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domingo, 29 de março de 2009

O Furacão Camille

Camille Paglia é uma das mentes mais argutas e uma das línguas mais afiadas em atividade no mundo contemporâneo. Seus ataques contra o politicamente correto e o “feminismo stalinista” institucional dos EUA – que fez de um movimento originalmente libertário e anti-sistêmico uma força de repressão e controle social mantenedora do status quo – a transformou na bête noire do universo acadêmico norteamericano, um dos mais conservadores e apolíticos do mundo, e a relegou a uma espécie de ostracismo midiático (a despeito de ela continuar escrevendo profusamente e mantendo colaboração periódica na Salon).

Suas críticas à academia, embora se refiram, é claro, ao contexto norteamericano, parecem cada vez mais servir como uma luva à universidade brasileira, que não se cansa de insistir em adotar de forma acrítica os modelos administrativos e critérios avaliativos made in USA – procedimento que evidencia, a um tempo, o grau de colonialismo cultural de nosso establishment acadêmico e sua alienação em relação à sociedade brasileira.

Com uma independência e virulência raras, metralhadora giratória que cobre uma pletora de temas e assuntos, Camille Paglia, embora às vezes assumindo posições contraditórias e mesmo anti-liberais (particularmente em relação à política externa norte-americana), destaca-se pela atenção que dispensa, no contexto acadêmico ou fora dele, às mais variadas formas de manifestação da cultura pop, para a qual demostra ter aguda capacidade analítica (no Brasil, provocou protestos seu fascínio por Daniela Mercury, artista que, independente da qualidade de seu trabalho, é vítima de rotulações e de preconceitos regionalistas); pelo resgate, como método de investigação acadêmico, de uma visão de história da arte tout-court, caudatária da etimologia e informada o suficiente para não temer os desafios da cronologia; pela posição crítica (e não de exaltação deslumbrada, como parece ser a regra) em relação aos anos 60 e suas (in)consequências para o presente estado de coisas.

A base de suas intervenções vem da crítica ao construcionismo social há muito em voga nos EUA e em seu papel definidor para o feminismo e para a universidade norteamericanos, duas áreas nas quais que se considera "ativista reformista". A defesa apaixonada que faz da abstenção do Estado na regulamentação de atividades solitárias ou consensuais - o que inclui apoio à liberdade sexual plena e a quase todas as formas de pornografia e à descriminalização das drogas e da prostituição - estão no cerne de seu confronto com o establishment feminista dos EUA, anti-pornografia e, segundo ela (e este blogueiro concorda), anti-sexo. Em relação à universidade, propõe um amplo programa de reformas que acabe com os códigos reguladores de condutas e com os congressos literários; a transformação dos estudos de gênero e de raça em estudos de sexualidade de orientação histórica, antropológica, psicológica e científica; e o retorno aos métodos de investigação histórico-acadêmicos do filologismo alemão, em detrimento do vale-tudo raso instaurado pelo pós-estruturalismo francês, do qual é crítica ferrenha (clique aqui para ler trechos de uma entrevista de Paglia).

Para quem quer conhecer uma sua faceta mais, digamos, sensível, é imprescendível ler o ensaio “Meus quatro irmãos no crime...”, em que, sob o pretexto de homenagear seus maiores amigos gays, Paglia traça, através da reconstituição de suas trajetórias pessoais, um apaixonado retrato de quatro outsiders dos anos 60 e de seus embates com a sociedade norteamericana ao longo de quatro décadas, até a hecatombe trazida pela primeira “epidemia” de AIDS. O item dedicado ao perfil de James Fessenden não merece menos do que ser adjetivado nos termos algo contraditórios de arrasadoramente poético (o ensaio, assim como todos os trechos citados neste post, pertence a Vampes & Vadias, que embora seja uma compilação um tanto tardia - e com erros flagrantes de tradução - de artigos diversos é, disparado, entre tudo o que ela publicou, o livro predileto deste blogueiro – daqueles que provocam até uma certa tristeza por já tê-lo lido, devido à constatação de que jamais se terá de novo o prazer proporcionado pela primeira leitura...).

Abaixo, trechos selecionados, frases e aforismos de um dos raros intelectuais contemporâneos que ousa sistematicamente ir contra a corrente e desafiar o status quo:

Frases
- “Há vida intelectual nos Estados Unidos? No presente, a resposta é não”.

