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terça-feira, 31 de maio de 2016

O estupro e a "esquerda"

Com a repercussão do abominável caso de estupro coletivo no Rio, o país neste momento se equipara, na percepção mundial da violência sexual contra a mulher, com a Índia - uma sociedade de patriarcalismo milenar e repressão estrutural às mulheres -, como apontado no artigo em que Dorrit Harazim traça, com brilho, paralelos com o tristemente célebre caso ocorrido em 2015 em Nova Deli.

Tal constatação torna-se ainda mais chocante quando levamos em conta que o Brasil foi administrado, nos últimos 14 anos, por governos ditos de esquerda. Dos quais, por mais complexas e atenuantes que possam ser as imposições da realpolitik, com seu arco de alianças e compromissos, esperava-se que trabalhassem no sentido de aprimorar a qualidade das relações sociais e das políticas de gênero - seja através do estímulo ao debate, de campanhas específicas, da instauração de fóruns e mecanismos que promovessem a diversidade, a tolerância, o respeito, a consensualidade, o esvaziamento e coibição das potências de violência na seara sexual.

Mas não. Em primeiro lugar porque se tratou de uma "esquerda" forte em um pragmatismo econômico baseado em exportação de commodities e estímulo ao consumismo interno, mas ignorante, desinteressada e defasada no que concerne a plataformas biopolíticas.

Em segundo, porque o partido no poder repeliu as tendências internas e os partidos à esquerda, mostrando-se, entretanto, extremamente elástico em relação a composições com as forças conservadoras. Um dos principais efeitos de tais escolhas é que acabou manietado por lideranças protorreligiosas cujo poder veio a se fortalecer, mais e mais, açulado justamente por sua aliança com o poder federal de turno. Este, por sua vez, contrariando seu discurso histórico e traindo, seguidas vezes, coletivos e organizações que o apoiaram nas eleiçõs, deu vazão uma bola de neve de moralismo barato, repressão rexual e recuos constrangedores em relação às políticas de gênero.

As estatísticas mostram, de forma indubitável, que a barbárie sofrida pela jovem de 16 anos está longe de ser um caso isolado - pelo contrário: coletivo ou não, contra mulheres (em sua maioria), mas também contra homens, gays ou transgêneros, o estupro é um crime disseminado, cotidiano, em relação ao qual paira um silêncio cúmplice na sociedade brasileira. As tentativas de caracterizar a vítima como lasciva, leviana, vadia, participante de bacanais, puta - como se qualquer destas condições justificasse o estupro -, constituem uma clara intenção de culpar a vítima, exemplificando de forma cabal tais estratégias de negação e mudez.

Não seria justo culpar tão-somente este ou aquele governo por um fenômeno disseminado de violência social fermentado por décadas - nominalmente, a (in)cultura do estupro. Mas tampouco seria correto isentá-los de responsabilidades: achar que o estupro coletivo do Rio - com o deboche sádico como corolário e indício de convicção de impunidade - está dissociado, por um lado, da cada vez mais danosa associação entre o poder de corporações mercantis/religiosas e o poder político, e, por outro - e na contramão do mundo - do retrocesso das políticas públicas concernentes a sexualidade e questões de gênero observado no Brasil neste milênio seria incorrer na mais crassa ingenuidade (ou fanatismo).


terça-feira, 27 de outubro de 2015

O escândalo do Enem

Se alguém ainda tinha dúvidas de que o Brasil e um país machista, as reações nas redes sociais e no Parlamento ante a escolha do tema "Violência contra a mulher" para a redação do Enem 2015 as dirimiram.

Tão logo a escolha do tema se tornou pública, figuras tragicômicas do conservadorismo brasileiro, como Bolsonaro e Feliciano acusaram o exame de “doutrinação” e de “marxismo do PT”, voltando suas baterias, ainda, a uma questão baseada no clássico feminista O Segundo Sexo, de Simone de Beauvoir. Para além da contradição irônica de um militar e um pastor reclamarem de catequização ideológica, trata-se de uma tripla bobagem.



Confusão deliberada
Primeiro, porque a violência contra a mulher é um tema que não se enquadra na divisão político-ideológica convencional entre direita e esquerda, pertencendo ao âmbito dos Direitos Humanos - que, como tais, ao menos na letra da lei, transcendem partidarismos.

Segundo, porque o PT nunca foi marxista, o que dizer após sua conversão a um modelo capitalista de desenvolvimento baseado no consumismo.

