Os textos deste blog estão sob licença

Creative Commons License
Mostrando postagens com marcador crise. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador crise. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de maio de 2016

O caso Jucá e a reação às denúncias

A mídia publica uma denúncia fatídica contra um ministro ou outro personagem central do governo; o desgaste, para ambos, é imediato e avassalador; o personagem é demitido, de acordo com uma lógica do tipo "perder os anéis para manter o dedo".

Esse processo se repetiu diversas vezes nos governos Lula e Dilma - e agora, ocorre pela primeira vez no de Temer. Para além da discussão sobre a legitimidade de um e de outro governo, observam-se ao menos duas diferenças no modo de reagirem: a primeira é que o padrão da reação petista era delongar: sem propriamente defender o acusado, adiava-se sua demissão, com o exército "progressista" culpando a "mídia golpista". Ao final, após semanas de desgaste, com a persistência do que J.B. Thompson chama de "escândalo político-midiático", o indigitado ia pra rua.

A segunda, com raras exceções (como Palocci), é que, durante os anos petistas, a demissão correspondia a a um exílio na Sibéria: ao menos institucional e publicamente, o demitido perdia poder de influência e mesmo de interlocução com o governo. Já Jucá "cai pra cima": não só volta para o Senado, mas com a chancela política de Temer, que chegou a declarar "precisar" dele lá.

À primeira vista, do ponto de vista da estratégia administrativa, a rapidez com que Temer agiu tenderia a ser vista como um ponto positivo, comparada à letargia desgastante de Lula e Dilma para com os denunciados. Por outro lado, a reafirmação da importância do Jucá senador para o Temer soa como um flanco de vulnerabilidade , o qual sugere o prolongamento do desgaste do governo, ainda que em outro patamar..

Talvez seja cedo para prognósticos. A reação da sociedade e dos demais atores políticos é quem deve determinar seu desfecho. Mas uma coisa parece certa: a denúncia do caso Jucá pela Folha de S. Paulo demonstra, uma vez mais e para os que ainda teimam em se recusam a ver, que, malgrado seus inúmeros problemas e tendenciosismos, a mídia como inerentemente golpista e antipetista é uma falácia ideológica, desmentida pelos fatos.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O pós-impeachment e as narrativas de falseamento

A polêmica quanto ao impeachment ser ou não um golpe transformou-se em um não-debate, posto que choque de convicções. Cada um dos lados em confronto possui tanto argumentos irrefutáveis quanto um arsenal de truques retóricos e óbvias falácias. Para além de quem tem razão em tal impasse, preocupam-me duas de suas consequências diretas.

A primeira, já apontada por diversas vozes, é que, seja qual for a resposta a tal polêmica, ela devolverá ao PT o estigma do vitimismo, cujo culto, açulado pelos truques do marketing político tão eficiente quanto aético, já lhe foi muito útil nas urnas e pode vir a ser decisivo para reanimar a candidatura Lula em 2018.

A segunda, a meu ver ainda mais artificial do que a anterior, diz respeito ao modo como o legado petista tende a perdurar e a ser tratado pela militância, por simpatizantes e pelo pessoal do "voto crítico" - aquela turma que passa dois anos descendo a lenha no PT, acusando-o de fazer o jogo da direita e de, portanto, não representar a esquerda, mas, na hora do voto, volta a ser linha-auxiliar do petismo. Difícil afirmar se se trata de mera miopia política ou grave masoquismo, mas o fato é que já vimos esse filme em 2010, 2014 e na votação do impeachment, e não há razão para acreditar que não se repita em 2018, com Lula, a despeito de seu legado, que inclui o desastre Dilma Rousseff.

E é justamente a operação de maquiagem e falseamento de tal legado, já em curso, o que me interessa tratar aqui. Pois parece-me claro que a tendência narrativa petista será opor as medidas anticíclicas que Temer certamente tomará - ajuste fiscal, tunga nos aposentados ("reforma" da Previdência", em linguagem marqueteira), corte de direitos trabalhistas - não a medidas extremamente similares que Dilma tomou ou estava prestes a tomar (como aexpansão das "concessões" e a própria "reforma da Previdência", item prioritário em sua agenda pré-impreachment), mas ao ápice do governo Lula, com a expansão do crédito, das vagas na universidade, dos concursos públicos, dos lucros em geral.

Ou seja, será comparado um presente recessivo e em crise (em grande parte graças a artes petistas) com um passado atípico e já idealizado em seu momento mesmo de consagração (porque,entre outras aspectos, foram desprezadas suas consequências para a economia futura do país).

Tal tendência já é possível de ser observada atualmente, em forma embrionária: a administração Temer, segundo tal narrativa, representará o fim da ascensão de muitos à universidade (como se o FIES já não estivesse falido com DIlma), atentados a direitos trabalhistas (como se os dois governos petistas não tivessem mudado as regras de aposentadoria, seguro-desemprego, seguro-defenso e pensões), o término do período em que pobres viajavam de avião (como se a redução das rotas interioranas, do número de voos e de sua taxa de ocupação não fosse uma realidade presente), e por aí vai.

Ou seja, contra o então presente recessivo de Temer será contraposto um passado idílico e socialmente justo do petismo - como se este não se desdobrasse naquele, e como se o legado de Dilma (presente ou futuro) não fosse a pior crise econômica dos últimos 34 anos.


(Imagem retirada daqui)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Chico, a Geni da vez



Vou falar de uma coisa que está me incomodando demais.
Acredito que Chico Buarque tenha o direito de defender suas posições políticas sem passar pelo verdadeiro linchamento moral e pelos ataques desqualificadores em sequência que passou a sofrer desde que assumiu uma postura contra o impeachment e de defesa do governo Dilma Rousseff.

Não há nenhuma acusação de desvio de dinheiro público contra ele, ele não está no rol de investigados da Lava-Jato. Só defende - a meu ver equivocadamente - o governo de um partido com o qual ele e sua família têm ligações de décadas. Não há benefício direto nenhum advindo desse apoio.

