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quarta-feira, 11 de março de 2009

Carta a um ex-guru

Gabeira,

É com imensa vergonha que faço esta declaração, mas o fato é que você foi o meu primeiro guru. Ok, convenhamos, ler O que é isso, companheiro aos 11 anos é um pouco too much, mas os tempos eram outros, tinha a militância do meu pai, uma euforia no ar pela volta dos exilados, a ilusão de que o fim da ditadura estava próximo... enfim, transpirava-se política por todos os poros.

Ao contrário dos demais exilados, convencionais em termos comportamentais, você era uma figura muito sedutora para um adolescente: sequestrara o embaixador dos Estados Unidos, pregava uma sexualidade aberta e livre, defendia a legalização da maconha. Hoje sabemos que sua participação no sequestro não teve aquele destaque todo que você sugere no livro, mas é também verdade que muitas das críticas advindas de seus ex-companheiros mal disfarçam a inveja por, ao final, ter cabido a você o papel de contar a história. De minha parte, sempre lamentei que, no livro, tenha se recusado a fazer-se valer da denúncia da tortura como arma contra o regime. É que naquele tempo você tinha pudor, né?

Mas o livro que bateu mesmo, como um manga-rosa daqueles de que não mais se tem notícia, foi aquele “romance autobiográfico” quase que unanimemente execrado, Hospéde da utopia. Pirei com aquela história de sair por aí viajando (nos dois sentidos da palavra), transando, lendo e escrevendo, aproveitando a natureza. Ao longo da adolescência fui, como mochileiro, visitando aqueles paraísos todos: Trindade, Chapada dos Viadeiros, Trancoso (que agora tem estrada asfaltada, pra ver se acaba mais depressa com o lugar, você soube?). Os ares do tempo, a tal da zeitzeig, eram outros, lembra? Fumar um baseado não passava de um ato levemente transgressor, e os que o faziam não eram acusados de sustentar o crime organizado e, portanto, a violência, como acontece hoje no Brasil (e, não sei se você já percebeu, só no Brasil. Consome-se muito mais droga nos principais países ocidentais do que aqui, e ninguém é acusado de financiar violência nenhuma, o que prova que o problema não é o usuário, mas a farta mão-de-obra oferecida ao tráfico pelas condições sociais do país. Ou você acha que se, hipoteticamente, todos os usuários decidissem parar de comprar drogas o tráfico ia entregar as armas e passar a vender pirulitos e maçãs-do-amor?).

A primeira vez que me decepcionei contigo, Gabeira, foi nas entrevistas que deu para promover o filme O que é isso, companheiro?, aquela coisa indigna cometida pelo Barretinho, com um elenco tirado do TV Pirata visando esculachar os militantes de esquerda representados no filme – um deles, você. Lembro bem de um Roda Viva, dos tempos em que o programa merecia o nome: você sendo bombardeado e insistindo em defender o indefensável. Ah, sim, ia me esquecendo (deve ser a vergonha): antes disso, eu votei em você pra presidente! (no segundo turno votei em Lula; na época havia coerência nessa combinação de votos).

Mas o bicho pegou mesmo foi depois que o Zé Dirceu te deu aquele chá-de-cadeira e você, gritando feito uma prima-dona, abandonou o barco no calor da luta, arrumando uma porção de justificativas políticas alegadamente respeitáveis para o seu rompante. Num ponto eu concordo contigo: o que ele fez não se faz. Quer queira, quer não, você, tomando parte no sequestro do embaixador, arriscou a pele pra tirar o cara da prisão e o indivíduo te dá um chá-de-cadeira? (Aliás, cá entre nós: como era arrogante o José Dirceu no poder, não é mesmo? Tenho pra mim que o Lula ajudou a armar para o cara cair e assim não ter de dividir poder, o que achas?). O problema é que, agindo como agiu, você se iguala, por vias transversas, aos seus detratores de sempre na esquerda, que passaram décadas gritando por justiça social e distribuição de renda e, quando o governo Lula tira 35 milhões de pessoas da pobreza e cria um mercado para as classes C e D, continuam fazendo de conta que não é com eles, atirando pedras e fazendo o jogo da oposição de direita.

Oposição, aliás, da qual você virou uma espécie de musa justiceira. Fui um dois poucos que achei uma palhaçada aquela sua performance de vingador da pátria contra o Severino. Afinal, nada mais hipócrita do que a indignação seletiva dos que gritam “Ética!, ética!” apontando o dedo aos opositores políticos quando sabem que o problema é sistêmico. Mas esse comportamento hipócrita rendeu-lhe muitos frutos, não é, meu querido ex-guru? Logo você, que em seus livros é tão ferino em relação à “grande imprensa” aceitou de bom grado ser alçado à condição de paladino da honra da nação por nada menos do que a Veja! E (com o perdão do trocadilho) veja bem: numa época em que ela deixou de ser apenas o semanário preconceituoso e metido a besta de sempre para se tornar ponta-de-lança de uma operação agressiva da pior direita. Mas tudo pelo poder, não é mesmo, meu caro?

E olha como a vida é: depois de tudo isso, eu ainda me vi obrigado a apoiar a sua candidatura a prefeito do Rio! Coisas da realpolitik. Também, o roto ou o rasgado, não havia opção: entre você e Eduardo “Milícia” Paes...

