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terça-feira, 21 de junho de 2016

Haddad na encruzilhada eleitoral

Uma maioria maciça de 55% dos eleitores considera a gestão Haddad ruim ou péssima, registra pesquisa do Ibope divulgada hoje. Para 33% ela é regular e para meros 12%, ótima ou boa.

Haddad é, ainda, o candidato com a maior rejeição, com 46%, um índice que supera em quatro pontos o limite-padrão de viabilidade eleitoral estabelecido pelos especialistas para eleições em dois turnos.

Cabe assinalar, ainda, ser provável que essa pesquisa - feita entre os dias 16 e 19 - tenha captado só parcialmente o desgaste do prefeito em decorrência de sua política desumana para com os moradores de rua, amplamente perceptível nos fóruns públicos e redes sociais (que o apelidaram, significadamente, de Maldadd).

Pode-se argumentar que, na eleição anterior, em 2012, Haddad também largou mal, foi subindo, subindo e saiu vitorioso no segundo turno, enquanto Serra e Russomano [que tinha, na primeira pesquisa eleitoral, os mesmíssimos 26% ora captados pelo Ibope] decaíram. Só que ele era então uma novidade, quase um outsider, o jovem e promissor acadêmico com uma passagem tida (então) como brilhante à frente do Ministério da Educação.

Agora, a situação inverte-se: ele é situação e terá de enfrentar não só o ônus e o desgaste de quatro anos à frente da Prefeitura, mas a concorrência de candidatas que, como ele, têm origem no petismo, vivência na esquerda e experiência administrativa, como Marta Suplicy (PMDB) e Luiza Erundina (PSOL) - as quais, com, respectivamente, 10% e 8%, aparecem à sua frente na pesquisa Ibope.

Além disso, os reflexos da derrocada moral e política do PT no âmbito nacional devem cobrar um alto preço. Como explicar, de forma eticamente coerente, que Gabriel Chalita, que até ontem era pupilo dileto de Temer - a quem os petistas acusam de golpista - tenha sido o escolhido para ser vice na chapa de Haddad?

Tudo somado, mesmo com toda a máquina estatal e a expertise marqueteira, tudo indica que será uma tarefa árdua para o PT reeleger-se para a prefeitura de SP - a mais simbólica e maior esperança do partido de administrar um orçamento público de grande porte a partir das eleições deste ano.


(Foto retirada daqui)

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

A farsa petista na Comissão de Direitos Humanos

A possibilidade de um petista ser eleito para a presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados foi, em um primeiro momento, saudada nas redes sociais, até mesmo pela oposição à esquerda. Isso se deu pela nomeação supostamente significar a retomada da comissão para o campo progressista, após um mandato sob o comando do pastor Marco Feliciano (PSC/SP), que fez dela palco para o proselitismo religioso, o ataque contra gays e minorias e o retrocesso na pauta dos Direitos Humanos.

No entanto, o alívio pela eleição de Assis do Couto (PT/PR) logo cedeu lugar a frustração e raiva, à medida que se evidenciava o perfil do deputado: um especialista em agricultura familiar, conservador, contrário ao aborto e sem conhecimento ou experiência mínima no campo dos Direitos Humanos.



Baixa política
Sua nomeação é fruto direto do desleixo e do descaso petista para com os DHs: Couto já estava assegurado para a presidência da Comissão de Agricultura, a preferida do PT, disposto a abrir mão, uma vez mais, da Comissão de Direitos Humanos. Porém a forte reação contrária nas redes sociais e entre setores da militância, inconformados ante a possibilidade de que os DHs permanecessem mais um mandato nas mãos do conservadorismo religioso, obrigou o partido a recuar.

Esse recuo, no entanto, foi meramente cosmético. Sem renegociar, sem sequer empenhar-se em nomear um quadro com histórico de lutas pelos DHs - os nomes mais cotados eram os de Nilmário Miranda (MG) e Erika Kokay (DF) –, o PT, uma vez mais, privilegiou a pequena política e seus obscuros acordos paroquiais, em detrimento de uma ação republicana, consistente e socialmente responsável.



Prêmio de consolação
Ao encarar a presidência da CDHM como um "prêmio de consolação", uma troca desvantajosa imposta pela forte reação contrária, o partido deu vazão a um comportamento que sequer dissimula sua má vontade e seu caráter pirracento, pouco consequente.

Em decorrência, ao optar por preterir quadros reconhecidamente capazes no campo dos DHs e nomear um agricultor familiar, inexperiente no tema e ligado à "Frente Mista Em Defesa da Vida – Contra o Aborto" (que reúne evangélicos e católicos, como ele), o partido se omite e, uma vez mais, deixa explícita a pouca importância que atribui aos Direitos Humanos.



Os DHs sob ataque
Tal omissão é particularmente grave neste momento histórico do país, em que os índios são vítimas de um novo genocídio, em nome de um modelo arcaico de desenvolvimento e sob o silêncio cúmplice da mídia.

Em que gays são rotineiramente agredidos e assassinados, seja no Baixo Augusta ou nos arrabaldes de cidadezinhas perdidas no tempo.

Em que, a despeito do esforço civilizante e da Lei Maria da Penha, a violência contra as mulheres se mantém em níveis endêmicos.

Em que cresce impunemente a ação de linchadores contra pequenos delinquentes, amarrados a postes como figuras de Debret, numa reatualização muito além de iconográfica do legado da escravidão.

Em que à violência policial como repressão periférica soma-se – e se torna rotineira - a brutalidade da PM contra os que exercem o direito constitucional à manifestação pública.



Truculência recorrente
Não que chegue a causar estranhamento essa postura do petismo. A falta de dialogo com o sindicalismo, com as organizações públicas e com a sociedade em geral é um traço distintivo desses três anos e pouco de governo Dilma. Renato Janine Ribeiro relata a estupefação de um grupo de grandes empresários com o imperscrutável comportamento presidencial: -"Ela não ouve. Nem fala".

Ainda mais explícitos em seus intentos autoritários são o endosso do governo a uma legislação draconiana de combate ao terrorismo – AI-13? -, supérflua ante o Código Penal e desautorizada por juristas de gabarito e democratas de juízo; a aposta de Cardozo na repressão e a facilidade com que oferece a Força Nacional para reprimir os "vândalos baderneiros"; e, entre outras tantas manifestações de truculência antidemocrática, o entusiasmo de Fernando Haddad ante a "Tropa Ninja" da PM paulista, que ajudou a brutalizar as últimas e até então pacíficas manifestações em São Paulo.

E sendo que tudo se dá num contexto no qual o Ministério dos Direitos Humanos, sob a complacente Maria do Rosário, mantém os olhos cerrados para toda a violência oficial, fingindo ser um órgão destinado tão somente a defender cidadãos fardados.


