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quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Marina Silva: prós e contras

Nos últimos dias, muita gente tem me abordado para perguntar sobre Marina Siva. São, em sua maioria, pessoas insatisfeitas com o atual cenário político e que não simpatizam com Aécio nem querem anular; parte delas está em dúvida entre votar, no primeiro turno, em Marina ou em um dos partidos de esquerda sem chance real de vitória. A maioria já notou que a massacrante campanha de desqualificação de Marina na internet faz muito barulho, mas não levanta e muito menos desenvolve nenhuma questão relevante.

Este texto é dedicado a essas pessoas, com cujo impasse eleitoral me identifico. Sem nenhuma pretensão de "fazer cabeças" , procura contextualizar a candidatura Marina no atual espectro político, analisando com maior profundidade duas de suas limitações mas evidentes e dois aspectos claramente positivos de sua candidatura. Não é, como veremos, uma personagem desprovida de dilemas. As conclusões, é claro, ficam a cargo de cada um.



Vácuo persistente
Em primeiro lugar, há de se ter claro que a candidatura de Marina Siva não anula uma das características mais preocupantes das eleições 2014: a constatação de que, a rigor, elas não oferecem ao eleitor uma candidatura competitiva de esquerda. Isso se deve, sobretudo, à primazia que as três candidaturas com chance de vitória concedem, com insignificantes nuances entre si, a um modelo econômico de origem neoliberal e que privilegia os interesses do mercado financeiro em detrimento aos da população.

Tal modelo baseia-se no propalado "tripé econômico", constituído de metas pré-definidas de inflação, dólar flutuante (ou seja, sem intervenção estatal no sentido de manipular a taxa de câmbio) e rigor fiscal, traduzido em metas para superávit primário (a relação entre receita e despesas, excetuadas aquelas dispensadas ao pagamento de juros da dívida pública).



Ao povo, os trocados
Mais grave, ele implica, ainda, na transferência mensal ao mercado financeiro de quantias extorsivas na forma de pagamento de juros, com o agravante de que estas sobem proporcionalmente à taxa de juros oficial (Selic), a qual tem sido mantida em patamares elevados pelo Banco Central sob o pretexto de combater a inflação. Para dar uma ideia do estrago: em 2011 só os juros da dívida pública custaram ao povo brasileiro R$ 230 bilhões, o equivalente a 5,6% do Produto Interno Bruto (PIB) e a 15 vezes o total de investimento anual no programa Bolsa- Família. (Convém lembrar que quando o PT era oposição, ele propunha, como convém a um partido de esquerda, o congelamento do pagamento dos juros da dívida até que ela fosse auditada por uma consultoria independente e recalculada.)

Enquanto Aécio levaria esse modelito neoliberal ao limite e Dilma o tem transigido eventualmente, manipulando índices aqui e ali, mas, com a covardia característica, sem jamais assumir uma postura critica em relação a ele – pelo contrário, ela não cansa de jurar estar sendo fel ao tripé -, Marina já deixou claro que o manterá ao pé da letra.

Trata-se de uma decisão de fundamental importância, posto que não só reduz drasticamente os recursos para a promoção de mais justiça social e mais desenvolvimento, mas enfraquece o necessário combate político-ideológico contra a hegemonia neoliberal, combate este para o qual o Brasil, devido à sua relativa independência e à sua posição de líder regional e potência global em ascensão, teria condições de protagonizar.



Liberdades individuais
Outra questão a suscitar preocupações em relação à candidatura de Marina diz respeito às suas posições relativas aos direitos individuais e questões comportamentais no âmbito da biopolítica, aí incluídas as questões de gênero. Dados os limites espaciais deste texto, vou me limitar a citar três das mais relevantes questões a tal âmbito circunscritas: a isonomia de direitos entre heterossexuais e homossexuais, a questão do aborto e a descriminalização da maconha.

É certo que a função legislativa, a priori, não figura entre as atribuições do Executivo federal. Mas, dadas as peculiares conformações do presidencialismo vigente no Brasil, é certo também que, na prática, o poder presidencial é capaz de adiar ad infinitum a discussão de tais temas, como aliás temos assistido no país desde a redemocratzação. Com isso, enquanto o mundo avançou muto nas duas últimas décadas no trato de tais questões, o Brasil, a despeito de sua mística de país de costumes liberais, foi ficando para trás e hoje se encontra defasado em relação a boa parte do mundo democrático.

