Veja. Ué, aí a internet serve à exposição de ideias e ao debate? Um pouco de coerência, senhores e madames, por favor...


Patrocínio e publicidade
A segunda tática empregada no esforço de desqualificar a blogosfera é acusá-la de ser “chapa-branca” – incluindo aí insinuações melífluas de que seria financiada pelo governo.

Trata-se de duas falácias. Temas e episódios como a questão agrária, a composição de alianças políticas, a hidrelétrica de Belo Monte, a tramitação do PNDH-3 (Programa Nacional de Direitos Humanos) – e, neste exato momento, a polêmica em torno da licença Creative Commons e da questão dos direitos autorais no âmbito do MinC – mostram não apenas a diversidade de opiniões na chamada blogosfera, mas o quanto setores desta tendem a ser críticos das forças a cargo da administração federal nos últimos oito anos, a depender das medidas por estas tomadas.


Resistência à desinformação
O que ocorre é que, ante uma mídia que tem se recusado sistematicamente a cobrir de forma condigna a atuação do governo federal, preferindo ocultar os feitos positivos e superdimensionar, com a lente de aumento do moralismo neoudenista, os erros - enquanto mitiga as mazelas do demotucanato -, a blogosfera vê-se obrigada a contrapor-se.

Pois, se a imprensa se omite e, numa postura elitista e ofensiva ao povo, recusa-se a ao menos tentar descobrir as razões de um presidente deixar o poder após dois mandatos com 87% de aprovação, é não apenas lícito mas necessário que novas forças comunicacionais preencham essa lacuna.

Afinal, com o perdão da ironia, como afirma um dos dísticos pós-iluministas adotados pelo jornalismo para justificar-se socialmente, “o público tem o direito de saber”.


Mídia quer monopólio de verbas
Já a acusação de que os “blogs sujos” seriam financiados pelo lulopetismo, embora falsa e falaciosa, tem sido irresponsavelmente ecoada por colunistas da velha mídia e, nas caixas de comentários dos blogs, por internautas anti-petistas ou que se identificam com o projeto neoliberal da direita brasileira.

E ela é falsa e falaciosa por quê? Em primeiro lugar, porque confunde, propositadamente ou por ignorância, investimento governamental em publicidade e patrocínio de estatais. O primeiro, a cargo da Secretária de Comunicação (Secom) está condicionado à aprovação do orçamento federal pelo parlamento e diz respeito à divulgação institucional da administração federal.

E como demonstrei em outro artigo, o fato de o ex-presidente Lula ter recusado o modelo publicitário que herdou, concentrado nos grandes grupos de mídia, e optado por pulverizar parte de tal verba entre pequenas e médias publicações e emissoras de rádio – fazendo o número de veículos beneficiários de publicidade federal saltar de 499 para 6.835 ao longo de oito anos – é uma das questões centrais para se compreender o ódio que os grandes grupos de mídia alimentam contra ele, seu governo e o de sua sucessora.

Ainda assim, tal verba continua irrigar, embora em menor volume, as grandes revistas e jornais do país – e, em conseguinte, o salário de seus jornalistas travestidos de blogueiros. Seria, portanto, absolutamente normal que também irrigasse os “blogs sujos” mais freqüentados. Mas não há comprovação de que isso tenha ocorrido.


Neoliberalismo tardio
Quanto aos patrocínios estatais, obedecem a outra lógica. Desde que a difusão da ortodoxia neoliberal tornou pecado mortal o investimento direto do Estado na produção de cultura e de bens simbólicos, o modelo forjado no país depende largamente do apoio financeiro de empresas, sejam privadas ou públicas. Como nossos empresários, em sua maioria, não primam pelo mecenato, as estatais acabaram por assumir a maior parte da responsabilidade nesse campo.

Essas autarquias, que têm autonomia para decidir o destino de seus patrocínios e verbas publicitárias, têm primado, há quase duas décadas, por uma distribuição extremamente diversificada de suas verbas, contemplando um amplo espectro ideológico e formal. A Petrobras, notadamente, patrocina desde revistas semi-artesanais até, para indignação de muitos, filmes proto-hollywoodianos de uma megacorporação como a Rede Globo e projetos da Fundação Roberto Marinho.