Pingos nos is
A eleição de Assis do Couto insere-se, portanto, em um contexto maior, a partir do qual sua intencionalidade se explica (mas não se justifica). Ela vem fornecer mais um exemplo cabal do quanto o PT negligencia os Direitos Humanos.

Tornou-se corrente, entre as hostes governistas, atribuir tal percepção negativa ora à má vontade da mídia, ora a uma alegada falha de comunicação do próprio governo. Mas claramente não é este o caso no que concerne à atuação do partido no episódio, fruto de uma política deliberada, um cala-boca improvisado e desdenhoso contra a gritaria dos que ousaram protestar.

Tudo somado, a nomeação, pelo PT, de Assis Couto para a CDHM deve ser entendida como o que é: um acinte e um deboche.


(Cartum de Latuff retirado daqui)

domingo, 16 de junho de 2013

O povo nas ruas: causas e reações

O gigante adormecido acordou. Subitamente e sem aviso, a tão criticada passividade do povo brasileiro foi deixada de lado e as ruas foram invadidas por jovens que vão literalmente à luta por melhores condições de transporte e de vida. Mas alguns dos que permanecem sentados, mesmo que à esquerda, insistem, por desconhecimento, mesquinharia ou interesses inconfessáveis, em fingir que a luta dos manifestantes é por "apenas" R$0,20.

Por estes dias, há manifestações reais ocorrendo nas ruas e outras, editadas, sendo retratadas nos telejornais, sem semelhança entre umas e outras. O caráter elitista e antipovo da mídia brasileira, seu temor de o que quer que seja popular – ainda mais na seara política – assombra cada cobertura, que repete um discurso monocórdio de criminalização dos protestos.


Reações temerosas
Mas não é só a mídia corporativa - e os setores conservadores - que se esforça ao máximo para desqualificá-los, seja tipificando os manifestantes como uma burguesia desocupada, seja tomando-os como vândalos a quem cabe a responsabilidade exclusiva pela violência: setores governistas ora empenham-se avidamente em semelhante intento, temerosos, a um tempo, das consequências do protesto para a gestão Haddad, da perda do monopólio de mobilização popular na política brasileira e do estreitamento do amplo espaço que acreditam ainda ocupar na esquerda brasileira.

Para tanto, além da já costumeira desqualificação agressiva dos que ousam criticar o governo, apelam a teorias conspiratórias variadas, mas que têm em comum o fato de, como convém aos mitômanos, interpretarem tudo como um complô contra o PT. Seja tentando jogar no colo dos partidos à esquerda a responsabilidade pelos protestos populares; seja através da negação inicial de que os protestos incluíssem metrô e trem (desculpa negada já na convocação que o Movimento Passe Livre fez para os protestos e desmentida de vez na declaração pública de Alckmin de que era impossível diminuir as tarifas dos meios de transporte sob a gestão do estado); seja fingindo não perceber que Haddad e Alckmin agiram em uníssono.


O papel de Haddad
Ocorre que até blogueiros (outrora?) por eles prestigiados dirimem tais ilusões. Para Luiz Carlos Azenha, autor do melhor texto sobre os protestos,

"A classe média paulistana (...) experimentou na própria pele o comportamento autoritário, brutal e descontrolado da Polícia Militar de Geraldo Alckmin, com a conivência do PT, de Fernando Haddad e do ministro da Justiça, que ofereceu o reforço da Força Nacional."

Ao comentar tal texto, Tácito Costa, editor do ótimo site Substantivo Plural, resumiu com propriedade a reação conjunta dos mandatários:

"Discursos afinadíssimos os de Haddad e Alckmin (desde o início), defendendo a repressão ao movimento hoje no Bom Dia Brasil. Tão iguais em tudo que pareciam do mesmo partido. No final da matéria, entrou o ministro da Justiça oferecendo ajuda aos dois. Não, não era ajuda pra buscar uma saída negociada e política, mas para reprimir mesmo."

Ou seja, a cadeia de comando da PM é liderada pelo governador, porém, na maior repressão a protestos públicos desde a ditadura militar, Haddad também tem as mãos respingadas de sangue do povo.


Reação pífia
Mas, ainda que a título de hipótese, se conceda a Haddad aquilo que os próprios petistas negaram ao prefeito anterior, Kassab – em cujo mandato a repressão da PM a protestos populares foi por eles rotineiramente creditada ao alcaide -, é forçoso reconhecer que a reação de Haddad tem sido, para usar um termo ameno, tímida. Se ele não compactua com o modo como a repressão foi conduzida e está caindo em uma suposta armadilha armada por Alckmin, como setores governistas apregoam, então deveria condenar energicamente a ação da PM, reconhecer a legitimidade da demanda e dos protestos e suspender temporariamente o aumento.

Porém, não. Ao chegar de Paris, além de, como Alckmin, confirmar que não há meios financeiros para evitar o aumento, Haddad observou candidamente que "No último protesto violência foi dos manifestantes, hoje foi da PM", como se fosse um comentarista de futebol, um "craque Neto" da vida comentando Birigui x Catanduvense. Já em entrevista a O Globo, afirmou que "aparentemente, a PM não seguiu protocolos". O comportamento de Haddad lembra o de FHC quando se referia ao país eternamente em crise como um analista isento que não tivesse nada a ver com a coisa.

A tal respeito questiona Leandro Fortes, na insuspeita Carta Capital:

"Onde está o PT? Onde está o prefeito Fernando Haddad, este que já avisou, de Paris, pelo Twitter, que não irá “tolerar vandalismo”? Onde estão os vereadores, deputados e senadores do partido que nasceu nas monumentais greves do ABC paulista, em plena ditadura militar, que os chamava, ora vejam, de baderneiros? Nada. Ninguém de braços dados para enfrentar a tropa de choque. Todos quietinhos, com seus militantes sempre tão subordinados, para saber o que vai sair no Jornal Nacional e na Veja de domingo. Até lá, melhor deixar as barbas de molho. Para os que ainda têm barba, claro."


Antagônicos semelhantes
Não deixa de ser (tristemente) irônico constatar que tanto o governismo quanto a mídia corporativa (vulgo "PIG") desaprovem as manifestações, e que os termos usados por blogueiros identificados com o PT – como Paulo Henrique Amorim – em seu esforço para desqualificar os protestos tenham sido, inicialmente, os mesmíssimos utilizados por ninguém menos do que Arnaldo Jabor, figura caricata da direita midiática, ambos questionando suposta ausência de trabalhadores e alegando tratar-se de um movimento da classe média burguesa. Depois, quando se tocaram da bola fora, esses mesmos blogueiros voltaram atrás e passaram a posar de apoiadores das passeatas.