Confrontada quanto a tais temas – e em relação à incompatibilidade entre tal agenda e suas crenças religiosas pessoais – Marina respondeu, em um primeiro momento (em 2010) que submeteria tais questões a plebiscito popular; ultimamente sua assessoria tem divulgado que ela passou a suportar direitos LGBTs, mas ela própria nada declarou. A proposta de submeter tais temas a plebiscito é altamente questionável, pois, embora signifique uma forma de fazer avançar a democracia direta, o faria, contraditoriamente, em relação a questões caras a minorias, num jogo viciado que despreza a premissa contemporânea de que a democracia, além de refletir o desejo da maioria, tem por dever assegurar os direitos das minorias.



Balanço
As duas questões elencadas acima constituem os aspectos mais negativos da candidatura Marina, na opinião deste blogueiro. São suficientes para recusar o voto nela? Isso depende de cada um. Há de se levar em conta que, em relação aos mesmos quesitos elencados, nem Dilma nem Aécio oferecem melhores perspectivas – e que os candidatos que o fazem não têm chance real de vitória.

Há de se considerar, também, os pontos positivos que só a candidatura de Marina traz, dos quais dois serão comentados abaixo.



O mundo desde o fim
Com sua sólida formação em desenvolvimento sustentável, Marina poria um fim ao modelo predatório de desenvolvimento que atingiu o ápice no governo Dilma e que tem gerado danos os mais graves. Em primeiro lugar, ao próprio meio ambiente e à mobilidade urbana, na contramão de um momento histórico em que a finitude dos recursos e a necessidade de avançar sem esgotá-los são cientificamente comprovadas.

Em segundo lugar (pela ordem dos acontecimentos, não em importância), por ser responsável pela pior política indígena da história da democracia brasileira, com uma aliança nefasta entre o poder federal e o agronegócio impondo deslocamentos massivos e assassinatos, e com epidemias vitimando tribos em diversos quadrantes do país, no que não poucos antropologistas qualificam como um genocídio.



Danos ideológicos
Em terceiro lugar, pelo que tal visão "tecnocrática" de desenvolvimento, arcaica em sua essência, gerou em termos de danos político-ideológicos, ao submeter acriticamente a política ao determinismo econômico, como sublinha Moysés Pinto Neto:

"Como para Dilma a política é irrelevante, já que no final com as transformações econômicas promovidas todos lhe dariam razão, tudo que envolve um conflito é deixado de lado em torno da viabilidade desse projeto desenvolvimentista. Pior: Dilma fez preponderar no PT, que era um partido razoavelmente afinado com a causa ecológica, a mentalidade de que a preocupação ambiental está em conflito com o desenvolvimento social."
Marina Silva reúne, como poucas profissionais no mundo, condições de reverter tal quadro, tanto pelos méritos próprios internacionalmente reconhecidos, que fazem dela expert em preservação do meio ambiente, quanto por estar cercada do que de melhor o país oferece no tema. Certamente promoveria a substituição de tal modelo predatório por políticas de desenvolvimento que insiram o Brasil entre as nações que crescem de forma autossustentada, preservando o país às novas gerações. Isso significaria, necessariamente, uma revisão das políticas indígenas tanto em relação ao latifúndio quanto em prol do avanço de sua afirmação identitária e cultural.



Resgate da política
Outra área em que Marina promete inovar é em termos de práticas políticas. O fato de ela ter recebido vinte milhões de votos e, resistindo a intensas pressões, se recusado a apoiar Serra ou Dilma no segundo turno de 2010 é demonstração factual de que fala sério.

Seria um alento e um regate para um país que tanta esperança depositou no PT, para em seguida ver, desde o governo Lula, alianças políticas demasiadamente elásticas, em que toda e qualquer consideração ética foi negligenciada em prol de mais poder, abrindo espaço para figuras nocivas da vida pública brasileira, como Collor e Maluf. Nas palavras do sociólogo Luiz Eduardo Soares, "O desapreço pela mudança nos métodos políticos continuou, ajudando a jogar no pântano a credibilidade da política."

