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segunda-feira, 22 de junho de 2009

A internet como arma político-ideológica

(Fotos retiradas daqui e daqui)

A semana que passou foi excepcionalmente pródiga de medidas relativas ao uso político-ideológico da internet e de más notícias concernendo o o uso livre da rede.

Dois meses depois da condenação dos suecos do site de troca de arquivos Pirate Bay a um ano de prisão, H. Jane Thomas, uma mulher de 32 anos de Minnesota, no meio-oeste dos EUA, foi condenada a pagar U$1,84 mi a grandes gravadoras sob a acusação de ter baixado ilegalmente 24 músicas da internet. Cada uma vai custar a ela, que nega ter feito qualquer download ilegal, U$80,000. Trata-se do primeiro caso relativo ao download de músicas pela grande rede a ser julgado em última instância no país. Teme-se que a sentença crie jurisprudência, propiciando a condenação de milhares de outros acusados condenados em primeira instância, além de fornecer incentivo para que a decadente indústria fonográfica inicie uma caça às bruxas.

Outra notícia inquietante diz respeito ao Irã. o Google anuncia a criação e imediata disponibilização de uma ferramenta especial de tradução do persa para línguas ocidentais, especialmente desenvolvida para que os iranianos possam enviar seus protestos pela internet mundo afora. A novidade e o momento em que vêm a público evidenciam ainda mais, até para os que insistem em não ver, o ímpeto do Ocidente de insuflar as manifestações contrárias à reeleição de Mahmoud Ahmadinejad e em prol do candidato derrotado Mir-Hossein Moussavi. Como se sabe - graças a inusitada e inédita atenção da mídia mundial - a oposição ao atual presidente alega fraude nas eleições.

Mas a notícia mais assustadora vem da China, com a vocação autoritária do atual regime – ferozmente capitalista do ponto de vista econômico, duramente repressivo em termos políticos – se manifestando de forma vigorosa contra a internet. Além do aumento de censores cibernéticos (que as autoridades alegam tratar-se de trabalhadores voluntários), o governo determinou que os computadores passem a sair de fábrica com uma configuração que impeça o acesso a milhares de sites. É pouco crível a alegação oficial de que as restrições limitam-se a sites pornográficos. ONGs iniciam campanha internacional para pressionar as empresas multinacionais que fabricam computadores na China a se recusarem a seguir a norma. O país, como se sabe, leva muito a sério o universo da comunicação virtual. Tanto que, durante as Olimpíadas de Pequim, o presidente Hu Zintao advertiu pessoalmente os jornalistas quanto aos riscos de violar a lei chinesa para a internet...

Enquanto isso, no Brasil, mais um blogueiro é vítima de inquérito policial visando a ser criminalmente processado, no que já vai se tornando uma triste rotina de repressão à livre-manifestação de idéias na blogosfera. Desta feita o alvo é o advogado e ex-atleta Alberto Murray Neto, vítma da intransigência, do ego inflado e da falta de espírito democrático do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman.

A facilidade com que se instauram, no Brasil, processos visando intimidar produtores independentes de informação na internet é uma das razões que me fazem defender a criação de alguma forma institucional de ligação entre blogueiros não-corporativos, que preserve a autonomia opinativa e jurídica de cada blog mas garanta não apenas a louvável solidariedade, mas ajuda jurídica e/ou financeira para essas eventualidades. Trata-se de empreendimento dificílimo de organizar e manter, mas parece-me algo para se ter no horizonte se se quer realmente manter e ampliar o papel da blogosfera como produtor de notícias e visões críticas no setor comunicacional brasileiro.


Mesmo porque, convém lembrar uma vez mais, a lei Azeredo está para ser votada – tendo na mira justamente a blogosfera e a livre circulação de conteúdos na internet – e a Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), marcada para o início de dezembro, se aproxima cada vez mais. É preciso que a blogosfera se organize de alguma forma para se contrapôr às forças da mídia corporativa nesses dois eventos. Porque - não tenham dúvida -, a blogosfera será o principal alvo dos grandes grupos de comunicação, acostumados ao monopólio, inconformados com a democratização da notícia e da opinião, e desconfortáveis com o cerrado escrutínio a que os blogueiros diariamente os submetem, desvelando os interesses por trás de suas alianças políticas e práticas e omissões jornalísticas.