Tudo somado, a reação de setores petistas aos protestos é mais um fator a reforçar a impressão de que, por mais justa que a maioria das críticas ao comportamento da mídia seja, o hábito de transferir culpas para o "PIG" tem feito com que governistas tenham se acostumado à mania de criar, a cada impasse, subterfúgios e teorias conspiratórias visando colocar o PT na posição de vítima.


Provas do retrocesso
Mas o PT, no poder há mais de uma década, está longe de ser uma vítima, e se os protestos se deram à revelia do partido e (em parte) contra algumas de suas administrações municipais, é em decorrência direta do descompasso entre a guinada conservadora do partido e os anseios políticos de parte da juventude e da esquerda, que não parecem dispostas a compactuar com o retrocesso que tem lugar, na legenda e na administração do país, notadamente, a partir da eleição de Dilma Rousseff.

Começou, na verdade, ainda na temporada eleitoral, com o pacto com os setores religiosos, através do qual a candidata se comprometeu a abster-se de questões como direito ao aborto e ao casamento gay. E já a partir do primeiro mês de governo Dilma, a guinada à direita não parou mais: rigor fiscal pior que nos tempos tucanos, com adoção da meta de zerar o déficit nominal pressionando o orçamento e agravando os problemas de caixa que as metas de superávit primário já impunham; tentativa de composição com os piores setores da mídia corporativa, com a manutenção de vultosos recursos da Secom e o abandono do projeto de regularizar as comunicações; total falta de diálogo com sindicatos e demais entidades da sociedade civil organizada; tratamento unilateral, com recusa à negociação, corte de ponto e eventual violência policial contra grevistas, notadamente os do magistério superior, cuja greve foi prorrogada desnecessariamente por quatro longos meses; concessão de descontos prolongados de IPI para carros e eletrodomésticos sem exigir contrapartida nenhuma, seja em relação a preços ou manutenção de empregos.



Modelo híbrido
Tudo isso submetido a um modelo econômico baseado no desenvolvimentismo a qualquer custo e na concessão de crédito - leia-se endividamento - como forma de incentivar o consumo e ampliar o mercado interno, paradoxalmente combinados a um arrocho fiscal de inspiração neoliberal que vem impondo cortes anuais no orçamento os quais atrofiam o desenvolvimento de áreas sociais como Educação, Saúde e Cultura - que muito haviam progredido na Era Lula.

Pior: Dilma não teve escrúpulos em recorrer às privatizações, que condenara durante toda a campanha eleitoral: primeiro timidamente, com dois aeroportos; depois, de forma sequencial – e com o desplante de alegar necessidade de "fazer caixa" para investir -, com mais aeroportos, portos, megaobras, direitos de exploração do petróleo – e vem aí o bilionário leilão do Pré-Sal, quando o entreguismo das riquezas do país deve atingir o ápice. É o futuro do Brasil sendo comprometido: não há como um governo que privatiza regularmente se dizer de esquerda.

Corolário dessa retomada de um ideário de Brasil-Grande 40 após o "milagre econômico", o deslocamento forçado e o genocídio de indígenas, na pior política indigenista das últimas décadas.


Resultados ruins
Toda essa ginástica para obter um resultado que, se, como os governistas gostam de lembrar, é melhor do que o de economias europeias em crise, está muito aquém do conseguido por vários de nossos vizinhos latino-americanos, pelos demais países do BRIC e pelos tigres asiáticos, cono analisaremos com detalhe em um próximo texto. Só um breve exemplo, aleatório mas contundente: o PIB de 2012 foi de 6,9% no Peru; de 5,5% no Chile; de 3,9% no México; de 2,5% na África do Sul; de 2% na Coreia. No Brasil, ficou em míseros 0,9%. A economia brasileira não está tão bem e há indícios preocupantes. Isso não é alarmismo, é constatação (leia aqui o artigo "A economia repete erros", da economista Laura Macedo, da FGV, publicado em Carta Capital). Mas ao invés de debaterem os fatos e os números consolidados, os governistas acostumaram-se à solução mais fácil: acusar o PIG e o "terrorismo" midiático.

A rigor, até 0 Bolsa-Família, de fundamental importância para o combate à pobreza, retrocedeu, posto que o em si questionável valor mínimo de R$70/mês - estipulado no momento de implementação do programa, há uma década, como minimo para uma pessoa não ser considerada miserável -, se reajustado de acordo com a inflação do período faria com que cerca de 22,3 milhões de pessoas - aproximadamente 44% do total de beneficiados - voltassem a se situar abaixo da linha de miséria.


Hegemonia a qualquer preço
Já antes disso tudo, o saudável embate das convenções partidárias, tradicional no PT, deu lugar ao dedazo, antes método tucano de escolhas de candidato, agora a cargo do capo Lula, a quem uma militância cada vez mais fanatizada e menos autocrítica passou a saudar pelo talento para eleger "postes" – primeiro Dilma, depois Haddad -, fingindo não ver os danos à democracia – não só interna - e ao estímulo à participação popular nas decisões do partido. Para completar, enquanto, no plano federal, as alianças tornam-se tão elásticas a ponto de incluir a ruralista Katia Abreu, acusada de exploração de mão de obra escrava, e o vice de – vejam bem - Alckmin, Afif Domingos, na seara municipal Lula e Haddad vão à mansão do criminoso internacionalmente procurado Paulo Maluf – comprada sabe-se lá com que dinheiro – selar acordo eleitoral. A realpolitik se sobrepondo a qualquer limite ético.

Só a ingenuidade mais tacanha ou desprezo mais acerbado pelo eleitor poderiam fazer supor que não haveria consequências para tais atos de estelionato eleitoral e de lesa-esquerda. O tempo passou na janela e só o governismo petista não viu.


A força do novo
Seja como for, o fato incontornável evidenciado pelos protestos é que o monopólio da capacidade de organizar movimentações populares e o ímpeto de mudanças não mais pertencem ao PT, que se transformou no partido da ordem e do status quo, tornando-se cada vez mais, com seu retorno vergonhoso às privatizações que comprometem em décadas o futuro do país, seu conformismo e seus tímidos e parciais protestos ante o banho de sangue promovido pela PM paulista, pouco distinguível do PSDB de triste memória, o qual tanto critica.

A força do novo e do transformador, hoje, não tem partido; exala de uma juventude corajosa e persistente, que resgata não só a cidade como arena para o exercício da política – seu berço originário na Grécia Antiga -, mas a prática autenticamente esquerdista de dilatar os limites do possível e buscar o impossível como forma de transformar a sociedade.