No governo Dilma, prossegue Soares, "A questão da ética pública continuou sendo abordada como capricho pequeno burguês ou simples armações políticas da grande imprensa, sem que se assumisse a sério a autocrítica que o mensalão teria exigido". Como é de conhecimento até do mundo mineral, os petistas não só deixaram de fazer a necessária autocrítica após o mensalão, mas continuam fingindo que ele nunca ocorreu nem foi julgado por um plenário em ampla maioria composto de juízes nomeados por Lula e Dilma. No universo paralelo do petismo, o mensalão é uma invenção da mídia e uma maldade do carrasco Joaquim Barbosa (ele próprio também nomeado por Lula). Acredite se quiser...



Chance única
Além da renovação per se das práticas políticas – uma demanda da sociedade brasileira tornada urgente desde as Jornadas de junho e que Marina Silva e Marcelo Freixo foram das poucas lideranças a incorporar a seus programas políticos –a candidata do PSB encara, neste momento, na prática, a única chance real de tirar o PT da Presidência.

Trata-se de uma demanda que não só se tornou legítima, mas urgente. Para o blogueiro Tsavkko, para quem Marina representa o atraso, mas Dilma é ainda pior, "O país precisa disso, a esquerda precisa disso e os movimentos sociais mais do que nunca precisam de espaço para se renovar". E, acrescento eu, dados o grau de autoilusão e de ilusionismo aos quais os governo petista, com o auxílio de sua brigada de fanáticos, tem mantido a população, só a derrota e a imprescindível e há tempos esquecida autocrítica poderá trazer tal força política de volta ao mundo real.

Pois, além de tudo o que já foi mencionado ao longo do artigo, impedir a continuidade do governo Dilma seria a resposta cívica a uma governanta que não hesitou incorrer em estelionato eleitoral ao se comprometer, em comercial de campanha, a não privatizar o Pré-Sal e, uma vez no poder, privatzar-lhe, e a troco de banana. A uma mandatária que foi fiadora e parceira dos governos estaduais na brutal repressão aos protestos populares, o pior legado da Copa a ameaçar de maneira permanente o direito constitucional à manifestação nas ruas do país. A uma presidente autoritária e arrogante, que reprimiu grevistas, destratou professores das universidades públicas e só se dispôs ao diálogo com a sociedade - de forma torta e breve - após o povo sair, de forma massiva, às ruas, num movimento que deixou claro a farsa do mundo maravilhoso do petismo, mas que estes até hoje não compreenderam.




Ventos de renovação
Como toda mudança, o voto em Marina traz algo de aposta. Não nos iludamos quanto a isso. Mas antes um risco calculado do que uma certeza representada pela continuação, por mais quatro longos anos, do péssimo governo Dilma. Teme-se que o país não aguente. Eu, embora ainda não tenha fechado questão, me encontro, a princípio, neste momento, disposto a preferir um voto pela mudança a um voto ideológico (no PSOL no primeiro turno; nulo no segundo) em que expresse meu desagrado pelos rumos da política institucional no Brasil. E você, leitor(a)?

Dentre os estímulos para tal opção, alem dos já elencados, a declaração de Luiz Eduardo Soares, figura pública que não pode ser acusado de identificação com a direita (e que foi ministro de Lula), em texto de no qual diz ver Marina na Presidência como "uma oportunidade histórica absolutamente extraordinária para retomarmos a gigantesca tarefa de imaginar, coletiva e dialogicamente, um outro mundo possível, um outro Brasil possível, respirando novos ares.". Oxalá tenha razão.



(Imagens retiradas daqui e dali e fundidas digitalmente)

terça-feira, 14 de maio de 2013

Razão x Moralismo na Questão das Drogas

O debate sobre a questão das drogas volta a ocupar um lugar de destaque na agenda pública, no bojo da realização do I Congresso Internacional sobre Drogas, em Brasília, do noticiário sobe internação compulsória de viciados em crack no Rio e em São Paulo e às vésperas da votação de mais um projeto de lei sobre a tema, de autoria do deputado da base aliada Osmar Terra (PMDB/RS), que reinstitui a criminalização do usuário.