O assassinato de reputações dos que discordam assomou ao primeiro plano com o jornalismo neocon da Fox News, foi importado tanto por Veja quanto por blogueiros progressistas e tornou-se regra com a disseminação das redes sociais.

Mas ainda penso ser possível discordar de quem defenda o que para nós pareça indefensável sem desqualificar completamente a pessoa, anulando-a como interlocutor e como ser pensante.

Chico Buarque não é apenas um compositor e escritor reconhecidamente talentoso - é alguém que, na maior parte das décadas em que viveu até agora, manteve um compromisso com os rumos sociais e políticos do país. Neste momento as escolhas dele não coincidem com a da maioria de nós, mas quem está sendo autoritário e antidemocrático ao, por isso, descartá-lo, esculachando-o?

(Imagem retirada daqui)

domingo, 25 de outubro de 2015

Mídia golpista? O mito do PIG em questão


No decorrer da era petista, o modo recorrente como o jornalismo midiático desviou-se de suas funções, incorrendo em demarcado partidarismo, consolidou, em setores do público, a imagem de uma pronunciada oposição entre mídia e governo.



Além de corroborada pela presidente da Associação Nacional de jornais, Maria Judith Brito –para quem os “meios de comunicação estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país” -, tal oposição foi ratificada, entre tantos outros feitos notáveis da mídia brasileira, pela transformação editorial da revista Veja em porta-voz do neoconservadorismo a la Fox News; pela adoção, pelos principais órgãos escritos e televisivos, de um mesmo e restrito time de comentaristas políticos raivosamente antipetistas; pela repetida transgressão de princípios basilares da ética jornalistica, culminando com a publicação, na capa de uma edição dominical da Folha de S. Paulo, da ficha policial falsa da então candidata Dilma Rousseff.



A animosidade de grande parte da mídia para com o petismo é, portanto, sobejamente conhecida (mas isso não impediu que o PT elegesse quatro presidentes em seguida e, de quebra, o prefeito da maior cidade do país, o que muito nos diz sobre o real poder da mídia).







Reação irônica

Tal comportamento, inserido em um quadro geral no qual o setor de comunicação reflete as assimetrias socioeconômicas do país, excessivamente concentrado numa plutocracia familiar e eivado de vícios clientelistas, acirrou ainda mais os ânimos. Por sua vez, os meios petistas de comunicação, concentrados na internet, reagiram elegendo a mídia corporativa como inimigo preferencial, a ela referindo-se com o uso de uma sigla tão sarcástica quanto pregnante: "PIG" [Partido da Imprensa Golpista].



A principio uma reação bem-humorada e denunciadora dos desvios de função do jornalismo midiático, tal estratégia, entretanto, ao tornar-se a norma repetida ad eternum, foi perdendo o seu poder de choque e, ao fornecer um sempre mesmo diagnóstico negativo a priori, anteposto ao exame analítico do objeto caso a caso, acabou relativizando ou mesmo anulando a própria crítica que intenta perfazer.







Omissão e apoio

Ainda mais porque o exame cotidiano e criterioso da mídia nacional, sobretudo a partir da ascensão de Dilma Rousseff ao poder, tende a revelar padrões não binários e muito menos maniqueístas do que a generalização peremptória que o rótulo “PIG” implica.



Se não vejamos: visto a partir da esquerda, um dos maiores erros estratégicos do petismo foi não construir sua própria narrativa, deixando-se aprisionar por um sistema de valores ditado justamente pela mídia e pelo mercado. Enquanto a economia "ia bem" (segundo tal quadro valorativo) funcionou, e os militantes e entusiastas petistas vibravam como torcidas de futebol a cada divulgação de índice econômico, a cada afago de porta-vozes do mercado, a fossem estes agências de classificação de riscos, colunistas da imprensa ou a The Economist - entes hoje execrados.



E como se comportou, de maneira geral, a mídia ante as sucessivas privatizações - “concessões”, na novilíngua petista – de aeroportos, rodovias e do Pré-Sal levadas a cabo pelo atual governo? Qual abordagem predominou ante o recente corte de direitos trabalhistas e previdenciários efetuados por um governo que, na campanha eleitoral, comprometeu-se a não alterar tais direitos “nem que a vaca tussa”? Por quantas vezes noticiou e expressou sua desaprovação ao genocídio indígena e à inação do governo? Como tem reagido ao fato de que os índices de reforma agrária do governo Dilma são menores do que os de FHC? Com que frequência e destaque tem retratado o processo de sucateamento do Ensino Superior ora em curso, que se expande quantitativamente mas sem a correspondente evolução qualitativa em relação a salários, plano de carreira e condições de trabalho de professores e de funcionários, além de laboratórios, salas de aula e bibliotecas insuficientes e por vezes improvisadas?





Por novos modelos

A resposta a estas questões denota, de forma clara, que a ação midiática não se dá exclusivamente nos moldes da reatividade negativa, como quer o governismo. Quando lhe convém, adota posturas que variam da omissão cúmplice ao endosso de medidas governamentais, mesmo quando elas tendem ser prejudiciais ao interesse da maioria do povo. Evidencia-se, assim, a impropriedade de se utilizar um mote totalitário e generalista para carimbá-la de antemão como instituição golpista. Mais sentido faria um modelo analítico que fosse além do binarismo mídia-governo e atentasse para as relações entre a notícia e os interesses classistas, econômicos e ideológicos da mídia.



O rótulo “PIG”vem há tempos servindo como desculpa multiuso e cortina de fumaça a justificar e impedir a análise dos erros das administrações petistas, o que acabou gerando um alto custo ao pais, por impedir ou retardar a perpcepção da crise em gestação e de sua gravidade. Em última análise – e ao contrário do que o petismo apregoa – se, durante a campanha elitoral, a mídia tivesse cumprido o seu papel com um mínimo de rigor, denunciando a real situação da economia brasileira país, Dilma Rousseff jamais teria se reelegido. A mídia que o governismo denuncia como golpista foi, nas verdade, gravemente omissa – e para benefício do próprio petismo.