- “Se as pessoas pudessem ver meu cérebro por dentro, eu iria parar na cadeia”.

- “A comédia é o melhor caminho para a verdade”.

- “Eu odeio o dogma sob qualquer forma”.

- "A presença greco-romana em mim é muito pronunciada; vejo a vendetta como uma prática esportiva, jovial e histórica, tipo joelhada no saco".

Feminismo norteamericano
"O feminismo se tornou uma gaveta de legumes em que pencas de adeptas fiéis e soluçantes podem armazenar suas neuroses bolorentas".

"Minha geração foi aquela que jogou tudo para o alto nos EUA e disse: “Chega de regras!” Nós dissemos para as universidades: “Saiam das nossas vidas sexuais! (...) E agora o feminismo de hoje é tão estúpido, quer figuras de autoridade de volta no sexo! (...) Isso é ridículo. As mulheres têm de assumir responsabilidade total pela sua sexualidade".

[Sobre o feminismo anti-sexo] "Meu lema para os homens vai ser esse: 'fiquem de pau duro!' Essa é minha proposta: 'fiquem de pau duro' E meu lema para as mulheres é 'lidem com isso'".

"Quando o discurso feminista se torna incapaz de distinguir um carinha bêbado da fraternidade estudantil de um maníaco homicida, a coisa vai mal para as mulheres".

"A ideologia de vítima, uma caricatura de história social, bloqueia à mulher o reconhecimento do seu domínio na esfera mais profunda e importante".

"Os homens são dominantes na sociedade, certo? E a missão do feminismo é buscar a total igualdade política e legal das mulheres. Nós temos que ganhar a entrada das mulheres na vida social. O que eu digo no meu trabalho é que nós somos muito mais do que meros seres sociais. Que existe a esfera social da vida, mas que também existe a esfera sexual ou emocional, a qual se sobrepõe à esfera social, mas não é idêntica a ela. De modo que estou dizendo que a mulher é dominante na esfera sexual e emocional, e que, em algum nível profundo, o homem sabe disso. Eles se lembram de terem emergido dessa imensa e sombria figura matriarcal e divinizada, de onde lutam por identidade".

"A ideologia feminista começou reivindincando liberdade, esclarecimento e auto-determinação para as mulheres, mas acabou alienando as profissionais mulheres de seus próprios corpos".

"Ouvindo o rádio em minha casa, escutei o Dr. Joyce Brothers proclamar confiante: 'Não há prostitutas felizes' - com o que berrei furiosa: 'Dr. Brothers, não há terapeutas felizes!'".

"A prostiuição deveria ser descriminalizada. Minha posição libertária é a de que o governo não pode, em nenhuma circunstância, intervir no comportamento privado consensual. Assim, apesar do mal que causaram à minha geração, eu apoio a legalização das drogas, em conjunto com a atual regulamentação do alcóol. E eu argumentaria pelo direito absoluto à sodomia homossexual. É razoável, todavia, pedir que os atos sexuais permaneçam privados e que não ocorram visivelmente em espaços públicos compartilhados, como ruas e parques – estes últimos pousos favoritos dos homens gays, para desespero dos vizinhos. Nem o judeu-cristão nem o pagão podem dominar o espaço comum".

Universidade
"A revolução cultural dos anos 60 fracassou em transformar os mundos acadêmico e literário como devia".

"Os nomes mais festejados da nossa geração de professores de ciências humanas são bisonhos, ignorantes e incultos. Os EUA mereciam coisa melhor".

"Qualquer um que se interesse pelo futuro da literatura e da arte nos EUA deve se repugnar com essa poção mágica de hipocrisia e santimônia que é o 'politicamente correto'(...) Se deve haver um reflorescimento intelectual e espiritual, são os estudantes de hoje que terão que fazê-lo. O establishment acadêmico, paralisado pelas panelinhas, pela ganância e pela covardia moral, é incapaz de reformar a si mesmo".

"O que é mais repugnante sobre o corretismo político no campus é que seus proponentes deram um jeito de convencer seus estudantes e a mídia de que são autênticos radicais dos anos 60. A idéia é absurda. O politicamente correto, com seus códigos reguladores da expressão e regulamentos sexuais puritanos, representa um travestimento dos valores progressistas da década de 60 (...) Ao contrário, as pessoas mais ousadas e originais dos anos 60 ou bem não foram para as pós-graduções, ou bem se recusaram a fazer o jogo das bajulações, tão necessário para progredir na carreira acadêmica".

