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domingo, 21 de novembro de 2010

Quem tem medo das questões de gênero?

Parece claro que a eleição de Dilma Roussef à Presidência do Brasil traz consigo uma simbologia positiva para o status da mulher na sociedade brasileira contemporânea, assinalando, talvez, para um melhor equacionamento das questões de gênero no país.

Com uma presidente que, segundo publicações de prestígio como a Forbes e o The Independent, é hoje uma das pessoas mais poderosas do mundo, espera-se não apenas um acréscimo de auto-estima – e talvez de maior disposição para lutar por seus direitos – por parte das mulheres brasileiras mas uma maior atenção governamental às suas demandas.

Entre estas - que incluem uma longa pauta dirigida a questões oriundas da relação entre maternidade/casamento, tais como igualdade de direitos, de volume de trabalho e de oportunidades educacionais e empregatícias – destaca-se a necessidade de equiparação salarial com os homens: enquanto, no mundo, as mulheres recebem uma média salarial de 20% a menos do que os homens, desempenhando a mesma função - o que já é inaceitável -, no Brasil, segundo o IBGE, essa diferença salarial é da ordem de 56%. E não nos esqueçamos que o acesso das mulheres às melhores posições é muito mais restrito do que aos homens.

Mas a mais premente das lutas relacionadas às questões de gênero ainda é o combate à violência contra a mulher. A despeito do avanço representado pela promulgação da “Lei Maria da Penha” – que pune de forma mais severa os agressores -, o quadro no Brasil permanece desolador. Pesquisas internacionais mostram que entre 23 e 27% das mulheres brasileiras estão sujeitas a alguma forma de violência doméstica. Segundo o Ibope, tal modalidade de violência é a preocupação principal de 56% das mulheres brasileiras. Entre as que já foram ou continuam sendo vítimas, 24% alegam não deixar o parceiro por não ter como se sustentar, enquanto 17% temem ser mortas se abandoná-lo.

Ainda assim persiste, no Brasil – mesmo em círculos ditos informados -, um preconceito difuso mas perceptível contra o feminismo e as lutas das mulheres. No caso de homens que defedem tais questões, a reação do patriarcalismo brasileiro é "acusá-los" de homossexualismo ou de submissão - e sinto isso na pele porque, ante o anúncio de que vou ministrar um curso sobre jornalismo e questões de gêneros no próximo semestre, tenho observado reações tão absurdas quanto cômicas, denunciadoras do grau de preconceito de quem as propaga.

Esse tipo de reação, observável à mancheia nossa sociedade, se insere num quadro ideológico que não distingue posicionamento político: enquanto nos estratos conservadores tanto o patrimonialismo como a religião patrocinam a manutenção de uma mentalidade patriarcal, setores da esquerda parecem ainda suscetíveis a uma visão derivada dos anos de hegemonia do velho “partidão”, vendo no enfrentamento das questões de gênero uma forma de divisionismo que prejudicaria a luta por melhores condições sócio-econômicas. Trata-se de uma falsa dicotomia, pois uma e outra esfera são interdependentes.

É notável, nesse sentido, o sucesso das políticas federais de transferência de renda que privilegiam a mulher como a recebedora legal de tais insumos: possuidora, de ordinário, de aguçado instinto maternal de proteção da prole e estatisticamente bem menos suscetível do que o homem a vícios como o jogo, as drogas e o alcoolismo, essas mães convertidas em administradoras assomam a um novo papel social no Brasil contemporâneo, enquanto sua família ascende economicamente.

Trata-se de um indício de avanço, a fornecer esperanças de que, em um espaço curto de tempo, o governo e a sociedade brasileiros consigam disseminar políticas eficazes de combate à violência de gênero e de equiparação efetiva dos direitos de homens e de mulheres.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

O que penso sobre o caso Enem

A polêmica sobre o Enem, deflagrada no último final de semana, tem acirrado ânimos de uma forma tal que, seja entre seus críticos ou entre seus defensores, a razão e o bom senso têm sido as principais vítimas.