Terceiro, porque uma das mais recorrentes críticas a Marx é justamente de negligência para com as questões de gênero.




Analfabetismo político
Mas tal reação teve um aspecto pedagógico: a repercussão de tais criticas nas redes sociais, barulhenta e volumosa, forneceu uma amostra do quanto se encontra disseminado, sobretudo entre jovens, um conservadorismo preconceituoso e ignorante (embora se acredite ilustrado), neles instilado por velhas figuras paternais travestidas de intelectuais e ideologos.

Presos a uma visão política binária e excludente, com baixíssima formação cultural e política, são aliciados para um autoritarismo que “opera pelo discurso e pela prática sempre bem engrenadas que se organizam ao modo de uma grande falácia, ao modo de um imperativo de alto impacto performativo: o outro não existe e, se existe, deve ser eliminado”, como descreve a filósofa Márcia Tiburi em artigo na revista Cult. Para ela, esse neoconservadorismo, que se quer uma elite intelectual e se crê aideológico enquanto critica o que entende por ideologia (esquerdista) alheia, caracteriza-se por “autoafirmação de ignorância, assinatura de estupidez”.




Fahrenheit 451
O jornalista Mário Magalhães foi didático a tal respeito, ao apontar, em seu blog, que “O problema maior são as veleidades de censor, a proposta, escancarada ou envergonhada, de eliminar da história Simone de Beauvoir, seu pensamento e suas ações”.

Seja como for, em termos políticos é temeroso pensar o que esses jovens eleitores virão a fazer, nos próximos anos, com os seus votos.



Orgulho sem razão
O petismo, por sua vez, no estado extremo de carência em que se encontra, aproveitou o acerto na escolha do tema da redação como evidência, a um tempo, de seu esquerdismo e de que administra bem a Educação. Trata-se de uma dupla falácia, pois área educacional é a que mais sofre com o ajuste fiscal de inspiração neoliberal, com cortes na casa das dezenas de bilhões de reais.

Pior: no que diz respeito ao próprio tema da violência doméstica, embora o partido tenha o grande mérito de ter participado da elaboração e ajudado a aprovar no Congresso a “Lei Maria da Penha”, sancionada pelo presidente Lula, o governo Dilma, ao vetar a lei que determinava a igualdade de salários entre homens e mulheres, colaborou de maneira decisiva para perpetuar a assimetria econômica entre os sexos - que, por sua vez, está no cerne das relações de dependência financeira que dificultam tanto a denúncia da violência
quanto a obtenção de autonomia por parte de mulheres agredidas, muitas das quais acabam presas a uma relação abusiva.
.

Feminicidio e violência
Nunca é demais apontar que a violência contra a mulher é uma questão social urgente. Segundo dados oficiais, quase 50 mil brasileiras foram assassinadas entre 2001 e 2011, a maioria entre 15 e 24 anos. Foram feitas mais de 50.000 denúncias em 2014, sendo que 77% das mulheres que relatam viver em situação de violência são agredidas ao menos uma vez por semana, 48% delas em sua própria casa. Sendo que se teme que esses números sejam apenas a face visível de uma violência que muitas vezes sequer é registrada.

Portanto, carimbar tal tema de propaganda esquerdista revela um misto de ignorância e má-fé, pois faz todo o sentido (cívico, educacional, preventivo) instigar jovens vestibulandos a sobre ele refletirem. A escolha dos examinadores foi mais do que acertada.




Jogo de aparências
Mas, levando em consideração o todo da prova, isso não anula algumas das críticas que são feitas ao Enem (não obstante o avanço que este representa em relação ao vestibular convencional). Dentre elas destacam-se o desprezo pelas diferentes realidades educacionais regionais, a não-explicitação dos propósitos e da competência de área de cada questão, e um modelo de prova que, se inova na escolha das questões, tratando temas sociais atuais, não deixa de repetir uma fórmula esquemática de exame que favorece as escolas cujo planejamento de aulas se dá com vistas ao exame (à maneira dos antigos cursinhos), prejudicando aquelas que cobrem o currículo sem direcioná-lo para tal.

Tais vícios têm tido como distorção mais palpável a hegemonia nacional, nos cursos mais disputados, de estudantes advindos das escolas de elite do Sudeste, os quais, além da ampla supremacia em sua própria região, têm ocupado muitas das vagas no restante do país, notadamente no Nordeste. Para um exame que foi anunciado como um substituto democratizante e socialmente includente ao velho modelo de seleção, trata-se de um problema gravíssimo.