O caso das agências de rating

Mas, para além do atípico período de campanha eleitoral, poucos episódios políticos recentes têm ilustrado com tanta propriedade a falsidade da dicotomia mídia versus governo do que a cobertura que vem sendo dispensada ao ajuste fiscal. A atuação midiática, que já se mostrava há tempos longe do estereótipo projetado pelo governismo, passou a deste distoar ainda mais com o anúncio do rebaixamento da nota do Brasil, primeiro pela agência de risco Standard & Poor's, depois pela Moody's, com a decorrente perda do grau de investimento.



O que se assistiu no noticiário, de forma geral, não foi, de modo algum, a algo que se assemelhasse a uma reação revanchista, de criticismo desmedido ou raivosa – pelo contrário, grande parte da imprensa e da mídia televisiva do país pareceu desde então engajada em uma espécie de “campanha cívica” pelo ajuste fiscal. A qual dá mostras de incluir um esforço extra para popularizar e “tornar simpático” o reservado Joaquim Levy e para transformar o aumento de impostos em um leve esforço individual pelo bem do país. Que ”PIG” bonzinho...







Levy na Globo

O deslanche de tal campanha se deu na mesma quarta-feira em que a nota do Brasil fora rebaixada pela primeira vez, com uma entrevista ao vivo do ministro ao Jornal da Globo, logo após o futebol. Precedida por uma daquelas simplificações que envergonham o jornalismo econômico – com os apresentadores afirmando que o rebaixamento da nota do país corresponderia, para o cidadão, a ficar com o “nome sujo” na praça – a entrevista serviu, sobretudo, para o ministro vender o seu peixe.



Aludiu à dificuldade de fazer cortes na Saúde e na Educação, omitindo que este ano já os fizera, e de forma significativa (são as duas áreas mais recortadas por sua famosa tesoura) e chegou a cometer platitudes como “a baixa popularidade nos dá uma oportunidade para aumentá-la”, sem ser questionado pelos entrevistadores.



Uma comparação da entrevista de Levy com aquelas feitas com candidatos à Presidência a cada eleição pelo mesmo Jornal da Globo dá a ideia precisa do comportamento de um atipicamente cordato e pouco incisivo Waack e de uma protocolar Christiane Pelajo como inquisidores: nenhuma interrupção, nenhuma insistência, nenhuma contestação às afirmações e supostos dados apresentados - apenas um repertório de perguntas para que o entrevistado dissertasse à vontade. Contraposto, por exemplo, ao bombardeio verbal de Ana Paula Padrão e Franklin Martins contra Anthony Garotinho, foi um passeio no parque.







Campanha “cívica”

No dia seguinte ficou claro que não se tratava de um ato isolado: excetuada a maioria dos colunistas de opinião, o que se leu e viu, na imprensa e no restante da mídia, foi uma verdadeira operação de marketing governista. E com Levy onipresente, com sua fala mansa e pontuada de diminutivos repetida nas manchetes e programas, como um mantra de convencimento coletivo, expressando a “certeza de que todo mundo está disposto” a pagar “um pouquinho mais de imposto para o Brasil ser reconhecido como um país forte”.



Não é este o espaço apropriado para o debate acerca da atual questão dos impostos no Brasil [já o esbocei em outra ocasião], tampouco de desenvolver análises sobre a irônica contradição de um economista formado na Escola de Chicago e tido como neoliberal ortodoxo tornar-se publicamente conhecido por defender aumento de impostos. No âmbito deste artigo, importa, em primeiro lugar, assinalar que tais dados denotam o quanto, no caso em questão, o comportamento da mídia em relação a Levy - e ao governo que ele representa - contradiz frontalmente a oposição binária e automática entre este e aquela que as hordas governistas vivem a bradar e o emprego generalizado do termo “PIG” presume.







Razões do alinhamento

Em segundo lugar, faz-se necessário examinar as as razões pelas quais a a mídia, neste caso, contraria uma alegada ojeriza ao governo Dilma e se torna sua parceira em uma espécie de movimento em prol da colaboração de todos para o ajuste fiscal. Uma hipótese provável é que, ao endossar o aumento generalizado de impostos preconizado por Levy, os grupos de mídia estariam expressando, uma vez mais, a posição dos setores da elite que repelem medidas como a taxação efetiva de fortunas ou de transações que afetem o rentismo.



Desta forma, o jornalismo, que historicamente alardeia para si o dever iluminista de informar ao povo, prefere cometer um grave desvio de função e associa-se ao governo petista numa operação cuja própria natureza classista é dissimulada e que visa promover a transferência do ônus da crise para os cidadãos. Assim se explica o quase unânime endosso midiático ao pragmatismo de Levy, cujo discurso coletivista aparentemente simples oculta uma engenhosa fórmula para manter os lucros do mercado financeiro e das classes mais abastadas ao abrigo da crise, ao passo que faz a população arcar não só com o ônus cotidiano desta, mas com o cumprimento das metas que o mercado impôs para superá-la.







Questões em aberto

Tudo somado, resta a pergunta: como acusar de golpista uma mídia empenhada em uma operação para convencer a população a se sacrificar ainda mais, pagando impostos ainda maiores, para que o governo Dilma Rousseff - o qual alegadamente odeia – tente cobrir o rombo de R$50 bilhões que, pela própria incompetência, legou ao país?



Ou, posto de outra forma: quando será que aqueles que acreditam no mito do “PIG” vão demorar para se aperceber de que não há porque a mídia ser golpista contra um governo que, em plena crise, pune trabalhadores e aposentados enquanto preserva o mercado financeiro e as grandes fortunas?






Segunda versão de artigo publicado originalmente no Observatório daImprensa.

(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Dia do Professor: comemorar o quê?

Professor, no Brasil, só é reconhecido no 15 de outubro, assim como Educação só é prioridade em campanhas eleitorais e no delirante e mentiroso slogan "Pátria Educadora".



