terça-feira, 31 de maio de 2016

O estupro e a "esquerda"

Com a repercussão do abominável caso de estupro coletivo no Rio, o país neste momento se equipara, na percepção mundial da violência sexual contra a mulher, com a Índia - uma sociedade de patriarcalismo milenar e repressão estrutural às mulheres -, como apontado no artigo em que Dorrit Harazim traça, com brilho, paralelos com o tristemente célebre caso ocorrido em 2015 em Nova Deli.

Tal constatação torna-se ainda mais chocante quando levamos em conta que o Brasil foi administrado, nos últimos 14 anos, por governos ditos de esquerda. Dos quais, por mais complexas e atenuantes que possam ser as imposições da realpolitik, com seu arco de alianças e compromissos, esperava-se que trabalhassem no sentido de aprimorar a qualidade das relações sociais e das políticas de gênero - seja através do estímulo ao debate, de campanhas específicas, da instauração de fóruns e mecanismos que promovessem a diversidade, a tolerância, o respeito, a consensualidade, o esvaziamento e coibição das potências de violência na seara sexual.

Mas não. Em primeiro lugar porque se tratou de uma "esquerda" forte em um pragmatismo econômico baseado em exportação de commodities e estímulo ao consumismo interno, mas ignorante, desinteressada e defasada no que concerne a plataformas biopolíticas.

Em segundo, porque o partido no poder repeliu as tendências internas e os partidos à esquerda, mostrando-se, entretanto, extremamente elástico em relação a composições com as forças conservadoras. Um dos principais efeitos de tais escolhas é que acabou manietado por lideranças protorreligiosas cujo poder veio a se fortalecer, mais e mais, açulado justamente por sua aliança com o poder federal de turno. Este, por sua vez, contrariando seu discurso histórico e traindo, seguidas vezes, coletivos e organizações que o apoiaram nas eleiçõs, deu vazão uma bola de neve de moralismo barato, repressão rexual e recuos constrangedores em relação às políticas de gênero.

As estatísticas mostram, de forma indubitável, que a barbárie sofrida pela jovem de 16 anos está longe de ser um caso isolado - pelo contrário: coletivo ou não, contra mulheres (em sua maioria), mas também contra homens, gays ou transgêneros, o estupro é um crime disseminado, cotidiano, em relação ao qual paira um silêncio cúmplice na sociedade brasileira. As tentativas de caracterizar a vítima como lasciva, leviana, vadia, participante de bacanais, puta - como se qualquer destas condições justificasse o estupro -, constituem uma clara intenção de culpar a vítima, exemplificando de forma cabal tais estratégias de negação e mudez.

Não seria justo culpar tão-somente este ou aquele governo por um fenômeno disseminado de violência social fermentado por décadas - nominalmente, a (in)cultura do estupro. Mas tampouco seria correto isentá-los de responsabilidades: achar que o estupro coletivo do Rio - com o deboche sádico como corolário e indício de convicção de impunidade - está dissociado, por um lado, da cada vez mais danosa associação entre o poder de corporações mercantis/religiosas e o poder político, e, por outro - e na contramão do mundo - do retrocesso das políticas públicas concernentes a sexualidade e questões de gênero observado no Brasil neste milênio seria incorrer na mais crassa ingenuidade (ou fanatismo).


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