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quinta-feira, 14 de julho de 2016

Duas ou três coisas sobre Babenco

- Brincando nos campos do Senhor (1991) talvez seja o melhor filme já feito sobre a Amazônia, ao lado de Iracema, uma transa amazônica (1974), de Bodanzky e Senna. Apesar de sua exuberância narrativa e da grande atuação dos atores - uma constante nos filmes de Babenco - foi massacrado numa campanha de indisfarçável tom xenofóbico que uniu crítica e cineastas brasileiros. Mas revê-lo hoje, no pós-Armageddon de Belo Monte, é não só uma oportunidade de reconhecer-lhe os méritos estéticos, mas seu caráter prenunciatório, tanto em relação à questão amazônica quanto à preponderância da influência religiosa na política.



- Gosto muito de quase todos os filmes de Babenco, mas, para mim, a obra-prima, que fala tanto à razão quanto ao coração é Pixote, A Lei do Mais Fraco (1980), um filme-denúncia sobre um grave problema social, um marco internacional na representação da infância. e um dos raros momentos, depois dos anos 1960, em que o cinema latino-americano foi capaz de causar um debate de grandes proporções, influenciando inclusive a formatação de políticas para a juventude - ECA, sobretudo.



- Uma obra sobre o “esmagamento da fantasia infantil pela inflexibilidade dos adultos”, como definiu Ely Azeredo, decano da crítica cinematográfica, para quem Pixote é um filme “Universal em sua dor (...) por dar a visão de uma espécie de genocídio espiritual ainda mais brutal que as agressões físicas dos guardiões dos laboratórios e os assassinatos providenciais cometidos pela polícia".



- Em uma sala de aula, a professora escreve na lousa, ao passo em que soletra em voz alta:

- “A ter-ra é re-don-da co-mo u-ma la-ran-ja” – enquanto isso, em sua carteira, Pixote cochila.

Combinando paciência e energia, a mestra se aproxima, procurando incentivar o garoto a se concentrar e escrever. À medida que procura despertar seu interesse, o que era – para Pixote e para o espectador – uma aula modorrenta sobre um tema banal transforma-se em uma profunda experiência do saber. O espectador é envolvido tal qual o garoto, que aos poucos sai de sua letargia. Babenco radicaliza, para tal, um procedimento consagrado do cinema clássico: a trilha sonora melodramática invadindo paulatinamente a cena, enquanto a câmera “fecha”, em zoom, do plano de conjunto de Pixote e da professora para um close fechadíssimo e longo do rosto de Pixote, enlevado pelo aprendizado. O grande professor e pesquisador de cinema João Luiz Vieira considera a sequência "um dos mais sublimes momentos do cinema brasileiro moderno".





- Babenco era odiado por setores do cinema brasileiro, um pouco por pura xenofobia e preconceito contra argentinos, outra tanto porque, do ponto de vista formal, seu cinema, embora longe do convencional, mesclava elementos hollywoodianos à influência neorrealista, destoando da estética (pós)cinemanovista; mas, sobretudo, por inveja, por que Babenco não só conseguia fazer filmes brilhantes, mas que, com frequência, abordavam com mais urgência e vigor aspectos terríveis da realidade brasileira.



- Os filmes de Babenco, praticamente sem exceção, envelheceram muito bem. Já falamos sobre a aualidade de Brincando nos tempos do Senhor. Como observou o crítico Inácio Araújo, Pixote, ante o agravamento da questão da infância, cresceu com o tempo - como dado extra que o assassinato do ator principal pela PM revalidou, de forma macabra, a denúncia que o filme perfaz. Ironweed e O beijo da mulher aranha, são, a um tempo, case studies para a adaptação literária ao cinema e para a direçaõ de atores. Lúcio Flávio, passageiro da agonia, além de manter-se - ao contrário da maioria de seus contemporâneos - como um retrato contundente da ditadura, segue, ainda hoje, como um comentário amargo sobre a ação dos esquadrões da morte, fardados ou não.



- A relação ambígua de Babenco tanto com o Brasil quanto com a Argentina, se por um lado acabou por torná-lo uma espécie de pária, por outro permitiu-lhe assumir um distanciamento crítico em relação aos dois países, com notáveis benefícios em sua obra. Se, em termos de tematização de realidades sociais, o Brasil se beneficiou mais com tal dinâmica, por outro lado a Argentina, embora por muito tempo ele a renegasse, permaneceu como uma pendência sentimental e psicológica. "Y aunque no quise el regreso/siempre si vulve al primer amor", diz a letra do tango: O passado (2007), o belísimo filme em que retorna à Buenos Aires de sua juventude, exorcisa tal fantasma, preparando o acerto de contas com a vida, o qual teria lugar no crepuscular Meu amigo hindu (2015).



- Babenco viveu intensamente a vida e a arte, seja como o outsider que, no melhor espírito 1968, colocou uma mochila nas costas e foi explorar o mundo, seja como o cineasta que, de assistente de diretores europeus, se transformou em um realizador corajoso, polêmico, capaz de grandes e arriscados mergulhos. Tal atitude evidentemente não o salvaguardou de períodos limítrofes, de grandes crises, de ostracismo; mas, por outro lado, fez florescer um punhado de filmes viscerais e inesquecíveis, que compõem uma obra única, com assinatura pessoal, e que serão vistos, saudados e comentados por muitas gerações.