Como homenagem do blog a esses jovens cidadãos e cidadãs que ousaram resgatar a utopia, um videoclipe que tem tudo a ver não só com o atual momento político do país, mas com os ecos, no presente, do período que retrata:




(Imagens retiradas, respectivamente, daqui, dali e dacolá)

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Quizz - Os protestos em SP segundo os governistas

O malabarismo feito por setores do governismo para desqualificar os protestos populares contra o aumento das tarifas de transporte coletivo é uma das coisas mais belas e coerentes da política brasileira recente.  Prova de caráter e um banho de democracia.

Dá mais uma mostra do quanto o petismo, tendência que nasceu de greves e, durante anos fez dos protestos públicos – nem todos pacíficos – um de seus principais meios de expressão, mantém-se coerente e alinhado aos ideais libertários da esquerda.

Reflete, assim, a coerência demonstrada pelo governo Dilma, que cumpre exatamente o que prometera na campanha eleitoral, recusando terminantemente as privatizações, dialogando com a sociedade e os movimentos sociais e priorizando a educação e os Direitos Humanos, particularmente no que se refere aos povos indígenas, tão amados por nossa mandatária.

No intuito de, a um tempo, entreter seus muitos leitores e homenagear esse saudável peleguismo, o Cinema & Outras Artes – um blog a serviço do Brasil – traz, abaixo, um quizz que aborda algumas das reações petistas aos protestos em SP para demonstrar o quanto o governismo se mostra cada vez mais progressista. Teste seus conhecimentos peleguistas e divirta-se! 

QUIZZ
Os protestos em São Paulo segundo os governistas
  1. É um movimento …............... (elitista/classe média), já que não se vê, nos protestos, …................... (trabalhadores/proletários), mas só ...…..................... (burgueses/mauricinhos), como até o nosso querido Jabor afirmou.

  2. No tempo do …............. (Kassab/Serra/Maluf) éramos contra utilizar a Tropa de Choque contra protestos populares. Agora, com Haddad, tem mais é que …............................. (descer o pau/prender e arrebentar).
  1. Por que em …............... (1994/1826/1700 e bolinha) o aumento da passagem foi maior e não houve protestos? Sinal de que o movimento é contra …............ (Haddad/o PT).

  2. Tá na cara que se trata de um ensaio para …............... (o caos social/a balbúrdia), com vistas a criar o clima para um golpe contra …................... (o PT/Dilma) patrocinado por …............. (Gurgel/Joaquim Barbosa/o PIG).

  3. Protestar, sim. Enfrentar a …............. (pacífica/amigável/carinhosa) Tropa de choque, não. Aí já é ….............. (baderna/molecagem), visando a desestabilização …........... (de Haddad/de Dilma/do país).

  4. Somos contra depredação de patrimônio público, ou seja, de …............ (quiosque de banco/rede de lanchonete gringa). Já quanto ao genocídio de …........... (índios/selvagens primitivos) somos a favor.

  5. Por que a passagem de ônibus em …................ (Santos/Campinas/qualquer cidade que não seja capital) é mais cara que em SP e lá não houve protestos? Sinal de que o movimento é contra …............ (Haddad/o PT).
  1. Mesmo sabendo que o Movimento Passe Livre fez uma convocação oficial para protestar contra o aumento das passagens de ônibus, metrô e trens, insistimos que os protestos são só contra ônibus, porque aí podemos fingir que é tudo uma armação contra …........... (Haddad/o PT) e unirmo-nos ao PIG, à direita e à classe média que tanto ridicularizamos e criticar os protestos populares como ….......................... (arruaça/baderna).

  2. Defendemos a proposta de que os protestos em São Paulo sejam realizados ….................. (no Sambódromo/na Arena Corinthians), como forma de torná-los …................... (invisíveis/ineficazes/carnavalizados).

  3. Protesto popular, só se for do …................ (PT/Partido dos Trabalhadores). O resto é …................ (molecagem/porralouquice), patrocinado pela….............. (esquerdalha/PIG/CIA).



    (Imagem retirada daqui)

terça-feira, 21 de maio de 2013

Corte de ponto de grevistas equipara PT e PSDB

O prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, dando sequência ao hábito petista de fazer exatamente o contrário do que promete em campanha, anunciou hoje que vai "cortar ponto" dos professores municipais em greve. O ex-ministro da Educação é mesmo um democrata, logo se vê.

Para quem não sabe, os professores paulistanos são ainda mais explorados do que seus pares na maioria dos estados do país - incluindo alguns incomparavelmente mais pobres - , recebendo um salário ridículo e trabalhando em condições precárias, além de inseguras.

Era de se esperar que o PT, partido surgido justamente do movimento grevista e da defesa do direito dos trabalhadores, ao menos reconhecesse o mérito das reivindicaçoes dos grevistas e o direito constitucional deles à greve.

Mas não: vê-se a mesma intransigência com que os partidos de direita tratam os movimentos trabalhistas e o pendor ao não-diálogo e à repressão tal como o governo federal fez com os professores federais, levando-os à greve e a prolongando desnecessariamente, por quatro longos meses, para prejuízo de alunos, professores, funcionários e pais.

Enquanto a administração municipal petista assim age, o governo Dilma, que fez toda uma campanha eleitoral criticando a privatização, privatiza o petróleo e cria meios de privatizar os portos, num estelionato eleitoral que, pelo bem da democracia, a Justiça Eleitoral deveria ter meios de coibir.

Não restam dúvidas de que o PT, através do Bolsa Família, demonstra uma atenção efetiva em erradicar a miséria, combater a pobrreza e renovar o quadro social brasileiro. Isso claramente o distingue do PSDB, cuja sensibilidade social é zero. Mas em termos de distância entre o apregoado em campanha e a conduta no governo os dois partidos são muito parecidos, e no modo truculento como tratam as justas reivindicações de trabalhadores sub-remunerados, também


Atualização: Não bastasse o tratamento truculento dispensado aos grevistas, a Prefeitura de São Paulo tem esbanjado o dinheiro público para divulgar repetidamente, na TV aberta, um comercial em que alega mentirosamente ter atendido às demandas dos professores e, como forma de confundir o telespectador, elenca números referentes aos aumentos de outros servidores. Espera-se que o Ministério Público atente para o truque.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Kassab, Claudia Costin e os limites da realpolitik

Os limites entre, de um lado, a composição de alianças necessárias à governabilidade e à expansão da hegemonia política da aliança governista e, de outro, seus contraefeitos programáticos, ideológicos e éticos têm sido uma questão recorrente desde a ascensão do PT ao poder.

