
Gabeira,
É com imensa vergonha que faço esta declaração, mas o fato é que você foi o meu primeiro guru. Ok, convenhamos, ler O que é isso, companheiro aos 11 anos é um pouco too much, mas os tempos eram outros, tinha a militância do meu pai, uma euforia no ar pela volta dos exilados, a ilusão de que o fim da ditadura estava próximo... enfim, transpirava-se política por todos os poros.
Ao contrário dos demais exilados, convencionais em termos comportamentais, você era uma figura muito sedutora para um adolescente: sequestrara o embaixador dos Estados Unidos, pregava uma sexualidade aberta e livre, defendia a legalização da maconha. Hoje sabemos que sua participação no sequestro não teve aquele destaque todo que você sugere no livro, mas é também verdade que muitas das críticas advindas de seus ex-companheiros mal disfarçam a inveja por, ao final, ter cabido a você o papel de contar a história. De minha parte, sempre lamentei que, no livro, tenha se recusado a fazer-se valer da denúncia da tortura como arma contra o regime. É que naquele tempo você tinha pudor, né?
Mas o livro que bateu mesmo, como um manga-rosa daqueles de que não mais se tem notícia, foi aquele “romance autobiográfico” quase que unanimemente execrado, Hospéde da utopia. Pirei com aquela história de sair por aí viajando (nos dois sentidos da palavra), transando, lendo e escrevendo, aproveitando a natureza. Ao longo da adolescência fui, como mochileiro, visitando aqueles paraísos todos: Trindade, Chapada dos Viadeiros, Trancoso (que agora tem estrada asfaltada, pra ver se acaba mais depressa com o lugar, você soube?). Os ares do tempo, a tal da zeitzeig, eram outros, lembra? Fumar um baseado não passava de um ato levemente transgressor, e os que o faziam não eram acusados de sustentar o crime organizado e, portanto, a violência, como acontece hoje no Brasil (e, não sei se você já percebeu, só no Brasil. Consome-se muito mais droga nos principais países ocidentais do que aqui, e ninguém é acusado de financiar violência nenhuma, o que prova que o problema não é o usuário, mas a farta mão-de-obra oferecida ao tráfico pelas condições sociais do país. Ou você acha que se, hipoteticamente, todos os usuários decidissem parar de comprar drogas o tráfico ia entregar as armas e passar a vender pirulitos e maçãs-do-amor?).
A primeira vez que me decepcionei contigo, Gabeira, foi nas entrevistas que deu para promover o filme O que é isso, companheiro?, aquela coisa indigna cometida pelo Barretinho, com um elenco tirado do TV Pirata visando esculachar os militantes de esquerda representados no filme – um deles, você. Lembro bem de um Roda Viva, dos tempos em que o programa merecia o nome: você sendo bombardeado e insistindo em defender o indefensável. Ah, sim, ia me esquecendo (deve ser a vergonha): antes disso, eu votei em você pra presidente! (no segundo turno votei em Lula; na época havia coerência nessa combinação de votos).
Mas o bicho pegou mesmo foi depois que o Zé Dirceu te deu aquele chá-de-cadeira e você, gritando feito uma prima-dona, abandonou o barco no calor da luta, arrumando uma porção de justificativas políticas alegadamente respeitáveis para o seu rompante. Num ponto eu concordo contigo: o que ele fez não se faz. Quer queira, quer não, você, tomando parte no sequestro do embaixador, arriscou a pele pra tirar o cara da prisão e o indivíduo te dá um chá-de-cadeira? (Aliás, cá entre nós: como era arrogante o José Dirceu no poder, não é mesmo? Tenho pra mim que o Lula ajudou a armar para o cara cair e assim não ter de dividir poder, o que achas?). O problema é que, agindo como agiu, você se iguala, por vias transversas, aos seus detratores de sempre na esquerda, que passaram décadas gritando por justiça social e distribuição de renda e, quando o governo Lula tira 35 milhões de pessoas da pobreza e cria um mercado para as classes C e D, continuam fazendo de conta que não é com eles, atirando pedras e fazendo o jogo da oposição de direita.
Oposição, aliás, da qual você virou uma espécie de musa justiceira. Fui um dois poucos que achei uma palhaçada aquela sua performance de vingador da pátria contra o Severino. Afinal, nada mais hipócrita do que a indignação seletiva dos que gritam “Ética!, ética!” apontando o dedo aos opositores políticos quando sabem que o problema é sistêmico. Mas esse comportamento hipócrita rendeu-lhe muitos frutos, não é, meu querido ex-guru? Logo você, que em seus livros é tão ferino em relação à “grande imprensa” aceitou de bom grado ser alçado à condição de paladino da honra da nação por nada menos do que a Veja! E (com o perdão do trocadilho) veja bem: numa época em que ela deixou de ser apenas o semanário preconceituoso e metido a besta de sempre para se tornar ponta-de-lança de uma operação agressiva da pior direita. Mas tudo pelo poder, não é mesmo, meu caro?
E olha como a vida é: depois de tudo isso, eu ainda me vi obrigado a apoiar a sua candidatura a prefeito do Rio! Coisas da realpolitik. Também, o roto ou o rasgado, não havia opção: entre você e Eduardo “Milícia” Paes...
Agora, sinceramente, preferia mil vezes você, rodeado de gaviões, digo tucanos, na prefeitura do Rio do que substituindo o babaca do Nelson Motta como colunista pau-mandado da Folha de São Paulo. Veja bem, não estou criticando o fato de você atuar no que antigamente se denominava “imprensa burguesa”. Dias Gomes e Vianinha nos ensinaram a importância de adentrar o – dá-lhes anos 60 – sistema e revertê-lo por dentro. Na própria Folha está Marina Silva, inteligentíssima e, esta sim, com uma preocupação ecológica genuína e, ao contrário de você, consistente ao longo do tempo, com uma colaboração semanal na qual mantém a dignidade. O que me incomoda é que ali, na página 2, você, como tem ficado evidente nos seus textos, está de bom grado cumprindo um papel pré-determinado, que interessa ao projeto de poder do jornal e ao seu próprio projeto político, baseado nesse neomoralismo tosco e hipócrita, palatável para a classe média mais retrógrada e preconceituosa e que sempre o rejeitou, e nada mais.
Gabeira, me diga uma coisa: você ficou babaca e não percebe o que está acontecendo, você sempre foi assim, ou você acha que nós é que ficamos babacas e não estamos percebendo as suas jogadas? Francamente, o que é isso, "companheiro"?