Um dos argumentos mais repetidos ao longo da polêmica é que, por se tratar de um problema que só teria afetado uma ínfima parcela percentual dos que prestaram o Enem - de 0,04 a 0,06%, a depender da fonte consultada -, a falha seria pouco significante. Trata-se de um argumento tão lógico quanto falacioso. Pois, evidentemente, só é possivel aferir a gravidade de um fato a partir de dados percentuais se se leva em conta a dimensão numérica da amostra. Ou seja, numa classe de aula com 40 alunos, por exemplo, é absolutamente insignificante algo que incida sobre 0,05% da amostra; mas se pensarmos num desastre natural - digamos, um tsunami - que atingisse fatalmente 0,05% da população brasileira, constataríamos que quase 100 mil pessoas morreriam - o que seria, sob qualquer critério, um desastre de enormes proporções, com manchetes no mundo todo.

Como o universo total de prestadores do Enem é da ordem de 10 milhões de jovens, portanto, a priori, não se pode descartar o problema ocorrido no exame apenas com base em dados percentuais.


Insegurança geral
Outro dado importante a se levar em conta é que o dano sequer se limita ao universo de 4,5 mil alunos diretamente prejudicados - pois, como os problemas ocorreram no sábado, primeiro de dois dias de exame, a divulgação de sua ocorrência instaurou um processo de insegurança psicológica que certamente afetou um contingente bem maior de alunos - o que persiste agora, com a incerteza jurídica a respeito de sua validade.

Esses são problemas reais, efetivos e de grande dimensão. Fechar os olhos para isso, atribuindo a reação tão-somente à oposição intransigente e ao PIG malvado, como tantos vêm fazendo na internet, equivale a adotar a tática-avestruz, enterrando a cabeça na terra para não ver nada.

Mesmo porque,em qualquer lugar do mundo, a imprensa "cairia matando" - e com razão - contra um ministério que, pelo segundo ano consecutivo, prejudica milhares de estudantes no momento crucial de se qualificarem para entrar na universidade. Que, no Brasil, a mídia que se confunde com a oposição alcance os trinados de histeria golpísta em relação ao tema é algo a denunciar e refutar, mas não surpreende nem, de modo algum, torna o caso menos grave.


Enem contraria interesses
Por outro lado, é evidente que, como Stanley Burburinho e outros vêm seguidamente argumentando na tuitosfera, é do interesse de diversos setores da elite boicotar e se possível provocar o fim de um exame que reconhecidamente aumentou o grau de democratização do acesso ao ensino superor, convertendo-se em meio de ingresso à universidade para segmentos historicamente segregados. Não se pode, portanto, descartar a hipótese de sabotagem proposital contra o exame - assim, as investigações devem contemplar todas as hipóteses, ainda mais por se tratar de problema reincidente (embora não exatamente da mesma natureza do havido o ano passado).

Ocorre, porém, que justamente pelo montante de interesses contrários que o exame desperta - e por tal possibilidade de sabotagem estar há mais de um ano no horizonte -, o Ministério da Educação tinha por obrigação redobrar a vigilância e assegurar a excelência do Enem. Ao, na prática, não fazê-lo, parece inevitável que o ônus por tal falha recaia sobre o ministro Fernando Haddad.


Questiúncula eleitoral
Chegamos, assim, ao mencionar o nome do até então possivel candidato petista à Prefeitura de São Paulo em 2012, a uma razão agravante não só para a virulência da mídia partidária - em seu eterno jogo de derruba-candidato-lulista -, mas da reação dos setores esquerdistas na internet e fora dela, os quais reavivem o irrespirável clima das eleições presidenciais.

Ora, é preciso uma boa-fé de Pollyanna para acreditar que o caso não provocará efeitos danosos à candidatura do ministro. Quer queira, quer não, mídia, oposição e amplos setores da população do mais conservador estado da federação vão cobrá-lo incessantemente por conta de uma falha reincidente que afeta milhares de alunos - e não serão tags de apoio no Twitter que vão redimi-lo.


Enem sim, incompetência não
Ademais, com exceção do papel eleitoral da imprensa - que deve ser sempre denunciado e combatido -, não se trata de algo que surpreenda: o mesmo se daria, em qualquer país do mundo, com um ministro-candidato que, por dois anos seguidos, se mostrasse incapaz de gerir com competência um exame destinado a selecionar, entre 10 milhões de jovens, aqueles que ingressarão no ensino superior.