7 comentários:

Hugo Albuquerque disse...

Maurício,

De fato, como pudemos assistir este ano nas crises da Moldávia e do Irã, a Internet teve um peso muito grande mesmo.

No ano passado, a estratégia russa de derrubar a rede na Geórgia foi particularmante interessante e nos deu pistas interessantes: A própria Guerra também não passaria incólume por essa internetificação, mais do que isso, por essa informacionalização, afinal, esse fenômeno se manifesta muito além da própria Política dada a sua natureza estrutural.

A burgo-burocracia chinesa tem sido profundamente hábil em controlar a Internet em larga escala, no entanto, há ameaças claras contra essa prática: Num primeiro momento, citaria o fato do país estar se voltando para o próprio mercado interno, dada a crise mundial. Isso deve favorecer a classe trabalhadora e a alienação proveninente do modelo industrial exporta-explorador vai arrefecer devido ao esgotamento do próprio sistema.

Mesmo antes disso, a lenta formação de uma classe média na China já produziu efeitos interessantes quanto às liberdade individuais. Processos de acumulação material razoavelemente sustentáveis e perenes são um grande problema para qualquer tipo de ditadura.

Isso me dá grandes esperanças, ainda que a a incrível competência técnica do referido Estado na censura da rede me assuste - e muito.

abraços

Flavia disse...

A China, que eu lembre, bloqueou o acesso ao youtube no país todo durante as olimpíadas. Acho que vi a notícia nos tempos em que visitava mais a BBC news.(bons tempos aqueles da infância... todo problema parecia tão longe...)

Maravilhoso post, Mau. Você é, de prache, fera. Tenho orgulho de ser tua amiga (ops, vai parecer que sou piegas, na verdade até sou, idiossincrasias...)

Tou chegando na porrada à conclusão que devo abandonar aquele projeto de mestrado com cinema distópico e botar a cara pra bater (e vou apanhar de verdade) no Depto de Sociologia. Outrora, quando fazia contra todos um projeto de Sociologia da Ciência (sobre a Biologia ideológica mais alinhada ao pensamento neo-con) acabei desistindo. Por mais que o campo esteja desenvolvido no exterior, a USP está na idade média quando se trata do sociólogo analisar a biologia (apesar que Foucault apontou alguns caminhos, mas eles só desconfiam das práticas médicas e ao mesmo tempo acreditam que a biologia seja ciência pura...). Isso sem contar com dois trabucões do depto que sabem do que se trata, são neocons e dominam a matéria, então eu ia ser fuzilada no paredão (e sei que não seria a primeira, o mesmo ocorreu com Marília Coutinho, que ficou tão traumatizada que hoje nem quer ouvir falar de sociologia das ciências).

Mas vou ter que elaborar um projeto. Vou ter que submeter o assunto que ocorre no mundo sem recortes ao recorte acadêmico, às formas de pesquisa determinadas pelos fomentadores, à máquina de produção de papers sem profundidade, pois é nisso que as agências transforam a universidade: em máquina de fazer paper (sobre esse tipo de análise, a quem interessar, Knor Cetina e Latour, leituras dos meus tempos de ex-quase-futura-socióloga-da-ciência. p.s. por que este ser vive a indicar bibliografias? por que trata o conhecimento como liberação, não confunda com esnobismo: para que seja possível liberar é preciso a porta de acesso: daí a citação)

vou ter que cortar o assunto feito açougueira, e vou ter que dar minha cara pra muita porrada. No depto de Socio, há claro, os que pensam diferente - eles são os profs com menos verbas pra pesquisa, coincidentemente - há um pensamento hegemônico, segundo o qual a pesquisa que não se baseie em Bourdieu (o cara nem é ruim, mas a picuinha acadêmica cria rachas homéricos) quem não usa a bosta do Bourdieu (até eu) não faz sociologia, mas diletantismo. Por que Bourdieu representa o método sociológico. Problema: o cão do Bourdieu é sociólogo que determina que são as instituições o único objeto da sociologia. A internet não cabe nessa categoria "instituição" facilmente. Para tanto eu precisaria descaracterizá-la e amputála ao nivel que se torne irreconhecivel e que não dá margem a que entre todo esse fenômeno apontado no seu texto, por exemplo. E vou levar muita porrada por me negar a amputá-los e enfiar a internet nessa forma para todo e qualquer sapato.