(Still de Marília Pêra e Fernando Ramos da Silva retirado daqui)

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Paulo Bernardo e o golpe

Paulo Bernardo é, com certeza, uma das figuras políticas mais abjetas da era petista. No primeiro governo Dilma, à frente do ministério das Comunicações, encarregado de efetivar as promessas que a candidata acordara - em troca de apoio - com os setores mais avançados do ativismo digital, protagonizou, de forma deliberada, um engodo contra os cidadãos, numa versão precoce e pouco debatida de estelionato eleitoral.

Logo após a posse e durante o primeiro ano de mandato, ele comprometeu-se a aperfeiçoar a qualidade e a democratizar a banda larga, como parte de um ambicioso - e necessário - projeto de inclusão digital, o qual anunciava não apenas nos fóruns convencionais, mas em interações diárias e diretas nas redes sociais.



Sumiço
Porém, essa então novidade - para o Brasil - de um membro do alto escalão do Executivo dialogar diariamente com os cidadãos foi desaparecendo à medida que se tornava evidente o descumprimento das promesas originais do Plano Nacional de Banda Larga (PNBL). A inclusão digital global saiu da pauta, as verbas escassearam e o processo de desmanche do projeto foi denunciado em Carta Aberta à Presidenta Dilma, no bojo da eclosão de "crise entre os membros da sociedade civil, agentes da inclusão digital e o governo federal".

Logo ficou evidente que tal abandono se dava em prol do fortalecimento do poder das teles, cujas dívidas milionárias eram anistiadas a cada final de ano, enquanto - sob a inação cúmplice da Anatel - continuavam a oferecer um serviço de qualidade precária e altos preços, se comparados aos padrões internacionais. Ato contínuo, significadamente, tornam-se as principais financiadoras da milionária campanha da esposa do então ministro, Gleisi Hoffman, ao governo do Paraná, em 2014.



Outro mensalão
Tal atuação já seria mais do que suficiente não apenas para ruir a imagem de Paulo Bernardo como homem público, mas para torná-lo "pessoa de interesse" para a Justiça.


Mas não acaba aí: com sua prisão, no bojo da operação "Custo Brasil" - deflagrada hoje pela Polícia Federal -, descobre-se que a atuação do ministro durante os governos petistas foi ainda mais vergonhosa: incluiria, segundo denúncia do MPF-SP, um esquema de recebimento de propina baseado no direcionamento de licitação pública e no recurso a empresas de fachada, esquema esse que teria movimentado R$100 milhões, com R$7 milhões em dinheiro público indo para os bolsos do político do PT.

Para tornar tudo ainda mais repulsivo, tal esquema - do qual, segundo a denúncia, beneficiavam-se Paulo Bernardo, um escritório de advocacia e o Partido dos Trabalhadores - desviava recursos de empréstimos consignados de servidores e pensionistas, ou seja, de contingentes pobres e remediados da população. (Cabe notar que, à diferença, por exemplo, do "Petrolão", não se trata da ação de uma empresa estatal autônoma, mas de um foco de corrupção agindo nas entranhas mesmo do governo, a partir de um ministério afixado no organograma do Executivo.)



Explorando os necessitados
Antes e à revelia da eclosão do escândalo, a própria modalidade do empréstimo consignado já vinha se mostrando extremamente polêmica. Pois, criada para facilitar o acesso ao crédito a aposentados e determinados estratos de baixa e média renda - como forma de incentivar o consumo na Era Lula -, tem resultado em um processo cruel de endividamento e de redução substancial dos vencimentos mensais (dos quais se desconta o pagamento do empréstimo), notadamente no que tange a idosos e pensionistas, com reflexo na capacidade da compra de medicamentos e alimentação.

Um método de corrupção que não hesita em explorar tais atores socioeconômicos explicita o grau de crueldade, de degeneração e de desprezo por regras básicas do convívio republicano durante os governos petistas. Isso, sim, é golpe.



(Imagem retirada daqui)

terça-feira, 21 de junho de 2016

Haddad na encruzilhada eleitoral

Uma maioria maciça de 55% dos eleitores considera a gestão Haddad ruim ou péssima, registra pesquisa do Ibope divulgada hoje. Para 33% ela é regular e para meros 12%, ótima ou boa.

Haddad é, ainda, o candidato com a maior rejeição, com 46%, um índice que supera em quatro pontos o limite-padrão de viabilidade eleitoral estabelecido pelos especialistas para eleições em dois turnos.

Cabe assinalar, ainda, ser provável que essa pesquisa - feita entre os dias 16 e 19 - tenha captado só parcialmente o desgaste do prefeito em decorrência de sua política desumana para com os moradores de rua, amplamente perceptível nos fóruns públicos e redes sociais (que o apelidaram, significadamente, de Maldadd).

Pode-se argumentar que, na eleição anterior, em 2012, Haddad também largou mal, foi subindo, subindo e saiu vitorioso no segundo turno, enquanto Serra e Russomano [que tinha, na primeira pesquisa eleitoral, os mesmíssimos 26% ora captados pelo Ibope] decaíram. Só que ele era então uma novidade, quase um outsider, o jovem e promissor acadêmico com uma passagem tida (então) como brilhante à frente do Ministério da Educação.

Agora, a situação inverte-se: ele é situação e terá de enfrentar não só o ônus e o desgaste de quatro anos à frente da Prefeitura, mas a concorrência de candidatas que, como ele, têm origem no petismo, vivência na esquerda e experiência administrativa, como Marta Suplicy (PMDB) e Luiza Erundina (PSOL) - as quais, com, respectivamente, 10% e 8%, aparecem à sua frente na pesquisa Ibope.