Sem cura
Ainda mais grave é o fato de que, publicizado como uma falsa panaceia includente, o Enem, na verdade, nada altera em termos da qualidade do ensino oferecido. Como resume com propriedade Alcides Villaça:

Em vez de uma educação pública de bom nível, elaborar a cada ano uma cada vez melhor prova de avaliação do ensino deficitário. Um estranho termômetro, planejado para dissimular a febre”.




Mais de uma década de paliativos
Nesse sentido, o Enem repete o que se tornou um padrão nos 13 anos de petismo no poder: a opção por medidas de baixo ou nenhum custo, vendidas como panaceias, no lugar de ações planejadas e estruturadas de melhoria da Saúde e da Educação - como, respectivamente, o Mais Médicos, em vez de uma reestruturação da saúde pública no país; e a adoção de (bem-vindas) cotas, mas desacompanhadas de uma reforma educacional que estimulasse, em parceria com os estados, um salto qualitativo na área.

Destarte, aliviam-se alguns problemas e corrigem-se algumas distorções, mas sem mexer na estrutura que os causa.




A questão do contraditório
Tampouco se pode negar que, apesar da louvável escolha do tema, a correção da redação trará armadilhas potenciais. Pois, por um lado, parecem consideráveis as chances de que vestibulandos machistas e que foram previamente orientados a fazer ponderações e atentar ao contraditório em suas redações venham com argumentações do tipo "a mulher tem de se preservar", que indiretamente a culpam pela violência sofrida, chancelando-a.

Se, como tem sido nos últimos anos, a correção da redação der prioridade a estrutura, correção gramatical e construção de sentido, em detrimento da coesão ideológica, aumentam as chances de que redações tais como as descritas no parágrafo anterior venham a obter notas altas – quiçá máximas.



Escândalos
Por outro lado, se a correção se ativer com o devido rigor aos preceitos éticos e só der notas altas a redações que condenem sem subterfúgios a violência contra a mulher, isso pode vir a ser interpretado como um endosso à crítica (que não veio só do conservadorismo) de que, apesar de sua inegável importância, o tema, tal como proposto, não comporta o contraditório e impõe, na prática, uma – e apenas uma - posição ideológica ao vestibulando.

De um modo ou de outro, a tendência é que a questão da escolha do tema volte a produzir escândalos na mídia tão logo a correção e as notas das redações sejam divulgadas.


(Imagem da Mafalda de Quino retirada daqui

 

 

domingo, 26 de dezembro de 2010

Governo Dilma: o machismo como arma da mídia

Um dos principais desafios do governo Dilma Rousseff será resistir à artilharia de preconceitos machistas que, com certeza e de forma intermitente, a velha mídia disparará contra a primeira Presidenta eleita do país.

Há dois exemplos próximos que nos permitem dar como certa a adoção de tal estratégia para o jogo de derruba-presidente rotineiramente adotado por nossa partidarizada imprensa: o modo como a própria Dilma foi tratada no período eleitoral (com direito até a um texto tragicômico, de tonalidades lombrosianas, de uma colunista de Época) e, como previu Rodrigo Vianna, o “machismo macabro” que vem sendo praticado pelos jornais argentinos contra Cristina Kichner, notadamente após a morte de seu marido Nestor.

Nesse sentido – e sem entrar no mérito de quem tem ou não razão na briga – é notório que o acirramento da oposição, a níveis aparentemente irreconciliáveis, entre a chamada blogosfera progressista e a blogosfera feminista atende, em última análise, aos interesses da mídia golpista e da direita.

Esta, convém sempre lembrar, ao protagonizar uma das campanhas eleitorais mais baixas de nossa história não desagradou apenas, por razões óbvias, a “blogosfera progressista”, mas, ao não demonstrar o mínimo pudor em apelar para a mistificação religiosa do aborto negligenciou a discussão efetiva de um tema central do feminismo contemporâneo.

Ainda que o tom dos presentes enfrentamentos de parte a parte desautorize, no curto prazo, o vislumbre de uma paz efetiva e da união entre esses setores altamente relevantes da blogosfera, não se pode deixar de apontar que a cisão entre eles tende a ser particularmente deletéria neste momento, pois a batalha pelos corações e mentes da arena pública tende a ser ainda mais intensa no governo Dilma do que no de seu predecessor - até mesmo pela urgência que têm os setores conservadores de desestabilizar o país e evitar o eventual retorno de Lula em 2014.

