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domingo, 31 de março de 2013

Vi o Mundo e a blogosfera sob ameaça

O sufoco por que passam os blogs não corporativos, fenômeno que vinha se intensificando nas últimas semanas com a condenação judicial, ainda que em primeira instância, de uma série de blogueiros – Cloaca News, Marco Aurélio Mello, Rodrigo Vianna, os irmãos Mário e Lino Bocchini (da Falha de S. Paulo ) - tornou-se uma questão de primeira ordem a partir da repercussão de um post em tom de desabafo escrito por Luiz Carlos Azenha. Nele, o jornalista e editor do Viomundo declara-se em vias de fechar o blog por alegadamente não poder arcar com os custos de um processo judicial movido por Ali Kamel, diretor-geral de jornalismo da Globo, os quais só na primeira fase já teriam somado 30 mil reais.

Mais do que trincheiras de militância política, os chamados "blogs sujos" vêm se tornando, de forma cada vez mais intensa, polos de resistência e de diversificação de enfoques e análises em um país cujo setor comunicacional, fortemente concentrado, encontra-se assumidamente partidarizado – condição que, por sua vez, no contexto do jornalismo brasileiro, gera um déficit de credibilidade que agrava ainda mais a crise estrutural da imprensa decretada pela popularização da internet.


Arena democrática
O Viomundo ocupa uma posição privilegiada nesse cenário. Em primeiro lugar porque, ao contrário do que logo se apressaram a proclamar membros de uma certa esquerda que parece sempre mais interessada em desagregar e instaurar a cizânia de modo a fazer valer suas posições, nunca foi um blog chapa-branca. Pelo contrário: as vigorosas reportagens de Conceição Lemes sobre a gestão federal da Saúde, o acompanhamento das greves nacionais e da questão sindical e a reprodução de textos selecionados de colaboradores – dentre os quais alguns dos posts mais críticos ao governo por este blog publicados – formam, hoje, somados a textos que apresentam uma visão mais simpática – mas não necessariamente menos crítica – do governo Dilma , um testemunho vivo dos erros e acertos da atual administração federal em seus mais de dois anos de vigência.

Um segundo ponto em que o Viomundo se destaca é pela qualidade de sua caixa de comentários, que acaba diversas vezes por se transformar, efetivamente, em um fórum de debates de bom nível, feito raro no atual estágio da blogosfera, em que os demais blogs políticos de grande audiência, corporativos ou independentes, estão longe de repetir, com suas igrejinhas, trolls e agressividade grassante.



Luta é pela blogsfera
É evidente que não são só por essas qualidades que lutar pela sobrevivência do Viomundo é neste momento essencial. Descrevo-as como forma de esconjurar o fantasma de seu possível encerramento através do testemunho afetivo do que ele significa para mim. Mas ainda que se tratasse de um blog minúsculo, chapa-branca e sem comentaristas – ou com comentaristas a se digladiar agressivamente – a luta se faria igualmente necessária, porque o que está em jogo aqui é a garantia de liberdade de expressão para além do universo capitalista das corporações midiáticas e a manutenção dessa experiência riquíssima de participação e debate politico que a blogosfera e as redes sociais têm propiciado no Brasil na última década.

Creio não ser preciso me alongar quanto a isso: é já dado histórico que, num passado recente, foram, em larga medida, essas novas modalidades comunicacionais que, entre tantos outros episódios, desvelaram a farsa midiática por trás de episódios como a publicação da ficha policial falsa da candidata Dilma Roussef na capa da Folha de S. Paulo; o aparelhamento político-partidário da revista Veja e sua transformação em máquina de factoides e destruição de reputações; a farsa envolvendo Lina Vieira, secretária da Receita Federal ligada ao clã chefiado por Agripino Maia (DEM/RN); a bolinha de papel que atingira o candidato José Serra (episódio em relação ao qual o próprio ex-presidente Lula, em seu histórico encontro com blogueiros, reconheceu a importância da atuação da blogosfera no restabelecimento da verdade que o Jornal Nacional estava a falsear).

Através dessa atuação a blogsfera política foi ganhando respeitabilidade, audiência, proliferando em novos blogs – e hoje, embora ainda esteja longe de oferecer em quantidade reportagens e matérias jornalísticas originais, vem superando, em termos de credibilidade e para um público maior e melhor qualificado, a mídia corporativa como fonte de análises politicas.



De arauto a grilo falante
O que parece essencial sublinhar, no esforço para contextualizar os fatores que levaram à atual crise da blogosfera, é como ela passou, ao longo de governo Dilma, de alinhada prioritária da administração federal petista à atual condição de "persona non grata" nas hostes palacianas. Um primeiro estranhamento se deu no período imediatamente posterior à eleição de Dilma, em que um esperado gesto de agradecimento da eleita para com os blogueiros que se dedicaram intensamente à sua campanha não veio (foi no intuito de preencher tal lacuna que se organizou o encontro de Lula - veja bem, de Lula, não de Dilma - com os blogueiros). Tal quadro agravou-se com a nomeação de Ana de Hollanda para o Ministério da Cultura e a adoção de uma política reacionária em relação a direitos autorais e novas tecnologias digitais, contrária à posição dos principais ativistas da causa no país, cuja mobilização pela eleição de Dilma, liderados por Marcelo Branco, fora intensa.

Mas a cereja do bolo na banana que Dilma deu à blogosfera foi sua aproximação entusiasmada para com a mesma mídia corporativa que a difamara de todas as formas durante a campanha eleitoral, incluindo uma visita ao programa Ana Maria Braga e a confraternização com a fina flor do tucanato na festa pelo aniversário da Folha de S. Paulo.

Daí por diante a blogosfera, que, embora majoritariamente unida em torno da candidatura Dilma, nunca fora o monolito ideológico que seus adversários pintam, passou a apresentar divisões internas mais nítidas. Uma porcentagem de seus membros optou pela oposição sistemática ao novo governo e, embora prevalecesse a maioria a favor, esta dividiu-se entre os blogs de apoio irrestrito ao governo, outros de apoio crítico - entre os quais se insere a maior parte dos blogs sob judice - e ainda outros que professam imparcialidade jornalística. Seja como for, o apoio entusiasmado do período de disputa eleitoral com José Serra e a pior direita deu lugar, em larga medida, à produção de demandas políticas específicas e de conteúdo crítico em relação ao governo Dilma. A blogosfera se transformara em grilo falante, definiu alguém.



