quinta-feira, 14 de abril de 2016

O Brasil depois de domingo

Neste momento em que, com o desembarque do PP (e do PSD do "aliado" Kassab), o impeachment torna-se uma possibilidade iminente, a linha de defesa do governismo tem se concentrado em duas frentes: uma, a tradicional tática de martelar mentiras, freneticamente reproduzidas nas redes sociais por militantes e simpatizantes, cujo maior exemplo - até agora - é um desenho com uma contagem alterada dos deputados corruptos da Comissão de Ética que teriam votado pró e contra o impeachment (apontando, respectivamente, 35x2. quando o placar verdadeiro é 19x16).

A outra é a aposta na tática do medo, carro-chefe eleitoral do petismo e a principal responsável pela vitória de Pirro em 2014. Em sua versão pré-impeachment, ela apregoa que o governo Temer será o inferno neoliberal na terra, com privatizações a granel - inclusive de universidades -, "entrega" do jamais leiloado Pré-Sal, sacrifício dos (ora privilegiados) trabalhadores e aposentados, repressão a manifestações e movimentos sociais (2013, Copa do Mundo, alô?), além de um "mega" ajuste fiscal (o adjetivo anteposto é para diferenciá-lo daquele praticado por Dilma, digo, por Levy).

Contra tanta maldade, a enésima reavivação da promessa de que Dilma promoverá a tal guinada à esquerda (acredite... se quiser).


Questões em aberto
Ironias à parte, duas questões tomam corpo: 1) Quais as chances de isso realmente acontecer? 2) Na hipótese de Dilma sobreviver à primeira tentativa de impeachment, quão diferentes dessas seriam suas pollíticas?

Em um eventual governo Temer, como a situação econômica torna óbvio constatar - e seu discurso "que vazou" confirma -, deve ocorrer um aperto fiscal, o cenário recessivo tende a agravar o desemprego; um aumento significativo das privatizações está em pauta. Trata-se de uma perspectiva sombria, sem dúvida.


Tempo exíguo
Porém, a campanha para as eleições de 2018 está, na prática, há menos de um ano de começar (em março do ano que vem). Se o governo Temer fizer um terço das malvadezas recessivas que ora lhe atribui a militância governista, lidar com o rótulo de golpista e com a ruidosa oposição dos simpatizantes do PT será o menor dos seus problemas.

Pois, na prática, ele não disporá de tempo hábil para colher nada além dos efeitos ruinosos dos ajustes, tendo de fazer campanha eleitoral em cima de promessas de melhoras enquanto agrava-se a recessão e o desemprego. Ou seja, um cenário de sonho para o retorno do messianismo lulista, bradando o desempenho econômico do país durante a sua presidência.


Impeachment ou imobilismo
E como seria com Dilma, na hipótese cada vez mais improvável de não sair derrotada no domingo? Embora a memória seletiva da militância (e de alguns inocentes úteis) finja esquecer, a pauta da presidente, antes de parar de governar o país para se defender, leiloando cargos, tinha dois itens prioritários: a "reforma" da Previdência (leia-se tunga em aposentados) e a aceleração da privatização da infraestrutura ("concessão", na novilíngua petista; "vender o Brasil", quando quem privatiza são os tucanos). O desemprego disparara, a inflação projetara-se acima da meta, a atividade econômica e até a renda mensal caíram. Nada minimamente ao gosto da esquerda, nem mesmo da autodenominada "esquerda" governista (aquela que apoia Belo Monte e Força Nacional).

Nos próximos meses, com a economia em frangalhos - incluindo queda vertiginosa na arrecadação de impostos, devido à recessão -, uma base política esquálida e Dilma se equilibrando na corda bamba enquanto a oposição, majoritária, lhe atira bananas, de onde ela tiraria recursos e apoio político para, mesmo se quisesse, adotar políticas anticíclicas?


Platonismo político
Tais questões, embora mais do que relevantes, necessárias, tendem a ser, na verdade (se o impeachment não vier a significar um choque capaz de produzir autocrítica e rearranjos partidários profundos), meramente retóricas. Pois o petismo militante há tempos não está mais interessado na materialidade das políticas levadas a cabo por seus governantes e em seus desdobramentos. Prefere as substituir por uma visão platônica de esquerda, em que, por um lado, as ações de seu governo são, à revelia de efeitos nocivos e aspectos retrógrados, avaliadas pelo que poderiam ser ou representar; enquanto, por outro lado, a oposição é, invariavelmente, uma alteridade maléfica e conservadora, a nêmesis neoliberal (ainda que o neoliberalismo jamais tenha deixado de ser um elemento orientador de políticas oficiais durante os governos Lula e Dilma).

Tudo somado, em um caso ou em outro, as perspectivas, a curto prazo, são, sem trocadilho, temerárias.


(Imagem retirada daqui)

2 comentários:

Marc Pereira disse...

Parabéns por mais um excelente texto. Este é o único site que eu conheço que consegue analisar a política de acordo com o que eu observo, absolutamente coerente e sem defender quaisquer dos lados, que evidentemente comete seus muitos erros. Sem puxa-saquismo, este é o melhor site de política que eu já vi. E o que você disse é isso mesmo! Vamos aguardar o fechar de cortinas dessa novela e ver as consequências disso tudo.

Mauricio Caleiro disse...

Muito obrigado, Marc Pereira. Um abraço.