Mas a ilusão, esse veneno eleitoral, consome quem quer ser consumido. Como o compromisso desse blog é com o jornalismo e com políticas progressistas - e não com um partido ou com a campanha do candidato x ou y - preferimos manter a cabeça acima da terra: a luta para a manutenção do Enem é primordial e necessária, mas transcende e não deveria se confundir com questiúnculas partidárias nem abrir mão de critérios de excelência na aplicação do exame.

sábado, 30 de outubro de 2010

Ataques a mulheres evidenciam importância das questões de gênero

No Brasil, o debate sobre as questões de gênero continua enfrentando resistência silenciosa mas efetiva, ainda que sua urgência se torne cada vez mais evidente. Só nesta semana foram noticiados – mas não suficientemente debatidos - três graves casos de abuso e discriminação contra mulheres.


Chauvinismo eleitoral
Os dois primeiros vêm, como não poderia deixar de ser, da imunda campanha eleitoral de José Serra. Ao incauto cidadão que atendesse às chamadas do telemarketing tucano - decretado ilegal um tanto tardiamente pelo TSE - era feita a seguinte indagação:

"- Será que a Dilma sem o Lula dá conta?"
Difícil responder, não é mesmo? Afinal, a ditadura não tocou a mão na adolescente Dilma, que desfrutou de um exílio “caviar e champanhe” no exterior, antes de vir ao Brasil e desfalecer ante uma bolinha de papel. Já o bravo guerreiro Serra, com a têmpera dos "machos adultos brancos sempre no comando", não apenas lutou contra o regime de exceção, sendo preso e barbaramente torturado como, em anos recentes, mostrou toda sua fibra máscula ao enfrentar e superar, sem se deixar abater, um câncer linfático.

Como observou Rodrigo Vianna, autor do melhor post sobre o caso, não coincidentemente, na noite da morte de Nestor Kirchner, o Jornal da Globo se dirigiu a seus telespectadores, perguntando:

"- Será que Cristina dá conta de governar, sem o marido?".
O notável, do ponto de vista das questões de gênero, é que a ninguém ocorreu perguntar ao eleitor, em 2002, se Serra conseguiria governar sem FHC... Ou seja, a premissa da campanha serrista – reverberada, amiúde, pela mídia - é de uma incapacidade comparativa da mulher em relação ao homem - a diferença em forma de lacuna.


A mulher como isca
Tal atribuição de valores e competências hierarquizados segundo (des)critérios de gênero foi corroborada pelo tucano ao final da campanha – quando, com a sociedade estupefata com a falta de escrúpulos apresentada por Serra em sua luta pelo poder, ele, após elegiar a beleza das mineiras, literalmente implorou às “menininhas” para que pedissem “a seus “pretendentes para que nele votassem.

Essa inauguração de uma nova modalidade de campanha eleitoral, baseada no sexismo e numa visão das relações entre os jovens que só é novecentista em sua aparência, já que sua essência é caudatária de uma visão mercadológica das relações sexuais. Não à toa, o tucano paulista, prestes a ser varrido para a lata de lixo da história política brasileira, foi “homenageado” no twitter com a tag #serracafetao.


Nova elite machista

Porém, dos três eventos que poblematizaram, recentemente, as questões de gênero, o que mais choca tem ocupado um lugar secundário nas manchetes: trata-se do chamado “rodeio de gordas”, promovido por estudantes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis, interior de São Paulo.

Concebido e praticado como “esporte” por estudantes dessa universidade pública que abriga os filhos das elites paulistas, o "rodeio" consistia em abordar uma mulher acima do peso e, ao seu descuido, montar-lhe em cima, procurando manter-se o maior tempo possível sobre a "montaria", enquanto a esta eram gritadoss impropérios.

Como se tal humilhação não fosse suficiente, os “estudantes”, via de regra, esmeravam-se em apresentar-se de início atenciosos, simulando deixarem-se seduzir pelas mulheres antes de, literalmente, montá-las, fazendo irromper o urro ignorante da satisfação sadista grupal.

O grau de sadismo psicológico a que são submetidas às vítimas de tal ato, agravado pelo fato de os alunos alegarem tratar-se de mera “brincadeira”, suscita uma dupla reflexão: em primeiro lugar, no sentido de como agir para evitar que tamanha bestialidade, violadora de direitos humanos básicos, volte a ter lugar no ambiente universitário brasleiro.