Mutações do poder
Nesse ínterim, o ministro Paulo Bernardo, que no início do governo frequentava risonhamente as redes sociais prometendo disseminar a banda larga e batendo altos papos com blogueiros, dá um block geral, enclausura-se no interior do ministério em companhia dos acólitos das teles e passa a qualificar os blogueiros de "vagabundos" enquanto trama um repasse milionário do Estado para as empresas particulares de telecomunicação, recordistas de queixas nos Procons, que, com a anuência do governo, vendem banda larga a preço de internet por satélite e velocidade de conexão discada.

É no contexto dessa dinâmica que se dá, lenta e paulatinamente, o confronto entre um governo cuja secretaria de Comunicação continua a irrigar generosamente os cofres da mídia corporativa – da mesma mídia corporativa que muitos dos blogueiros chama de PIG, como "homenagem" à forma implacável como tais veículos exercem uma oposição tão cerrada quanto desqualificadora em relação ao governo federal -, enquanto mantém a torneira fechada para os blogs e demais órgãos de imprensa alternativos.



Pragmatismo x ideologia
A lógica por trás da ação governamental é cristalina, e se amolda à perfeição ao seu projeto de expansão de hegemonia político-eleitoral à revelia das questões ideológicas, priorizando alianças o mais amplas possível (ainda que´politicamente esdrúxulas ou eticamente insustentáveis), o desenvolvimentismo a qualquer custo e a manutenção prioritária dos índices econômicos. Em relação a tal programa, parte considerável da blogosfera, com suas críticas pontuais, sua memória para com compromissos de campanha e, sobretudo, o pendor com que teima em insistir numa tomada de posição ideológica por parte do governo, transforma-se de aliado de primeira hora em incômodo porta-voz de escrúpulos que se quer superados. "Com a tentativa de dar um abafa no jornalismo independente, o governo Dilma manda um recado claro para bons entendedores: a politização do debate não está nos seus planos, muito menos aquela que daria ensejo a recortes de classe, ainda que somente uma tomada de consciência", assinalou um observador arguto.

O dado paradoxal – e revelador da importância jornalística da blogosfera e do quanto é falsa sua visão como um bloco monolítico chapa-branca – é que o leitor jamais se inteiraria da dinâmica de tal processo através das fontes jornalísticas convencionais. Seria preciso investigar o retrato do governo Dilma em blogs como os agora processados, ou, por exemplo, os de Altamiro Borges e Maria Frô, ou mesmo este humilde boteco, para se inteirar de tais percalços.



Problema é antigo
No atual contexto, um eventual recuo da blogosfera ante dificuldades econômicas impostas pelo custo de processos judiciais – algo que uma eventual combinação de litigância de má-fé e proximidade das eleições pode tornar explosivo – significaria um tremendo retrocesso, com graves consequências para o debate público no país e, em decorrência, para seu próprio avanço democrático. É importante notar que tal possibilidade não se trata de um fato novo: em um texto publicado no Observatório da Imprensa no já longínquo ano de 2009, logo após o fechamento do blog A Nova Corja em virtude dos custos físicos, psicológicos e financeiros dos processos judiciais que sofrera, registrei:
A despeito do temor de alguns blogueiros de que alguma forma de representação coletiva venha a comprometer sua independência, torna-se cada vez mais urgente, devido à profusão de processos judiciários contra blogs e ao intervalo cada vez menor entre eles, a montagem de uma rede de proteção jurídica a curto ou médio prazo. Ela poderia ser erguida, por exemplo, com a participação de advogados voluntários, ligados ou não a ONGs e universidades, mas cientes da importância do papel da blogosfera independente e dispostos a contribuir com seu tempo e saber jurídico da mesma forma generosa e gratuita que tantos blogueiros se dedicam às atividades de pesquisa e redação.

Reação pungente
Esse tema foi intensamente debatido no I Encontro Nacional de Blogueiros (realizado em 2010) e, talvez com menos intensidade e menor sentido de urgência, nos encontros nacionais e regionais posteriores. Com a deflagração da atual crise da blogosfera, torna-se premente a retomada de tal debate e a efetivação concreta de medidas reativas.

O caso Viomundo provocou uma grande reação na blogosfera e nas redes sociais, mobilizando corações e mentes para uma rápida reação. Uma reunião foi marcada para a próxima terça-feira, 02/04, as 17h, no Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé (Rua Rego Freitas, 454 – 1o. Andar – conj. 13) visando a busca de soluções para o caso Viomundo e o encaminhamento de debates tendo em vista resolver tal impasse. Todos os interessados são convidados. Confira aqui a convocatória e algumas sugestões de pauta.




(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 26 de março de 2013

FHC na ABL

Sempre tive uma grande dificuldade para entender o que faz uma figura pública, ainda mais se intelectual ou artista popular, querer entrar para a Academia Brasileira de Letras.

O ridículo das vestes, o minueto social das tertúlias autobajulatórias, o chá no país do cafezinho e, sobretudo, a falta de representatividade por abrigar, sem critério ou mérito, uma profusão de ditadores, políticos e jornalistas sem o mínimo talento e em alguns casos - como os de Getúlio Vargas e Merval Pereira - até sem obra publicada levam-me a questionar o porquê de gente séria e talentosa de quando em quando se candidatar à instituição.


Ganhos indiretos
Senti uma dor no coração quando meu ídolo dos tempos de faculdade Nelson Pereira dos Santos vestiu o fardão e aboletou-se à cadeira número sete. Mas, embora não assuma publicamente, o veterano cineasta tem razões objetivas e insuspeitas para agregar-se à ABL: em um país em que a cultura dos diplomas ainda prolifera e que a produção cinematográfica encontra-se na mão dos diretores de marketing das empresas, a condição de acadêmico o credencia junto aos donos do poder e o ajuda a levantar fundos para os projetos pessoais que deseja realizar. (Note-se o absurdo de o mais longevo e mais prolífico dos cineastas brasileiros, reconhecido internacionalmente, ser, com mais de oitenta anos, obrigado a passar o pires quando quer abordar temas que não interessam ao poder.)

Mas, à revelia das exceções e casos especiais, continuo custando a entender porque pessoas inteligentes, brilhantes e informadas – como o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero, o compositor Martinho da Vila e o ensaísta Muniz Sodré, para citar três dentre tantos exemplos possíveis – almejam (ou almejaram um dia) a condição de imortal de academia. Apego à tradição e à simbologia? Ambição desmedida? Vaidade?


