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quinta-feira, 19 de março de 2009

Frost/Nixon e os espectros do passado

Atualmente em cartaz no Brasil, Frost/Nixon (2008) não passa de um filme bem-feito, com montagem e direção de arte acimas da média e, principalmente, um elenco de primeira, liderado pelo canadense Martin Sheen no papel do entrevistador britânico David Frost e por Frank Langella, cuja mediúnica performance como o ex-presidente americano rendeu-lhe indicações aos principais prêmios de Melhor Ator nos EUA, incluindo o Oscar.

O filme, dirigido por Ron Howard (Uma Mente Brilhante; Cocoon), recria com alguma minúcia e alguma fantasia a mais célebre entrevista de Nixon - em que ele, a princípio implacável em suas respostas, esgrimindo as perguntas com a experiência de décadas como político e advogado, vê-se subitamente acuado, acabando por confessar que sua atuação no "caso watergate" violara a lei. Num close dramático que dura intermináveis seis segundos, o ex-presidente, visivelmente abatido, pede desculpas ao povo americano. Trata-se de um momento icônico do jornalismo e de uma façanha histórica do jornalismo televisivo.


Fantasia e distorção
Porém, ao menos dois dos elementos fantasiosos da trama distorcem por demais a realidade, dando uma idéia falsa do que ocorreu: David Frost não era uma espécie de Gugu Liberato da TV australiana que eventualmente emplacava algum programa nas grades de programação britânica e norte-americana, como o filme sugere – mas um jornalista e apresentador experiente, com um currículo respeitável de entrevistas com personalidades famosas nos três países e com políticos de destaque mundial. A distorção mais grave, porém, não só por falsear a realidade mas por permitir uma caracterização menos crítica de Nixon, é sugerir que a entrevista terminou na confissão do ex-presidente, omitindo que, na parte final, ele volta ao ataque e tenta novamente jogar a culpa pela transgressão da lei nos assessores.

Não deixa deixa de ser compreensível que o filme prefira enfatizar, por propósitos dramáticos, a confissão, privilegiando o momento da entrevista que a definiu, popularizou e eternizou, com graves consequências para a carreira do entrevistado. Pois se Nixon concordou em conceder a entrevista, como o filme e, com mais ênfase, os relatos históricos sugerem, com o objetivo último de pavimentar o caminho para seu retorno à política, ela acabou por significar, ao contrário, a pá de cal em qualquer pretensão eleitoral.


Paralelos óbvios
O sentido de um filme e as ilações que a partir dele são feitas dependem, é claro, não apenas das disposições subjetivas de cada espectador, mas da conjuntura sócio-cultural em que é exibido. Assitir a Frost/Nixon no atual contexto brasileiro trouxe - não apenas este blogueiro, mas um grupo de respeitados jornalistas - a evocação de um espectro político do passado que voltou recentemente a assombrar a política nacional, levando-os a traçar um paralelo analítico entre as consequências da entrevista do ex-presidente americano Richard Nixon e a inexistência sequer de uma entrevista, quanto mais de uma satisfação à opinião pública ou declaração de arrependimento do ex-presidente brasileiro Fernando Collor, entre o momento de sua renúncia ao cargo para escapar do impeachment e o momento de sua volta trinfal ao poder (clique aqui para ler a opinião do blogueiro sobre esse retorno). Não se trata, no entanto, de dar vazão a comparações simplistas entre uma e outra realidade, nem ao tão difundido entre nós “complexo de colonizado” - na forma de idealização do binômio "democracia avançada/imprensa livre" que caracterizaria os EUA - , até porque este blogueiro conhece suficientemente bem a sociedade norte-americana para não alimentar nenhuma ilusão quanto a tais mitos. Ainda assim, o paralelo entre os dois casos, sugerido a partir dos fatos dramatizados no filme Frost/Nixon, não deixa de ser rico em temas para o desenvolvimento de uma reflexão sobre a relação entre política, mídia e opinião pública no Brasil, como forma de fazer avançar a democracia no país.

3 comentários:

Flavia disse...

Aqui a mídia só conseguiu jogar uma pá de cal na carreira de professores. Por demais subserviente ao poder, deixa por pouco com os graúdos, ao mesmo tempo que se esforça por jogar uma pá de cal na carreira de Lula, por exemplo. Mas talvez, nesse processo de whitewash com sujeitos como Collor, Daniel Dantas e seu amigo Gilmar, Fernando Henrique, que só foi realmente entrevistado pelo jornaliista britânico do Hard Talk, Aécio e companhia, a minha hipótese é que a mídia acaba navegando por águas tão turvas que ela mesma sofre os resultados: está tão descolada da realidade política, do que seria realmente relevante que ela própria se torna irrelevante.

Mauricio Caleiro disse...

A "grande mídia" deixou de ao menos fingir tentar informar...fica chafurdando no próprio jogo político, enquanto a Internet vai tomando espaço, né?

Agora, o mais hilário na entevista do Fernando Henrique é o inglês dele... não que um presidente tenha a obrigação de falar a língua, mas logo ele, que se acha o supremo intelectual, com aquele inglês macarrônico ("the childrenS of Brazil" - socorro! re, re, re..)

flavia disse...

Maurício,
Aproveitando a discussão em pauta vou copiar comentário que deixei em outros blogs, convidando para que comecemos uma discussão mais ampla:
____

Sinceramente... descalabros como esses da bonita história de caridade de Noblat e censuras de programas pelo Gilmarzão, e mais o fato da mídia dar voz aos roedores mas não aos cabras... Creio que é hora de nos inspirarmos nos nossos hermanos argentinos e começarmos a discutir e requerer do gov. federal, do congresso e do senado que se reformulem as leis (tá, pode dizer que eu vá sonhando, mas acho que é bom pelo menos tentar, então vou dar minha carinha de tenra tez a bater)

Acredito que é hora de começarmos a discutir uma nova lei Audiovisual, assim como uma Carta de direitos na Internet que se baseie nos tratados de Direitos Humanos, como o novo projeto de lei da Argentina.

um link básico, pra quem tiver interesse:
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/

um abração