Como narra Walter Maierovitch, "preocupados com o projeto retrógrado do deputado", os participantes do congresso, que reuniu especialistas de todo o mundo, decidiram enviar uma carta à presidente Dilma, alertando para os riscos de um retrocesso militarista no trato do tema e defendendo a descriminalização de drogas, com seu uso sendo tratado no âmbito da saúde pública. Ainda que, com a notável exceção de Carta Capital, a maior parte da mídia corporativa tenha, como apontou Sylvia Debossan Moretzsohn em ótimo artigo sobe a questão, se mantido alheia ao debate, ele ferve nas caixas de comentários, nos blogs, nas redes sociais.



A razão relegada
Poucos temas ilustram de forma tão clara a oposição entre os argumentos da razão e os preconceitos moralistas – e a persistência destes ante aqueles - do que a discussão sobre a questão das drogas, notadamente no que diz respeito à proposta de descriminalização do uso de drogas leves, medida que passou a ser defendida pela maior parte dos especialistas no assunto após o fracasso do modelo militarista de "guerra às drogas" impostos pelos EUA nas últimas quatro décadas.

Assim, por mais que estudos e pesquisas obedientes aos mais rigorosos protocolos demonstrem, de forma cabal, a falência de tal política, e que um número expressivo de especialistas no tema afiance os benefícios econômicos, sociais e psicológicos de um modelo em que o uso pessoal de drogas deixe de ser crime e o comércio destas - como o do álcool ou do tabaco - passe a ser regulamentado e supervisionado pelo Estado, persiste, em setores da população, um grande estigma, uma ojeriza de origem moralista intrínseca a qualquer proposta que apregoe distensão na repressão ao uso de drogas.



Falência de um modelo
Além do estigma que, a partir da reação conservadora às promessas liberalizantes dos anos 60, circunda a opinião pública sobre as drogas, a retomada de uma visão mistificadora e preconceituosa do tema vem sendo, há tempos, estimulada no país, tento atingido o paroxismo no governo de Fernando Henrique Cardoso, quando uma série de campanhas publicitárias, baseadas justamente na caracterização do usuário como o dínamo financiador e primeiro elo do tráfico de drogas, foi durante anos veiculada. Que FHC tenha mudado radicalmente de opinião e seja hoje um dos principais defensores do abandono do modelo de "guerra às drogas" constitui, malgrado a incoerência, mais uma forte evidência da falência do antigo modelo.

Um comentário ao texto de Maierovitch resume a persistência de tal estratégia simplista de culpabilização: "Sem usuário não tem droga nem traficante. Cadeia para os usuários!!", escreve o leitor José Carlos Castilho. Para além de se constituir numa quimera tão irrealizável quanto totalitária, um dos principais problemas com esse tipo de raciocínio é que se baseia na premissa de que ao aumento da repressão e encarceramento de usuários corresponde a diminuição (e eventual extinção) do número de pessoas que usam drogas. Trata-se, no entanto, de uma correlação falsa, que persiste no senso comum, mas que vem sendo seguidamente desmentida pela realidade, como o comprova a experiência de diversos países em que, à revelia do investimento de fortunas em repressão, o número de usuários mantém-se estável ou mesmo aumenta ano após ano.

Ou seja, de acordo com essa lógica baseada tão-somente na repressão, o governo, além de infringir as liberdades individuais, vê-se obrigado a arcar, todo mês e de forma crescente, com uma fortuna em gasto direto – seja no aparato de segurança repressivo ao usuário, seja no custeio do encarceramento deste – e indireto – na utilização de parte da pauta do Judiciário para os trâmites legais relativos a cada autuação ou como forma de suprir o déficit na cadeia produtiva gerado pelo aprisionamento de milhares de cidadãos. E tudo isso para atingir resultados pífios ou mesmo negativos, num eterno e custoso enxugar gelo.