A universidade pública brasileira está sendo sucateada novamente, duas décadas após a tentativa de desmante empreendida por Fernando Henrique Cardoso, e agora a um ritmo ainda mais rápido do que antes. As condições de trabalho se deterioram cada vez mais, seja pela burocracia imbecilizante, por falta de segurança, defasagem tecnológica e precariedade de bibliotecas e material de apoio.



Os salários dos professores, que há 30 anos se equiparavam ao de juízes ou promotores, foram corroídos a um nível tal que ora são um terço do daqueles profissionais, embora as exigências para ser professor tenham crescido enormemente, e impliquem, hoje, em seis a oito anos a mais de estudo para obtenção de mestrado e doutorado.



Para completar, os concursos para ingresso na universidade pública são, no mais das vezes, cartas marcadas, com conluios entre professores reproduzindo a corrupção endêmica do país e manchando um processo que deveria primar por isenção e merecimento. Há departamentos em que mais de 90% dos professores são egressos da própria instituição.



Por fim, o corte brutal dos recursos para Educação, realizado pelo mesmo governo que se autoproclama “Pátria Educadora", lança os campi a uma situação de penúria – na UFRGS não há nem papel higiênico; várias federais não têm verba sequer para a conta de energia elétrica. Além disso, ao podar 75% das bolsas de pós-graduação, o atual governo coloca o futuro da pesquisa acadêmica sob séria e real ameaça. Concomitantemente, com o país em plena crise orçamentária, os bancos  - Itaú à frente - batem recordes sucessivos de lucros, o que deixa claro quais são as verdadeiras prioridades da administração Dilma Rousseff.



Enquanto isso, no estado mais rico da Nação, o governador, sob o pretexto da economia imposta ela crise, decide, de forma arbitrária e sem nenhuma discussão com a sociedade, fechar escolas, medida que é uma metáfora perfeita para o real valor que se atribui à Educação no país.



Não há o que comemorar.



(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Pacote de Dilma espelha vícios de seu governo

O pacote de medidas da presidente Dilma para economizar R$30 bilhões, garantir um alto superávit primário e, assim, segundo ela, tirar o Brasil da crise profunda em que se encontra repete três dos mais graves vícios que caracterizam sua gestão: o autoritarismo, o elitismo e a mitomania.

O primeiro se evidencia pela falta de diálogo com a sociedade acerca das medidas, tomadas a portas fechadas em reuniões palacianas, com cuidados extras quanto ao sigilo, o que suprime do público até mesmo o direito de ser informado acerca dos debates e dilemas internos ao governo que elegeu e sustenta.



Alto grau de cinismo
Já a insensibilidade social é explicitada na sem-cerimônia com que Dilma mostra-se disposta a fazer com que trabalhadores e desempregados paguem o ônus da crise, através de um plano que preseva intocados as grandes fortunas, os “tubarões” (na confissão do próprio ministro Levy, em surpreendente acesso de sinceridade) e o rentismo do mercado financeiro. Não é por outra razão que a mídia, outrora tão reticente, mal disfarça a euforia com as medidas.

Quanto à mitomania presidencial, ela é expressada, em primeiro lugar, na adoção de medidas que são o exato oposto daquelas com as quais Dilma se comprometera na campanha eleitoral – e as mesmíssimas que jurava que seus adversários tomariam. Alimenta-se também da manutenção da fantasia de que seguir o dogma fiscal neoliberal signifique não só algo mais do que satisfazer a sanha da banca, mas a própria solução da crise. Por fim, atinge o paroxismo do cinismo quando alega que medidas que diminuem empregos, vagas em concursos, poder de compra e capital circulante, enquanto aumentam impostos e a recessão, visem justamente preservar conquistas sociais e baixos índices de desemprego (os quais ora já pertencem ao passaado).




Corte de perspectivas
É particularmente cuel, no pacote, a suspensão de concursos públicos,  ainda mais por somar-se ao corte anterior de 75% das bolsas de pós-graduação. Interdita, assim, uma das poucas vias que restam aos brasileiros de ascender a um emprego estável e com salário razoável, de forma honesta, sem apadrinhaento e após um justo processo competitivo (exceção feita aos vergonhosamente viciados concursos para professor das universidades, palco de conluio entre professores corruptos).

Trata-se de um dupla crueldade, porque, por um lado, em um cenário de escasssez acelerada de vagas, tira de uma enorme legião de desempregados e concurseiros o direito de ao menos sonhar com um bom emprego – alento que, na mente autodepreciada de um cidadão desprovido da estima que o trabalho propicia, pode fazer a diferença entre a depressão e disposição à luta - e, no limite, entre a vida e a morte.



Privilégios intocados
Por outro, por se tratar de uma falsa solução, já que, como todos os estudos demonstram, não é o funcionalismo de grau médio e efetivamente trabalhador o problema, e sim os supersalários e as inconcebiveis mordomias de uma elite de funcionários públicos que, nos Três Poderes, parasita e subverte o sistema, ao desrespeitar de forma flagrante os limites salariais e de acúmulo de cargos determinados pela lei.

Em seu eterno horror ao conflito, nem em plena crise fiscal o governo petista ousa mover uma palha para mudar tal estado de coisas e, além de manter a malta de altos cargos comissionados, prefere sacrificar ainda mais os servidores federais de baixo e médio escalão – grupo mais atingido pelas medidas – e, de forma geral, os desempregados e trabalhadores que já arcam com o ônus da crise através da inflação, da escassez de crédito, dos juros exorbitantes e dos aumentos desproporcionais da energia elétrica que o populismo eleitoreiro de Dilma Rousseff legou às famílias.



Presa do capital
Mais do que nunca, Dilma está de joelhos, completamente rendida, disposta a satisfazer todas as exigências do capital. “-Faremos tudo para impedir o golpe”, declarou ontem, como se, por um lado, a disposição a que alude fosse um ato de resistência político-social e não, como tem efetivamente sido, de rendição aos ditames do mercado financeiro e das forças políticas que o representam em troca da manutenção apenas nominal do poder, traficando o sacrificio – inclusive de direitos adquiridos - da classe trabalhadora.