De Machado a FHC
Essa reflexão acerca da ABL veio no bojo do anúncio da candidatura do ex-sociólogo e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso à instituição. Não restam dúvidas de que, comparado a alguns de seus futuros colegas de chá, o atual candidato tem, efetivamente, uma obra a apresentar, representada por sua contribuição à formulação da Teoria da Dependência, que, a partir dos anos 60, procurou explicar as relações entre metrópole e colônia a partir de uma confluência entre o legado weberiano e a releitura de Marx.

É forçoso notar, no entanto, que se trata de um arcabouço teórico que envelheceu mal, tendo sido desautorizado pelo próprio FHC, tanto em declarações ("esqueçam o que eu escrevi") quanto nas ações que tomou como presidente da República, ao abraçar o mais desbragado neoliberalismo.


Candidato único
Isso reforça a impressão de que, para além da contradição de se nomear para uma academia de letras alguém que pediu que esquecessem o que escreveu, a motivação para tal nomeação tem pouco ligação com seu legado intelectual e tudo a ver com o que oferece em termos de projeção midiática e o que significa em termos de gesto político.

É o ex-presidente, – que, num exemplo de seu espírito democrático, só aceitou candidatar-se se não houvesse concorrência passível de derrotá-lo -, e não o escritor, quem assoma à academia e à ribalta pública, a vaidade repressada no fardão como em um espartilho e a bajulação de uma dúzia de pseudointelectuais fazendo as vezes do reconhecimento popular que os brasileiros lhe negam. É altamente significativo das intenções políticas da candidatura que o ingresso de Fernando Henrique na ABL se dê no momento mesmo em que seu legado sai do anonimato forçado a que os candidatos tucanos o relegaram na última década e volta, através da candidatura, por ele impingida, de Aécio Neves à Presidência.



Luzes da ribalta
A mídia, evidentemente, vibra com a possibilidade mais manchetes positivas relativas a um de seus ídolos. Antes mesmo da confirmação da candidatura já pululavam nos portais notícias sobre o novo imortal - contrapostas a manchetes negativas sobre Lula e Dilma, como é de praxe.

Porém a inação do governo Dilma em relação à mídia e a teimosia em continuar enchendo as burras das grandes publicações enquanto a imprensa alternativa agoniza desautorizam a repetição ad infinitum das queixas contra a mídia e a vitimação do governo petista – já se passou tempo suficiente para saber que é este mesmo seu modus operandi e, há dez anos no Planalto e com ampla aprovação popular, o governo Dilma tem poder mais do que suficiente para enfrentá-la, prestando um favor à democracia.

Prefere, porém, a inação e o silêncio, entrecortado de frases acacianas de efeito. Talvez ainda mais misterioso do que compreender as razões que levam um artista ou pensador de qualidade a almejar uma vaga na ABL seja entender o porquê dessa recusa do governo petista em fazer valer a Constituição no que concerne a mídia e comunicação no país. Ou não, pelo contrário?



(Imagem retirada daqui e dali e manipulada digitalmente)

domingo, 24 de março de 2013

A alta aprovação de Dilma

Os altos índices de aprovação de que hoje goza o governo Dilma, da ordem de 63% para a administração e de 79% para a mandatária, têm sido referidos, sobretudo, como vantagem antecipada para as eleições do ano que vem – e uma ducha de água fria nas pretensões da oposição e da mídia, ultimamente tão excitadas com a eventual candidatura presidencial de Eduardo Campos (PSB/PE).



Com 85% de aprovação ao governo Dilma no Nordeste, as possibilidades do neto de Miguel Arraes diminuem drasticamente não só nas urnas, mas no nascedouro mesmo da candidatura, neste momento, em seu potencial de arregimentar apoio político e financeiro para viabilizar-se como candidato com chances reais de vitória.



O PSDB, por sua vez, mantém-se preso às divisões açuladas, por um lado, pela obsessão que o campeão de rejeição e de derrotas José Serra nutre pela Presidência e, por outro lado, pela hesitação de Aécio Neves entre continuar inalando a boa vida de playboy na "Cidade Maravilhosa" ou candidatar-se à aridez do Planalto Central, ainda mais com FHC a tiracolo, obrigando-o a defender um modelo econômico anacrônico, responsável principal pela crise global que ora aflige os EUA e a Europa.





Eleição antecipada

O anúncio dos altos índices de aprovação de Dilma e de seu governo mostra-se, portanto, alvissareiro por prognosticar que permanecerão mantidas longe do poder as forças politicas que levaram, ao longo da década de noventa e por mais de uma vez, a economia do país a um estado pré -falimentar, com graves consequências sociais – incluindo altos índices de desemprego e sucateamento das universidades e hospitais federais.



Por outro lado, de forma objetiva e levando em conta que estamos ainda a um ano e meio das eleições presidenciais, há de se questionar que benefícios os altos índices de aprovação do governo capitaneado pelo PT trazem hoje ao país, no campo da esquerda. Dilma se valerá de tal cacife para enquadrar seus aliados e exigir a obediência a padrões republicanos para as alianças políticas, com o cumprimento de acordo preestabelecidos e coibindo a chantagem no varejo a cada votação no Legislativo, pavimentando o caminho para uma futura reforma política (que, convém lembrar, era item de destaque em seu programa como candidata, já adiado para o próximo governo)?





Questões prementes

O governo Dilma aproveitará o endosso popular para, como presidente de um país às vésperas de receber três mega eventos globais (a Jornada Mundial da Juventude, a Copa do Mundo e as Olimpíadas), patrocinar uma campanha pelos Direitos Humanos que dissipe a impressão duvidosa que tem deixado nesta área e reafirmar, não apenas com declarações mas com medidas efetivas, a cidadania plena de grupos sociais que, sob a complacência silenciosa do Estado, têm sido vítimas recorrentes de violência, como os índios e os gays?



O governo Dilma utilizará do voto de confiança da população para honrar, a um tempo, outra promessa de campanha e o histórico do PT com os movimentos que lutam pela democratização do solo, contrariando os aliados de última hora advindos do agronegócio – entre os quais se incluem acusados de empregarem mão-de-obra escrava – e promovendo, com 200 anos de atraso, a reforma agrária? Fará ao menos uma reformulação nas atuais políticas agrárias, que privilegiam os mega latifúndios em detrimento dos médios e pequenos produtores?