Além disso, os reflexos da derrocada moral e política do PT no âmbito nacional devem cobrar um alto preço. Como explicar, de forma eticamente coerente, que Gabriel Chalita, que até ontem era pupilo dileto de Temer - a quem os petistas acusam de golpista - tenha sido o escolhido para ser vice na chapa de Haddad?

Tudo somado, mesmo com toda a máquina estatal e a expertise marqueteira, tudo indica que será uma tarefa árdua para o PT reeleger-se para a prefeitura de SP - a mais simbólica e maior esperança do partido de administrar um orçamento público de grande porte a partir das eleições deste ano.


(Foto retirada daqui)

terça-feira, 31 de maio de 2016

O estupro e a "esquerda"

Com a repercussão do abominável caso de estupro coletivo no Rio, o país neste momento se equipara, na percepção mundial da violência sexual contra a mulher, com a Índia - uma sociedade de patriarcalismo milenar e repressão estrutural às mulheres -, como apontado no artigo em que Dorrit Harazim traça, com brilho, paralelos com o tristemente célebre caso ocorrido em 2015 em Nova Deli.

Tal constatação torna-se ainda mais chocante quando levamos em conta que o Brasil foi administrado, nos últimos 14 anos, por governos ditos de esquerda. Dos quais, por mais complexas e atenuantes que possam ser as imposições da realpolitik, com seu arco de alianças e compromissos, esperava-se que trabalhassem no sentido de aprimorar a qualidade das relações sociais e das políticas de gênero - seja através do estímulo ao debate, de campanhas específicas, da instauração de fóruns e mecanismos que promovessem a diversidade, a tolerância, o respeito, a consensualidade, o esvaziamento e coibição das potências de violência na seara sexual.

Mas não. Em primeiro lugar porque se tratou de uma "esquerda" forte em um pragmatismo econômico baseado em exportação de commodities e estímulo ao consumismo interno, mas ignorante, desinteressada e defasada no que concerne a plataformas biopolíticas.

Em segundo, porque o partido no poder repeliu as tendências internas e os partidos à esquerda, mostrando-se, entretanto, extremamente elástico em relação a composições com as forças conservadoras. Um dos principais efeitos de tais escolhas é que acabou manietado por lideranças protorreligiosas cujo poder veio a se fortalecer, mais e mais, açulado justamente por sua aliança com o poder federal de turno. Este, por sua vez, contrariando seu discurso histórico e traindo, seguidas vezes, coletivos e organizações que o apoiaram nas eleiçõs, deu vazão uma bola de neve de moralismo barato, repressão rexual e recuos constrangedores em relação às políticas de gênero.

As estatísticas mostram, de forma indubitável, que a barbárie sofrida pela jovem de 16 anos está longe de ser um caso isolado - pelo contrário: coletivo ou não, contra mulheres (em sua maioria), mas também contra homens, gays ou transgêneros, o estupro é um crime disseminado, cotidiano, em relação ao qual paira um silêncio cúmplice na sociedade brasileira. As tentativas de caracterizar a vítima como lasciva, leviana, vadia, participante de bacanais, puta - como se qualquer destas condições justificasse o estupro -, constituem uma clara intenção de culpar a vítima, exemplificando de forma cabal tais estratégias de negação e mudez.

Não seria justo culpar tão-somente este ou aquele governo por um fenômeno disseminado de violência social fermentado por décadas - nominalmente, a (in)cultura do estupro. Mas tampouco seria correto isentá-los de responsabilidades: achar que o estupro coletivo do Rio - com o deboche sádico como corolário e indício de convicção de impunidade - está dissociado, por um lado, da cada vez mais danosa associação entre o poder de corporações mercantis/religiosas e o poder político, e, por outro - e na contramão do mundo - do retrocesso das políticas públicas concernentes a sexualidade e questões de gênero observado no Brasil neste milênio seria incorrer na mais crassa ingenuidade (ou fanatismo).


segunda-feira, 23 de maio de 2016

O caso Jucá e a reação às denúncias

A mídia publica uma denúncia fatídica contra um ministro ou outro personagem central do governo; o desgaste, para ambos, é imediato e avassalador; o personagem é demitido, de acordo com uma lógica do tipo "perder os anéis para manter o dedo".

Esse processo se repetiu diversas vezes nos governos Lula e Dilma - e agora, ocorre pela primeira vez no de Temer. Para além da discussão sobre a legitimidade de um e de outro governo, observam-se ao menos duas diferenças no modo de reagirem: a primeira é que o padrão da reação petista era delongar: sem propriamente defender o acusado, adiava-se sua demissão, com o exército "progressista" culpando a "mídia golpista". Ao final, após semanas de desgaste, com a persistência do que J.B. Thompson chama de "escândalo político-midiático", o indigitado ia pra rua.

A segunda, com raras exceções (como Palocci), é que, durante os anos petistas, a demissão correspondia a a um exílio na Sibéria: ao menos institucional e publicamente, o demitido perdia poder de influência e mesmo de interlocução com o governo. Já Jucá "cai pra cima": não só volta para o Senado, mas com a chancela política de Temer, que chegou a declarar "precisar" dele lá.

À primeira vista, do ponto de vista da estratégia administrativa, a rapidez com que Temer agiu tenderia a ser vista como um ponto positivo, comparada à letargia desgastante de Lula e Dilma para com os denunciados. Por outro lado, a reafirmação da importância do Jucá senador para o Temer soa como um flanco de vulnerabilidade , o qual sugere o prolongamento do desgaste do governo, ainda que em outro patamar..