Decadência e crise ética
Isso não impede que os detratores dos blogueiros não-corporativos adotem uma dupla moral, tão curiosa quanto velhaca: criticam azedamente o patrocínio estatal quando este se volta a blogs, publicações ou filmes que oferecem um conteúdo que, no entender de tais comentaristas, tende ideologicamente à esquerda; mas emudecem quando ele favorece publicações com clara identificação com o ideário neoliberal, blogs corporativos os mais hidrófobos e filmes que tentam reabilitar figuras da ditadura.

Que alguns colunistas reproduzam esse discurso falacioso lamenta-se, mas não chega a surpreender: profissionais que não hesitam em traficar, na bacia das almas, sua pena e suas ideias com o baronato midiático não podem mesmo compreender o desprendimento e a generosidade dos que dedicam, graciosamente, parte de seu tempo para divulgar seus próprios ideais e contribuir para a construção de um universo comunicacional verdadeiramente democrático.


(Ilustração retirada daqui)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Eleições: redes sociais dão mostras de saturação

Torna-se cada vez mais notório, nas redes sociais da internet, o quanto as atuais eleições vêm se tornando um fator de fastio e de monotonia para muitos. Há meses já se ouvia queixas nesse sentido, mas ultimamente até pessoas que acompanham o cenário político e gostam de discutir o tema têm reclamado.

De maneira ainda mais intensa e polarizada do que acontece com fenômenos como a repercussão do Big Brother Brasil – que a tantos, incluindo este blogueiro, agasta -, o efeito multiplicador de blogues e Twitter, somado ao caráter contínuo e incessante do fluxo de mensagens na rede, tende a levar o tema eleições à saturação – para o que muito contribui o longo tempo de campanha, que na internet começou, de fato, há meses.

Fazer tal constatação não significa desmerecer ou diminuir a importância da militância virtual, nem deixar de ressaltar que – ao contrário do que afirma o trololó serrista de “blogs sujos financiados pelo governo” – trata-se de um fenômeno largamente espontâneo.

Pelo contrário: é justamente a preocupação com o caráter politicamente alienador do fenômeno que se intenta ressaltar – pois se o objetivo da militância é justamente amealhar atenção, simpatia e votos para o seu candidato mas o resultado é, para muitos, o tédio e o “não agüento mais isso” é porque a ação virtual-eleitoral, dada sua virulência e onipresença, está resultando, ao menos em parte, contraproducente.

Desnecessário, no âmbito da abordagem aqui desenvolvida, assinalar que ao menos parcialmente tal efeito se liga ao alheamento de setores da sociedade em relação à política. Ainda assim, para ao menos amenizá-lo seria talvez recomendável que à ininterrupta postagem de dados, especulações e análises a favor ou contra os candidatos não apenas correspondesse um incremento do nível e da diversidade de abordagens acerca das ilações entre candidaturas e futuro do país, mas que fosse dirimida a impressão, generalizada nesses setores enfastiados com as eleições na internet, de que o bombardeio de mensagens de cunho político-eleitoral está tomando lugar de algo muito mais atraente e prazeroso, que vou chamar de fluxo de conteúdos culturais, com a cultura entendida aqui em sua acepção ampla.

Trata-se, portanto, de uma questão complexa, cujo melhor equacionamento passa não apenas pelo incremento das práticas comunicacionais nas redes virtuais e por um maior interesse social na política – duas mudanças em relação às quais não há garantias efetivas de que um dia virão a ocorrer -, mas por uma calibragem no próprio conceito de utilização da web para fins eleitorais, seja a partir de uma perspectiva institucional ou individual.

Uma coisa é certa: se muitos não agüentam mais o excesso de retórica vazia e de belicismo de baixo nível verificável nas hostes virtuais/eleitorais, a própria onipresença das eleições como tema cotidiano - com frequência vivenciado como se de torcidas arquivais em jogo de futebol se tratasse – é, para outros tantos, motivo de exasperação. Não me parece correto culpá-los por isso.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Frias e a reforma da Folha

A Folha de S. Paulo está de cara nova. Agora, além dos infográficos pululando em profusão, há todo um design padronizado, privilegiando o azul. Impossível não pensar em Dorian Gray, personagem de Oscar Wilde que mantém uma bela e jovem aparência física a ocultar uma essência putrefata e carcomida.