O governo Dilma se valerá de tamanho apoio para promover um aggiornamento cultural no país, retomando e ampliando a efervescência dos Pontos de Cultura, vigorosa experiência de estímulo à produção cultural diversificada e regionalmente capilarizada levada a cabo pela gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira e inexplicavelmente sucateada pela deplorável "administração" Ana de Hollanda no Ministério da Cultura, e pela transformação deste em moeda eleitoral nas eleições paulistanas, com a nomeação de Marta Suplicy, cuja experiência como agente cultural é nula?



E, sobretudo, o governo Dilma utilizará o reconhecimento popular de que ora desfruta para, tal como hoje acontece tanto em democracias avançadas como o Reino Unido e a Dinamarca quanto em países que vivenciam um amadurecimento democrático, como nossos vizinhos Equador, Venezuela e Argentina, patrocinar uma Lei de Meios que regularize em padrões republicanos a atuação da mídia, fazendo cumprir os preceitos constitucionais que regem a concessão de sinais de rádio e TV e, assim, coibindo o golpismo, o partidarismo e o uso recorrente de táticas de desqualificação e difamação por parte do jornalismo midiático?





Impasses e limites

Se a resposta às perguntas acima vier a ser negativa, como tudo indica, há de se questionar, por um lado, até que ponto os altos índices de aprovação do governo Dilma Rousseff merecem ser motivo de comemoração por significarem apoio e indício de garantia de continuidade de um projeto político que tem como principal mérito a promoção da inclusão socioeconômica de setores historicamente marginalizados da população brasileira.



E, por outro lado, até que ponto os índices são indício dos limites de tal projeto e de sua submissão, por interesses eleitorais, ao conservadorismo (religioso ou não), ao fisiologismo político velho de guerra, à acomodação inerte ante a oligarquia agrária e à plutocracia midiática, representantes do que há de mais arcaico na sociedade brasileira.


(Foto retirada daqui)

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Crise cultural brasileira é profunda

O artigo de Mino Carta com o autoexplicativo título de "A imbecilização do Brasil" continua provocando muita polêmica. Nele, o veterano jornalista diagnostica que "Os derradeiros, notáveis intérpretes da cultura brasileira já passaram dos 60 anos, quando não dos 70" e que o país não mais produz espécimes culturais do quilate de Guimarães Rosa, Faoro, Portinari – e, poderíamos acrescentar, de Chico Buarque, Tom Jobim, Paulo Emílio Salles Gomes.

O editor de Carta Capital atribui à mídia grande parte do problema, citando nominalmente o Big Brother Brasil, as lutas do MMA e do UFC, os programas de auditório e as novelas que falseariam a sociedade que supostamente estariam a representar.


Falsas premissas
As reações ao texto incluem a acusação de elitista, de pouco inteirado em relação ao novo universo cultural brasileiro, de rabugento ou infeliz. Não as endosso. Pelo contrário: tenho a forte impressão de que a maioria dessas reações decorre do desgosto de se ver posto em frente ao espelho. Há também a hipótese de que a pobreza cultural seja tamanha que muitos não disponham de elementos para sequer se dar conta dela. Por último, penso não ser possível descartar um certo orgulho ferido geracional, que leva os mais jovens a negar a imbecilização cultural evidente.

A acusação de que a crise cultural se circunscreveria à elite, decadente - enquanto a periferia mostra-se culturalmente exuberante -, me parece particularmente perniciosa, pois baseada numa premissa falsa. Clarice Lispector e Graciliano Ramos, como tantos escritores brasileiros, moraram em pensões, à beira da fome; Tom Jobim contava o dinheiro do aluguel nas teclas de piano dos piores inferninhos; Florestan Fernandes chegou a ser engraxate; os amigos de Villa-Lobos tiveram de fazer uma vaquinha para que, consagrado e no final da vida, ele pudesse tratar do câncer que o acometera; Portinari, já rapazinho, andava descalço por Brodósqui e passava frio no inverno (meu pai conta, com os olhos a lamentar a fortuna perdida, que minha bisavô teria tricotado para o jovem pintor três pares de meia, aos quais a mãe dele quis retribuir com uma gravura pintada pelo filho, que minha bisavó polidamente recusou...). Enfim, os exemplos são múltiplos.


Sair do gueto
Por outro lado, parece-me necessário examinar com mais apuro a alegação de que haveria, hoje, uma renascença cultural na periferia - e que ela estaria mantendo o tradicional alto nível da cultura brasileira e problematizando-a. Parece evidente que setores historicamente oprimidos vêm, cada vez mais e de forma mais capilar, produzindo cultura, muitas vezes de bom, às vezes de ótimo nível, notadamente através da música, do grafite, da dança, das artes circenses e, de forma ainda seminal, do audiovisual.

Isso, naturalmente, é uma alvissareira novidade, com um enorme potencial, mas não creio que disponhamos objetivamente, neste momento, sem que essa cultura efetivamente se difunda e se faça socialmente reconhecida por um público mais amplo, de elementos para determinar suas qualidades e seu papel revigorante na cultura brasileira, que permanecem, até agora, uma potencialidade – além de wishful thinking de quem coloca a agenda política à frente de critérios condizentes de apreciação da arte.

O bom-mocismo e a solidariedade classista infelizmente não coadunam bem com a avaliação criteriosa de manifestações artísticas, como exemplifica a afirmação, repetida em termos similares por Caetano Veloso e por José Miguel Wisnik, de que Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MCs, é o melhor disco brasileiro do último quarto de século. Ela é ótima como frase de efeito, mas seria preciso, no mínimo - para não entrar em questões especificamente musicais e de "influência" estrangeira -, negligenciar a misoginia machista das letras para, valendo-se de um critério em que a origem social do grupo se sobrepõe à qualidade estética da obra, levar tal julgamento a sério. 


Escola do ressentimento
A tentativa de contrapor, a priori e sem análises detidas, uma "decadente" cultura elitista do passado a uma "vibrante" cultura periférica do presente, operação que sobrepõe ideologia a critérios artísticos e cujo esquematismo evidencia-se já ao anunciar-se, não é uma invenção do Brasil lulista. Como tantos outros itens da agenda de um certo conservadorismo ianque travestidos de conquistas da esquerda brasileira, ela reedita, em outro contexto, com pequenas adaptações e vinte e tantos anos depois, o que Harold Bloom, crítico literário e professor de Yale, qualifica de "Escola do Ressentimento".