Direito recreativo
Em oposição a uma possível maioria que prefere se ater aos estereótipos e ao moralismo no que concerne à questão das drogas, rejeitando as evidências advindas do campo acadêmico e científico, um contingente expressivo mas aparentemente minoritário de usuários de maconha e de cidadãos que apoiam sua descriminalização não consegue entender como drogas comprovadamente mais nocivas à saúde – como o álcool e o tabaco – têm livre circulação na sociedade enquanto cidadãos podem voltar a correr o risco de ser presos pelo simples ato de ingerir fumaça de uma planta, prática que, na pior das hipóteses, pode vir a prejudicar apenas o próprio usuário e que, de qualquer maneira, por caracterizar-se como decisão individual e isenta de danos a terceiros, não deveria caber ao Estado regular.

Não parece correto, a essa minoria e a um número crescente de cidadãos, que, numa sociedade hiperconsumista, que proporciona e estimula toda sorte de vícios – muitos altamente nocivos -, alguém deva arcar com os graves custos – pessoais, profissionais, familiares, psicológicos – de uma prisão apenas por fazer uso recreativo da maconha. E afigura-lhes claro que poder fazer tal uso de forma legalizada, sem contato com a bandidagem, e em que o produto, de qualidade supervisionada, recolheria os impostos correspondentes, gerando dividendos públicos, seia o mais benéfico para o usuário, para o Estado e para a sociedade.

Além do que, assegurar o direito das minorias é uma característica distintiva das democracias avançadas. 


(Imagem retiada daqui e manipulada digitalmente) 

terça-feira, 30 de junho de 2009

Maconha: a culpabilização do usuário

(Imagem retirada daqui.)
Como citado alguns posts atrás, discutir segurança pública no Brasil é temerário. A exacerbação da violência urbana, as medidas tomadas, nos âmbitos municipal, estadual e federal, pelo Estado e, sobretudo, o modo como a mídia trata o tema, conformaram-no ao conservadorismo mais tacanho (e contraproducente, mas essa é outra história). Debater a questão das drogas, nesse cenário, beira a impossibilidade (mas Júlia M consegue, dialogando com humor).

Um dos sucessos estrondosos do conservadorismo, no que tange ao tema, é jogar nos ombros dos usuários de drogas a responsabilidade primária pela violência urbana – que por sua vez, costuma ser atribuída sobretudo ao tráfico de drogas. Tropa de Elite é a obra-síntese desse pensamento, caudatário do modo Rede Globo de retratar as temáticas ditas sociais. O esquema é manjado: finge-se não ver as brutais assimetrias sócioeconômicas e as hordas de miseráveis que habitam as grandes cidades ao mesmo tempo em que se ignora a realidade internacional do mercado de drogas. Só assim a teoria que responsabiliza os usuários pode ser mantida, pois é necessário fingir não saber que o consumo de drogas é muito mais alto nos EUA e nos países desenvolvidos da Europa do que no Brasil e que, pasmem, a violência urbana lá é muito menor do que a daqui. Ora, então a conclusão lógica e inescapável é que não é o tráfico de drogas – e muito menos o usuário - o culpado pela violência urbana, não é mesmo? Mas, para que procurar os reais culpados se o bode expiatório está à mão - na forma do odioso usuário que insiste no crime hediondo de levar seu baseado à boca e tragá-lo? Ademais, sua utilização marota pela mídia não contraria nem os interesses dos verdadeiros tubarões do crime organizado nem os dos políticos incapazes de enfrentar a violência e a pobreza, além de ajudar a continuar evitando que a população tome ciência das verdadeiras causas da violência e da miséria geral às quais está submetida, e comece a ter idéias subversivas e de transformação da realidade política e socioeconômica.

A crescente culpabilização do usuário e a posição subalterna à qual ele é mantido no debate têm favorecido a mistificação. “Maconha mata seus neurônios”, alardeava um célebre anúncio do Ministério da Saúde, no tempo de Serra. Ele visava estabelecer uma caricata dicotomia entre “drogados semi-retardados e apáticos” e “jovens dinâmicos e saudáveis”. Nenhuma das principais pesquisas de longa duração, realizadas segundo critérios consagrados pela comunidade científica, constata “morte” de neurônios em decorrência do uso de maconha. Tais danos estão na esfera de ação das drogas lisérgicas, como os derivados do LSD, “ácidos” sintetizados e cogumelos.

