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segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Drogas, imperialismo e falso esquerdismo


Intervenção
é um programa de TV que acompanha o cotidiano de uma pessoa com algum vício em estágio destrutivo (seja em álcool, jogos, compras, atos bulímicos ou numa ampla variedade de drogas, legais ou não): historiciza seu vício, documenta suas crises agudas de abstinência, seus surtos e picos de “doideira”, bem como o sofrimento da família e de pessoas próximas. Ao final - após uma sessão catártica e lacrimosa em que familiares e amigos íntimos leem cartas declarando seu afeto e implorando para que o usuário aceite ajuda para se tratar – a produção oferece a possibilidade de o retratado passar por um programa de reabilitação gratuito, do qual poderá sair a qualquer hora ou ficar até ser considerado apto a se readaptar à sociedade sem recorrer aos antigos vícios.

Trata-se de um reality show – o único no gênero que realmente me agrada – exibido pelo canal a cabo A&E e rico em temas para análises em áreas tão diversas quanto Audiovisual, Comunicação, Medicina, Psicologia, Saúde, Segurança Pública, Serviço Social, entre outras. A abordagem da questão das drogas pelo programa dá-se estritamente pela via clínica – que é uma espécie de “outro lado da moeda” da abordagem policial, disseminada nos EUA e de lá exportada para boa parte do mundo, inclusive o Brasil, num processo típico de imperialismo cultural –prática que, segundo Pierre Bourdieu e Loïc Wacquant, “repousa no poder de universalizar os particularismos associados a uma tradição histórica singular, tornando-os irreconhecíveis como tais”.

Mas o aspecto que eu gostaria de sublinhar, no âmbito deste post, advém de um momento recorrente em todos os programas da série: o da justificação do vício. Logo no início de cada episódio, após um breve resumo do que nos será mostrado a seguir, o personagem retratado se apresenta ao espectador, falando diretamente à câmera; é relatado o grau de seu vício e são entrevistadas pessoas próximas. Daí, invariavelmente, ocorre um flashback: o infeliz usuário de hoje - às vezes em estado de profunda decadência física e psicológica - é apresentado, em filmes caseiros ou em fotos, como uma criança – tímida ou hiperativa, doce ou arteira, mas, de qualquer modo, um pequeno ser feliz e inocente, em relação ao qual seus ora arrasados pais nutriam tantas esperanças. Trata-se, do ponto de vista da tipologia narrativa, de um momento que corrobora, no âmbito do reality show, a boutade da pesquisadora Linda Williams, segundo a qual todo filme norteamericano é melodramático.

De repente, sob uma indefectível e tensa trilha sonora, essa reminiscência lúdica é interrompida e dá-se o relato de um episódio traumático que teria sido o responsável pelo vício desenvolvido pelo adulto. Em raríssimas vezes trata-se de algo passível de ser realmente interpretado como um grande trauma pelas tradições sócio-culturais latinas ou européias – cujas visões realistas do constante vigor requerido para o embate pela vida advêm de séculos de guerras e fome. Mas, para os padrões da classe média suburbana americana – a retratada preferencial de Intervenção -, criada numa espécie de “zona artificialmente pacificada”, como diagnostica Camille Paglia , o que predomina no mais das vezes como o acontecimento traumático que o retratado teria sofrido é descrito nos termos nebulosos e imprecisos de “abuso na infância”. Aliás, é simplesmente inacreditável o número de crianças americanas que teriam sofrido abuso desde que essa categoria indefinida que precede mas não inclui o estupro – que é, evidentemente, considerado mais grave - passou a frequentar a fértil imaginação - e os códigos de regulação de conduta - estadounidense, país que também concentra o maior número de pessoas que se declaram abduzidas por ETs no mundo.

Mas o que interessa reter, por ora, nesse processo, é a necessidade da justificativa para o vício. É inconcebível, segundo o programa, que uma pessoa sem algum trauma profundo faça uso de drogas para fins recreativos – e que daí tenha evoluído para um quadro crônico de vício – ou que uma adolescente plenamente saudável tenha, numa sociedade tão consumista, se excedido nas compras com o cartão de crédito até que isso se tornou um sério problema, ou desenvolvido um distúrbio de alimentação a partir da cobrança social por uma forma física perfeita, sem que ela tenha sido abusada ou estuprada na adolescência (clique aqui para ver episódios e trechos de Intervenção disponíveis no youtube).

Trata-se de um exemplo didático do construcionismo social em voga nos EUA no último quarto de século. Há muito da “ideologia da vítima” – que vulgarizou os estudos sociais no país, notadamente os women studies – perpassando essa abordagem, mas, acima de tudo, há, sob o império do “científico” e do “clínico”, a crença na instalação de uma ordem racional – que reprime a animalidade, o instintivo e o desviante – através da normatização de todas as formas de relação inter-social, das que incluem intimidade - como o afetivo e o sexual - às que se dão em plena arena pública – como o verbal e o comportamental.

Chegamos, assim, à razão de ser deste post: é precisamente essa tendência à normatização geral da sociedade, com toda sua carga opressiva, que vem sendo assimilada, de forma cada vez mais intensa e menos crítica, pela sociedade brasileira. Não me refiro apenas às ações dos políticos conservadores brasileiros, iconizadas nas leis anti-fumo promulgadas por José Serra – de aparência protofascista, mas originadas exatamente desse cadinho de "cultura" -, mas, entre vários outros exemplos possíveis referentes ao espectro político que se lhes opõem, à aderência cada vez maior, em setores que se dizem de esquerda, à defesa de mecanismos de controle e repressão da expressão verbal, inclusive em sua forma mais espontânea e popular: o humor.

Trata-se do conservadorismo mais repressor travestido de progressista, de uma proteção que vitimiza e enfraquece àqueles que alega querer defender e de uma bomba-relógio armada contra a identidade e a peculiaridade da convivência democrática no Brasil, saudada por intelectuais e homens públicos do quilate de Stefan Zweig e de Darci Ribeiro como única no mundo. É, ainda, um caso exemplar de como “numerosos tópicos oriundos diretamente de confrontos intelectuais associados à particularidade social da sociedade e das universidades americanas impuseram-se, sob formas aparentemente desistoricizadas, ao planeta inteiro”, como identificam Boourdieu e Wacquant no imperdível texto “Sobre as artimanhas da razão imperialista” – que você pode ler, na íntegra, aqui. E, por fim, afigura-se como um atestado de óbito da esquerda, que alguns ingênuos e incautos, aparentemente bem-intencionados, teimam em assinar.



(Imagem de Caylee, que se tratou por vício em speedball (heroína + cocaína injetadas na veia), retirada daqui)