Em segundo, lugar, não é preciso ser nenhum expert em psicanálise para se aperceber de que o “rodeio das gordas” traz em seu bojo a evidência de uma grave patologia social de grupo - assim como, de maneira análoga, os massacres do tipo Columbine em colégios norte-americanos muito nos dizem a respeito das relações entre constituição psicológica do sujeito, repressão e axiologia da sociedade em que vive. E, acima de tupo, que no bojo de ambos os casos, apresentam-se, latentes, os contra-efeitos de uma economia das pulsões da libido desvirtuada de uma vivência propriamente sexual.

Afinal, para ficar em uma simples e única constatação, jovens minimamente sadios buscam satisfazer seus impulsos através de uma sexualidade afirmativa, gozosa, tendo no horizonte a satisfação mútua dos(as) parceiro(as). Já sair por aí “caçando” gente para cavalgar publicamente, montando em suas costas de supetão e a contragosto, é coisa de recalcados, de marginais e de violadores do acordo social - enfim, de desclassificados que não merecem frequentar uma universidade sustentada pelos impostos da coletividade através de impostos.


Os três episódios acima descritos evidenciam que, mesmo calada, recalcada, mantida às sombras, sob o manto enganador do alegado liberalismo comportamental brasileiro, a questão de gêneros tende sempre, entre nós, à irrupção pública, plena de evidente urgência, como o oprimido de que nos fala Freud.


("Passeio", de Debret, retirado daqui)

domingo, 24 de outubro de 2010

Eleições: campanha do ódio ameaça democracia

Nos últimos dias o Brasil voltou a ser manchete na imprensa internacional. Porém, o motivo do interesse por nosso país tem sido bem diverso, agora, do demonstrado meses atrás, quando publicações como El País, The New York Times e Le Monde estampavam, em capa, reconhecimento a um presidente advindo do operariado e promotor de políticas sociais que reestruturaram uma das mais desiguais sociedades do planeta - tirando mais de 30 milhões da pobreza -, além de coordenador do realinhamento estratégico, para além da órbita norte-americana, de um país até então periférico na ordem mundial.

Os olhos da imprensa mundial para o Brasil agora, como de ordinário faziam antes do governo Lula, refletem uma visão negativa do país, expressando ora preocupação com o despudor com que a religião foi e continua sendo explorada eleitoralmente ante temas como aborto e homossexualidade; ora noticiando, de forma jocosa (não poderia ser diferente) o escarcéu que José Serra e Rede Globo armaram em torno de uma bolinha de papel atirada contra o candidato tucano.


O candidato sem programa
Enquanto isso, Serra vai caindo nas pesquisas, mas ainda se mantém em patamares, a meu ver, surpreendentemente altos para um candidato que sequer se preocupou em apresentar um programa de governo, quanto mais condizente e factível, limitando-se a promessas pontuais que até os economistas midiático-tucanos consideram irrealistas.

Não que tal lacuna chegue a surpreender: dos vários eleitores de Serra que conheço – na universidade, nas ruas, ou entre amigos e parentes – nenhum se declara como tal por conta de propostas para o país ou por uma razão ideológica strictu sensu.

No máximo, apresentam uma racionalização – no sentido freudiano do termo, ou seja, uma explicação lógica coerente mas que encobre seus verdadeiros motivos -, ainda assim reativa, acusando o petismo de corrupto ou de promover o “aparelhamento” do Estado. Mas ora, para ficar só no exemplo mais gritante, quem tem em suas hostes Paulo Preto – um sujeito que, segundo a Isto É, não só é acusado de nepotismo e de, segundo os próprios tucanos, ter desviado R$4 milhões, mas que foi preso EM FLAGRANTE como receptor de jóia roubada – não tem moral para falar de corrupção. E, com a filha do receptador tendo sido empregada pelo próprio erra, muito menos de aparelhamento. Portanto, alegar tais motivos como justificativa de voto é incoerente e não cola mais, deixando evidente que a razão de fundo de tal escolha eleitoral não significa adesão a determinada proposta política, mas uma reação ditada pelo ódio de classe contra o lulismo e o seu legado.

Assim, a campanha de Serra é a campanha do ódio porque sua candidatura encarna o sentimento contra Lula e o que ele representa, contra esse novo Brasil em que jovens da periferia vão à universidade, empregadas domésticas andam de carro e a classe D viaja de avião. Presas desse irracionalismo reativo, pouco importa, para as elites e os setores wanna be elite que a sustentam, que a candidatura tucana não seja propositiva. Em outras palavras : o ódio é tamanho que, ante a possibilidade de continuação da inclusão social da Era Lula, preferem passar um cheque em branco a um político sem propostas e que nunca terminou um mandato sequer.


