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quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O discurso de Dilma


Foi um grande trunfo de marketing a fala que a presidente Dilma Rousseff direcionou ontem ao país, via cadeia nacional de rádio e televisão. Após ser duramente criticado por uma sequência de bolas fora, o setor de comunicação do governo fez um gol de placa, acertando o momento, o tom e o conteúdo da fala presidencial.


Quem tem ainda fresca na memória as performances da candidata Dilma Rousseff, há dois anos e meio, há de se espantar com a evolução da capacidade de comunicação e de criar empatia da presidente, ainda mais se se leva em conta o grau relativamente elevado de elementos técnicos do discurso, muito bem redigido. Observado de um ponto de vista estritamente técnico, o desempenho de Dilma aproximou-se do ideal, não fossem detalhes, como o modo ainda inseguro com que ela transita o olhar entre o teleprompter e a câmera. Mas ela, falando com desembaraço, arriscando um meio sorriso aqui, uma ênfase desabonadora ali, driblou com elegância as armadilhas potenciais associadas à sua persona pública e ao tipo de discurso ontem apresentado – ou seja, não soou, respectivamente, nem arrogante nem populista.


Naturalmente, o discurso da presidente, como qualquer peça de marketing governamental, deve ser analisado como tal e em seu contexto, interessado em promover o governo e em salientar suas supostas qualidades e conquistas. Reconhecer seus méritos não significa, de forma alguma, ignorar os desafios, inquietações e pontos problemáticos do governo Dilma, os quais este blogueiro tem procurado abordar de forma recorrente.


Mas o fato é que o discurso de ontem, de enxutos oito minutos, marca, talvez, o ponto mais alto dessa modalidade de comunicação governamental tão eficiente (por alcançar um público vastíssimo) quanto perigosa, a ser usada com extrema parcimônia (por interromper a programação, interferindo abruptamente nas expectativas do telespectador) que é a convocação da cadeia nacional de rádio e televisão.


Em seu desempenho a presidente mostrou-se capaz não apenas de assegurar que não haverá, em suas palavras, "nenhum risco de racionamento" de energia elétrica, mas de explicar didaticamente como funciona o complexo e diversificado sistema energético brasileiro e o papel que nele cumprem as usinas térmicas. Resultou claro que a campanha midiática alardeando um iminente racionamento de energia foi, para além de um ato de sabotagem que nada tem a ver com jornalismo, uma desesperada tentativa de intimidação causada pelo receio dos efeitos eleitorais que o anúncio do decréscimo do valor da "conta de luz" deve, certamente, causar.


As reações imediatas, nas redes sociais e nas ruas, forneceram uma prévia do desconforto das oposições: em contraste com o entusiasmo de muitos, nenhuma crítica articulada, nenhuma argumentação consistente em contrário. Além de uma chorosa nota publicada pelo PSDB, o senador e catão Cristóvão Buarque acusou o governo de estimular o desperdício, enquanto Álvaro "Botox" Dias, ao invés de explicar ao país as origens de seus bens, afirmou que se fosse líder tucano reqsitaria pedido de resposta, como se fala presidencial em cadeia nacional, prerrogativa de quem venceu eleições e assegurou assim direito sobre as concessões de radio e teledifusão, fosse um debate televisivo. Com uma oposição dessas, o humor está garantido – e o PT fica mais uma década no poder.


A lamentar, apenas, que a presidente tenha preferido, uma vez mais, evitar qualquer crítica à mídia, preferindo fulanizar e falar genericamente em "algumas pessoas" que "por precipitação, desinformação ou algum outro motivo tenham feito previsões sem fundamento". Poupa, assim, veículos que já deram mostras de atuar contra o bem público e de forma partidária e perde a oportunidade de alertar a um amplo público - que tem justamente a televisão como meio primário de informação - para que mantenha reservas quanto aos prognósticos e análises produzidos pela mídia nacional.


Se se omitiu ante a mídia, a presidente, embora sem nomeá-las, não se furtou a criticar as concessionárias que se recusaram a aderir ao plano que possibilitou a redução das tarifas, ao mesmo tempo em que, dirigindo-se aos cidadãos que moram nas áreas por elas cobertas, mostrou-se magnânima ao assegurar o desconto para todos. A insistência de Dilma em baixar os preços, nos patamares originalmente previstos, mesmo com o boicote das empresas elétricas ligadas aos tucanos, provavelmente será vista, no futuro, como um momento de plena afirmação de seu governo e uma de suas marcas distintivas.


A corrida eleitoral de 2014 começou ontem. E Dilma saiu, disparada, à frente.

2 comentários:

Anônimo disse...

Agora alguns comentaristas estão dizendo que o tesouro vai "torrar" bastante dinheiro para subsidiar a baixa da conta de luz. Tem alguma verdade isto?

Maurício Caleiro disse...

Não, isto é completamente falso. Na verdade, não há subsídio, mas uma renegociação, com preços mais baixos, entre governo e concessionárias, que reduziu o custo final da geração de energia elétrica.