Apesar de toda a indignação que algumas dessas alianças provocam, soa a autoilusão e falta de realismo político a presunção de que o Partido dos Trabalhadores conseguiria efetivamente governar o Brasil sem a aliança com o PMDB - ou seja, sem dividir o poder com Sarney, Renan Calheiros e demais personagens que, em pleno século XXI, evocam, justa ou injustamente, a mística do coronelismo, do patrimonialismo e da corrupção. O sistema político brasileiro – que um cientista político chamou, com mordacidade, de “parlamentarismo presidencial” - praticamente impõe a formação de amplas coalizões governamentais. Do contrário, o isolamento palaciano e a impossibilidade de consumar um programa de governo tornam-se ameaças reais – Jânio Quadros e Fernando Collor que o digam.

Por outro lado, seria negligência desprezar o quanto tais alianças acabam por abrir flancos que tornam o PT vulnerável a críticas que exploram implicações éticas. O próprio escândalo do “mensalão” deriva de tal dinâmica, já que seu dínamo indutor vem da instisfação do PTB de Roberto Jefferson para com o modo como a Casa Civil de José Dirceu vinha partilhando as benesses do poder.


O fator mídia
A mídia nativa, por sua vez, comprometida com a agenda do conservadorismo e visceralmente antipetista, explora ao máximo tais flancos, valendo-se das armas do denuncismo neodenista e de um duplo sistema de valores, o qual, por um lado, supervaloriza e trata como fato consumado os mínimos indícios de irregularidades dos governos petistas e, por outro, negligencia a cobertura até de graves e comprovados casos ocorridos na seara demotucana – como o modo como a privataria tucana e a invasão de Pinheirinho (não) foram tratadas nos jornais e na TV ilustra de forma irrefutável.

O fato de a política petista de alianças receber dos órgãos de comunicação campanha condenatória a priori, numa prática incompatível com a deontologia do jornalismo, com a verdade dos fatos e com uma democracia avançada, não significa, no entanto, que toda e qualquer aliança seja válida e esteja isenta de questionamentos éticos – e a prova disso é o mal estar que algumas coligações recentes, cuja elasticidade extrapola consideravelmente a faixa do espectro político à qual o partido historicamente se filia, têm causado entre simpatizantes e eventuais eleitores do PT, muitos dos quais vacinados contra o moralismo casuísta da mídia.


Realpolitik e hegemonia
Para melhor contextualizar a questão, convém recordar, ainda que de forma breve, o processo de formação da coligação que levou Lula à Presidência: superando resistências internas e externas, a aliança capitaneada pelo PT, que teve como principal parceiro o PMDB, incluiu partidos conservadores como o PP, o PL e o PMN (além do PTB e dos esquerdistas PCB e PC do B). Foi amalgamada sob o comando de José Dirceu, com a colaboração decisiva de José Alencar para o estabelecimento de diálogo com alguns setores do empresariado, refratários ao petismo. Por ter sido anunciada antes da eleição, foi dado ao eleitor saber a que forças políticas estaria dando o seu voto.

A partir daí, porém, se assiste, no bojo do início claudicante da presidência Lula, da crise política advinda com as denúncias do “mensalão” e das tentativas ininterruptas da imprensa e da oposição de manterem, via denuncismo, o governo nas cordas, a um esforço renitente de ampliação da base aliada, o qual volta e meia provoca surpresa ou indignação, como na aliança com o ex-presidente Fernando Collor, que, além dos ataques baixíssimos a Lula na campanha presidencial de 1989, um dia após tomar posse como senador eleito pelo PRTB trocou este partido pelo PTB, a convite de ninguém menos que Roberto Jefferson.

Nessa altura, ao passo em que setores da militância tornam-e adeptos, eventualmente entusiasmados, de um pragmatismo infeso a poderações éticas ou ideológicas, um sentimento antes difuso de que há limites para a realpolitik - presente em maior ou menor grau desde o início do governo - e o questionamento acerca da relação custo-benefício inerente à ampliação da hegemonia petista – e dos limites desta - ganham corpo mesmo entre setores pró-PT. O choque entre essas duas visões, latente no decorrer da última década, se tornaria explícito nas eleições municipais paulistanas deste ano.



Eleição de Haddad
Durante tal campanha eleitoral, a aliança com o PP de Maluf provocou quase um cataclismo nas hostes petistas, e justamente por, com direito a foto e beija-mão no palacete do político, ter soado menos como uma aliança partidária visando tempo televisivo e mais como um pacto para exploração do decadente mas ainda efetivo prestígio de Maluf entre segmentos do eleitorado. Se o apoio do PP e de Maluf foi determinante para eleger Haddad não se sabe, mas que talhou uma ferida ética a evidenciar a falta de escrúpulos no atual modo petista de fazer política, afagando um criminoso internacional procurado pela Interpol, não há dúvidas.

Para completar, mal se elegeu e Haddad viu-se numa saia justa herdada de tal aliança, com seu silêncio ante as inquirições acerca da condenação imposta pela corte de Jersey ao político brasileiro mais suspeito de corrupção na história recente do país, a qual o obriga a devolver U$22 milhões aos cofres da Prefeitura de São Paulo. A militância petista tentou culpar a imprensa, mas desta vez não procede, pois é, sim, interesse do cidadão saber o que a Prefeitura fará para se certificar de receber o ressarcimento determinado pela Justiça.



Tucanos e peessedistas
Neste momento, a questão das alianças uma vez mais se recrudesce: anteontem, o governo Dilma anunciou a nomeação da tucana Cláudia Costin para a Secretaria de Ensino Básico do MEC, para desgosto de pedagogos sérios, temerosos da gestão de uma administradora que já deu mostras suficientes de ter uma visão privatista de educação. Causa estupefação que um partido como o PT, com acesso a quadros de alto nível na universidade brasileira, prefira colocar uma área essencial da Educação sob responsabilidade de uma típica gestora aos moldes peessedebistas.

Mas não para aí: acaba de ser costurado um acordo com o PSD de Kassab para que apoie a gestão de Fernando Haddad – em troca, entre outras benesses, da manutenção de uma grossa fatia de poder na Câmara Municipal, é claro.

Deve ser difícil para o cidadão comum compreender como o mesmo partido que passou meses , desqualificando Kassab, chamando-o de serrista, higienista, “fascista” e outros istas, se alinha com o futuro ex-prefeito já no mês seguinte às eleições municipais. Trata-se do tipo de procedimento que, à revelia de ser politicamente proveitoso para o PT ou não, tende a soar extremamente questionável, desabonador para os padrões éticos da sigla, mesmo no julgamento de muitos eleitores ou simpatizantes.