A mesma imbecil disse...

Ai, deixa eu continuar a desabafar? Tou precisando extravasar, pra depois começar a engolir sapo.

Entra ai a questão da autoridade à qual remeti num post http://algodao.algumlugar.net/2009/06/saidas-contra-um-novo-culto-da-especializacao/
As contradições se expressam nas ações, mesmo quando se quer mudar, é necessário ser contraditório, pois é preciso agir no mundo contraditório. Quero dizer, para tirar assuntos da invisibilidade e da inexistência simbólica vou ter que me dobrar o meu punk-anarquismo feliz e me sujeitar a virar autor pra que o assunto passe a existir por ganhar o selinho da instituição acadêmica. Puta porre. No entanto, todas as minhas células me dizem que preciso fazer algo e, bom, deixa por ai. Toda a ação é muito limitadinha. Corre o risco de ficar sendo só sofisticação na estante de uma biblioteca que não é pública http://sijogancia.wordpress.com/2009/04/19/divagacoes-sobre-a-distribuicao-do-conhecimento/

E depois tem o preconceito da área criado nos anos noventa, contra o que quer que tenha nome de ONG. Os melhores profs na década, jogaram o assunto no lixo ao reduzi-las em umas duas frases confusas: ONGs são terceiro setor (não-estado,e não-partido, portanto não-político)e são responsáveis pela fragmentação da política (como se fosse responsabilidade mesmo delas). Daí virá mais porrada.

Ou seja, tou fu..ida. E quando não se tem base na forma de produção acadêmica recente, é preciso desencavar e amarrar muito bem os autores do passado. Lembrar as origens da sociologia. Vou levar mais porrada dai - quem sou eu pra lembrá-los o que é sociologia? uma professora de inglês estúpida, que com 34 anos nem fez mestrado pra provar que é gente. Por isso, estou querendo ler de Dilthey a Makkreel, e ainda assim vai dar briga. Tou ferrada, além de toda a amplitude da informação atual, vou ter que dar conta de me sofisticar com os clássicos do passado. Cara... era mais simples eu tomar um porre de saquê.

Maurício Caleiro disse...

Hugo,

Essa questão da internet na guerra é muito interessante. Imagino que talvez a leitura do livro do Paulo Arantes tenha influenciado de alguma forma seu comentário.

Quanto ao Irã, ele está funcionando, até agora, como um belo exemplo de contrainformação, com as imagens captadas por celulares e difundidas via twitter ganhando o mundo.

Ainda não li seu post sobre o Irã. Estou indo a'O Descurvo agora para tanto.

Um abraço,
Maurício.

Maurício Caleiro disse...

Flavinha,

Boa sorte com seu projeto! Não adianta, fazer pós é engolir sapos, mas acaba sendo muito produtivo (e dá "status", he,he,he!!!).

Quanto a Bourdieu, tenho certeza que, com aquela inteligência sublime e aquela militância genuína ele teria amado conhecer a internet em sua forma atual. Procure bem que ele tem conceitos muito interessantes para serem aplicados à ela.

Abreijos,
Maurício.

Flavia disse...

Mau, eu sei, continuo defendendo que o Bourdieu tem algo de bom mesmo frente aos que tem raiva dele. A raiva deveria saber separar o autor dos seus leitores. São os leitores que usam a obra dessa forma auto-limitada, e não importa, mesmo que seja verdade os contos dos que odeiam o Bourdí, dizendo que na verdade ele era um mafioso universitário que aplicava maquiavelicamente os conhecimentos que produziu e que usava coisas vindas de Foucault sem citar. Isso tbm não importa, depois que ele pôs o filho no mundo, e mesmo que seja bastardo, é possível retirar coisas de proveito dele. Não dá pra jogar uma obra no lixo só por causa da forma como os seus leitores a usam.

Vou ver que é tudo isso de Irã, agora no Descurvo.

Maurício Caleiro disse...

Bourdieu utilizar Foucalt sem citar? Sei... como se ele precisasse... agora conta aquela do papagaio perneta (rs).