Talvez seja cedo para prognósticos. A reação da sociedade e dos demais atores políticos é quem deve determinar seu desfecho. Mas uma coisa parece certa: a denúncia do caso Jucá pela Folha de S. Paulo demonstra, uma vez mais e para os que ainda teimam em se recusam a ver, que, malgrado seus inúmeros problemas e tendenciosismos, a mídia como inerentemente golpista e antipetista é uma falácia ideológica, desmentida pelos fatos.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

O pós-impeachment e as narrativas de falseamento

A polêmica quanto ao impeachment ser ou não um golpe transformou-se em um não-debate, posto que choque de convicções. Cada um dos lados em confronto possui tanto argumentos irrefutáveis quanto um arsenal de truques retóricos e óbvias falácias. Para além de quem tem razão em tal impasse, preocupam-me duas de suas consequências diretas.

A primeira, já apontada por diversas vozes, é que, seja qual for a resposta a tal polêmica, ela devolverá ao PT o estigma do vitimismo, cujo culto, açulado pelos truques do marketing político tão eficiente quanto aético, já lhe foi muito útil nas urnas e pode vir a ser decisivo para reanimar a candidatura Lula em 2018.

A segunda, a meu ver ainda mais artificial do que a anterior, diz respeito ao modo como o legado petista tende a perdurar e a ser tratado pela militância, por simpatizantes e pelo pessoal do "voto crítico" - aquela turma que passa dois anos descendo a lenha no PT, acusando-o de fazer o jogo da direita e de, portanto, não representar a esquerda, mas, na hora do voto, volta a ser linha-auxiliar do petismo. Difícil afirmar se se trata de mera miopia política ou grave masoquismo, mas o fato é que já vimos esse filme em 2010, 2014 e na votação do impeachment, e não há razão para acreditar que não se repita em 2018, com Lula, a despeito de seu legado, que inclui o desastre Dilma Rousseff.

E é justamente a operação de maquiagem e falseamento de tal legado, já em curso, o que me interessa tratar aqui. Pois parece-me claro que a tendência narrativa petista será opor as medidas anticíclicas que Temer certamente tomará - ajuste fiscal, tunga nos aposentados ("reforma" da Previdência", em linguagem marqueteira), corte de direitos trabalhistas - não a medidas extremamente similares que Dilma tomou ou estava prestes a tomar (como aexpansão das "concessões" e a própria "reforma da Previdência", item prioritário em sua agenda pré-impreachment), mas ao ápice do governo Lula, com a expansão do crédito, das vagas na universidade, dos concursos públicos, dos lucros em geral.

Ou seja, será comparado um presente recessivo e em crise (em grande parte graças a artes petistas) com um passado atípico e já idealizado em seu momento mesmo de consagração (porque,entre outras aspectos, foram desprezadas suas consequências para a economia futura do país).

Tal tendência já é possível de ser observada atualmente, em forma embrionária: a administração Temer, segundo tal narrativa, representará o fim da ascensão de muitos à universidade (como se o FIES já não estivesse falido com DIlma), atentados a direitos trabalhistas (como se os dois governos petistas não tivessem mudado as regras de aposentadoria, seguro-desemprego, seguro-defenso e pensões), o término do período em que pobres viajavam de avião (como se a redução das rotas interioranas, do número de voos e de sua taxa de ocupação não fosse uma realidade presente), e por aí vai.

Ou seja, contra o então presente recessivo de Temer será contraposto um passado idílico e socialmente justo do petismo - como se este não se desdobrasse naquele, e como se o legado de Dilma (presente ou futuro) não fosse a pior crise econômica dos últimos 34 anos.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Brasil depois de domingo

Neste momento em que, com o desembarque do PP (e do PSD do "aliado" Kassab), o impeachment torna-se uma possibilidade iminente, a linha de defesa do governismo tem se concentrado em duas frentes: uma, a tradicional tática de martelar mentiras, freneticamente reproduzidas nas redes sociais por militantes e simpatizantes, cujo maior exemplo - até agora - é um desenho com uma contagem alterada dos deputados corruptos da Comissão de Ética que teriam votado pró e contra o impeachment (apontando, respectivamente, 35x2. quando o placar verdadeiro é 19x16).

A outra é a aposta na tática do medo, carro-chefe eleitoral do petismo e a principal responsável pela vitória de Pirro em 2014. Em sua versão pré-impeachment, ela apregoa que o governo Temer será o inferno neoliberal na terra, com privatizações a granel - inclusive de universidades -, "entrega" do jamais leiloado Pré-Sal, sacrifício dos (ora privilegiados) trabalhadores e aposentados, repressão a manifestações e movimentos sociais (2013, Copa do Mundo, alô?), além de um "mega" ajuste fiscal (o adjetivo anteposto é para diferenciá-lo daquele praticado por Dilma, digo, por Levy).

Contra tanta maldade, a enésima reavivação da promessa de que Dilma promoverá a tal guinada à esquerda (acredite... se quiser).


Questões em aberto
Ironias à parte, duas questões tomam corpo: 1) Quais as chances de isso realmente acontecer? 2) Na hipótese de Dilma sobreviver à primeira tentativa de impeachment, quão diferentes dessas seriam suas pollíticas?