Talvez o grande paradoxo que marca o presente momento político resida aí: que a manutenção de Dilma no poder, de importância prioritária para o petismo, venha tendo por preço o atendimento inconteste a todas as demandas do alto capital, mesmo que estas afetem negativamente a vida dos trabalhadores, aposentados e desempregados. Nesta operação, o petismo sacrifica sua própria identidade, tornando-se a cada dia mais indistinguível de um partido de direita neoliberal. Além disso, dá mostras incontestes de que prioriza os interesses do partido aos do povo e do país, os quais não hesita em sacrificar.




Despreparo e egolatria
Assim, não é mera coincidência que a defesa que os mais renitentes petistas ainda fazem do partido quase nunca se refira à sua atuação no presente (ou mesmo dos últimos dois anos), e sim, repetidamente, a feitos do governo Lula ou, com mais raridade, do início do governo Dilma - quando não comparando-os, como de uma coisa só se tratasse, ao governo FHC, de duas décadas atrás.

Pois liderada, na vida real, por políticos incomparavelmente menores do que fundadores como Florestan Fernandes, Mário Pedrosa e Carlito Maia e, na internet, por ideólogos cuja escassa formação teórica e política é inversamente proporcional à necessidade de protagonismo e satisfação egóica, resta a essa cada vez mais alienada militância, que parece desconhecer os benefícios da honesta autocrítica, gritar contra o que chamam de golpismo (como se impeachment a este equivalesse e não fosse uma possibilidade processual legal, prevista na Constituição, e inclusive já aplicada um Presidente anterior – hoje aliado de Dilma -, com apoio entusiasmado do próprio PT).



Dilma não é Jango
Desse esfoço desesperado de uma militância em crise decorre, num esfoço para colocar Dilma na condição de vítima de golpismo, a comparação entre 2015 a 1964. A improcedência da contraposição entre a atual mandatária – que, tendo recebido de Lula um país em boas condições, o levou o à grave crise atual após guinar ainda mais à direita – e o presidente João Goulart, este sim deposto de forma golpista, à ponta de baioneta, é assinalada com primor pelo jornalista Laerte Braga, no Facebook:

Há uma diferença sem tamanho entre Dilma Roussef e João Goulart. Tentar comparar os dois é um erro crasso. Jango, como era conhecido o presidente, enfrentou as elites, tinha apoio popular, foi deposto num golpe tramado em Washington e com apoio das elites paulistas. Não sacrificou seus princípios e em toda a História do Brasil, teve ministérios ocupados por ministros que deixaram lições de grandeza. Hermes Lima, Evandro Lins e Silva, Hélio de Almeida, Ulisses Guimarães, o jurista Roberto Lira, Celso Furtado e vai por aí afora. E Dilma? Se enrola na teia de Renan, de Cunha, de Kátia Abreu, de Aluísio Mercadante e nessa versão século XXI de Drácula, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Só a FEBRABAN, entidade dos bancos, apoiou o pacote anunciado ontem. Um desastre total. Jango era grande, Dilma é pequena. Brizola tinha razão sobre a presidente."


Direitos na mira
Dilma tem, evidentemente, todo o direito de lutar contra o impeachment. Mais do que isso: tendo sido democraticamente eleita, tem a obrigação de fazê-lo. Entretanto, posar de vítima de golpismo, recusar-se a se desculpar pela campanha eleitoral imunda e mentirosa e insistir em um discurso de preservação de empregos e de defesa dos mais pobres quando, na verdade e de forma efetiva, toma medidas que jogam o custo da crise nestes, poupam elites e só beneficiam os bancos e demais entes do rentismo é insistir na mitomania que levou à crise e na crença de que os brasileiros se deixarão enganar, mais uma vez, pela retórica vitimizante, desqualificadora e dissimuladora que oculta e às vezes subverte os fatos.

Já passou o tempo de o PT ficar fazendo o jogo da direita enquanto posa de paladino dos pobres e trabalhadores. O truque não convence mais. Como está, a dúvida é se Dilma vai sangrar mais um pouco, sacrificando mais direitos sociais, até o impeachment, ou se será uma longa hemorragia, até o final do governo, quando sabe-se lá o que restará dos direitos trabalhistas e de seus beneficiários.



Comodismo
Como sempre, as forças do medo - que, no petismo, venceram as da esperamça - alegam que não ha outro jeito. Mas há, sempre há. E a saída que resta è à esquerda, com a convocação de uma auditoria da dívida, rompimento com as metas de superávit determinadas pelo mercado e um governo orientado à melhoria da vida dos cidadõas, priorizando os direitos dos pobres, desempregados e trabalhadores - que, aliás, historicamente apoiaram o PT. Mas isso implica em conflitos diversos e em enfrentamento com o mercado, coisas que o partido jamais fez desde que assomou ao poder federal.

Não há, portanto, razões para supor que Dilma e o PT sejam agora capazes de arriscar perder as migalhas de poder que ora detém ao tomar uma atitude que demanda coragem e civismo – itens escassos no neopetismo.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 13 de setembro de 2015

A crise nas ruas

Nos bares, nos pontos de ônibus, nos corredores das escolas, nos almoços familiares, o tema do momento é “o que vai ser do governo Dilma?”. Há quem torça contra, há quem torça a favor, mas poucos conseguem ficar indiferentes, pois a pergunta relaciona-se diretamente a uma questão de suma importância para a vida de todos: “o que vai ser do Brasil?”.

O clima dominante é de estupefação: “Ela tem um plano B?”; “Você acha que ela cai?”; “Como vamos sair dessa crise?”; "Por que Dilma fez de tudo pra vencer as eleições, apelando pro jogo sujo, se era pra fazer o que tá fazendo?”, perguntam, atônitos.