Vácuo ideológico
Além disso, é desnecessário apontar que Kassab – que tem elos históricos com José Serra - já deu mostras mais do que suficientes de não ser confiável como aliado, além de amorfo do ponto de vista político-ideológico (tornou-se um clássico do oportunismo sua declaração de que “O PSD não é de direita, esquerda ou centro”). Soa no mínimo displiscente que um partido que acaba de vivenciar o imbroglio do “mensalão” insita em se aliar com raposas políticas, como tais, pouco leais e comprovadamente volúveis.
Assim, Insisto em questionar:

1) Se o PT quer se apresentar, na capital paulista, como uma alternativa ao demotucanato, como fazê-lo se aliando justamente a uma figura política que ven sendo, por muito tempo e até um mês atrás, um dos símbolos da hegemonia demotucana em São Paulo e de muito do que o PT alega combater?
2) Qual o limite, para a centro-esquerda, de relativização dos valores éticos e ideológicos, e a partir de que ponto, ao adotar esse relativismo, ela mimetiza valores conservadores, os relativiza enquanto tais, e com o conservadorismo se confunde?

O risco da indistinção 
Esta última questão afigura-se fundamental, e tem levado à reflexão setores que historicamente apoiaram o PT, no funcionalismo público, humilhado na campanha salarial deste ano; na classe média urbana progressista, que se tornou vítima da histeria totalitária ora vigente contra tal classe social; e entre ideólogos e intelectuais, hoje tão desprezados pelo partido e por sua militância, cujo culto messiânico a Lula inclui a exaltação da intuição em detrimento da reflexão – uma inversão de valores que, paradoxalmente, o próprio Lula repetidas vezes desautoriza, com a centralidade que atribui à educação.

É palpável - e fenômenos como a movimentação causada pela candidatura de Marcelo Freixo no Rio o demonstram - que há, atualmente, entre parcelas dos apoiadores e aliados históricos do PT, um cansaço para com o excesso de pragmatismo em detrimento da coesão político-ideológica, vicissitude que está longe de se limitar às questões relativas a coligações – abrangendo temas como retorno à privatização, ênfase na gestão econômica, não-priorização de Educação e Saúde e trato truculento com o servidor público -, mas para a qual as alianças com tudo e com todos, à revelia da coerência e da ética, contribuem consideravelmente. 

A partir do momento que o PT se alia com o adversário demo-peessedista que até ontem combatia e que nomeia uma tucana para cuidar do ensino básico, torna-se cada vez mais iminente o risco de o partido, malgrado os inegáveis avanços sociais que vem patrocinando, nublar os princípios e conteúdos programáticos que o distinguiriam dos partidos que a ele se opõem.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Freixo e Maluf testam limites da realpolitik



A candidatura de Marcelo Freixo (PSOL) à prefeitura do Rio de Janeiro tem provocado comoção em setores da juventude e entre aqueles que, identificados com um ideário progressista, se agastam com práticas políticas institucionalizadas, tais como a composição de amplas alianças - inclusive com representantes dos setores mais retrógrados da sociedade - e compromissos não-oficiais mas efetivos entre o mandatário e os principais doadores de sua campanha.

Tendo se destacado pela determinação com que, em CPI estadual, combateu as milícias (que, recorrendo amplamente a violência e extorsão, tomaram o lugar do tráfico como gerenciadora de vários morros e áreas periféricas da metrópole), Freixo, ameaçado de morte por tais forças parapoliciais, tem uma visão complexa da questão da segurança pública no Rio e de suas atuais ligações com o grande capital, a qual exprime de forma articulada – duas qualidades raras em aspirantes a cargos executivos em um contexto regional no qual tem predominado um discurso populista e mistificador.


Fascínio do novo
Na atual campanha, sua fala intermediada de resgate de valores éticos, humanistas e sociais da esquerda – que, não obstante bem ciente da realidade atual, traz um quê do utopismo de 1968, de buscar a volta do sonho ao espaço pragmático em que se transformou a política – tem soado como música aos ouvidos de quem ainda nutre esperanças em seu poder transformador, mas gostaria de vê-la extirpada do que interpreta como seus acessórios poluentes: apoio eleitoral trocado por cargos na administração; aporte financeiro em troca de privilégios, benesses e eventuais licitações com cartas marcadas; coligações governistas que sacrificam ou relativizam bandeiras políticas.

Desse modo, mesmo com o apoio federal de que goza o candidato à reeleição Eduardo Paes – que tem profundas ligações com os milicianos -, Freixo, que pode vir a ser a grande novidade da eleição, tem conseguido inclusive “virar” votos de muitos petistas, agastados com o papel de coadjuvante do partido no estado.




Limites da realpolitik
A despeito de se irá ou não ganhar o pleito, a repercussão que a candidatura de Freixo vem obtendo ao afirmar recusar tal forma de fazer política parece captar uma demanda eleitoral à flor da pele, que, ao menos parcialmente, decorre de um fenômeno identificado em texto recente pela senadora petista Marta Suplicy, preterida por Lula a favor de Haddad em São Paulo:


O modelo 'realpolitik' se esgotou e parece que nem todos estão percebendo (…) eleitores … podem até entender a necessidade das composições, alianças e acordos que se tornaram imprescindíveis no Brasil muito em função do nosso sistema eleitoral, do número de partidos e do quanto tornou-se precioso o tempo de TV (...) Mas quando, pela sua simbologia, ferem os limites do bom-senso e têm a marca do estapafúrdio, tornam-se incompreensíveis para a população e são por ela rechaçadas.”

Sonho versus resignação
Para muito além de reação movida por despeito – e sem entrar no mérito da recusa da senadora em fazer campanha para Haddad -, interessa reter de sua análise um diagnóstico que com relativa facilidade é, hoje em dia, passível de ser empiricamente atestado através do contato com a juventude ou com grupos numericamente expressivos de cidadãos e cidadãs, e que as reações entusiasmadas à candidatura Freixo corroboram de forma evidente.

Além disso, o texto de Marta, em sintonia com o diagnóstico que perfaz e mesmo sem citá-la diretamente, implica numa portentosa crítica à aliança que trouxe Paulo Maluf e seu PP a bordo da candidatura petista à prefeitura paulistana.

Pois, em certo sentido, os pressupostos que levaram à efetivação dessa aliança – e que vêm sendo esgrimidos pelos seus defensores – são o exato contrário dos anseios que Marta identifica nos eleitores e que Freixo se esforça por suprir. Baseados na bem-sucedida estratégia de alianças levada a cabo por Lula e Dilma em âmbito federal, sustentam que a conquista do poder e da governabilidade pelas forças de centro-esquerda pressupõe o sacrifício de alguns ideais, bandeiras históricas e princípios éticos como forma de viabilizar alianças as mais amplas.