"Os radicais genuínos não foram para os cursos de pós-graduação. Se iam, rapidamente caíam fora ou eram derrotados pelo processo de recrutamento e promoção das faculdades, que premia o conformismo e a bajulação".

"Radicais reais apóiam alguma coisa e arriscam alguma coisa; esses acadêmicos são gatos gordos e mimadíssimos que nunca defenderam princípios, em nenhum momento de suas carreiras. Nada lhes aconteceu nas suas vidas. Nunca foram para a guerra; nuncas ficaram desempregados ou completamente duros. Eles não conhecem nada fora da universidade, e menos ainda a vida da classe trabalhadora. Sua política é uma trama tendenciosa de fantasias sentimentais e categorias verbais inconsistentes".

"Os estudos sobre as mulheres não mudaram uma vírgula na vasta estrutura da história da arte. É escandaloso que as nossas mais talentosas estudantes em licenciatura sejam tuteladas em atitudes de ressentimento juvenil contra artistas homens dos mais importantes, do porte de Degas, Picasso e Marcel Duchamp, que se tornaram virtuais párias. As mulheres nunca farão grande arte se sua educação só lhes expuser ao segundo escalão. A grandeza não é um truque do macho branco. Todas as civilizações do mundo definiram a sua tradição artística em termos elitistas de distinção e elegância".

"Os centros de humanidades são agora controlados por pequenos quadros amorais, intrinsicamente ligados uns aos outros em âmbito nacional por laços de panelagem, favoritismo, clientelismo e conluio".

"Meu programa de reforma educacional começa na escola primária, a qual tem sido irresponsavelmente ignorada pelos nossos pseudo-esquerdistas acadêmicos, cuja idéia de ação política é tagarelar sobre Foucault um com o outro nas conferências".


Conselhos aos estudantes:
- "Faça da biblioteca sua professora. Mergulhe nas coleções de referência e domine cronologia e etimologia".

- "Recuse-se a cooperar com o sucedâneo coercitivo do humanitarismo que ofensivamente define mulheres e negros como vítimas".

- "Insista na liberdade de pensamento e de expressão".

- "Atacar é um direito democrático".

5 comentários:

Hugo Albuquerque disse...

Adoro Camille, mesmo que não seja lá tão libertário assim ;) agora, pondo minha pequena confissão democrata-cristã de lado, acho que a avaliação que ela faz da Academia é universal, eu que estou estudando nela sei muito bem sobre o que Camille fala - claro, o caso brasileiro consegue ser pior, bem pior do que o americano.

No que toca ao movimento feminista, "stalinismo feminista" cabe bem; é engraçado, mas não é raro ver movimentos populares descambando inconscientemente na mesma coisa que eles criticavam; as feministas determinando padrões de comportamento para as mulheres - como se um mulher para ser feliz não pudesse ser puta ou dona de casa se quisesse - ou os comunistas russos oprimindo o povo de uma maneira não muito diferente do que o Tzar fazia.

No fim das contas, eles parecem desconhecer Aristoteles e olvidam que ser a outra face da moeda é ser o mesmo que o problema só que voltado para o espelho; enquanto a virtude só se conquista por meio da igualdade, da equitatividade e do equilíbrio.

Mauricio Caleiro disse...

Folgo em saber que você também é fã da minha musa e mentora malukete! A maioria dos meus amigos, no Brasil e no exterior, ou a detestam ou são indiferentes (vai ver, ando mal de amigos...).

Hugo Albuquerque disse...

Pois é, Maurício, vai ver é isso mesmo hehehe, meu gosto por ela, mora justamente no fato de que muito agradam as pessoas provocativas. Acho que o mundo precisa de mais gente que diga a que veio porque de fazedores de média ele já tá cheio ;-)

Pedro Vidal disse...

Esta mulher é uma avalanche de inteligencia crítica sobre minha cabeça!! me sinti uma pulga sertaneja rsrsrsr vou reler e reler
stalinismo feminista é isso mesmo!
perfeito o que ela fala sobre sex and drugs...acessei o blog ouvindo Patti Smith a cantar Smells like teen spirit...sincronicity!!!!

indra disse...

Esta mulher é uma avalanche de inteligencia criativa sobre minha cabeça!!! vou reler e reler...ouvindo smells like teen spirit com Patti Smith...sincronicity!!!!