Campanhas baseadas em inverdades e na mistificação tendem ao fracasso. Além das pessoas bem sucedidas e produtivas que pertencem ao círculo de amizades dos jovens, a própria mídia é habitada por personalidades as mais cultuadas, capazes de performances atléticas e notoriamente ligadas ao uso de drogas – e às vezes por longos períodos, como no caso de alguns superstars do rock (The Rolling Stones, Iggy Pop, David Bowie, Rita Lee, pra ficar só nos da "velha guarda"). Quem convive com a juventude urbana se apercebe de que o destino de tais estratagemas publicitários é somar-se ao vasto anedotário das campanhas anti-droga, que, ao recorrerem a discursos que os usuários acabam descobrindo, por experiência própria, inverídicos e caricaturais, reforçam a eles a impressão de que o governo os quer ludibriar com tais campanhas – que acabam, portanto, se revertendo em contra-propaganda.

A prevenção e o combate ao uso de drogas, questão de saúde pública, são legítimos e necessários, sobretudo no âmbito de substâncias pesadas e da disseminação de drogas facilmente acessíveis e de consequências potencialmente devastadoras à saúde, como o crack e o ecstasy. Porém, goste-se ou não, sua eficácia está diretamente ligada à capacidade de criar empatia e confiança com o público jovem. Mistificação e artifícios enganosos não ajudam em nada, significam retrocesso e, eventualmente revertem-se em estímulo ao consumo.

A orientação dogmática e preconceituosa das políticas sobre drogas no Brasil evidencia-se na recusa em se debater de forma adulta e com objetividade uma questão como a "descriminalização" da maconha (leia no blog O Descurvo uma ótima explicação jurídica sobre a questão). Trata-se de reivindicação relevante para parcelas da juventude que não podem compreender como uma droga de efeitos comprovadamente nocivos como o álcool é livremente comercializada, enquanto a maconha, que décadas de pesquisa - incluindo o estudo de 14 anos de duração da FDA norteamericana - nada constataram além de efeitos colaterais mínimos e em sua maioria reversíveis, esbarra em um muro de preconceitos e mistificação, na recusa em tratar o tema pelo mesmo prisma clínico utilizado para condenar outras drogas e no bloqueio ferrenho da militância religiosa. “Uma tática sempre empregada é tratar do tema de forma generalizante, colocando lado a lado a maconha e o mais perigoso dos opiáceos, ou reiterando a afirmação incomprovada de que o uso de maconha conduz ao uso de drogas pesadas”, observa o advogado Nilo Batista, citando estudo científico da New York University que desautorizou a chamada “teoria da escadinha”, em texto incluído num dos melhores livros já lançados no Brasil sobre o tema, a coletânia Maconha em Debate (Brasiliense, 1985).

A legalização de drogas leves (e a decorrente "descriminalização" de seu uso e, portanto, da condição de bode expiatório do usuário) é tema já superado ou na ordem do dia nas democracias européias mas, no Brasil, aguarda há vinte anos para entrar na agenda pública. Para organizar uma simples marcha a favor da legalização é necessário enfrentar uma série de barreiras legais e depender do humor dos Judiciários estaduais – o que é altamente ilustrativo não apenas da atrofia do debate sobre o tema mas das limitações impostas à liberdade de expressão num país dito democrático (acompanhe aqui a epopéia kafkiana que os organizadores da marcha vêm enfrentando há meses).

Intimidados por excrescências jurídicas - algumas delas criadas com o forte apoio da Rede Globo, que parece mandar até na Justiça deste país, como a figura legal da "Associação ao tráfico", instrumento que tem sido usado para roubar às classes subalternas seu direito democrático de manifestação pública - são poucos os que, como o Mello, têm coragem de defender abertamente uma posição pró-legalização.

A recusa institucional em sequer debater de forma aberta o tema não deixa de refletir, como ocorre com frequência nas questões públicas no Brasil, a profunda cisão sócioeconômica que cria, na prática, duas classes de cidadãos: para o “usuário de drogas” das classes médias e altas, uma série de facilidades, da freqüente corrupção policial à eventual chicana jurídica, se lhe oferecesse; para o “viciado” das classes subalternas, cadeia (e, lei não escrita, tortura institucionalizada, coação sexual etc.).