Desrespeito à democracia
Afigura-se extremamente negativo para a democracia tal processo, pois abre mão do contrato social implícito entre eleitor e candidato, consubstanciado em um acordo por meio do qual aquele vota neste em troca do cumprimento, anda que inescapavelmente parcial, de um determinado conteúdo programático pré-estabelecido.

É a essa lógica contratual que seguiu a campanha de Lula em 2002 – prometendo criar 10 milhões de empregos e, ao final, gerando mais de 14 milhões – e, agora, a de Dilma Rousseff. Senão, vejamos: enquanto Serra utiliza o horário eleitoral gratuito não para apresentar projetos, mas para sustentar o ridículo atroz do #bolinhagate, como parte de uma pantomima não menos patética e que vai na contramão dos fatos – vide os comunicados do partido e da candidata nos últimos dias -, segundo a qual “o PT estimula a violência”, Dilma tem, dia após dia, apresentado os itens programáticos de seu projeto de governo: meio ambiente, indústria naval, inclusão digital, entre outros temas específicos.

Por sua vez, após chafurdar na boataria religiosa, ser autuada distribuindo comida em troca de votos e protagonizar o #bolinhagate, a campanha de Serra volta a viver de ataques contra a adversária, municiados pela mídia amiga -esta, descompromissada de uma mínima ética jornalística e ciosa da impunidade, aja como agir. Mandando às favas os escrúpulos – como em um certo dezembro – e sem demonstrar o mínimo apreço pela incipiente democracia brasileira, a qual humilha com o despudor de seus métodos truculentos, o tucano aposta na negatividade para ganhar as eleições. No momento, só não enxerga quem não quer ver que está armando o clima para um confronto físico e público, o qual, seja protagonizado por quem for (mesmo que por um provocador tucano inserido na multidão), a culpa recairá sobre os petistas.


O novo astral da campanha de Dilma
Enquanto Serra, sob o patrocínio da Rede Globo, Veja e congêneres, trava o seu combate nas trevas, parecendo "acreditar que o povo, em toda a parte, é uma entidade incapaz e como tal deve ser tratado" - como afirmou Gilson Caroni Filho em um artigo imperdível -, o país vai de vento em popa: o desemprego é o menor já medido e, enquanto boa parte do mundo vive as agruras da crise, com pesados contra-efeitos sociais, estamos em vias de consolidar, em questão de meses, o maior crescimento econômico em 30 anos - só que, desta vez, com inclusão social. É insano imaginar que o povo de um país possa abrir mão de tal cenário em prol de um aventureiro sem nada a oferecer exceto sua obsessão em se tornar presidente.

Talvez por estarem os eleitores tomando ciência de tal disparate, a campanha petista, após ser levada às cordas no início do segundo turno, passou a reagir ao bombardeio pleno de acusações mas vazio de propostas. Isso se deu de forma mais efetiva a partir do momento em que Dilma, sem abrir mão do viés propositivo, trouxe à baila o caso Paulo Preto, no debate da Band. A partir daí, com um momento culminante no evento com artistas e intelectuais no Teatro Casa Grande (RJ) – que, iconizada na imagem emocionada de Chico Buarque, artista prenhe de significações anti-autoritarismo, lhe conferiu uma respeitabilidade com que Serra não pode nem sonhar - , sua candidatura, vitaminada ainda pelo apoio de personalidades e intelectuais do Brasil e do exterior, tomou prumo.

E se em 2002 a esperança derrotou o medo; agora a verdade vencerá o ódio.


(Fotos retiradas, respectivamente, daqui e daqui.)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Serra no Jornal Nacional

A entrevista do Jornal Nacional com José Serra, ontem, embora menos leniente do que a realizada no primeiro turno, tornou evidente, uma vez mais, algumas das deficiências técnicas do jornalismo brasileiro.

Pois se há, em graus variados - e ora em profusão -, manipulações e práticas inaceitáveis no jornalismo nacional decorrentes dos interesses das corporações midiáticas, não deixa também de haver outras que derivam de vícios profissionais e de defasagem técnica - se comparadas aos padrões do jornalismo de ponta internacional.