Em termos institucionais, espera-se que a competente e antenada Helena Chagas à frente da Secretaria de Comunicação seja capaz de interagir melhor com a opinião pública e tornar mais efetiva a difusão das posições governistas, em comparação com o governo anterior.

Mas no âmbito da arena virtual - que tende a se expandir aceleradamente nos próximos anos, com a difusão da banda larga - a busca da convergência e dos pontos em comum entre a blogosfera feminista e os chamados "progressistas", respeitadas as diferenças de visão e de estratégias de ação, seria altamente desejável para elevar o nível das discussões e evitar que confluência entre questões de gênero e política, que deve marcar a proxima Presidência, fique à mercê das manipulações machistas da velha mídia - e da direita à qual ora serve.

sábado, 30 de outubro de 2010

Ataques a mulheres evidenciam importância das questões de gênero

No Brasil, o debate sobre as questões de gênero continua enfrentando resistência silenciosa mas efetiva, ainda que sua urgência se torne cada vez mais evidente. Só nesta semana foram noticiados – mas não suficientemente debatidos - três graves casos de abuso e discriminação contra mulheres.


Chauvinismo eleitoral
Os dois primeiros vêm, como não poderia deixar de ser, da imunda campanha eleitoral de José Serra. Ao incauto cidadão que atendesse às chamadas do telemarketing tucano - decretado ilegal um tanto tardiamente pelo TSE - era feita a seguinte indagação:

"- Será que a Dilma sem o Lula dá conta?"
Difícil responder, não é mesmo? Afinal, a ditadura não tocou a mão na adolescente Dilma, que desfrutou de um exílio “caviar e champanhe” no exterior, antes de vir ao Brasil e desfalecer ante uma bolinha de papel. Já o bravo guerreiro Serra, com a têmpera dos "machos adultos brancos sempre no comando", não apenas lutou contra o regime de exceção, sendo preso e barbaramente torturado como, em anos recentes, mostrou toda sua fibra máscula ao enfrentar e superar, sem se deixar abater, um câncer linfático.

Como observou Rodrigo Vianna, autor do melhor post sobre o caso, não coincidentemente, na noite da morte de Nestor Kirchner, o Jornal da Globo se dirigiu a seus telespectadores, perguntando:

"- Será que Cristina dá conta de governar, sem o marido?".
O notável, do ponto de vista das questões de gênero, é que a ninguém ocorreu perguntar ao eleitor, em 2002, se Serra conseguiria governar sem FHC... Ou seja, a premissa da campanha serrista – reverberada, amiúde, pela mídia - é de uma incapacidade comparativa da mulher em relação ao homem - a diferença em forma de lacuna.


A mulher como isca
Tal atribuição de valores e competências hierarquizados segundo (des)critérios de gênero foi corroborada pelo tucano ao final da campanha – quando, com a sociedade estupefata com a falta de escrúpulos apresentada por Serra em sua luta pelo poder, ele, após elegiar a beleza das mineiras, literalmente implorou às “menininhas” para que pedissem “a seus “pretendentes para que nele votassem.

Essa inauguração de uma nova modalidade de campanha eleitoral, baseada no sexismo e numa visão das relações entre os jovens que só é novecentista em sua aparência, já que sua essência é caudatária de uma visão mercadológica das relações sexuais. Não à toa, o tucano paulista, prestes a ser varrido para a lata de lixo da história política brasileira, foi “homenageado” no twitter com a tag #serracafetao.


Nova elite machista

Porém, dos três eventos que poblematizaram, recentemente, as questões de gênero, o que mais choca tem ocupado um lugar secundário nas manchetes: trata-se do chamado “rodeio de gordas”, promovido por estudantes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis, interior de São Paulo.

Concebido e praticado como “esporte” por estudantes dessa universidade pública que abriga os filhos das elites paulistas, o "rodeio" consistia em abordar uma mulher acima do peso e, ao seu descuido, montar-lhe em cima, procurando manter-se o maior tempo possível sobre a "montaria", enquanto a esta eram gritadoss impropérios.