Em um eventual governo Temer, como a situação econômica torna óbvio constatar - e seu discurso "que vazou" confirma -, deve ocorrer um aperto fiscal, o cenário recessivo tende a agravar o desemprego; um aumento significativo das privatizações está em pauta. Trata-se de uma perspectiva sombria, sem dúvida.


Tempo exíguo
Porém, a campanha para as eleições de 2018 está, na prática, há menos de um ano de começar (em março do ano que vem). Se o governo Temer fizer um terço das malvadezas recessivas que ora lhe atribui a militância governista, lidar com o rótulo de golpista e com a ruidosa oposição dos simpatizantes do PT será o menor dos seus problemas.

Pois, na prática, ele não disporá de tempo hábil para colher nada além dos efeitos ruinosos dos ajustes, tendo de fazer campanha eleitoral em cima de promessas de melhoras enquanto agrava-se a recessão e o desemprego. Ou seja, um cenário de sonho para o retorno do messianismo lulista, bradando o desempenho econômico do país durante a sua presidência.


Impeachment ou imobilismo
E como seria com Dilma, na hipótese cada vez mais improvável de não sair derrotada no domingo? Embora a memória seletiva da militância (e de alguns inocentes úteis) finja esquecer, a pauta da presidente, antes de parar de governar o país para se defender, leiloando cargos, tinha dois itens prioritários: a "reforma" da Previdência (leia-se tunga em aposentados) e a aceleração da privatização da infraestrutura ("concessão", na novilíngua petista; "vender o Brasil", quando quem privatiza são os tucanos). O desemprego disparara, a inflação projetara-se acima da meta, a atividade econômica e até a renda mensal caíram. Nada minimamente ao gosto da esquerda, nem mesmo da autodenominada "esquerda" governista (aquela que apoia Belo Monte e Força Nacional).

Nos próximos meses, com a economia em frangalhos - incluindo queda vertiginosa na arrecadação de impostos, devido à recessão -, uma base política esquálida e Dilma se equilibrando na corda bamba enquanto a oposição, majoritária, lhe atira bananas, de onde ela tiraria recursos e apoio político para, mesmo se quisesse, adotar políticas anticíclicas?


Platonismo político
Tais questões, embora mais do que relevantes, necessárias, tendem a ser, na verdade (se o impeachment não vier a significar um choque capaz de produzir autocrítica e rearranjos partidários profundos), meramente retóricas. Pois o petismo militante há tempos não está mais interessado na materialidade das políticas levadas a cabo por seus governantes e em seus desdobramentos. Prefere as substituir por uma visão platônica de esquerda, em que, por um lado, as ações de seu governo são, à revelia de efeitos nocivos e aspectos retrógrados, avaliadas pelo que poderiam ser ou representar; enquanto, por outro lado, a oposição é, invariavelmente, uma alteridade maléfica e conservadora, a nêmesis neoliberal (ainda que o neoliberalismo jamais tenha deixado de ser um elemento orientador de políticas oficiais durante os governos Lula e Dilma).

Tudo somado, em um caso ou em outro, as perspectivas, a curto prazo, são, sem trocadilho, temerárias.


(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Cunha e a moral cínica

Se confirmada, será um acinte a anunciada decisão de Eduardo Cunha (PMDB/RJ) de começar a votação pelos deputados do Sul, como forma de "criar um clima pelo impeachment" e pressionar parlamentares do Nordeste (alegadamente mais propensos a votar em Dilma).

Mesmo na sessão do impeachment de Collor, em 1992, que contava com uma quase-unanimidade a favor (a qual não se verifica no processo atual), a votação foi em ordem alfabética, justamente para evitar acusações de favoritismo ou distorções no processo.

Não tenho dúvidas de que quanto mais evidentes as manipulações de Cunha, mais alimentarão o discurso do "golpe" e o ressentimento de parcelas dos eleitores, o que pode resultar tanto em irrupções de violência pública no curto prazo quanto, para 2018, num refortalecimento do lulismo.

É verdadeiro o argumento de que Cunha foi cobra criada pela aliança entre PT e PMDB no Rio, só tendo sido alçado à posição de poder que ocupa graças ao misto de irrealismo, incapacidade de articulação política e megalomania delirante de Mercadante e Dilma, cuja decisão desastrada de "desidratar o PMDB", principal partido da aliança, está na gênese da crise. Constatar tal retrospecto, no entanto, não me parece minimamente suficiente para justificar que sejamos complacentes com as tramoias de um político que age com total desfaçatez e à revelia da ética. A menos que o ódio ao petismo se sobreponha ao apego pelos ritos básicos da democracia.

Com todo respeito aos que pensam de outra forma, alegar que o petismo, no poder, tampouco tem respeito pela democracia, não obstante tratar-se de uma verdade cristalina - como se vê nas sucessivas violações aos direitos trabalhistas e previdenciários, no uso da Força Nacional para reprimir manifestantes pacíficos, no genocídio indígena, nos inúmeros casos de corrupção -, não me parece um argumento convincente de que, então, as violações democráticas contra o PT tenham de ser toleradas.

Pois tal retrospecto não significa, automaticamente, a concessão de um salvo conduto para que os críticos do petismo nos calemos ante as flagrantes violações diretas ou indiretamente ligadas ao processo de impeachment em curso - pelo contrário: a coerência, para mim, consiste em condenar todas e quaisquer violações ao Estado de Direito, mesmo quando elas se voltam contra aqueles aos quais póliticamente nos opomos. A mesma indignação contra as violações de direitos que fez com que me opusesse e as denunciasse, na era Dilma, faz com que as denuncie agora, ainda que contra aquela que julgo a pior presidente do período pós-ditadura.