São pessoas de diversas classes e áreas: a dentista que viu sua clínica na periferia esvaziar à medida que o desemprego ao redor tornava-se endêmico; a cozinheira de um restaurante por quilo que funcionou por 14 anos, até que a combinação de inflação e crise o obrigou a fechar as portas; o advogado com um escritório no centro de São Paulo cujo lucro caiu da casa dos oito dígitos para um montante com o qual não dá pra sustentar a família, recém-aumentada; a faxineira cujo marido diabético e amputado sofre no corpo, a cada ida ao posto ou hospital, os efeitos dos cortes na Saúde; a agente de turismo que só conseguiu manter o emprego dobrando o serviço, mas sem aumento de salário; o jornalista com doutorado no exterior que está desempregado e vê a tesoura de Levy podar até os concursos que poderiam levá-lo à sonhada carreira como professor universitário.

Enquanto isso, em seu universo paralelo - a Petelândia -, a militância do partido que está há mais de 13 anos no poder continua a dar mostras de grave alienação da realidade, utilizando-se de exceções e de exemplos estapafúrdios para negar a crise e repetindo o mantra do golpismo, da velha e pra lá de datada comparação com FHC, e da recusa a qualquer forma de autocrítica (incluindo a negação do estelionato eleitoral praticado por Dilma).

Porém, no mundo real, a crise – que a maioria dos economistas jura que irá se agravar em 2016 – é bem concreta e diariamente vivenciada por um número crescente de desempregados, de pequenos comerciantes exasperados ante o iminente fechamento de sua fonte de sustento, de pais e mães tornados incapazes de prover seus filhos.

São pessoas cuja tensão constante e cujas aflições diárias são gatilhos para o “surto” de depressão e de demais patologias psicossociais que ora acomete nossa sociedade, pois o efeito do desemprego, da falência e da carestia não é apenas econômico, mas psicológico. Liga-se diretamente ao que Vivianne Forrester, no clássico O Horror Econômico, classifica como o “o drama das identidades precárias ou anuladas”, devido “à perda muitas vezes de um teto, à perda de toda consideração social e até mesmo de autoconsideração” (1997, p. 10).

É muito fácil ver a crise a partir do sofá da sala, de forma indireta, refletida na frieza dos números e das estísticas, que quase sempre se prestam a uma manipulação argumentativa. Mas é através do contato com seus efeitos em pessoas de diferentes formações, ofícios e classes sociais que não só ela se evidencia, mas revela sua capilaridade e seu grau de perversidade.

Enquanto a sociedade sofre e debate, ansiosa, a presidente e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy estão, neste exato momento, determinando cortes ainda mais profundos, que vão assumidamente incidir sobre áreas sociais - inclusive Educação e Saúde, as mais sacrificadas até agora. Além disso, confirmam um aumento generalizado de impostos que, uma vez mais, poupa os bancos, o mercado financeiro e o rentismo, as entidades religiosas 
e as grandes fortunas, penalizando sobretudo os trabalhadores. 

Resta saber se o governo vai enxugar as suas próprias gorduras, os inacreditáveis 38 ministérios, as verbas publicitárias de R$ 2,5 bi ao ano, as viagens a granel ou o quarto de bilhão gasto em garfos para o Palácio do Planalto. 

Cobrindo ou não o rombo governamental, uma coisa é certa: os cortes anunciados e o aumento de impostos vão refrear ainda mais a atividade econômica, agravando a recessão e piorando a perspectiva de desempregados e de pequenos comerciantes.

São, assim, medidas que reforçam o caráter elitista do governo petista, sua insensibilidade social e seu desprezo pela esquerda, evidenciado na predileção recorrente pela adoção do receituário neoliberal. Fica claro que Dilma e o PT não têm a compreensão das dimensões da crise e da gravidade de seus efeitos na vida dos cidadãos.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 6 de setembro de 2015

Falsas soluções para a crise e a falácia do Estado mínimo

A traição eleitoral perpetrada por Dilma Rousseff, que na campanha vendeu um pais de comercial de margarina, assegurando ser a única candidatura capaz de preservar a economia e os empregos, e agora submete a população a um duríssimo choque neoliberal, produz danos que não se limitam à crise recessiva e ao desemprego a caminho dos dois dígitos.

Pois tal choque, para além dos cada vez mais graves efeitos na economia do país e no cotidiano dos cidadãos, equivale, em termos ideológicos, a uma hecatombe, com consequências de monta para o debate e os termos da disputa politica nos próximos anos. O elasticismo aético da realpolitik petista, com suas alianças amorais, seu vale-tudo em nome da tal governabilidade e o decorrente desprezo por coesão ideológica e programática cobra, enfim, com juros, o seu preço.


Economia sacrificial
Para piorar, sob o pretexto do ajuste fiscal e da alegada necessidade de se obter um alto superávit primário – ou seja, de dar prova, para o mercado, de que o país é capaz de pagar os juros da dívida pública e ainda economizar um tanto –, ganha força, cada vez mais, um velho discurso de demonização dos gastos públicos e de defesa de um estado mínimo. Vários países já viram esse filme – inclusive o Brasil - e seu final é péssimo.

O corte de 75% das bolsas de pós-graduação, o adiamento ad eternum da compra de 22 milhões de livros pra as bibliotecas públicas, universidades com instalações em penúria,  sem verba para pagar sequer limpeza e energia elétriva, a estagnação salarial de professores - isto tudo que ora ocorre, não obstante sua gravidade, não passa de uma prévia do que seria, apenas na área da Educação (que o governo Dilma alega ser prioritária), o país sob um Estado minimo.


Omissão e confusão
O discurso de viés liberal que o defende baseia-se em uma omissão gritante e em uma confusão deliberada. A primeira diz respeito ao peso, no balanço contábil federal, do pagamento dos juros da dívida púbica. Os npumeros são eloquentes: no ano passado, o governo gastou R$ 978 bilhões só com pagamento de juros e amortizações da dívida, montante que corresponde a quase a metade (45,11%) do total de gastos orçamentários anuais. 

Não é preciso ser nenhum gênio da economia para constatar que esse gasto, que não gera nada para o país - seja força de trabalho, melhoria de serviços ou produção de bem material - é muito mais nocivo do que os eventuais desperdícios e distorções causados pelo gasto da outra metade do orçamento, da qual uma parte sustenta quase oito milhões de famílias, em que ao menos um membro é funcionário público.