Ele se refere, especificamente, ao esforço multiculturalista para rever o cânone literário ocidental, com a supervalorização dos parâmetros ditados por questões de raça e de gênero sexual em detrimento das qualidades estético-formais das obras. O paroxismo desse processo foi a exclusão de artistas como Picasso do currículo de cursos de artes, por representar o macho branco ocidental opressor. A julgar pelas respostas ao texto de Mino, logo chegaremos lá.


Economia da cultura
Mas, para além dessa sobrevalorização precoce do periférico, sinto falta, sobretudo, de uma visão que leve em conta as relações sociais de produção da cultura em nosso país. Quais são suas determinantes econômicas? Quem produz e quem consome cultura, sob que condições, que preços, que cardápios?

Pois, para cada produto de qualidade que a Globo se digna a lançar, ela desova uma edição inteira do Big Brother Brasil - esse festival de ignorância e exibicionismo vazio que assola o país três ou quatro meses por ano -, mais 52 edições anuais de Luciano Huck, Faustão, Xuxa, milhares de capítulos de novela, além de transmissões esportivas comandadas por tipos como Galvão Bueno. Mas não se limita à própria esfera televisiva a ação da Rede Globo.


Cinemão e teatrão
Durante um longo período de tempo, o cinema brasileiro foi uma espécie de reserva cultural da nação, um oásis de reflexão e de experimentalismo em um universo cultural marcadamente mercadológico. E hoje? Mino Carta cita, em seu artigo, como amostra de boa produção cultural do presente, o filme O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho. Tomemo-lo como exemplo. Qual o público desse filme? Quanto tempo ficou em cartaz e em quantas salas de cinema? A parcela de cidadãos os quais ele critica viu ou virá o filme? A resposta a todas essas perguntas tem de levar em conta que desde 2003 as produções da Globo Filmes, sem alterar o espaço sagrado dos filmes de Hollywood – essa invasão permanente de mercado, que todos aceitam calados -, ocupou mais de 90% do espaço destinado ao cinema nacional com suas comédias sofríveis e seus dramas sonolentos, de linguagem televisiva. O espaço para filmes reflexivos e inovadores, como O Som ao Redor, está neste momento dramaticamente reduzido, o que faz com que muitos cineastas trabalhem 3, 4, 5 anos em um filme que, quando lançado, fica uma ou duas semanas em cartaz e some.

O teatro brasileiro, que desde a montagem inovadora de Vestido de Noiva de 1942, dirigida por Ziembinski, apresentou ciclos de inovação e experimentalismo, com forte entonação política a partir da virada dos anos 50 em diante – e durante toda a ditadura, graças a nomes como Vianinha, Gianfrancesco Guarnieri e Dias Gomes. Hoje, com raríssimas e veteranas exceções – Saravá, Amir Haddad e José Celso Martinez Correa -, se transformou numa sucursal da Rede Globo, praticamente monopolizado por peças em que o destaque é a fama – às vezes devida ao talento, às vezes à, digamos, boa forma física - dos atores e atrizes, mas não à qualidade do texto, da encenação ou das escolhas estéticas. O experimentalismo encontra-se, hoje, num gueto, sem público, sem visibilidade.

O modo pervasivo como a mídia corporativa ajuda a plasmar um mercado cultural pasteurizado, pouco inovador e ideologicamente conformado parece-me, pelas razões acima elencadas, um dado a corroborar a opinião de Mino Carta sobre o papel imbecilizante da mídia. Que a percepção sobre tal fato seja explicitada após uma década de governos ditos de centro-esquerda é algo paradoxal, a evidenciar a persistência de mais um aspecto retrógrado no que deveria ser um governo progressista. E não se pode isentar os governos Lula e Dilma de sua parcela de responsabilidade pela situação, dada a resistência de ambos em regularem a mídia e fazer as TVs - que são concessões públicas - cumprimem funções educacionais, como a Constituição determina. 


IIusões persistentes
Muito haveria a se falar e a examinar em relação ao tema deste post, incluindo temas como a relação entre mídia, novas religiões pentecostais e cultura, a questão da inserção social da universidade, a contextualização do tema em termos internacionais, o papel da internet, entre outros tópicos. Mas, por questões de espaço e, sobretudo, de tempo, paro por aqui.

Ante um panorama como o acima descrito - de monopólio cruzado de uma megacorporaççao de mídia, em um país que o orçamento destinado a cultura é ínfimo e o ministério é utilizado como moeda de troca em meras eleições municipais -, constatar que pessoas que se dizem de esquerda mostram-se entusiasmadas com o atual cenário cultural brasileiro, além de soar extremamente contraditório, remete-me aos primeiros indígenas sul-americanos, contentes e deslumbrados com os espelhinhos e bugigangas com as quais o invasor espanhol os presenteou, antes de exterminá-los.


(Imagem retirada daqui)



segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

"Nova Lei Seca" tensiona democracia

A chamada "Lei Seca", em vigor no Brasil desde 2008, faz parte de um esforço legítimo para reduzir a probabilidade de acidentes de trânsito, principalmente aqueles com vítimas fatais ou permanentemente lesionadas. A existência de uma série de pesquisas que os correlacionam ao estupor alcoólico justificaria, de fato, a fiscalização e punição de motoristas que dirijam embriagados, bem como a tipificação penal para quem, em estado de embriaguez, provocar morte ou invalidez no trânsito.

Já o recém-efetivado endurecimento de tal legislação, além de insuficientemente debatido com a sociedade, mostra-se altamente questionável, indo na contramão de normas internacionalmente consagradas ao não estabelecer um limite tolerável de consumo. Em primeiro lugar, porque não há pesquisas conclusivas que estabeleçam baixo consumo de álcool a aumento substancial de acidentes automobilísticos; em segundo, porque, como debateremos a seguir, traz em seu bojo uma série de efeitos nocivos à sociabilidade, à economia, e mesmo à própria saúde pública a qual deveria alegadamente beneficiar.


De olho na arrecadação
De acordo com a nova legislação, um casal não pode mais sair para jantar e, como se faz em boa parte do mundo civilizado, fazer-se acompanhar à refeição de uma -, apenas uma - taça de vinho ou champanhe, hábito secular, elegante, que faz bem ao paladar - e, pesquisas recentes o demonstram, ao coração. É preciso muito obscurantismo ou fanatismo para achar que tal quantidade ínfima de álcool, no transcorrer de um jantar, transformaria o casal em um assassino potencial no trânsito.