O passado como norma
Desse movimento decorreu, num primeiro momento, a aliança federal do PT com PMDB, PSB e partidos menores, a qual se expandiria no decorrer da administração Lula, incorporando, por exemplo, o PRP de Fernando Collor (momento que marca, na opinião de alguns analistas, o cruzar da fronteira que separa as alianças aceitáveis das que ultrapassam um padrão ético mínimo requerido). A recente aliança do PT/SP com o PP de Maluf leva ao paroxismo essa visão elástica de realpolitik.

Seus defensores partem do pressuposto de que por terem dado certo no âmbito federal com Lula, tais alianças, à revelia da posição do aliado no espectro político, de sua folha corrida e de demais pudores éticos, teriam se tornado uma espécie de norma obrigatória para vencer eleições – e, em decorrência, que a crítica e o colocar-se contra determinada composição implicaria em um “purismo” intrinsecamente nocivo, pois disposto a aceitar passivamente a derrota que tal recusa fatalmente ocasionaria. É difícil deixar de notar o quanto tais premissas trazem, introjetadas, um fatalismo tão inescapável quanto conservador.

No caso de Maluf supôs-se ainda que por, justificadamente, ninguém aguentar mais a péssima administração dos tucanos em São Paulo, os fins justificariam os meios. E, alegadamente, a aliança com o PP traria não apenas um minuto e meio a mais de tempo de propaganda gratuita na TV por dia, cinco dias por semana, mas, certamente, parte dos cerca de quinhentos mil votos que o parlamentar do PP obteve nas últimas eleições parlamentares.


Choque de realidade
Como diria o grande filósofo Garrincha, faltou combinar com os russos. A reação foi avassaladora, notadamente entre o pessoal de esquerda e a juventude. A mídia, é claro, sentiu o clima e tratou de botar lenha na fogueira – mas incorrerá em erro quem achar que se trata de uma reação artificialmente insuflada, mesmo porque o grosso da mídia hoje escreve e fala ao antipetismo.

O que ficou claro desde o início - e só não viram os obtusos que colocam Lula e o partido acima da razão - foi que, ao menos nesse momento imediatamente após o anúncio, haveria perda de votos, e não o ganho eleitoral apregoado. Não tenho dados empíricos para sustentar esta hipótese, mas arrisco dizer que, para além dessas perdas, a campanha deixou de conquistar, por conta de tal aliança, muitos votos em um estrato específico: a classe média com formação educacional e saturada da incompetência tucana – mas jamais disposta a compactuar com Maluf, que encarna a antítese dos valores que cultuam. Tendem a migrar para outro candidato que não Serra – possibilidade, aliás, que, até agora, tem sido largamente negligenciada pelo petismo.


Tendências claras
Pesquisa divulgada ontem pelo Datafolha confirma, por ora, as críticas dos que se opuseram à aliança: não só Haddad deixou de crescer como perdeu votos, e 64% dos que declaram votar no PT disseram reprovar aliança com Maluf. É evidente que se deve receber com ressalvas pesquisas eleitorais produzidas por tal instituto, que na última década teve seus índices prognósticos frequentemente desmentido pelas urnas, em ao menos uma ocasião em claro benefício de José Serra, cujos laços com os donos do Grupo Folha são por demais conhecidos.

Não obstante as ressalvas, tais pesquisas, sobretudo quando não realizadas em momentos decisivos da eleições, têm fornecido um quadro geral que, malgrado imprecisões eventuais, serve como esboço da situação. E o último Datafolha, além de diagnosticar o aumento da rejeição de Serra para impeditivos 35%, apura que a porcentagem dos que desaprovam a aliança com Maluf é de tal forma expressiva e em larga medida parece corresponder ao que se pode observar in loco na cidade, que não será surpresa se, com pequenas diferenças eventuais, outros institutos – inclusive os que pendem para o PT – o corroborarem.


O federal e o municipal
Para se compreender melhor a dinâmica eleitoral do momento, muito haveria a se falar, aqui, a respeito das substanciais diferenças entre eleição e governabilidade em âmbito municipal e nacional - em que, entre tantos outros fatores, o complexo sistema federativo, o bicameralismo e o que alguns cientistas sociais chamam de “presidencialismo parlamentarista” - além da a relação institucional com os estados e municípios - têm de ser considerados.

Pois a noção de que a proximidade e o grau de personalismo e de identificação (bem como de repulsa) entre eleitores e candidatos é muito maior no contexto do município tem sido um dado muito pouco observado nas análises relativas ao caso Maluf. E ela afigura-se essencial para a contextualização da reação enfurecida contra a aliança, pois algo muito diferente é esta dar-se, em âmbito federal, com o PP nacional – onde Maluf é um cacique decadente entre outros tantos – ou numa aliança municipal, ainda mais se selada com uma foto de Lula em alegre congraçamento na mansão do ex-prefeito, maior símbolo da corrupção do país, novamente prestigiado como figura pública em seu próprio curral eleitoral.

Em outro registro, mas de modo análogo, a candidatura Freixo pelo PSOL não pode ser entendida como um evento autônomo em relação à atuação do partido em âmbito nacional e estadual. A conquista massiva do voto petista – que se afigura essencial para sua vitória – acabará por implicar, portanto, em uma cobrança de posicionamento do candidato quanto à frequência com que a agremiação ao qual está filiado tem se aliado, em votações no parlamento, ao conservadorismo do DEM e do PSDB - e, ainda mais grave, como ele justifica que o PSOL, no deplorável estágio da mídia brasileira atual, tenha legitimado uma revista acusada de graves crimes ao valer-se de “denúncias” de Gilmar Mendes ali publicadas para endossar uma ação contra o ex-presidente Lula?


Caminho do meio
Penso que, tanto em um caso como em outro, um meio-termo acabará por se impor como necessário. Ou seja, Freixo muito provavelmente acabará obrigado – se não para vencer as eleições, certamente para conseguir governar – a compor alianças e a negociar com os representantes do grande capital, mesmo que, em um e outro caso, se esforçando, com  resultados efetivos ou enredando-se em autoengano, para conservar a dignidade.

Já em relação à eleição paulistana, parece ficar cada vez mais claro que a aliança com Maluf foi um enorme, deplorável erro, mas não por opor “puros” e “pragmáticos”, como os mais afoitos prognosticaram, pois a questão central, no caso, nunca foi que quaisquer alianças seriam, por si, condenáveis, mas sim quais seriam aceitáveis e quais não. E com um político gestado pela ditadura militar, símbolo máximo da corrupção, criminoso internacionalmente procurado, fiador da Rota como esquadrão da morte de pobres e negros é, claramente, inaceitável que a centro-esquerda faça alianças.