De qualquer modo, um tratamento muito diferente daquele que é dispensado ao usuário nas principais democracias européias, mesmo na mais repressiva. Na maior parte delas, o cidadão tem à sua disposição todas uma estrutura pública voltada à cura de seus vícios - incluindo em drogas -; mas, se prefere fazer uso delas, continua sendo um cidadão - e não, como aqui, um pária. Integrar o usuário de drogas na sociedade é tarefa de todo Estado Democrático de Direito.

Comparar os termos do debate sobre a questão das drogas no país, como colocados hoje em dia - concentrados quase que exclusivamente em questões de segurança pública -, à discussão que tomou vulto 25 anos atrás, logo após o fim da ditadura militar (e que avulta na coletânea citada), é defrontar-se com um retrocesso. Passada a euforia pós-Abertura política, o tema logo seria posto fora da agenda pela incomensurável – e ainda insatisfatoriamente debatida – reação conservadora que o advento conjunto de AIDS e neoliberalismo trouxe à tona. Ainda assim, nunca é demais salientar a legitimidade da posição dos que, como Camille Paglia e este blogueiro, defendem que “O Estado não deveria ter poder para vigiar ou regular atividades solitárias ou consensuais", como o uso de drogas ou a realização de fantasias sexuais entre adultos que as consentem.

Mesmo limitando o debate nos termos atuais, é forçoso notar que enquanto persistir, para amplos setores jovens descapitalizados, em uma ponta do processo, um sentimento de insatisfação e incompletude ante as demandas artificiais por consumo e prazer continuamente alimentadas pela onipresença da publicidade e da mídia; e, na outra ponta, um contingente enorme de mão-de-obra sem emprego e sem perspectivas de futuro, a questão das drogas continuará sendo um problema de primeira ordem no Brasil. Além de constituir uma ameaça permanente ao cidadão, passível de ser criminalmente acusado pelo simples ato de fumar um cigarro com uma erva proibida.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Carta a um ex-guru

Gabeira,

É com imensa vergonha que faço esta declaração, mas o fato é que você foi o meu primeiro guru. Ok, convenhamos, ler O que é isso, companheiro aos 11 anos é um pouco too much, mas os tempos eram outros, tinha a militância do meu pai, uma euforia no ar pela volta dos exilados, a ilusão de que o fim da ditadura estava próximo... enfim, transpirava-se política por todos os poros.

Ao contrário dos demais exilados, convencionais em termos comportamentais, você era uma figura muito sedutora para um adolescente: sequestrara o embaixador dos Estados Unidos, pregava uma sexualidade aberta e livre, defendia a legalização da maconha. Hoje sabemos que sua participação no sequestro não teve aquele destaque todo que você sugere no livro, mas é também verdade que muitas das críticas advindas de seus ex-companheiros mal disfarçam a inveja por, ao final, ter cabido a você o papel de contar a história. De minha parte, sempre lamentei que, no livro, tenha se recusado a fazer-se valer da denúncia da tortura como arma contra o regime. É que naquele tempo você tinha pudor, né?

Mas o livro que bateu mesmo, como um manga-rosa daqueles de que não mais se tem notícia, foi aquele “romance autobiográfico” quase que unanimemente execrado, Hospéde da utopia. Pirei com aquela história de sair por aí viajando (nos dois sentidos da palavra), transando, lendo e escrevendo, aproveitando a natureza. Ao longo da adolescência fui, como mochileiro, visitando aqueles paraísos todos: Trindade, Chapada dos Viadeiros, Trancoso (que agora tem estrada asfaltada, pra ver se acaba mais depressa com o lugar, você soube?). Os ares do tempo, a tal da zeitzeig, eram outros, lembra? Fumar um baseado não passava de um ato levemente transgressor, e os que o faziam não eram acusados de sustentar o crime organizado e, portanto, a violência, como acontece hoje no Brasil (e, não sei se você já percebeu, só no Brasil. Consome-se muito mais droga nos principais países ocidentais do que aqui, e ninguém é acusado de financiar violência nenhuma, o que prova que o problema não é o usuário, mas a farta mão-de-obra oferecida ao tráfico pelas condições sociais do país. Ou você acha que se, hipoteticamente, todos os usuários decidissem parar de comprar drogas o tráfico ia entregar as armas e passar a vender pirulitos e maçãs-do-amor?).

