domingo, 27 de janeiro de 2013

A dor de uma tragédia evitável

O mais trágico de calamidades como o incêndio que matou 232 pessoas, em ampla maioria jovens, em Santa Maria (RS), é a certeza de que poderiam ser evitadas.

Para isso, bastaria que as leis fossem eficazes, que as autoridades fizessem cumprir as leis e que a sociedade cumprisse a sua parte.


Funcionamento suspeito
As investigações acerca do incêndio hão de revelar as condições exatas que propiciaram a tragédia. Mas não é preciso mais do que bom senso para se dar conta de que uma boate com apenas uma saída estreita - a um ponto tal que os bombeiros tiveram de perfurar um buraco na parede para resgatar os corpos - simplesmente não poderia receber um público da ordem de centenas sem que oferecesse uma rota de fuga alternativa, com barras antipânico.

Sabe-se que o alvará de funcionamento da casa de shows estava vencido, mas que seu funcionamento estava assegurando por uma liminar assinada por um juiz. As informações são de que isso seria, pasmem, um procedimento corriqueiro: a autoridade judiciária autoriza o funcionamento ante um plano de segurança que, quando efetivamente implantado, permitirá ao estabelecimento requerer novo alvará.


Modelo anti-incêndio
Mas mais do que apontar os responsáveis, parece urgente que sejam tomadas medidas de forma a evitar que tragédias como essa se repitam. O Brasil, há tempos, tem primado por copiar e transplantar para cá, acriticamente, políticas sociais geradas no ambiente específico dos Estados Unidos, como exemplificam a visão estritamente policialesca no combate às drogas, a defesa da Intolerância Zero na segurança pública, a expansão de um sistema prisional privatizado, a Lei Seca, entre tantos outros exemplos.

Tenho frequentemente a sensação de que copiamos muito do que seja ruim ou questionável e negligenciamos aquilo que nos aperfeiçoaria. Por exemplo, tornaríamos nossos estabelecimentos bem mais protegidos contra tragédias como essa se adotássemos o modo como lá os imóveis, comerciais ou domiciliares, de todos os tamanhos, são obrigados a oferecer saídas claramente sinalizadas, extintores em dia e à mão, detectores de fumaças e, em alguns casos, portas corta-fogo e antipânico, tudo isso garantido por inspeções periódicas e por eventuais multas em caso de negligência.

Cabe ressalvar que considero o vigilantismo social detestável quando voltado a aspectos morais das condutas – e isso se aplica, em alguma medida, à Lei Seca, cuja implementação no Brasil, a meu ver, carece de discussões aprofundadas em relação aos direitos e deveres dos cidadãos. As proteções anti-incêndios acima citadas são, porém, de outra ordem, não intrusivas na esfera comportamental, não suscetíveis à manipulação moralista: medidas técnicas e eficientes que, sem afetar absolutamente as liberdades individuais, se efetivamente implementadas dariam uma contribuição decisiva à prevenção e à minimização de danos causados por incêndios – os quais, como o caso de Santa Maria demonstra de forma eloquente, tanta dor pode causar às suas vítimas diretas e indiretas.


Momento é de solidariedade
Sendo o incêndio em Santa Maria uma tragédia em proporções mundiais, fez muito bem a presidente Dilma Rousseff em cancelar sua participação no encontro de cúpula conjunta do Mercosul e do Mercado Comum Europeu e voar imediatamente de Santiago, no Chile, para o interior gaúcho. Tragédias desse montante demandam a presença do mandatário máximo, se não pelo maior e mais velozmente eficaz poder de fazer cumprir decisões urgentes que demandam mobilização nacional, mas pelo simbolismo em termos de solidariedade e apoio ao povo de Santa Maria, notadamente aos familiares e amigos das vítimas da tragédia. Ademais, ao se encontrar com estes no ginásio da cidade, Dilma, que já havia se emocionado a ponto de interromper sua fala em Santiago, mostrou-se profunda e sinceramente abalada.

Que a oposição e seus aliados na mídia corporativa critiquem a presidente pelo que entendem por medidas eleitoreiras, como vêm fazendo, pode até, no limite, fazer parte do jogo político, mas caracteriza-se, antes e acima de tudo, como uma atitude mesquinha que tende a ser compreendida como insensível, inoportuna e deslocada do sentimento de solidariedade e luto ora dominante. Mais bonito faria a oposição se declarasse por ora suspendido os enfrentamentos políticos e, em uníssono, se unisse com os demais poderes e com o povo brasileiro em solidariedade às vítimas da tragédia. Mas isso seria esperar demais da mais medíocre oposição da história da política brasileira.


Respeito à dor 
Porém, talvez ainda pior do que a atitude dos políticos oposicionistas e seus porta-vozes midiáticos seja a reação de alguns grupos religiosos nas redes sociais, que se aproveitam desse momento de perda para espalhar seus discursos moralistas toscos, eivados de culpas, as quais querem impingir às vítimas, agravando a dor de seus entes queridos. Tal atitude é o exato contrário do que se espera de quem se diz seguidor do cristianismo, cujo legado principal é o amor ao próximo, a caridade e a fé na redenção.

Neste momento tão difícil, em que tantas famílias sofrem a perda de pessoas queridas, que pais terão de vivenciar o drama inatural de enterrar seus filhos, que toda uma cidade, todo um estado, se mobiliza para atenuar as dores das vítimas, não é momento de moralismo barato ou de revanchismo, mas de altear pensamentos e coração no desejo de que os afetados pela tragédia tenham força para vivenciar e superar este momento, sublimarem-se para além da dor e reconstruírem suas vidas. 

E para que, um dia, Santa Maria volte a ser uma cidade encantada.

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