Questão de prioridades
Não se pretende, com isso, desmerecer a necessidade de uma maior racionalidade administrativa. Qualquer pessoa sensata há de reconhecer que é um despropósito o Brasil ter 36 ministérios e que o desperdício pode ser contido e que os supersalários têm de ser revistos (embora seja necessário ter claro que estes constituem exceção, a regra do funcionalismo federal sendo salários de medianos pra baixo). Não se pode, no entanto, superestimar o efeito de cortes em desesas públicas se o pagamento de juros permanecer intacto, nem, muito menos, confundir racionalidade administrativa com demonização do funcionalismo público e defesa do Estado mínimo.

Ademais, ainda que o governo Dilma, com sua guinada à direita, não o reconheça, o verdadeiro dilema da crise não é à custa de que sacrifícios será feito o ajuste fiscal, e sim por que direitos trabalhistas, empregos e a qualidade de vida do povo têm de ser sacrificados para que o lucro dos bancos com juros pornograficamente altos siga intacto?. Por que um pequeno grupo de bilionários tem preferência ante as demandas, muitas vezes urgentes, de milhões de cidadãos e cidadãs?

Não da para discutir seriamente a questão fiscal brasileira omitindo tais fatores.


Tudo pelo poder
Já a confusão deliberada parágrafos acima aludida recai sobre quais outras despesas, além do pagamento de juros extorsivos, foram, ou têm sido, responsáveis pela sinuca de bico em que o goveno Dilma por sua própria incompetência se meteu.

Ao contrário do que o discurso ofical quer fazer crer, com a narrativa fictícia do agravamento de uma crise mundial que já é passado para os EUA e maior parte dos países da Europa e mesmo da América do Sul, o fato é que três fatores foram os determinantes para que o endividamento do Estado brasileiro subisse a ponto de deflagrar a acrise atual: a construção de megaobras como Belo Monte e Tapajós, as despesas diretas e inditretamente ligadas à Copa do Mundo e a campanha eleitoral mais cara da história da Humanidade.


Ouvidos moucos
Ou seja, se o governo petista tivesse tido a humildade de ouvir o alerta de especialistas e corrigido as diretrizes do investimento, deixaria de alocar montanhas de dinheiro público em megaobras de grande impacto ambiental e social, as quais visam prioritariamente fornecer energia para abastecer o mercado chinês de bauxita, commodities e derivados. Diminiuiria, assim, o hoje temível grau de dependência da economia brasileira em relação à chinesa, que ora se retrai.

Teria, ainda, evitado os sucessivos aumentos no preço da energia elétrica e do gás, que ora sufocam os orçamentos das famílias e agravam a questão inflacionária. Pois, se ouvisse os jornalistas e especialistas que prefere desqualificar com grosserias, o petismo não teria mantido os preços da energia elétrica congelados por um longo período, numa típica medida eleitoreira, nem (por conta do aumento de consumo da energia artificialmente barata) teria sido obrigado a recorrer com frequência às caríssimas termoelétricas, gerando o caro caos econômico-energético atual. Mas não: do alto de sua arrogância, Dilma, a “gerentona”, preferiu afirmar sua expertise no setor. Deu no que deu – e quem paga a conta é o povo.


Mentiras e violências
A presidente Dilma não tem como alegar que desconhecia a gravidade da crise, como fez recentemente. Primeiro, porque quem ocupa tal cargo tem a obrigação de manter-se permanentemente atualizado em relação à situação e aos rumos da economia do país. Segundo, porque, ao menos desde 2013, mesmo na “imprensa amiga”, diversas matérias alertavam para a iminente piora do cenário econômico, com a confluência maléfica de aumento substancial da dívida pública, dos juros e da pressão inflacionária. Exemplo disto é esta coluna de Jaciara Itaim, publicada em 26 de novembro de 2013 por Carta Maior.

Ela sabia. E a opção por um modelo arcaico de desenvolvimento, à la Brasil Grande, baseado no estímulo ao consumo e infeso a qualquer questão ecológica ou ao respeito às comunidades afetadas, indígenas ou não, foi deliberada. Assim como o foi a repressão aos protestos contra a Copa do Mundo, que variaram da tentativa descarada de acobertar o montante de público gasto na preparação do evento à violência oficial brutal - não só cedendo recursos materiais às PMs, mas com o Exercito e a Força Nacional – contra manifestantes que exerciam o seu direito constitucional ao protesto público.


Perguntas sem resposta
Tudo isso para quê? De que valeu a vitória nas eleições, se o resultado é o neoliberalismo ortodoxo, de estirpe tucana, no comando da economia? Para que tanto empenho em vencer? Para gerar um país rachado, binário, com avalances de ódio? Para macular por décadas a esquerda (como se de esquerda o petismo se tratasse), com o fortalecimento de um ideário neoliberal de demonização do funcionalismo público e do papel do Estado? Pelo poder pelo poder? Para quê?


(Imagem retirada daqui)

domingo, 16 de agosto de 2015

As manifestações e as tentativas de desqualificação

Em uma democracia incipiente como a brasileira, em que a participação popular praticamente se restringe ao voto (obrigatório) e cujas campanhas são antes uma disputa pelo melhor marketing do que um tête-à-tête com as demandas da população, as manifestações públicas talvez devessem ser saudadas como fenômenos intrinsecamente positivos.

Isso não tem ocorrido – pelo contrário. Neste momento mesmo, o país está na iminência de duas mobilizações populares nacionais, de objetivos antagônicos entre si e, antes sequer que ocorram, ambas têm sido repetidamente atacadas, em um duplo esforço de desqualificação permeado de intolerância e limitador da própria ação política.