O contrário disso me parece a adoção de um duplo padrão ético - ou, em outras palavras, a adesão a uma lógica de moral cínica.



(Imagem retirada daqui)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Especialistas de estimação

Um dos efeitos mais bizarros da difusão das redes sociais é que tem especialistas, profissionais reconhecidos e gente com reputação de séria para respaldar virtualmente qualquer opinião, em qualquer disciplina.

Se aquela ideia do Swift de matar crianças de rua para fazer salsicha com a carne delas e acabar com a fome no mundo for lançada no Facebook ou no Twitter, aposto que vão aparecer nutricionistas e sociólogos com projeção nacional para respaldá-la.

E, na dinâmica atual das redes, em que - como várias pesquisas mostram - as pessoas tendem a se juntar em grupos com interesses e ideologias afins, o resultado é que praticamente qualquer posição, por mais esdrúxula e insustentável que seja, acaba corroborada por opiniões de peso.

Em última análise,o efeito é que muitos tornam-se convictos de sua posição - e da legitimidade desta, a despeito de critérios objetivos de validação.

Durante os anos 90, antes da web 2.0, disseminou-se o prognóstico de que a internet diminuiria significadamente o prestígio e a função social dos especialistas. Talvez esteja acontecendo o oposto: eles se tornaram onipresentes, independente de posicionarem-se com a maioria ou com grupelhos.

Desnecessário apontar que, em um cenário político de polarização extrema, tal processo atinge o paroxismo - e com resultados os mais nefastos.



(Imagem retirada  daqui)

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Chico, a Geni da vez



Vou falar de uma coisa que está me incomodando demais.
Acredito que Chico Buarque tenha o direito de defender suas posições políticas sem passar pelo verdadeiro linchamento moral e pelos ataques desqualificadores em sequência que passou a sofrer desde que assumiu uma postura contra o impeachment e de defesa do governo Dilma Rousseff.

Não há nenhuma acusação de desvio de dinheiro público contra ele, ele não está no rol de investigados da Lava-Jato. Só defende - a meu ver equivocadamente - o governo de um partido com o qual ele e sua família têm ligações de décadas. Não há benefício direto nenhum advindo desse apoio.

O assassinato de reputações dos que discordam assomou ao primeiro plano com o jornalismo neocon da Fox News, foi importado tanto por Veja quanto por blogueiros progressistas e tornou-se regra com a disseminação das redes sociais.

Mas ainda penso ser possível discordar de quem defenda o que para nós pareça indefensável sem desqualificar completamente a pessoa, anulando-a como interlocutor e como ser pensante.

Chico Buarque não é apenas um compositor e escritor reconhecidamente talentoso - é alguém que, na maior parte das décadas em que viveu até agora, manteve um compromisso com os rumos sociais e políticos do país. Neste momento as escolhas dele não coincidem com a da maioria de nós, mas quem está sendo autoritário e antidemocrático ao, por isso, descartá-lo, esculachando-o?

(Imagem retirada daqui)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Temer e a realpolitik petista


A iminente possibilidade de Temer assumir a Presidência, não obstante execrada pela militância pró-governo, seria o ato final da realpolitik petista, este eufemismo "elegante" que o marketing político adotou para tentar legitimar uma política de alianças que está - mesmo no ãmbito latino-americano - entre as mais imorais e antirrepublicanas já praticadas por um partido nascido e ainda tido (por alguns desavisados) como de esquerda.

O surto de ulrapragmatismo acomete o PT após as três derrotas presidenciais de Lula e inclui, por um lado, a transformação do outrora ameaçador e desgrenhado líder petista no "Lulinha paz e amor" de Duda Mendonça, com fala mansa e conciliadora, ternos bem-cortados e barba aparada. De outro, o expurgo das mais combativas correntes internas do partido, em um processo cujo maior símbolo foi a expulsão de Heloísa Helena, em 2003, em decorrência de sua posição ante a reforma da Previdência (a primeira de uma série de tungas contra os aposentados promovidas pelos governos petistas).


Sem limites
Daí em diante, foi um verdadeiro vale-tudo: em um elasticismo desprovido de afinidades programáticas ou limites éticos, a tal da realpolitik - saudada e defendida com unhas, dentes e sarcasmo pela mesma militãncia que hoje urra contra o PMDB - aliou o petismo a Sarney, Collor, Maluf, Kassab, Delcídio, Kátia Abreu, "bispos" diversos, além de uma miríade de figuras do baixo clero. 

Dentre elas, um tal de Eduardo Cunha, desde sempre um escroque de baixo escalão, cuja ascensão no Rio foi patrocinada pelo mesmo consórcio PTMDB que elegeu Paes e Cabral e bancou - com aplausos entusiasmados mesmo em setores que se diziam de esquerda - o Estado policial simbolizado pelas UPPs, responsável, em 2013 e durante a Copa do Mundo, pela maior repressão a manifestações públicas das três décadas de democracia pós-ditadura.
 
Em tal cenário, só a ignorância plena, a má-fé ou o fanatismo induzem à conclusão de que, nos governos Lula e Dilma, o "Mensalão", "o Petrolão" e a corrupção disseminada são exceções, esquemas pontuais e secretos sobre os quais os governantes possam alegar desconhecimento - e não a consequência óbvia e direta de tal política de alianças.