Com tal endurecimento legal, o Brasil se torna um dos países mais repressores do Ocidente no que concerne a bebidas alcoólicas, já que em vários países da Europa e na maioria dos estados norte-americanos há uma dosagem tolerável de consumo – o equivalente a entre uma e duas e meia latinhas de cerveja. Não deixa de ser altamente significativo, no entanto, que a alegada preocupação com o álcool não se estenda à restrição de campanhas publicitárias ou ao estabelecimento de contrapartidas para a indústria de bebidas, como a construção de uma rede para prevenção e tratamento do alcoolismo – concentra-se unicamente numa modalidade de repressão que pode vir a gerar vultosas receitas para o Estado. Com isso, a utilização prioritária da polícia para fins arrecadatórios, sobretudo aos finais de semana, é um risco que pode vir a afetar ainda mais a segurança pública.


Falta de diálogo e repressão
Outra questão a se levar em conta é que não houve, por parte dos governos, nenhuma contrapartida à nova legislação: os ônibus urbanos e o metrô não tiveram seus horários estendidos para transportar os boêmios de boa paz, que querem tomar sua cervejinha e voltar para casa em segurança; tampouco foram criados esquemas eficientes de transporte alternativo. Resta o táxi, que tem um preço proibitivo em cidades como São Paulo e Brasília e, de qualquer maneira, é economicamente inacessível à maioria da população nas demais cidades do país.

Eis um exemplo cabal da necessidade de aperfeiçoamento da democracia no Brasil. Antes da decretação de uma lei como essa, de alcance nacional, que mexe com hábitos sociais estabelecidos, deveria ter sido estabelecido um amplo diálogo com a sociedade, que levasse em conta os impactos da nova legislação e buscasse meios de amenizar seus efeitos colaterais. Mas nada disso ocorre: simplesmente decreta-se a lei, e o povo que trate de se virar para cumpri-la. As elites têm recursos para fazê-lo, mas e quanto ao resto da população?

Desse modo, além de seu moralismo tacanho, a tal Lei Seca com tolerância zero resulta em mais um dispositivo legal elitista, mais um instrumento de controle social que estimula o confinamento das massas de jovens pobres e remediados nas violentas periferias e nos subúrbios áridos de opções culturais, que é o onde a elite os quer trancados.


Cura que envenena
Outra questão que não vem sendo debatida em relação ao endurecimento da lei são seus contra efeitos em termos de saúde pública. Não há evidência alguma que sugira que as pessoas deixarão de beber por conta da Lei Seca. Pelo contrário: legislações semelhantes, nos EUA, tiveram como efeito o aumento exponencial do consumo doméstico – e em frequência e quantidades consideravelmente maiores do que os anteriormente verificáveis nos espaços públicos.

Ninguém parece estar levando em conta os custos, individual e social, que a combinação de consumo doméstico de álcool e sedentarismo, açulada pela Lei Seca e por uma era em que a internet e as novas tecnologias tendem a fazer as pessoas passarem mais tempo em casa, fatalmente acabará por gerar. Pois não só quadros de obesidade, diabetes e hipertensão encontram-se diretamente associados à tal combinação, mas o agravamento do isolamento social e a virtualização das relações sociais – os quais a nova lei estimula - tendem a gerar ou intensificar a gama de problemas psicológicos associados à "geração Rivotril".


Debate interditado
O debate sobre a nova Lei Seca tem sido sistematicamente interditado por vozes que, a pretexto de defenderem a segurança de seus entes queridos – uma plataforma com que eu, você e a grande maioria da sociedade certamente se identifica -, tem uma agenda conservadora oculta, eventualmente de matriz religiosa, a cumprir. A própria mídia tem se omitido, como demonstra Sylvia Debossan Moretzsohn em artigo publicado no Observatório da Imprensa. Nesse sentido, o endurecimento da legislação da Lei Seca deveria servir de alerta aos cidadãos que se preocupam com o avanço das liberdades individuais no país; Pois o não-debate que precedeu a nova legislação, sua instauração inconteste e o histerismo intransigente de muitos dos que a defendem representam mais um avanço do campo conservador contra a preservação dos direitos individuais. Hoje, o pomo da discórdia é uma latinha de cerveja; amanhã será o direito ao aborto ou à adoção de crianças por casais gays.

Se, ao invés da postura fundamentalista que se recusa sequer a debater a nova Lei Seca, tivéssemos um interesse genuíno pela questão, seria preciso atentar para a possibilidade de, sob o bem-intencionado pretexto de evitar óbitos e lesões no trânsito causados por motoristas embriagados, estarmos fomentando, a longo prazo, mortes, doenças crônicas e sofrimento psicológico causados por excesso de repressão social.

A repressão ao alcoolismo potencialmente assassino difere-se da proibição do consumo de uma dose de bebida de baixa graduação etílica de modo análogo ao que o fanatismo distingue-se do bom senso. Com o agravante de que o primeiro, no caso em questão, pode resultar contraproducente para as próprias causas que defende.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 27 de janeiro de 2013

A dor de uma tragédia evitável

O mais trágico de calamidades como o incêndio que matou 232 pessoas, em ampla maioria jovens, em Santa Maria (RS), é a certeza de que poderiam ser evitadas.

Para isso, bastaria que as leis fossem eficazes, que as autoridades fizessem cumprir as leis e que a sociedade cumprisse a sua parte.


Funcionamento suspeito
As investigações acerca do incêndio hão de revelar as condições exatas que propiciaram a tragédia. Mas não é preciso mais do que bom senso para se dar conta de que uma boate com apenas uma saída estreita - a um ponto tal que os bombeiros tiveram de perfurar um buraco na parede para resgatar os corpos - simplesmente não poderia receber um público da ordem de centenas sem que oferecesse uma rota de fuga alternativa, com barras antipânico.

Sabe-se que o alvará de funcionamento da casa de shows estava vencido, mas que seu funcionamento estava assegurando por uma liminar assinada por um juiz. As informações são de que isso seria, pasmem, um procedimento corriqueiro: a autoridade judiciária autoriza o funcionamento ante um plano de segurança que, quando efetivamente implantado, permitirá ao estabelecimento requerer novo alvará.