Como se tal humilhação não fosse suficiente, os “estudantes”, via de regra, esmeravam-se em apresentar-se de início atenciosos, simulando deixarem-se seduzir pelas mulheres antes de, literalmente, montá-las, fazendo irromper o urro ignorante da satisfação sadista grupal.

O grau de sadismo psicológico a que são submetidas às vítimas de tal ato, agravado pelo fato de os alunos alegarem tratar-se de mera “brincadeira”, suscita uma dupla reflexão: em primeiro lugar, no sentido de como agir para evitar que tamanha bestialidade, violadora de direitos humanos básicos, volte a ter lugar no ambiente universitário brasleiro.

Em segundo, lugar, não é preciso ser nenhum expert em psicanálise para se aperceber de que o “rodeio das gordas” traz em seu bojo a evidência de uma grave patologia social de grupo - assim como, de maneira análoga, os massacres do tipo Columbine em colégios norte-americanos muito nos dizem a respeito das relações entre constituição psicológica do sujeito, repressão e axiologia da sociedade em que vive. E, acima de tupo, que no bojo de ambos os casos, apresentam-se, latentes, os contra-efeitos de uma economia das pulsões da libido desvirtuada de uma vivência propriamente sexual.

Afinal, para ficar em uma simples e única constatação, jovens minimamente sadios buscam satisfazer seus impulsos através de uma sexualidade afirmativa, gozosa, tendo no horizonte a satisfação mútua dos(as) parceiro(as). Já sair por aí “caçando” gente para cavalgar publicamente, montando em suas costas de supetão e a contragosto, é coisa de recalcados, de marginais e de violadores do acordo social - enfim, de desclassificados que não merecem frequentar uma universidade sustentada pelos impostos da coletividade através de impostos.


Os três episódios acima descritos evidenciam que, mesmo calada, recalcada, mantida às sombras, sob o manto enganador do alegado liberalismo comportamental brasileiro, a questão de gêneros tende sempre, entre nós, à irrupção pública, plena de evidente urgência, como o oprimido de que nos fala Freud.


("Passeio", de Debret, retirado daqui)

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Sexismo e eleições

Quem acompanha o blog há tempos sabe que eu, embora apoie o núcleo duro das lutas feministas – e atue na prática na defesa de suas demandas -, tenho uma visão extremamente crítica do feminismo xiita norte-americano, anti-sexo e anti-homem, cada vez mais presente entre nós com sua obsessão pela linguagem e por códigos reguladores de expressão e de conduta e com sua crença no construcionismo social como forma de reprimir o pulsar da natureza. Vi de perto o resultado social disso e não gostei nem um pouquinho.

Mais: tenho a absoluta convicção de que as mulheres brasileiras, com sua sexualidade aberta e pró-ativa, tem muito a ensinar às propagadoras desse feminismo assexuado e baseado na vitimologia, que vira e mexe ameaça - como agora - virar moda nos círculos acadêmicos, intelectuais ou de vanguarda – que vêm a ser justamente os mais colonizados da vida cultural brasileira. Parafraseando um texto feminista recente, traduzido de forma coletiva ao português, mulheres e homens não são o problema; são a solução.

Isso posto, afigura-se assustador o grau de sexismo e de chauvinismo que ronda a próxima disputa eleitoral – em que três candidaturas à Presidência situadas, em gradações variadas, à esquerda do espectro político, podem vir a ser representadas por mulheres: Heloísa Helena (PSOL-AL), Marina Silva (provavelmente PV-AC) e Dilma Rousseff (PT-RS).

Com mais de um ano de campanha pela frente, três episódios recentes justificam tais temores – sobretudo por não serem desferidos pelas forças mais conservadoras da sociedade, mas por comentadores culturais mais ou menos liberais.


Machismo proustiano

O primeiro foi o post de Marcelo Coelho intitulado “Lina Vieira, Dilma Rousseff” no qual a análise sobre o caso envolvendo as duas mulheres limita-se a um contraste sexista entre a “feminilidade de Lina Vieira e a dureza de Dilma”. Num episódio que se tipificou, na “grande imprensa”, pela inversão do princípio consagrado do Direito segundo o qual o ônus da prova cabe ao acusador, Coelho promove outra inversão: entre acusadora e acusada. Assim, acrescenta miopia política e abordagem tendenciosa a um sexismo a la anos 50: Lina, após ter sido, segundo ele, “massacrada no Senado por Romero Jucá, líder da base governista”, “Tornou-se frágil, delicada, do jeito que todo homem espera de uma mulher. Triste e bonito destino”. Sem comentários.