Choque de realidade
Ainda assim, açulada por um governismo cego e fanático que durante anos foi predominante na blogosfera e nas redes sociais, uma "guinada à esquerda" foi desde o início anunciada em relação aos governos petistas, tendo cumprido um papel relevante (ou mesmo decisivo) nas últimas eleições - como parte fundamental do estelionato eleitoral no qual incorreu a candidata vencedora. 
 
Enquanto isso, no mundo real, o governo que ora agoniza "exibe os piores índices de reforma agrária e de demarcação de terras indígenas da história, corta verbas da Educação, extingue direitos trabalhistas e sucateia o SUS", como aponta a psicóloga e psicanalista Vera Rodrigues, em sua corajosa carta-resposta a um desses manifestos ditos pró-democracia que proliferam nos últimos dias, recheados de signatários que se omitiram covardemente nas diversas vezes em que o massacre aos índios, aos jovens (e não tão jovens) manifestantes e à população não branca ou periférica manchou e relativizou a democracia brasileira em anos recentes, sob chancela governamental.



Cortina de fumaça
Claro está que, com o arco de alianças forjado pela realpolitik petista, qualquer "guinada à esquerda" jamais passou de miragem. Ele serviu, no entanto - e muito bem - ao modelo predatório e arcaico de desenvolvimento instalado no país, o qual, por sua vez, foi decisivo na instrumentalização das grandes negociatas que, mesclando dinheiro público a interesses privados, serviram ao enriquecimento de uns e à(s) eleição(ões) de outros, como as evidências judiciais colhidas no bojo da Lava-Jato - mesmo com os recentes desvios de conduta que macularam pontualmente a operação - atestam (a tal respeito, defende Vera Rodrigues: "Os excessos da Operação Lava Jato, ou do juiz de primeira instância que a conduz, devem ser combatidos nas esferas jurídicas e políticas que dizem respeito ao Judiciário como um todo, e ao Estado Policial, fomentado por esse governo sempre que lhe interessou").


Liquidação geral
Agora, com o PMDB fora do governo e Dilma fazendo, literalmente, qualquer negócio para chegar aos - tente não rir - 171 votos, o balcão de negócios do Planalto desce ainda mais baixo (se é que isso é possível), se voltando a políticos cujo grau de mercenarismo os leva a evitar os holofotes e a partidos como o PP (de Maluf, que deve levar nada menos do que o ministério da Saúde), o PR (do Capitão Wagner e de Tiririca), o inacreditável PEN (Partido Ecológico Nacional, que nunca defendeu sequer uma árvore) e o PSD kassabista (provável novo velho lar da ruralista escravocrata Kátia Abreu, darling de Dilma, a esquerdista). 
 
Mesmo antes do recrudescimento do impeachment, a pauta priorizada por Dilma II, após ter atacado direitos trabalhistas - ao alterar regras do seguro-desemprego, de pensões por invalidez e do seguro-defenso - era aumento de impostos via volta da CPMF e (mais uma) "reforma" da Previdência (leia-se tunga em aposentados, com violação de direitos adquiridos). Calcula agora, com o Planalto transformado em balcão público de negócios e alguns dos partidos mais retrógrados do país com amplo poder de chantagem sobre a presidente!


Estado de farsa
Em tal cenário e após tantos anos, continuar a propagar (e a acreditar em) qualquer laivo de esquerdismo ou progressismo ou o nome que se queira dar a políticas que priorizem o social, o desenvolvimento sustentado e os Direitos Humanos por parte desse governo é não apenas irreal - é deliberada e escandalosamente mentiroso.


(Imagem editada retirada daqui)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Folha e o colunismo moleque

Por uma dessas estranhas coincidências da vida, comecei a ler o livro que reúne o melhor das colunas de Otto Lara Resende para a Folha de S. PauloBom dia para nascer (Companhia das Letras, 1994) - no mesmo dia em que o diário paulista anunciava Kim Kataguri como seu novo colunista.

Difícil imaginar um contraste mais pronunciado, que melhor explicite a epifania de decadência e perda de rumo por parte de um órgão de imprensa que, nos anos 80 e 90, fez muitos nutrirem esperanças de um salto de qualidade no jornalismo brasileiro.

A prosa de Otto é fluente, enxuta, perpassada por uma ironia tão sutil quanto inteligente, mineiríssima, e por um criticismo político que denota critério, evitando tanto generalizações quanto um certo niilismo negativista que há tempos se tornou corrente. Informada sem soar pedante, pontuada por referências e comparações históricas, sugere uma mente arejada, que surpreende o leitor ao abordar o noticiário com ângulos e associações inusitadas. Leveza, cultura, inteligência.



Abandono da ética
Desnecessário afirmar que nada remotamente similar a isso é oferecido pelo novo contratado da Barão de Limeira – um garoto com Ensino Médio que, já em sua coluna de estreia, maltrata a língua portuguesa e a verdade ao chamar de terroristas cidadãos que, exercendo um direito constitucional. protestaram contra o aumento do preço das passagens de ônibus, sendo por isso massacrados pela PM paulista.

O uso de força excessiva e gratuita por parte das forças policiais, bem como o recurso a uma tática repressiva internacionalmente reputada como desumana – o “caldeirão de Hamburgo”, em que os manifestantes são cercados de todos os lados, sem possibilidade de fuga, enquanto bombas lhes são atiradas –, se, com exceções como o brilhante artigo de Eliane Brum no El País, passou quase em branco na mídia nacional, chocou colunistas internacionais e vem repercutindo muito mal no exterior. Não será surpresa se, num futuro próximo, vier a gerar sanções contra o Brasil, como ocorreu com o tratamento que o governo Dilma dispensa à questão indígena.

