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sexta-feira, 19 de junho de 2009

O Caso Sarney: Tríplice Tragédia

(imagem retirada daqui)

O nome José Sarney está associado a práticas políticas retrógradas e a uma trajetória pública questionável, a começar do apoio dado à ditadura militar. Tornado presidente por mero acaso, seu governo foi marcado pela corrupção, com a relação do Planalto com o Congresso sendo chamada de “balcão de negócios”; pelo populismo econômico do “Plano Cruzado”, que levou a classe média ao paraíso enquanto o truque durou, para em seguida remetê-la a uma longa temporada no inferno; e pela pior das muitas crises inflacionárias do país, em que os índices mensais chegaram à casa das centenas. A crônica musical do período – no Brasil quase sempre o melhor termômetro do humor popular -, a cargo do grupo Exporta Samba, resume a bandalheira (“Se gritar pega ladrão/Não fica um, meu irmão”).

O Maranhão, que ele governa há quase meio século (in persona ou por prepostos), com um poder que se estende ao Judiciário e depõe governadores eleitos, é hoje, a despeito de seu tamanho e abundância de riquezas naturais, a mais miserável das unidades federativas do país. Num acinte à ética eleitoral, candidatou-se pelo Amapá quando viu que seria rejeitado pelo voto na sua capitania hereditária maranhense. Morto ACM, Sarney é hoje a imagem escarrada do coronelismo. Eis a tragédia número um.

Dada a folha corrida do autor de Marimbondos de Fogo, é de causar espanto que, de repente e só a partir do momento em que Sarney assume a presidência do Senado, a mídia e a oposição – que no Brasil atual por vezes se confundem - passem a associá-lo, diariamente, a uma sequência aparentemente interminável de falcatruas. A mais escandalosa delas – os inacreditáveis “atos secretos” do Senado, que distribuíram cargos a granel sem notificar a sociedade de tal decisão – vem, como até o jornal O Globo de hoje reconhece, ocorrendo há anos e, no entanto, não se tem a oportunidade de ver congressistas demo-tucanos ou jornalistas acusando presidentes anteriores da casa, mesmo porque alguns deles eram da oposição.

Oposição esta que, representada por figuras que a cada dia se tornam mais fanfarrônicas – como Arthur Virgílio, Álvaro Dias e Raul Jungman – não demonstra o mínimo pudor em adotar um moralismo raso e falso, pois aplicável apenas às forças políticas às quais se opõem, nunca às condutas dos membros dos partidos que, para desalento da sociedade, representam.

Nem a velhinha de Taubaté acreditaria que tais figuras ajam por amor à ética, mas sim pela mais cruenta guerra política. Aliás, um dado essencial do caso ao qual não tem sido dada a devida atenção é que a eventual remoção de Sarney da presidência do Senado poria esta no colo de Marconi Perillo, membro do coronelato peessedebista goiano e inimigo do Planalto. Por todas essas razões, eis porque, apesar da gravidade das denúncias, se trata, de fato, de denuncismo. Essa atuação do conluio mídia-oposição compõe a segunda parte da tragédia.

Para completar a ópera-bufa, o presidente Lula, sempre tão cioso em conservar a blindagem pessoal e manter-se afastado dos membros de sua aliança acusados de corrupção, vem a público afirmar que “Sarney tem história suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum”. E eu que pensava que, segundo a Constituição do país que Lula governa, todos os cidadãos fossem iguais perante a lei...

O blog do Mello aventa a possibilidade de José Serra estar por trás da perseguição denuncista a Sarney. Afinal, costuma-se debitar na conta do governador paulista a operação da Polícia Federal que, em 2001, retirou a filha do senador, a então candidata presidencial Roseana Sarney (atual governadora não-eleita do Maranhão) do páreo. Ora, mas o presidente Lula, com toda sua louvada sapiência política, ao firmar aliança com a ala do PMDB comandada por Sarney, não sabia dos humores figadais que opõem o truculento bandeirante e o coronel maranhense? Exímio enxadrista que já demonstrou ser, não foi capaz de prever desenrolar tão evidente do jogo político?