Já contra Dilma, Coelho brada as acusações de sempre: autoritarismo, “ausência de charme”, falta de feminilidade. Quanto a Marina Silva, Heloísa Helena e Marta Suplicy (?), ele pergunta, em tom de acusação: que mulheres são essas?

Sob o pretexto de responder à pergunta-acusação, elenca preconceitos em série: Heloísa Helena, embora “pudesse ser atraente”, “Representa, na verdade, a mesma dureza que Dilma encarna, numa versão mais burguesa. Por que, indago, não ser simplesmente uma mulher?”. É mais uma das muitas platitudes chauvinistas de um texto recheado de pérolas do tipo “O grande problema de uma mulher combativa é o de não parecer histérica” e no qual a inclusão inexplicada de Marta Suplicy – sobretudo se analisada face à exclusão de qualquer outra política da direita nacional, como Yeda Crusius, Roseana Sarney, Rosinha Garotinho ou Kátia Abreu – é significativa das antipatias político-ideológicas do colunista, que ao sexismo vêm se somar.

A grosseria maior de Coelho é direcionada a Marina Silva, que segundo ele não tem nenhum charme e contra a qual, como um machão de pornochanchada dos anos 70, comete a agressão suprema de afirmar que ela “Não é desejável sexualmente”. Educação refinada a do rapaz. Como apontou Marjorie Rodrigues em algum lugar que infelizmente não retive qual, ninguém pensaria em analisar a masculinidade de José Serra.

Embora Coelho tenha tido, ao menos, a decência de, com rapidez e de forma clara, sem subterfúgios, reconhecer que errou e pedir desculpas – procedimento raríssimo nas cercanias da alameda Barão de Limeira - , fica a pergunta: que ódios tamanhos teriam levado um crítico cultural de auto-proclamados laivos proustianos, da melhor estirpe uspiana (ex-aluno de Maria Victoria Benevides, como apontou @Maria_Fro), que sempre se caracterizou por análises equilibradas e detalhadas, a descer tão baixo?


Liberais chauvinistas

O segundo episódio deplorável foi um tweet enviado, na segunda-feira, 24/08, às 23:09h, pelo jornalista Jorge Pontual: “Se você receber um email intitulado: "Fotos nuas de Dilma Roussef". Não abra!!! Pode realmente conter fotos de Dilma Roussef nua”.

Fiquei chocado. A imagem vendida pelo correspondente da Globo em Nova Iorque busca associá-lo à urbanidade e ao liberalismo, não a uma piada tão infame e sexista. Mas fui checar e, ao que tudo indica, não se trata de um perfil falso. Assim, por mais que o Twitter ultrapasse o âmbito da representação “institucional’ e ceda espaço à expressão do universo pessoal, uma declaração dessas atinge, a um tempo, o ser humano e o jornalista enquanto profissional – pondo em questão tanto sua imparcialidade para lidar, de agora em diante, com tudo que se refira à candidata em questão, quanto, de forma mais ampla, seu sistema de valores enquanto mediador de sentidos (inclusive morais) para milhões de telespectadores.

O terceiro e último episódio chegou a mim também via Twitter: a inacreditável coluna de Ruth de Aquino em Época intitulada “Abaixa esses dedos em riste, Dilma”. Sim, leitor(a), o tom imperativo é um indicativo da truculência verbal que está por vir - truculência esta que Aquino acusa em Dilma Rousseff, como parte dos esforços para “colar”, pela enésima vez, o rótulo de autoritária na pré-candidata do PT. Dessa vez, até um “expert” é chamado para dar bases pseudo-científicas à operação.


O machismo feminino

A coluna, de forma geral, é de uma baixeza e de um ódio figadal que a tentativa de afetar imparcialidade soa não apenas canhestra, mas má-intencionada à canalhice (desculpe, leitor(a), é a primeira vez que emprego tal substantivo adjetivado em um texto analítico, mas não há outra classificação cabível). Distorce os dados relativos às pesquisas de intenção de votos em Dilma, pintando, a partir dessa leitura distorcida, um quadro político-eleitoral inverossímil, baseado sempre no ouvi-dizer, sem citar uma fonte passível de checagem; acusa, por vias transversas, Dilma de mentirosa por, entre outras coisas, ela ter negado o encontro com Lina (como se esta tivesse produzido uma prova sequer de que ele de fato ocorrera); e, por fim, apresenta até “informações” equivocadas (como a que a ministra não teria concluído o mestrado, quando na verdade o fez; o que ela não concluiu foi o doutorado).