Agora, sinceramente, preferia mil vezes você, rodeado de gaviões, digo tucanos, na prefeitura do Rio do que substituindo o babaca do Nelson Motta como colunista pau-mandado da Folha de São Paulo. Veja bem, não estou criticando o fato de você atuar no que antigamente se denominava “imprensa burguesa”. Dias Gomes e Vianinha nos ensinaram a importância de adentrar o – dá-lhes anos 60 – sistema e revertê-lo por dentro. Na própria Folha está Marina Silva, inteligentíssima e, esta sim, com uma preocupação ecológica genuína e, ao contrário de você, consistente ao longo do tempo, com uma colaboração semanal na qual mantém a dignidade. O que me incomoda é que ali, na página 2, você, como tem ficado evidente nos seus textos, está de bom grado cumprindo um papel pré-determinado, que interessa ao projeto de poder do jornal e ao seu próprio projeto político, baseado nesse neomoralismo tosco e hipócrita, palatável para a classe média mais retrógrada e preconceituosa e que sempre o rejeitou, e nada mais.

Gabeira, me diga uma coisa: você ficou babaca e não percebe o que está acontecendo, você sempre foi assim, ou você acha que nós é que ficamos babacas e não estamos percebendo as suas jogadas? Francamente, o que é isso, "companheiro"?

14 comentários:

Paulo Cunha disse...

Parabéns, concordo com quase tudo. Só no final faria um remendo, há tempos não é mais 'companheiro'...

Talvez ficasse melhor:

Então Gabeira é isso?

Mauricio Caleiro disse...

É que não resisti à ironia de utilizar a frase dele. Mas vou pôr umas aspas, tá bem? Volte sempre.

Flavia disse...

Maurício,

ainda não li este post (mas vou ler). Achei de deixar este recado porque ainda não tenho a mínima pista do que você quiz dizer com redenção/terror, mas achei facinante. Não vou deixar de pensar no que você disse, mas gostaria de deixar aqui um pedido singelo: se você escrever um post a respeito, eu lerei.

bom, por enquanto é só. Agora vou ler os teus posts. um grande abraço.

Flavia disse...

uau... nada como a morte do herói. I know the feeking... há muitos que ainda apoio só por questão de realpolitik...

H Milen disse...

Já briguei em churrasco de família para defender Gabeira. Hoje não faço isso por mais ninguém.

Aliás, não brigo por mais nada.

Luiz Barbosa Neves disse...

Lúcido, contextualizado e importante. Parabéns.

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Assino embaixo, meu velho. O Gabeirismo, doença infantil do conservadorismo - como diria nosso amigo Alexandre Nodari - é mais do que uma estupidez sem tamanho, é o retrato da sufocante época em que vivemos.

É a pós-modernidade, onde a esquerda, sem referências, gira em círculos; enquanto alguns tentam remendar os fragmentos, outros, até mais jovens do que o Gabeira - como uns que eu conheço na faculdade, os jovens que já nascem conservadores como diria o João Villaverde -, se prostituem descaradamente. Tudo isso num cenário pré-distópico onde a direita vai dando passo depois de passo rumo a desconstrução do aufklarüng.

Gabeira entra nesse jogo usando o seu nome na história da esquerda nacional para ser o fiador do casamento do gauche-caviar com o udenismo num projeto pseudo-civilizador de natureza higienista e elitista que tem como alvo os pobres miseráveis que eles próprios criaram. É o crespúculo de um democrata - ou talvez o desvelar de um oportunista.

Diz disse...

Concordo com mto do que vc diz, tb já mandei email p ele falando do meu desapontamento, era fã do homem liberal e moderno.
Mas acredito que teu texto no final é impregnado de rancor contra a Folha e Veja- entendo vc, Nassif, todos- mas acabei sem saber se a raiva é do mito desmitificado ou da mídia de direita. Menos rancar daria mais força às suas palavras.
Desculpe se te aborreço a intenção é apontar o excesso.
OK, o texto é teu, faz o que quer.
Um abraço,Elianne

iaiá disse...

excelente, tb passei por essas fases. hj só acredito no naruto do meu filho, é mais fácil.
mas isso tb não me impede de protestar ou ter esperança...

Marcos Mendes disse...

Gostei do texto, de alguma forma vc traduziu o que muitos passaram. Deixo uma ressalva que vai de encontro com o q disse a Elianne ai em baixo. Achei o final cheio de rancor contra a Folha e Veja.

Levy disse...

Acontece que a Veja, Abril, Folha, Estadao, Globo, etc... são grandes coorporações organizadas que seus donos são os capitalistas da direita e fazem imprimir seus pensamentos.

O que não existe é a mesma coisa vindo de empresas que imprimam um pensamento de esquerda, e nunca parece ter espaço para esses da esquerda que apenas esperneia até desistir e abraçar o capitalismo.

Não cheguei a esse ponto, mas o Gabeira chegou. Que o PT se renove como liderança da esquerda se não podemos continuar refens da direita para sempre.

Maurício Caleiro disse...

Amigos,

Agradeço sinceramente a todos pelos comentários.

Desculpem a demora em responder, mas, como esse post é muito antigo, não imaginei que voltaria a despertar tanto interesse.

Respeito a opinião dos que acham que o texto é cheio de rancor contra Veja e Folha. Mas talvez o que vocês chamam de rancor seja o resultado da constatação reiterada de que esse veículos de imprensa não têm cumprido o compromisso público que têm com o povo - de informar e criticar buscando o equilíbrio, a justeza e a inalcançável isenção. Ao contrário: têm, há muito,se caracterizado por omissão, distorção, partidarismo e parcialidade.

Espero que vocês voltem sempre ao blog.

Um abraço,
Maurício.

Tiago Mesquita disse...

Ele deu alguma resposta?

Maurício Caleiro disse...

Tiago,

Não deu. Nem sei se ele leu...