Esse é o tipo de episódio em que nenhum lado tem razão, a despeito dos esforços argumentativos dos detratores do governo Lula e de seus apoiadores - alguns dos quais teimam na tática eticamente inaceitável de minimizar atos de corrupção. Sarney, pelas práticas a ele associadas, por tudo o que representa e, sobretudo, pela insensibilidade em não perceber que pertence ao passado e que está manchando de forma indelével sua própria biografia; a oposição e a mídia por apostarem, uma vez mais, num denuncismo histérico e “fulanizado” como forma de luta política, sem atacar as razões estruturais da corrupção; e, pairando acima de todos, o presidente Lula, não só pela realpolitik por demais elástica que pratica – e que junta no mesmo saco Sarney, Collor de Mello e Geddel Vieira Lima, entre outros -, mas por não preservar a Presidência, posando como defensor de práticas e figuras políticas que não coadunam com um regime verdadeiramente democrático nem com seu passado político. Esta, a terceira e última parte da tragédia.

8 comentários:

Lívio Nakano M.D. disse...

Só faltava mesmo voce me contar quem assumiria se o Sarney saísse, para pegar o fio da meada!

Para aqueles que gostam de teorias conspiratórias, aí vai umas gotinhas de reflexão:
- Quando anunciam a voce, sobre a importância de se votar, da conscientização deste ato e do ato de cidadania de se comparecer às urnas, (até aí, completamente correto), será que este superdimensionamento deste momento cívico não se esquecem de te lembrar que voce é cidadão, com direitos ininterruptos durante todo o resto dos dias do ano?
Propositadamente, ou não, o que se vê é que o comportamento de nossos cidadões é incrivelmente passivo, como se “aceitassem” a sugestão de serem cidadãos 1 minuto a cada 2 anos.
- Quando eles argumentam para voce fiscalizar o político em que VOCE votou, não parece que na verdade, eles “sugerem” para voce “deixar quieto” TODOS os outros políticos? E se seu candidato não se elege? E o ilustre deputado do Rio Grande do Norte, se voce mora do Paraná? Nesses que voce não votou, voce não pode fiscalizar?
- A QUEM interessa tratar diferentes governos como se fosse cobertura esportiva entre PTistas e PSDBistas?
Quando se iguala todos no mesmo nível, quem acaba levando a vantagem?
Ora, o fisiologismo, a politicagem e a disputa pelos “cargos de confiança”, vicejam em nome da “governabilidade”, e ainda que sejam periodicamente alvo de manchetes, ninguém vai a fundo nas causas que favorecem. É SÓ atribuir a responsabilidade de TUDO aos atuais eleitos!
Que será que acontece no próximo pleito, independendente de quem for o governo eleito, não é mesmo?
Jogar simplesmente os escandalos por conta de determinado personagem, sem revisar e se corrigir todas as brechas “legais” que o permitiram é pedir para que tudo nunca mude - não parece algo que assistimos hoje em dia?

Maurício Caleiro disse...

Lívio,

Concordo plenamente com o que diz.

É a "política do eterno escândalo", que só beneficia o partido de oposição (seja ele qual for) e a mídia, que tem assunto "quente" para iludir seus leitores/espectadores...

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Não era lá minha intenção mas... que seja!=)

Maurício Caleiro disse...

Ok,Raphael, fico feliz que tenha compreendido.

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Sarney é uma das figuras que mais trabalharam pelo subdesenvolvimento do Brasil nas últimas décadas - claro, nem chega perto de ACM, mas deu um belo contributo para a história.

Lula, por sua vez, com seus erros e acertos, está fazendo o governo mais progressista da história do Brasil. Como qualquer governante que pretenda fazer um governo institucionalóide no Brasil de hoje, ele é obrigado a fazer alianças espúrias para governar.