É exemplar nesse sentido o suadouro que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso tomou em programas de entrevista anglo-americanos, notadamente no Hard Talk: desacostumado às perguntas frontais e em ser corrigido pelo repórter – este de posse de dados atualizados -, o ex-presidente, habituado a ser tratado como um príncipe pelos jornalistas durante seus dois mandatos, mostrava-se estupefato.

Em entrevistas, duas das habilidades que mais faltam ao jornalismo nativo são:
1) o recurso a dados e fatos como forma de contradizer conteúdos comprovadamente inverídicos da fala do entrevistado;

2)A capacidade de intervir – de forma polida, mas efetiva – na fala do entrevistado de modo a evitar que ele introduza novos temas e descarte o assunto polêmico.

São habilidades que exigem uma equipe profissional e treinada – o que o JN certamente tem – e jornalistas com destreza e genuíno interesse investigativo – o que não é exatamente o caso do casal Bonner ou do jornalismo global de modo geral, manietado que é por uma política editorial tendenciosa.

Apesar de tais limites, a entrevista com o candidato José Serra ontem poderia ter sido um evento jornalístico de alto nível se não acontecessem alguns disparates, tais como deixar de refutar, com dados e fatos, a resposta em que Serra se desvencilha da acusação de ter trazido a questão do aborto à campanha, afirmando que quem o fez foi Dilma (como se esta tivesse algum interesse em levantar o tema).

Quando, em entrevista a um candidato à Presidência, o jornalista se cala ante uma resposta que contraria um fato notório, facilmente atestável pela consulta aos arquivos da emissora, mostra-se leniente, deixando de cumprir sua função precípua de informar a população.

Pois, em tal momento da entrevista, o que um jornalista profissional de alto nível faria seria interromper a fala leviana de Serra e objetar, exibindo nas mãos as fontes da informação: “Mas candidato, nós temos aqui a prova que o senhor foi o primeiro a abordar o tema no dia X, no lugar tal, como o comprovam N registros”.

Mas nem a técnica defasada, nem os interesses corporativos do jornalismo nacional nos permitem desfrutar de um tal profissionalismo.

Resta-nos o padrão Globo de qualidade.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A campanha nas ruas e na mídia

Durante cada uma das primeiras eleições presidenciais após o fim da ditadura, o país era tomado por uma onda vermelha – em bandeiras, cartazes e faixas, bandeiras; nas praças, nos comícios, nos dias dos debates televisivos, até mesmo, durante a semana, nas ruas centrais das grandes cidades, onde sempre havia uma barraquinha do PT.

Três derrotas seguidas ensinaram ao partido que o entusiasmo aguerrido de sua militância não bastava: era preciso costurar acordos entre os setores de proa da sociedade, investir na conquista da hegemonia no interior dos estratos empresariais, industriais e financeiros. Como se tal projeto implicasse no esvaziamento da mobilização militante popular, já na vitória de Lula em 2002 - não obstante a grande festa popular que a celebrou -, não houve, nos comícios e nos momentos pré-eleições, aquela maré vermelha contagiante.



Círculo vicioso
Embora, nestas eleições, o PT continue produzindo, episodicamente, a cada comício, uma festa espontânea de entusiasmo popular com o qual o candidato tucano - a despeito de seus suspeitíssimos votos que, no mundo real, ninguém sabe de onde vêm -, não pode nem sonhar, criou-se, ainda antes da campanha, uma grande expectativa quanto à mobilização na internet – que foi e é expressiva, mas que claramente evidenciou os seus limites, com a ocorrência de um segundo turno em grande parte devido a ações de sabotagem e boataria nas periferias das grandes cidades.

E a ausência de uma mobilização que se antecipasse e reagisse ante tal fenômeno foi o primeiro grande vacilo da esquerda nestas eleições – mas não o único. Não obstante sua expressiva vitória nos estados e no Legislativo, ela voltou, nestas eleições, a cometer erros históricos.

O mais grave deles, evidentemente, é a sua divisão interna, com Marina Silva - movida por rancores e pelo ego ferido -, se deixando utilizar como massa de manobra pelo conservadorismo, apenas para levar as eleições ao segundo turno, para ser então descartada pela direita como se de um empecilho inútil, um subalterno servil, se tratasse, enquanto o PV de Sirkis e do derrotado Gabeira adere a Serra.