Porém, o jornal dos Frias, que sempre se auto-outorgou o título de bastião avançado da ética e dos Direitos Humanos, confirma, com a contratação do agitador semiletrado, que hoje restringe tais temas à cosmética do marketing.

Trata-se, no caso, de uma escolha deliberada, que é mercadológica (mirando o leitorado jovem e o nicho do jornalismo neocon, fenômeno nos EUA, que no Brasil tem a Veja como combalido carro-chefe), mas sobretudo política (a aposta na retomada da mobilização popular pró-impeachment).



Binarismo e desvio de função
A contrapartida, além do agravamento da debandada dos assinantes antigos, é que fornece mais munição para a eterna choradeira do petismo contra a imprensa em geral e contra a Folha em particular – um lacrimário que é hoje o principal bode expiatório a desviar as atenções (e impedir a autocrítica) das responsabilidades dos governos petistas, após mais de 13 anos no poder, pelo deplorável estado de coisas no Brasil de hoje. E que se baseia em uma quimera, pois finge ignorar tanto a colaboração frequente de mandarins do neopetismo - como André Singer, Breser Pereira e Jessé de Souza – quanto a atuação de colunistas como Gregório Duvivier, Guilherme Boulos e de Janio de Freitas em seu outono chapa-branca.

De uma forma ou de outra, o jornal, em vez de aperfeiçoar sua atuação como divulgador de notícias e de análises que informem o leitor e melhor o capacitem para a formação de sua própria visão crítica, prefere investir no acirramento de uma luta político-ideológica binária, maniqueísta, em preto-e-branco sem contrastes, que já se desmontrou reiteradas vezes incapaz de fazer o país avançar.

Para além da intensificação de tal distorção da função da imprensa e da aposta em um beligerantismo ideológico primário, a nova contratação reduz, para além do suportável, o nível cultural, intelectual e de articulação de ideias que se espera do colunismo político.



Diagnóstico preciso
Trata-se de uma estratégia que, atendo-se às consequências propriamente jornalísticas, a professora e jornalista Sylvia Moretzsohn disseca com propriedade e contundência em carta à ombudskvinna em que comunica o cancelamento da assinatura do jornal:

“Várias vezes, antes desta, estive para tomar essa atitude. No momento em que se cunhou a expressão "ditabranda". No caso da ficha falsa da Dilma: não só pelo fato, mas pelos seus desdobramentos, a incapacidade de reconhecer o erro, a canhestra justificativa de que não se poderia afirmar que a ficha era verdadeira nem que era falsa (brilhante jornal que, na dúvida, publica...). Na decisão de contratar o Reinaldo Azevedo.

Mas tudo tem limite.

Não se trata, obviamente, da minha rejeição a posições de direita. Eu sempre achei que um jornal deve buscar a pluralidade. Mas é preciso buscar também a substância. Como disse uma colega, também professora e jornalista, colunista não é o sujeito que simplesmente vai lá e dá uma opinião: é alguém que traz informação original e qualificada. Definitivamente, não é o caso desse rapaz, que não tem condições de estar em nenhum jornal que se leve a sério.

Todo jornal faz suas escolhas. Ao acolher certos colaboradores, escolhe também o público que quer preservar e, consequentemente, o que pode dispensar.”


(Foto de Otto Lara Resende retirada daqui)

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Grazie mille, Ettore!

 
 Morreu hoje, em Roma, Ettore Scola, um dos mais longevos e ecléticos cineastas italianos. Tinha 84 anos, 61 dos quais dedicados ao cinema.

Deixa-nos belos filmes, como “O Baile” (1983), em que conta a história do século XX sem diálogos, só com música e dança; “Um dia muito especial” (1977), então ousada incursão na temática dos gêneros sexuais, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, este no papel de um gay, no dia da visita de Hitler a Roma; além do maravilhoso "Nós que nos amávamos tanto” (1974), sua obra-prima, retrato de uma Itália – e de uma esquerda – que desapareceu no tempo.

Muito versátil, deixa sua marca em comédias ("Ciúme à italiana”, o corrosivo “Feios, sujos e Malvados”), documentários (“Cartas da Palestina”, “O adeus a Enrico Berlinguer”), dramas (“A família”, “Splendor”), filmes de época (“Casanova e a Revolução”, “A viagem do Capitão Tornado”). 

Mas sua marca registrada talvez seja o equilíbrio entre o dramático e o cômico, de um modo tal que este não se mostr ainoportuno ou se choca com aquele, antes instensificando-lhe os efeitos.

Em seu tempo, o reconhecimento de seu talento foi um tanto obscurecido por uma questão geracional, precedido que foi pelos revolucionários do Neorrealismo Italiano e pelo gênio histriônico de Fellini, a quem homenageia em seu último filme (“Que estranho chamar-se Federico”, realizado em 2013 em conjunto com suas filhas Paola e Silvia).

Mas a revisão de seus filmes revela – ou confirma – um realizador com grande sensibilidade e esmero, um notável diretor de atores e um roteirista perspicaz e ideologicamente coeso – caractrerística esta que, nesta era de crise de ideologias, torna a revisão de sua obra particularmente atraente.

Ao contrário de seus contemporâneos na crítica, a história há de reconhecê-lo como um grande entre os grandes do então grande cinema italiano.


(Fotos retiradas, respectivamente, dali, de lá e dacolá)