Modelo anti-incêndio
Mas mais do que apontar os responsáveis, parece urgente que sejam tomadas medidas de forma a evitar que tragédias como essa se repitam. O Brasil, há tempos, tem primado por copiar e transplantar para cá, acriticamente, políticas sociais geradas no ambiente específico dos Estados Unidos, como exemplificam a visão estritamente policialesca no combate às drogas, a defesa da Intolerância Zero na segurança pública, a expansão de um sistema prisional privatizado, a Lei Seca, entre tantos outros exemplos.

Tenho frequentemente a sensação de que copiamos muito do que seja ruim ou questionável e negligenciamos aquilo que nos aperfeiçoaria. Por exemplo, tornaríamos nossos estabelecimentos bem mais protegidos contra tragédias como essa se adotássemos o modo como lá os imóveis, comerciais ou domiciliares, de todos os tamanhos, são obrigados a oferecer saídas claramente sinalizadas, extintores em dia e à mão, detectores de fumaças e, em alguns casos, portas corta-fogo e antipânico, tudo isso garantido por inspeções periódicas e por eventuais multas em caso de negligência.

Cabe ressalvar que considero o vigilantismo social detestável quando voltado a aspectos morais das condutas – e isso se aplica, em alguma medida, à Lei Seca, cuja implementação no Brasil, a meu ver, carece de discussões aprofundadas em relação aos direitos e deveres dos cidadãos. As proteções anti-incêndios acima citadas são, porém, de outra ordem, não intrusivas na esfera comportamental, não suscetíveis à manipulação moralista: medidas técnicas e eficientes que, sem afetar absolutamente as liberdades individuais, se efetivamente implementadas dariam uma contribuição decisiva à prevenção e à minimização de danos causados por incêndios – os quais, como o caso de Santa Maria demonstra de forma eloquente, tanta dor pode causar às suas vítimas diretas e indiretas.


Momento é de solidariedade
Sendo o incêndio em Santa Maria uma tragédia em proporções mundiais, fez muito bem a presidente Dilma Rousseff em cancelar sua participação no encontro de cúpula conjunta do Mercosul e do Mercado Comum Europeu e voar imediatamente de Santiago, no Chile, para o interior gaúcho. Tragédias desse montante demandam a presença do mandatário máximo, se não pelo maior e mais velozmente eficaz poder de fazer cumprir decisões urgentes que demandam mobilização nacional, mas pelo simbolismo em termos de solidariedade e apoio ao povo de Santa Maria, notadamente aos familiares e amigos das vítimas da tragédia. Ademais, ao se encontrar com estes no ginásio da cidade, Dilma, que já havia se emocionado a ponto de interromper sua fala em Santiago, mostrou-se profunda e sinceramente abalada.

Que a oposição e seus aliados na mídia corporativa critiquem a presidente pelo que entendem por medidas eleitoreiras, como vêm fazendo, pode até, no limite, fazer parte do jogo político, mas caracteriza-se, antes e acima de tudo, como uma atitude mesquinha que tende a ser compreendida como insensível, inoportuna e deslocada do sentimento de solidariedade e luto ora dominante. Mais bonito faria a oposição se declarasse por ora suspendido os enfrentamentos políticos e, em uníssono, se unisse com os demais poderes e com o povo brasileiro em solidariedade às vítimas da tragédia. Mas isso seria esperar demais da mais medíocre oposição da história da política brasileira.


Respeito à dor 
Porém, talvez ainda pior do que a atitude dos políticos oposicionistas e seus porta-vozes midiáticos seja a reação de alguns grupos religiosos nas redes sociais, que se aproveitam desse momento de perda para espalhar seus discursos moralistas toscos, eivados de culpas, as quais querem impingir às vítimas, agravando a dor de seus entes queridos. Tal atitude é o exato contrário do que se espera de quem se diz seguidor do cristianismo, cujo legado principal é o amor ao próximo, a caridade e a fé na redenção.

Neste momento tão difícil, em que tantas famílias sofrem a perda de pessoas queridas, que pais terão de vivenciar o drama inatural de enterrar seus filhos, que toda uma cidade, todo um estado, se mobiliza para atenuar as dores das vítimas, não é momento de moralismo barato ou de revanchismo, mas de altear pensamentos e coração no desejo de que os afetados pela tragédia tenham força para vivenciar e superar este momento, sublimarem-se para além da dor e reconstruírem suas vidas. 

E para que, um dia, Santa Maria volte a ser uma cidade encantada.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O discurso de Dilma


Foi um grande trunfo de marketing a fala que a presidente Dilma Rousseff direcionou ontem ao país, via cadeia nacional de rádio e televisão. Após ser duramente criticado por uma sequência de bolas fora, o setor de comunicação do governo fez um gol de placa, acertando o momento, o tom e o conteúdo da fala presidencial.


Quem tem ainda fresca na memória as performances da candidata Dilma Rousseff, há dois anos e meio, há de se espantar com a evolução da capacidade de comunicação e de criar empatia da presidente, ainda mais se se leva em conta o grau relativamente elevado de elementos técnicos do discurso, muito bem redigido. Observado de um ponto de vista estritamente técnico, o desempenho de Dilma aproximou-se do ideal, não fossem detalhes, como o modo ainda inseguro com que ela transita o olhar entre o teleprompter e a câmera. Mas ela, falando com desembaraço, arriscando um meio sorriso aqui, uma ênfase desabonadora ali, driblou com elegância as armadilhas potenciais associadas à sua persona pública e ao tipo de discurso ontem apresentado – ou seja, não soou, respectivamente, nem arrogante nem populista.


Naturalmente, o discurso da presidente, como qualquer peça de marketing governamental, deve ser analisado como tal e em seu contexto, interessado em promover o governo e em salientar suas supostas qualidades e conquistas. Reconhecer seus méritos não significa, de forma alguma, ignorar os desafios, inquietações e pontos problemáticos do governo Dilma, os quais este blogueiro tem procurado abordar de forma recorrente.


Mas o fato é que o discurso de ontem, de enxutos oito minutos, marca, talvez, o ponto mais alto dessa modalidade de comunicação governamental tão eficiente (por alcançar um público vastíssimo) quanto perigosa, a ser usada com extrema parcimônia (por interromper a programação, interferindo abruptamente nas expectativas do telespectador) que é a convocação da cadeia nacional de rádio e televisão.