Mídia pauta esquerda
O segundo grande erro da esquerda – que acaba por também resultar em divisão – dá-se na forma de reações, invariavelmente negativas, aos enfoques idem que a - com o perdão do pleonasmo - mídia serrista dedica a Dilma. O caso da boataria anti-religiosa é ilustrativo: a mídia vinha carregando nas tintas na caracterização de Dilma como uma defensora feroz do aborto e do "casamento gay". Tal caracterização visava, obviamente, incendiar as já minadas pontes entre a candidata petista e o voto religioso (seja de setores evangélicos ou do catolicismo mais conservador).

Num gesto político inteligente e conciliador, Dilma se reúne com lideranças religiosas e firma um acordo assegurando que tomará um posicionamento equânime em relações a tais questões polêmicas. A mídia, "naturalmente" (se se considera natural o modus operandi do setor no Brasil, evidentemente), passa a caracterizá-la então como uma traidora da esquerda e, pasmem, uma ameaça ao estado laico. Até aí, noves fora nossa imprensa parcial, é o jogo jogado. O que espanta é ver esquerdistas-pollyanna caírem nessa.


História que se repete
Mesmo porque não se trata de novidade: procedimentos similares se deram inúmeras vezes antes, notadamente em relação a Lula e a tal Carta ao Povo Brasileiro, nas eleições vitoriosas de 2002: os jornais, tietes de FHC como ora o são de Serra, pintavam Lula como a encarnação da instabilidade e o inimigo dos mercados. Ao assinar o tal documento, no qual se comprometia com a estabilidade, o controle da inflação e o rigor fiscal, o hoje presidente passou a ser caracterizado pela mídia como um “vendido”, um traidor do projeto petista – e setores da esquerda, para variar, compravam acriticamente tal caracterização, quase provocando uma cisão em uma campanha destinada à vitória. Uma das raras vozes sensatas foi a do economista José Paulo Kupfer, que, ao contrário da manada na mídia e na esquerda, analisou criteriosamente o documento, concluindo que, a rigor, nada nele havia que impedisse ou mesmo constrangesse a implementação das políticas econômicas de cunho social que o PT sempre defendeu.

Pois, vamos aos fatos: a Carta ao Povo Brasileiro representou a adesão do governo capitaneado por Lula ao neoliberalismo? Impediu que se expandisse para um nível muito além do receitado pelo Consenso de Washington os programas de distribuição de renda que revolucionaram o país, criaram uma nova classe média e tiraram mais de 30 milhões de pessoas da pobreza? É evidente que não.


O inimigo é Serra
Mutatis mutandis, é o que acontecerá com o acordo de Dilma com os religiosos: longe de ameaçar o estado laico, como berram os mais alarmistas – mesmo porque é o Legislativo e não o Executivo quem pode efetuar mudanças nessa área -, trata-se, simplesmente, de um gesto de boa vontade e de reconciliação, num momento extremamente delicado da campanha, em que, pela primeira vez na história recente do país, a manipulação religiosa - via boatos - está sendo utilizada de forma massiva, açulando o ódio e evidenciando o despudor, o desapego, aqui sim, ao princípio do estado laico, além da desmedida sede de poder de José Serra, encarnação do que de pior pode acontecer ao país.

A hora não é de sedição, mas de calma, união e de sair às ruas – mais do que ficar atrás da tela do computador - apoiando a continuação de um governo popular e de satisfação dos anseios sociais secularmente reprimidos pelo conservadorismo brasileiro, que novamente mostra suas garras, involuntariamene auxiliado por soi-disant esquerdistas.


(Foto do comício em Joinville retirada daqui)

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Marina e o segundo turno

Em um post no qual faz balanço e prognósticos do “fator Marina”, Idelber Avelar propõe, para fins analíticos, uma divisão esquemática dos votos recebidos pela candidata verde: 1) o voto estritamente marinista, verde, ecológico; 2) o voto "ético"-jovem-universitário-profissional-liberal-urbano, uma parte dele (a maior, me parece) composta por desiludidos com erros ou presepadas do PT, e a outra parte (menor, me parece) composta por eleitores movidos pelo episódio Erenice; 3) o voto evangélico.