Tema perene
De qualquer maneira, só o futuro dirá, com certeza, quais as consequências da comnposiçãocom Maluf para a candidatura Haddad e da recusa à realpolitik para o projeto político de Freixo. Mas a questão de fundo implicada nessas posturas antagônicas deve permanecer ainda por um bom tempo como um dos temas centrais do embate político, do interesse dos jovens por política e, em decorrência, da própria evolução democrática no Brasil.


(Imagens retiradas daqui e dali)

domingo, 12 de fevereiro de 2012

PT, Kassab e os limites da realpolitik


A governabilidade, no sistema político brasileiro, pluripartidário e em grande medida dependente das casas legislativas – de um modo tal que há cientistas políticos que falam em “presidencialismo parlamentarista” - praticamente impõe a costura de alianças cuja elasticidade, via de regra, extrapola consideravelmente a faixa do espectro político no qual o partido vencedor das eleições se situa.

A experiência histórica demonstra que a recusa na composição de alianças mais abrangentes tende a reduzir dramaticamente o raio de ação do governante ou mesmo engessá-lo. O caso mais grave talvez seja o da presidência Jânio Quadros – abortada por fatos que decorrem diretamente de sua reação ao sentir-se manietado por não gozar de maioria no Congresso. Ainda hoje, em que pese o recurso (muitas vezes abusivo) a medidas provisórias, sem tal maioria, conquistada nas urnas ou atingida eventualmente por meio de conchavos, o presidente corre o risco de se tornar presa do parlamento e incapaz de imprimir uma marca à sua administração.


Salto social
É dentro dessa lógica inescapável que se situa a aliança, em âmbito federal, comandada pelo PT, a qual teve lugar com a primeira presidência Lula. Por mais que nela a muitos cause repulsa a presença de velhos coronéis da política – cujo símbolo máximo é José Sarney -, ilude-se quem acha que sem o apoio parlamentar do PMDB e dos demais partidos que compõem com o governo teriam sido efetivadas as principais políticas que deram uma cara nova ao país na última década, notadamente as grandes reformas sociais operadas por tal aliança, por meio das quais quase 40 milhões de cidadãos e cidadãs deixaram a pobreza e a miséria foi substancialmente reduzida, com perspectiva de ser erradicada no curto prazo.

Trata-se, como ora reconhecido internacionalmente, de uma notável realização social, inconcebível e alegadamente inexequível há pouco mais de uma década, e que por si só evidencia a falácia dos que - à direita e à esquerda - se recusam a ver diferenças entre a administração petista e a peessedebista que a precedeu.

Em entrevista ao Estadão, o pré-candidato do PT à Prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad, disserta precisamente sobre os pontos acima referidos, sublinhando a importância da composição de alianças no modelo pluripartidário em voga, ressaltando as conquistas socioeconômicas da aliança federal capitaneada pelo PT e - inquirido sobre a possível aproximação com Kassab - afirmando que o fundamental é que “alianças tem que ser pautadas de tal maneira a não comprometer o objetivo do processo”.


Excesso de pragmatismo
Trata-se de uma meia-verdade. Pois os limites entre as necessidades ditadas pela realpolitik e a possibilidade de perda da identidade político-ideológica podem vir a ser muito tênues. O próprio Gramsci, principal teórico da questão da hegemonia, embora defensor, a priori, da constituição de alianças, não só as condiciona à existência, mínima que seja, de um denominador comum programático e à manutenção da possibilidade de realização de políticas que levem ao menos a um avanço em direção aos objetivos políticos originais, mas sublinha a importância crucial de se avançar em termos político-ideológicos.

Ora, inexiste denominador comum programático entre PT e Kassab (como, aliás, salienta o Diretório Municipal do PT/SP); tal aliança significa algo entre a abdicação de uma plataforma expressamente político-ideológica e sua revisão conservadora, e uma questão fundamental se coloca: que avanço político-ideológico se pode esperar da aliança com uma figura que se caracterizou, à frente da Prefeitura, pela promoção, em pleno século XXI, de políticas eugenistas, por atuar como coadjuvante do PSDB na promoção da violência oficial contra os cidadãos, pela agressividade no trato com os críticos, pela negligência das demandas sociais e pela pusilanimidade oportunista (“PSD não será de direita, não será de esquerda, nem de centro”)?

Fiar-se tão-somente em uma pragmática de resultados, negligenciando os princípios éticos, como ora fazem Haddad e setores do PT, pode mostrar-se ou não eleitoralmente danoso – mas, o que é certo e muito mais grave, deve colaborar para agravar o esvaziamento ideológico de nossa sociedade e para corroborar, com o carimbo de um partido tido como de centro-esquerda e de massas, para a corroboração da tipificação do universo da política como amoral ou mesmo perverso.


Questões para o futuro
O menosprezo à ideologia é hoje palpável não só no alto comando mas entre a militância petista – e é, na modesta opinião deste blogueiro, a mais perigosa das ameaças ao futuro do partido.

O pragmatismo – administrativo ou eleitoral - tem sido, até o momento, a única resposta que setores de militância petista tem dado a críticas consistentes em relação a medidas como a privatização dos aeroportos e o namoro do PT paulista com Kassab – críticas estas advindas de militantes, aliados, ex-aliados e do próprio campo da esquerda. Essa recusa insolente pode cobrar um preço alto: a questão, aqui, não é se um eventual pacto com Kassab vai ou não fazer com que a aliança comandada pelo partido vença as eleições – o que pode até acontecer -, mas os flancos que o partido está abrindo, a curto e médio prazo, ao renunciar a bandeiras históricas e ao ameaçar aliar-se com quem até ontem representava o antipetismo. No mínimo, perderá quadros valiosos, como já vem acontecendo.

Mas mesmo o pragmatismo que tem marcado o debate tem prestado pouca atenção a duas questões fundamentais, com as quais o eleitor vai se defrontar caso se efetive a aliança com Kassab:
1) Se o PT quer se apresentar, na capital paulista, como uma alternativa ao demotucanato, como fazê-lo se aliando justamente a uma figura política que ven sendo, por muito tempo e até ontem de manhã, um dos símbolos da hegemonia demotucana em São Paulo e de muito do que o PT combate?
2) Qual o limite, para a centro-esquerda, de relativização dos valores éticos e ideológicos, e a partir de que ponto, ao adotar esse relativismo, ela mimetiza valores conservadores, os relativiza enquanto tais, e com o conservadorismo se confunde?
A resposta a tais questões pode não só definir o rumo imediato do PT em São Paulo, mas ter, no médio prazo, consequências de monta para o partido e para o país.


(Foto retirada daqui)