Em seu desempenho a presidente mostrou-se capaz não apenas de assegurar que não haverá, em suas palavras, "nenhum risco de racionamento" de energia elétrica, mas de explicar didaticamente como funciona o complexo e diversificado sistema energético brasileiro e o papel que nele cumprem as usinas térmicas. Resultou claro que a campanha midiática alardeando um iminente racionamento de energia foi, para além de um ato de sabotagem que nada tem a ver com jornalismo, uma desesperada tentativa de intimidação causada pelo receio dos efeitos eleitorais que o anúncio do decréscimo do valor da "conta de luz" deve, certamente, causar.


As reações imediatas, nas redes sociais e nas ruas, forneceram uma prévia do desconforto das oposições: em contraste com o entusiasmo de muitos, nenhuma crítica articulada, nenhuma argumentação consistente em contrário. Além de uma chorosa nota publicada pelo PSDB, o senador e catão Cristóvão Buarque acusou o governo de estimular o desperdício, enquanto Álvaro "Botox" Dias, ao invés de explicar ao país as origens de seus bens, afirmou que se fosse líder tucano reqsitaria pedido de resposta, como se fala presidencial em cadeia nacional, prerrogativa de quem venceu eleições e assegurou assim direito sobre as concessões de radio e teledifusão, fosse um debate televisivo. Com uma oposição dessas, o humor está garantido – e o PT fica mais uma década no poder.


A lamentar, apenas, que a presidente tenha preferido, uma vez mais, evitar qualquer crítica à mídia, preferindo fulanizar e falar genericamente em "algumas pessoas" que "por precipitação, desinformação ou algum outro motivo tenham feito previsões sem fundamento". Poupa, assim, veículos que já deram mostras de atuar contra o bem público e de forma partidária e perde a oportunidade de alertar a um amplo público - que tem justamente a televisão como meio primário de informação - para que mantenha reservas quanto aos prognósticos e análises produzidos pela mídia nacional.


Se se omitiu ante a mídia, a presidente, embora sem nomeá-las, não se furtou a criticar as concessionárias que se recusaram a aderir ao plano que possibilitou a redução das tarifas, ao mesmo tempo em que, dirigindo-se aos cidadãos que moram nas áreas por elas cobertas, mostrou-se magnânima ao assegurar o desconto para todos. A insistência de Dilma em baixar os preços, nos patamares originalmente previstos, mesmo com o boicote das empresas elétricas ligadas aos tucanos, provavelmente será vista, no futuro, como um momento de plena afirmação de seu governo e uma de suas marcas distintivas.


A corrida eleitoral de 2014 começou ontem. E Dilma saiu, disparada, à frente.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O retorno da polemista destemida

Camille Paglia está de volta. Após anos de relativa calmaria, a polemista desbocada que fez furor ao longo dos anos 90 com seus ataques ao establishment acadêmico, suas críticas ao caráter repressivo e vitimizante do feminismo norte-americano e sua ojeriza ao pós-estruturalismo francês de Foucault & cia, lança o livro Glittering Images: A Journey Through Art from Egypt to Star Wars, no qual dá sequência à sua revisão do cânone artístico, buscando ampliá-lo para além dos limites eurocêntricos e, como o título indica, incorporando artefatos gerados no âmbito da cultura pop.

A primeira polêmica derivada do livro foi ocasionada pela publicação, como artigo, de um trecho de sua introdução pelo jornal italiano La Republica. No texto, que já está disponível em português, Paglia põe a mão na ferida ao elencar como uma das razões da atual marginalização das artes o isolamento dos artistas entre pares, fazendo com que percam o contato com as pessoas comuns, das quais desprezam e zombam os gostos e os valores.

"Uma ortodoxia monolítica abandonou os artistas em um gueto de opiniões óbvias e os cortou fora das ideias novas. Nada é mais banal do que o dogma progressista, segundo o qual um valor chocante automaticamente confere importância a uma obra de arte. A última vez que isso foi verdade foi, talvez, no fim dos anos 1970, com as fotografias homoeróticas e sadomasoquistas de Robert Mapplethorpe […] Quem subordina a arte à agenda política contemporânea é tão culpado por literalismo rígido e por propaganda quanto um pregador vitoriano ou um burocrata stalinista qualquer", provoca ela.

Mas suas críticas não se dirigem apenas ao universo liberal dos artistas. Para ela, que se diz discípula e foi orientanda de Harold Bloom, os conservadores, "Apesar dos seus toques de trombeta por um retorno da educação ao cânone ocidental, se comportaram como filisteus provincianos com relação às artes visuais". Traçando um paralelo entre a iconoclastia e a frugalidade artística do protestantismo e a exuberância artística e imagética do catolicismo, ela lamenta, por um lado, que "os conservadores cristãos nunca permitiriam exibir nas escolas públicas os heroicos nus da arte ocidental. O puritanismo norte-americano hesita na suspeita conservadora de que há uma feitiçaria na beleza."

Por outro lado – e aqui está o centro da polêmica -, Paglia, em um momento de forte e disseminado sentimento antirreligioso no Ocidente - notadamente entre a jovem esquerda e os liberais -, não só reconhece que "uma quantidade enorme da melhor arte ocidental foi intensamente religiosa", como tem a coragem de sustentar que "Embora em seu nome se tenham cometido males, a religião tem sido uma força enorme de civilização na história do mundo. Zombar da religião é algo pueril, sintomático de uma imaginação atrofiada. Porém, essa posição cínica tornou-se de rigor no mundo artístico, um motivo a mais para a banal superficialidade de grande parte da arte contemporânea à qual não restou nenhuma grande ideia."

Um erro grave da publicação do trecho da introdução do livro em forma de artigo é, na minha opinião, não permitir a contextualização de tal posicionamento de Paglia em relação à postura incisiva que há décadas mantém como militante pró-sexo e pró-pornografia, contrária, como reiteradamente afirma, a qualquer intervenção do Estado e da religião institucional na vida sexual dos cidadãos. Ela, nos trechos em questão, está claramente falando a partir da perspectiva da historiadora e da cultora da arte, e como testemunha desesperada da dêblacle desta ante o que vê como conspurcação por ideais políticos que pouco ou nada têm a ver com excelência artística. Ao menos uma nota explicativa deveria ter sido publicada.

Ainda assim, é prazeroso saber que Paglia, depois de tanto tempo, mantém a coragem de ir contra a corrente e dizer coisas que muitos não querem ouvir, sobretudo por saberem-nas verdadeiras. 


(Imagem retirada daqui)