O pior é que ele tinha escolha: Se não tivesse virado as costas para os movimentos sociais, poderia estar fazendo um governo de frente popular, usando o povo como elemento de proteção contra as alas fisiológicas do congresso.

Ironia das ironias, o velho Tancredo foi um dos poucos políticos brasileiros a saber usar o povo contra as insituições decrépitas, fazendo camapanha para presidente em eleição indireta como se direta fosse em 85 e, curiosamente, Sarney virou presidente graças a isso e a morte de Tancredo.

Mesmo partindo da lógica institucionalóide de Lula, eu creio que ele anda errando o cálculo em relação a Sarney e exagerando a mão em relação ao apoio ao Senador amapaense. Eu poderia traçar um paralelo na relação entre os dois com aquela que havia entre FHC e ACM - ainda que, naquele caso, as coisas fossem bem mais espúrias.

Por exemplo, nunca ter ido a São Luís enquanto Jackson Lago foi governador, é o fim do mundo. Ademais, Lula não precisa de Sarney tanto quanto FHC precisava de ACM.

Por outro lado, sim, esse bombardeio contra o Presidente do Senado tem fundo eleitoreiro: Querem enfraquecer a ele e, por conseguinte, a sua ala no PMDB para favorecer a ala de um Michel Temer - aliada dos tucanos.

Estaria Serra por detrás disso? Talvez, inclusive porque não lhe interessa um Sarney forte para o ano que vem.

Maurício Caleiro disse...

Hugo,

Realmente, a forma como a política institucional está estruturada no Brasil exige do presidente que faça alianças amplas (et pour cause, espúrias).

Concordo que Lula poderia ter ao menos minimizado os efeitos disso privilegiando alianças à esquerda e os movimentos sociais.

Por outro lado, parece-me que os partidos e os setores do PT ditos "de esquerda" - e mesmo parte dos movimentos sociais - se precipitaram em marcar posição e ameaçaram a própria governabilidade por ocasião do "mensalão", o que acabou por jogar Lula no colo de Sarney e do PMDB mais fisiológico.

O pior é que se Sarney cair agora, a presidência do Senado vai para o pior PSDB. Isso, a um ano das eleições presidenciais, seria uma arma poderosa nas mãos dos tucanos.

Um abraço,
Maurício.

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

Sobre os setores mais à esquerda do PT, ocorreu de tudo, teve gente que saiu porque era séria e gente que queria se promover, mas acho que, lá no comecinho, a culpa foi de Lula e da cúpula do PT mesmo: Viraram as costas para os movimentos sociais e para alguns setores dentro do próprio PT, talvez para provar que eram confiáveis.

O Congresso Nacional do Brasil, por mais que seja duro admitir - e por mais motivos do que qualquer um de nós poderia supôr - é uma massa anômala. Boa parte de quem tá lá são políticos de médio porte, párocos de província, que votam de acordo com o que as lideranças mandam, dão suas aprontadinhas e nada mais.

Sarneys da vida são poderosos desde o momento - e tão somente - quando vira as costas para os movimentos sociais, quando você faz isso, fica dependente de algumas centenas de parlamentares, a maioria, eleitores de cabresto de meia dúzia de coronéis.

Voltando ao exemplo de Tancredo, se ele não tivesse feito campanha para presidente como se fosse direta, ele não teria vencido. Fazendo aquilo ele obrigou muitos parlamentares a votarem nele, afinal, uma vitória de Maluf seria desastrosa naquele momento porque ele não tinha nenhuma legitimidade popular. O Congresso não suportaria a pressão popular.

Lula, por incrível que pareça, não soube trabalhar isso bem.

Maurício Caleiro disse...

Hugo,

Não havia entendido que você se referia a um momento anterior do PT e de Lula. Aí concordo plenamente com suas críticas. Aliás, não podemos deixar de lembrar a "contrribuição" à realpolitik dada, naquele momento, pelo "comandante" José Dirceu (de quem eu não compraria um carro usado)...