Não passa de coincidência, é claro, que azul seja a cor primária do PSDB e que, embora a mais recente pesquisa eleitoral presidencial divulgada pelo enquadrado Datafolha tenha constatado empate em 37%, Serra, em foto favorável (na medida do possível, é claro...), continue ocupando o canto superior esquerdo, em harmonia com o azul dominante que lhe é graficamente destinado, enquanto Dilma, em sisudo close, venha depois, devidamente borrada com o vermelho do comunismo comedor de criancinhas.

Como se sabe, o leitor do diário da Barão de Limeira – essa espécie de mulher de malandro que adora ser enganada - só foi informado do empate entre Serra e Dilma porque o outrora soi disant respeitável Datafolha, agora na mira do Ministério Público, subitamente divulgou números bem diferentes dos alegadamente auferidos por suas pesquisas anteriores. O receio que o motiva, porém, não é tanto a ponto de o site do instituto atualizar manchetes. Lá, a mais recente - das que dizem respeito às eleições presidenciais - é de 03/05 e faz companhia a outras em que Serra continua bem à frente. Ficam lá, mofando, misto de saudade e wishful thinking vindo do passado.

Mas não sejamos maldosos: talvez a demora em atualizar a página se deva à concepção anacrônica que os Frias têm da internet. A se basear nas palavras do intelectual da famiglia sobre o jornalismo na web, talvez eles sequer saibam o quão fácil é renovar um site. Vejam o que o chefe do clã, após cometer a declaração desprovida de clichês de que o jornalismo tem sete vidas, escreveu:

“Muito desse novo jornalismo tem qualidade discutível, quando não é produto de mera pirataria. Os blogs e o jornalismo cidadão parecem oportunidades promissoras, mas quase sempre seu alcance fica limitado, seja em termos de recursos ou abrangência, seja porque expressam visões demasiado particulares e engajadas. Para piorar, o jornalismo que emerge está eivado de entretenimento, culto à celebridade, inconsequência”.
O velho Freud deve estar se remoendo no túmulo! Até um primeiroanista em Psicologia reconheria o quanto há de projeção referente a seu próprio jornal na fala de Frias. Faça um favor, leitor(a): releia o trecho pensando na Folha e gargalhe junto comigo.

Poderíamos utilizar a lógica para contrapôr à afirmação de que muito do jornalismo virtual teria qualidade discutível, a constatação decorrente de que há ilhas de qualidade – certamente muito mais recorrentes e de melhor qualidade do que na própria Folha, onde tal coisa é artigo rarefeito. Ou nos resfestelar apontando a contradição de alguém responsável há tantos anos pela Ilustrada e pelo Folhateen – que fazem um tal culto aos ídolos do pop/rock estrangeiro que até o nada nacionalista Caetano Veloso se viu instado a criticar-lhes – acusar o culto à celebridade. Mas minha parte favorita é quando Frias acusa os blogues de expressarem visões engajadas. Vindo de quem vem, é hilário.

Certamente para evitar tal risco, a reforma do jornal incluiu a demissão até do Paulo Nogueira Batista e a contratação de colunistas afinados com a linha editorial da Veja, digo, da Folha.

Frias prossegue, evidenciando que a sua teimosia em ser publisher está privando o público brasileiro de um humorista de mão cheia:

“Conforme mais pessoas imergem no oceano de dados e versões que giram pela rede, maior a demanda por um veículo capaz de apurar melhor, selecionar, resumir, analisar e hierarquizar. Esse veículo, no papel ou na tela, se chama jornal”.
Ou seja, tal qual uma Maria Antonieta recomendando ao povo que coma brioches, o publisher da Folha ainda acredita que seu diário, violador sistemático da ética jornalística, tem a função de hierarquizar a notícia de forma a conduzir o leitor – uma pretensão reveladora não apenas de seu anacronismo, mas de suas tendências autocráticas.

Ao ler o artigo de um dos próceres da plutocracia midiática, fica evidente que a crise da imprensa brasileira é ainda pior do que se imagina: ele não está entendendo nada, absolutamente nada da nova dinâmica da comunicação na era digital.

Mas numa coisa eu concordo com Frias Filho: o jornalismo tem sete vidas. A Folha está na sétima.


(Imagem retirada daqui)