Mas o pior é a crítica sexista que domina o artigo, perpetuada através do contraste da figura de Dilma com uma imagem idealizada do feminino como docilidade e “bons modos” - como se estivéssemos na Inglaterra vitoriana. Para tanto, Aquino utiliza-se de uma série de fotos que captam flagrantes ocasionais de Dilma apresentando-se em público, descontextualizando-as e imbuindo-as de uma significação pré-definida de um modo tão tosco que uma criança que nunca ouviu falar em Análise do Discurso desconstruiria tal leitura em poucos segundos. Para tentar reforçar a pífia argumentação, A colunista chama um “psicanalista”, o dr. Daudt.

Daudt, como me lembrou @bruno_pinheiro, é aquele mesmo que, no dia posterior ao acidente com o avião da Tam em Congonhas declarou à Folha de S. Paulo que “"Gostaria imensamente de ter minha dor amenizada por uma manchete que estampasse, em letras garrafais, “GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200”. Ou seja, demonstra não ter nem equilíbrio emocional para exercer a psicoanálise nem isenção política para opinar no caso, como se vê (e as investigações sobre o acidente comprovam, desmentindo-o). Trata-se de mais um desses pseudo-experts sempre à disposição da mídia para referendar seus ataques políticos de baixo nível – na linhagem de Marco Antonio Villa e Demétrio Magnolli, mas de nível intelectual ainda mais baixo do que o desses dois.

Trechos da entrevista falam por si:

“Dilma fez plástica porque a cara que ela tinha antes da plástica era assustadora, era a cara de uma pessoa agressiva, autoritária, impositiva, de dar medo”.

Pergunta: “O que representa esse dedo erguido, a mão crispada?”

Resposta: “Há vários tipos de dedo em riste (...) O dedo cujas costas da mão estão viradas para o interlocutor, enquanto os outros estão fechados, é um gesto stalinista, reflete o desejo de impor uma opinião (...) O dedo erguido é quase um lembrete: olhe, a anágua está aparecendo.”


Armadilhas de gênero

Como essa “taxonomia do dedo”, exata em sua cientificidade e fina em sua expressão, demonstra com brilho, o artigo de Aquino é um lixo. Serve, porém, como um alerta para as armadilhas das questões de gênero - ao mesmo tempo em que reforça o equívoco do feminismo anti-homem made in USA – com o ataque mais pesado à Dilma vindo das penas de outra mulher, uma semana após uma coluna extremamente agressiva à candidata ter sido escrita por Danuza Leão.

Confesso que após ler o texto da colunista da Época fui acometido de uma tristeza profunda. Por um lado, por constatar, uma vez mais, que à tal dieta “cultural” é submetida uma legião de leitores – no caso de Aquino, de leitoras, sobretudo –, inocentes do lixo que se lhes é oferecido e crentes que aquilo é bom jornalismo.

Por outro lado, por dar-me conta de que conheço muita, mas muita gente boa, que não só escreve pra caramba como tem um senso ético apurado que os credencia a exercer um jornalismo incomparavelmente superior ao colunismo de baixo nível de Aquino - porém que simplesmente não encontram emprego.

Ao final, ao realizar uma última checagem para concluir este post, deparei-me com uma constatação que me desolou ainda mais e que se relaciona à razão de ser destes escritos: a de que a responsável pelo tal texto ética e jornalisticamente de quinta categoria é nada menos do que diretora da revista Época no Rio. Numa triste ironia, trata-se de uma mulher que se alçou a uma alta posição ocupada majoritariamente por homens – realizando, assim, um dos objetivos básicos do feminismo de resultados -, mas que se utiliza de sua posição para desferir ataques sexistas à candidata presidencial com mais chances, na história do Brasil, de ser a primeira mulher a assumir a Presidência. Lamentável.


P.S. Cerca de uma hora após publicar este post fiquei sabendo que Flávia Cera também escrevera sobre o tema - um ótimo texto publicado em um blog novo, criado em reação à atmosfera descrita acima e que, como seu nome indica, dedica-se a analisar justamente o Sexismo na Política.


(Imagem retirada daqui)