A primeira vez que me decepcionei contigo, Gabeira, foi nas entrevistas que deu para promover o filme O que é isso, companheiro?, aquela coisa indigna cometida pelo Barretinho, com um elenco tirado do TV Pirata visando esculachar os militantes de esquerda representados no filme – um deles, você. Lembro bem de um Roda Viva, dos tempos em que o programa merecia o nome: você sendo bombardeado e insistindo em defender o indefensável. Ah, sim, ia me esquecendo (deve ser a vergonha): antes disso, eu votei em você pra presidente! (no segundo turno votei em Lula; na época havia coerência nessa combinação de votos).

Mas o bicho pegou mesmo foi depois que o Zé Dirceu te deu aquele chá-de-cadeira e você, gritando feito uma prima-dona, abandonou o barco no calor da luta, arrumando uma porção de justificativas políticas alegadamente respeitáveis para o seu rompante. Num ponto eu concordo contigo: o que ele fez não se faz. Quer queira, quer não, você, tomando parte no sequestro do embaixador, arriscou a pele pra tirar o cara da prisão e o indivíduo te dá um chá-de-cadeira? (Aliás, cá entre nós: como era arrogante o José Dirceu no poder, não é mesmo? Tenho pra mim que o Lula ajudou a armar para o cara cair e assim não ter de dividir poder, o que achas?). O problema é que, agindo como agiu, você se iguala, por vias transversas, aos seus detratores de sempre na esquerda, que passaram décadas gritando por justiça social e distribuição de renda e, quando o governo Lula tira 35 milhões de pessoas da pobreza e cria um mercado para as classes C e D, continuam fazendo de conta que não é com eles, atirando pedras e fazendo o jogo da oposição de direita.

Oposição, aliás, da qual você virou uma espécie de musa justiceira. Fui um dois poucos que achei uma palhaçada aquela sua performance de vingador da pátria contra o Severino. Afinal, nada mais hipócrita do que a indignação seletiva dos que gritam “Ética!, ética!” apontando o dedo aos opositores políticos quando sabem que o problema é sistêmico. Mas esse comportamento hipócrita rendeu-lhe muitos frutos, não é, meu querido ex-guru? Logo você, que em seus livros é tão ferino em relação à “grande imprensa” aceitou de bom grado ser alçado à condição de paladino da honra da nação por nada menos do que a Veja! E (com o perdão do trocadilho) veja bem: numa época em que ela deixou de ser apenas o semanário preconceituoso e metido a besta de sempre para se tornar ponta-de-lança de uma operação agressiva da pior direita. Mas tudo pelo poder, não é mesmo, meu caro?

E olha como a vida é: depois de tudo isso, eu ainda me vi obrigado a apoiar a sua candidatura a prefeito do Rio! Coisas da realpolitik. Também, o roto ou o rasgado, não havia opção: entre você e Eduardo “Milícia” Paes...

Agora, sinceramente, preferia mil vezes você, rodeado de gaviões, digo tucanos, na prefeitura do Rio do que substituindo o babaca do Nelson Motta como colunista pau-mandado da Folha de São Paulo. Veja bem, não estou criticando o fato de você atuar no que antigamente se denominava “imprensa burguesa”. Dias Gomes e Vianinha nos ensinaram a importância de adentrar o – dá-lhes anos 60 – sistema e revertê-lo por dentro. Na própria Folha está Marina Silva, inteligentíssima e, esta sim, com uma preocupação ecológica genuína e, ao contrário de você, consistente ao longo do tempo, com uma colaboração semanal na qual mantém a dignidade. O que me incomoda é que ali, na página 2, você, como tem ficado evidente nos seus textos, está de bom grado cumprindo um papel pré-determinado, que interessa ao projeto de poder do jornal e ao seu próprio projeto político, baseado nesse neomoralismo tosco e hipócrita, palatável para a classe média mais retrógrada e preconceituosa e que sempre o rejeitou, e nada mais.

Gabeira, me diga uma coisa: você ficou babaca e não percebe o que está acontecendo, você sempre foi assim, ou você acha que nós é que ficamos babacas e não estamos percebendo as suas jogadas? Francamente, o que é isso, "companheiro"?