domingo, 24 de março de 2013

A alta aprovação de Dilma

Os altos índices de aprovação de que hoje goza o governo Dilma, da ordem de 63% para a administração e de 79% para a mandatária, têm sido referidos, sobretudo, como vantagem antecipada para as eleições do ano que vem – e uma ducha de água fria nas pretensões da oposição e da mídia, ultimamente tão excitadas com a eventual candidatura presidencial de Eduardo Campos (PSB/PE).



Com 85% de aprovação ao governo Dilma no Nordeste, as possibilidades do neto de Miguel Arraes diminuem drasticamente não só nas urnas, mas no nascedouro mesmo da candidatura, neste momento, em seu potencial de arregimentar apoio político e financeiro para viabilizar-se como candidato com chances reais de vitória.



O PSDB, por sua vez, mantém-se preso às divisões açuladas, por um lado, pela obsessão que o campeão de rejeição e de derrotas José Serra nutre pela Presidência e, por outro lado, pela hesitação de Aécio Neves entre continuar inalando a boa vida de playboy na "Cidade Maravilhosa" ou candidatar-se à aridez do Planalto Central, ainda mais com FHC a tiracolo, obrigando-o a defender um modelo econômico anacrônico, responsável principal pela crise global que ora aflige os EUA e a Europa.





Eleição antecipada

O anúncio dos altos índices de aprovação de Dilma e de seu governo mostra-se, portanto, alvissareiro por prognosticar que permanecerão mantidas longe do poder as forças politicas que levaram, ao longo da década de noventa e por mais de uma vez, a economia do país a um estado pré -falimentar, com graves consequências sociais – incluindo altos índices de desemprego e sucateamento das universidades e hospitais federais.



Por outro lado, de forma objetiva e levando em conta que estamos ainda a um ano e meio das eleições presidenciais, há de se questionar que benefícios os altos índices de aprovação do governo capitaneado pelo PT trazem hoje ao país, no campo da esquerda. Dilma se valerá de tal cacife para enquadrar seus aliados e exigir a obediência a padrões republicanos para as alianças políticas, com o cumprimento de acordo preestabelecidos e coibindo a chantagem no varejo a cada votação no Legislativo, pavimentando o caminho para uma futura reforma política (que, convém lembrar, era item de destaque em seu programa como candidata, já adiado para o próximo governo)?





Questões prementes

O governo Dilma aproveitará o endosso popular para, como presidente de um país às vésperas de receber três mega eventos globais (a Jornada Mundial da Juventude, a Copa do Mundo e as Olimpíadas), patrocinar uma campanha pelos Direitos Humanos que dissipe a impressão duvidosa que tem deixado nesta área e reafirmar, não apenas com declarações mas com medidas efetivas, a cidadania plena de grupos sociais que, sob a complacência silenciosa do Estado, têm sido vítimas recorrentes de violência, como os índios e os gays?



O governo Dilma utilizará do voto de confiança da população para honrar, a um tempo, outra promessa de campanha e o histórico do PT com os movimentos que lutam pela democratização do solo, contrariando os aliados de última hora advindos do agronegócio – entre os quais se incluem acusados de empregarem mão-de-obra escrava – e promovendo, com 200 anos de atraso, a reforma agrária? Fará ao menos uma reformulação nas atuais políticas agrárias, que privilegiam os mega latifúndios em detrimento dos médios e pequenos produtores?



O governo Dilma se valerá de tamanho apoio para promover um aggiornamento cultural no país, retomando e ampliando a efervescência dos Pontos de Cultura, vigorosa experiência de estímulo à produção cultural diversificada e regionalmente capilarizada levada a cabo pela gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira e inexplicavelmente sucateada pela deplorável "administração" Ana de Hollanda no Ministério da Cultura, e pela transformação deste em moeda eleitoral nas eleições paulistanas, com a nomeação de Marta Suplicy, cuja experiência como agente cultural é nula?



E, sobretudo, o governo Dilma utilizará o reconhecimento popular de que ora desfruta para, tal como hoje acontece tanto em democracias avançadas como o Reino Unido e a Dinamarca quanto em países que vivenciam um amadurecimento democrático, como nossos vizinhos Equador, Venezuela e Argentina, patrocinar uma Lei de Meios que regularize em padrões republicanos a atuação da mídia, fazendo cumprir os preceitos constitucionais que regem a concessão de sinais de rádio e TV e, assim, coibindo o golpismo, o partidarismo e o uso recorrente de táticas de desqualificação e difamação por parte do jornalismo midiático?





Impasses e limites

Se a resposta às perguntas acima vier a ser negativa, como tudo indica, há de se questionar, por um lado, até que ponto os altos índices de aprovação do governo Dilma Rousseff merecem ser motivo de comemoração por significarem apoio e indício de garantia de continuidade de um projeto político que tem como principal mérito a promoção da inclusão socioeconômica de setores historicamente marginalizados da população brasileira.



E, por outro lado, até que ponto os índices são indício dos limites de tal projeto e de sua submissão, por interesses eleitorais, ao conservadorismo (religioso ou não), ao fisiologismo político velho de guerra, à acomodação inerte ante a oligarquia agrária e à plutocracia midiática, representantes do que há de mais arcaico na sociedade brasileira.


(Foto retirada daqui)