Atos em pauta
Marcados para hoje (16/08) em 270 cidades, os protestos contra a corrupção e o governo petista e pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff vêm sendo articulados há meses, na internet e fora dela, e recentemente passaram a contar com o apoio oficial do PSDB. Tal apoio, ainda que a posteriori, conferiu, no meu modo de ver, um caráter de disputa partidária e de revanchismo que afetou negativamente a mobilização. Um problema agravado pela a decisão, por parte dos organizadores, de poupar Eduardo Cunha (PMDB/RJ), deputado e presidente da Câmara, embora este seja um dos politicos mais em evidência entre os acusados de corrupção pela Lava-Jato.

Já a reação está marcada para a próxima quinta-feira (20/06), com manifestações de apoio à permanência de Dilma no cargo e a denúncia do golpismo que, segundo os organizadores, permearia os protestos pró-impeachment. Sindicatos e movimentos sociais que orbitam em torno da administração petista garantem presença, gerando um duplo receio: que as manobras de cooptação de tais entidades, por parte do governo, se intensifiquem ainda mais; e que dinheiro público banque sua partiticipação no protesto. Tal suspeita foi agravada, na última semana, por uma série de eventos oficiais que não tiveram outra função do que manifestar apoio a Dilma, culminando com um inacreditável desfile em pleno Palácio do Planalto. Tempo, espaço e, portanto, dinheiro público servindo não à governança do país, em profunda crise, mas à autopromoção e blindagem pessoal da presidente.



Preconceitos a granel
Para além desses receios justificados, as criticas e tentativas de desqualificação dos protestos têm abusado do recurso a estratégias do tipo “a parte pelo todo”, ou seja, que identificam características negativas ou questionáveis de um participante ou grupo de participantes e as atribui automaticamente à totalidade dos manifestantes, sem a mínima base de sustentação para tal.

Para os que se utilizam de tal estratagema, é como se, nos protestos de hoje, uma faixa a favor da diminuição da maioridade penal, um cartaz esdrúxulo defendendo intervenção militar ou três ou quatro abilolados apregoando a volta à monarquia transformasse dezenas de milhares de manifestantes em carrascos de crianças e em monarquistas saudosos da ditadura. Ou, nas manifestações da próxima quinta, bandeiras vermelhas, o símbolo da foice e martelo ou uma camiseta de Hugo Chávez significasse que o governo Dilma é comunista ou bolivariano. Nos dois casos, isso se chama desonestidade intelectual.

O ponto máximo dessa estratégia foi, até agora, a divulgação, nas redes sociais, da foto de um carro, com um cartaz no vidro caseiro convocando para a manifestação, estacionado em uma vaga para deficiente físico – e uma legenda no estilo “é esse tipo de gente que vai na manifestação do dia 16”. Como se as dezenas ou centenas de milhares de pessoas que irão às manifestações praticassem ou mesmo concordassem com tal atitude (e como se não houvesse, entre os que marcharão no dia 20, eventuais violadores da lei e das regras sociais). É um truque tão barato de propaganda difamatória que causa espécie constatar que ainda cause efeito em pleno 2015. E, mais grave, que açule generalizações discursivas totalitárias



Extremos que se igualam
Pois, em um monento de crise extrema no pais, com 100 mil pessoas perdendo seus empregos a cada mês e o governo batendo recordes de desaprovação, achar que um público tão grande quanto heterogêno é formado exclusivamente por “coxinhas e reaças”, como quer o petismo, oscila entre a ingenuidade extrema e a má-fé evidente.

De forma inversamente similar, denota as mesmas vicissitudes a associação ao comunismo ou ao bolivariansimo de um governo cuja política econômica, comandada por Joaquim Levy, é marcadamente neoliberal.

Há toda uma gradação de posições, à esquerda, à direita e pra fora desta divisão binária, que escapa a tais esquemas simplistas e é propositadamente ignorada.

De minha parte, por exemplo, apesar das muitas e graves críticas que tenho em relação ao governo Dilma, não concordo com as demandas da manifestação de hoje, sendo neste momento contra o impeachment, por razões que já explicitei em outra ocasião. Não obstante tal discordância, parafraseando Voltaire, defendo “até a morte” o direito constitucional de meus concidadãos de se manifestarem, contra ou a favor.


Tocando o terror
Mas, infelizmente para a democracia, o petismo no poder, para deter a voz das ruas, parece disposto a mandar às favas qualquer escrúpulo. A aprovação, na semana passada, da “Lei Antiterrorismo”, enviada pela própria presidente Dilma ao Congresso, é altamente reveladora do medo do governo e do grau de violência insittucional, policial e jurídica que está disposto a usar contra as manifestações públicas.

Além disso, a medida constitui grave e evidente casuísmo, em um momento em que a mandatária conta com 71% de desaprovação e só 7% de aprovação e que, segundo a grande maioria dos analistas, os efeitos da crise e do ajuste fiscal apenas começaram a golpear os estratos menos favorecidos da população, apontando para a possibilidade de mais e maiores manifestações nos próximos meses.


Intolerância a manifestações
Confirma-se, assim, como um dos traços distintivos do neopetismo, o horror a manifestações públicas - um tremendo retrocesso em um partido que nasceu das multitudinárias greves operárias do ABC paulista. Em 2013, as Jornadas de junho foram inicialmente recebidas com desconfiança, que logo se transformou em aversão e incitação à violência oficial contra os manifestantes (seja pelo governo, através do envio da Força Nacional, seja por parte de governistas, incluindo lamentáveis casos de delação de manifestantes à PM).

E tal intolerância segue em fogo alto, como o demonstra a reação do petismo ante as manifestações de hoje e o silêncio obsequioso de seus blogueiros e ativistas virtuais ante a violência contra manifestantes pacíficos exercida pela PM/MG na semana passada, sob o comando -e o posterior endosso proptocolar - do governador Fernando Pimentel (PT/MG).

Trata-se de algo a se lamentar profundamente. Pois respeitar e ouvir atentamente as vozes das ruas a exercitarem o direito constucional de se manifestar -em vez de descartá-las a priori - é atitude essencial à democracia e transcende os indivíduos e os partidos políticos. Sem isso não há diálogo efetivo e as eventuais críticas se tornam a expressão estéril e egoista de uma posição pré-determinada.


(Imagem retirada daqui)