Essa divisão é o aspecto que mais me atrai no artigo, que de resto soa a mim quase como uma peça oficial da intelectualidade petista – se esta tivesse intelectuais públicos do quilate, da projeção e da capacidade de produção de Idelber Avelar -, que estrategicamente sobrevaloriza Marina por conta da necessidade de conquistar parte de seu espólio eleitoral.

De qualquer modo, na tal tríplice divisão, a “novidade” Marina advém dos dois últimos estratos, que, no último mês, tiraram a candidata verde dos quase 10% em que se manteve por 13 meses e levaram a eleição para o segundo turno, ressuscitando José Serra.


Voto estético
Dos três estratos marinistas, o voto “ético”-classe média me parece o mais refratário tanto a uma cooptação por parte de José Serra quanto, em maior grau, por Dilma Rousseff: é um voto estético, na acepção pobre do termo - um voto “fashion, descolado” como apontou Hildegard Angel no imediato pós-apuração; um voto Caetano Veloso, diria eu.

É, portanto e ainda, um voto reativo, anti-establishment político, de cidadãos e cidadãs particularmente suscetíveis ao discurso neoudenista, que tanto interessa à direita. Para os que o proclamam, Marina representa uma outsider, ainda não corrompida pela “sujeira” da política oficial. Nesse sentido, por paradoxal que pareça, a figura com a qual ela mais se aproxima, na história das eleições presidenciais brasileiras, é com Fernando Collor: só que o que antes era um playboy nordestino com “aquilo roxo” e à caça de marajás hoje é uma cabocla amazonense, nos trajes étnicos do multiculturalismo e cheirando a Natura.

Corroboram as impressões elencadas nos dois últimos parágrafos o fato de que todas as pessoas que conheço pessoalmente e que se encaixam nesse voto o proclamam da mesma maneira: salientando, a um tempo, a “independência” da candidata Marina e, com um tom de picardia que traz implícito a crítica à política convencional – leia-se PT versus PSDB -, a “elegância”, o “charme”, a unicidade da “figura fina” encarnada pela senadora acreana.

Esse estrato tende a dispersar-se ou diminuir tremendamente sua fidelidade a Marina à medida em que ficar evidente que o PV – de Zequinha Sarney, de empresários duvidosos radicados em Londres, e manietado por José Serra – é, para usar a linguagem que tanto os mobiliza, um partido tão corrompido como outro qualquer, a chafurdar na lama da política nacional.


A cartada religiosa
Já o voto religioso – que não é apenas em “evangélico”, haja vista a virulência com que os boatos anti-Dilma circularam e foram difundidos pela direita católica – obedece a outra dinâmica. Trata-se, essencialmente, o voto do medo, emprenhado pelas entranhas do conservadorismo brasileiro, se valendo, sem o mínimo pudor, da ignorância e da manipulação (se você assitiu a Terra em Transe, de Glauber Rocha, pense no personagem de Paulo Autran).

No que concerne a tal estratégia, é preciso reconhecer o drible que o serrismo deu na militância petista: enquanto esta, entrincheirada na blogosfera, aguardava uma “bala de prata” anunciada por dez entre dez “blogueiros sujos”, as igrejas e casas de culto dos subúrbios e das periferias eram literalmente tomadas por boatos - uma tática que, tanto na desfaçatez com que joga a incendiária carta da manipulação política da religião quanto na forma sorrateira de agir, sugere o modus operandi serrista, mesmo porque o PV não tem estrutura ou traquejo para empreender uma operação tão capilar.

Esses estratos religiosos são, no momento, as áreas potencialmente mais perigosas para a candidatura Dilma. Ela precisa reagir, não se deixar acuar pela histeria anti-aborto e, ao mesmo tempo em que repõe tal discussão em um âmbito institucional, não dogmático, que leve em conta posições religosas sem abrir mão do viés laico e relcionado a saúde pública, aproximar-se de forma coordenada das lideranças evangélicas e católicas, procurando ainda se dirigir, nos programas eleitorais, diretamente aos fiéis religiosos, de maneira franca e clara.

Aqui me parece necessário, uma vez mais, para evitar novas auto-lusões, salientar os malefícios do efeito-manada que o formato de militância virtual atual, açulada pelo twitter, tem provocado: ninguém, absolutamente ninguém foi capaz de detectar o enorme crescimento de Marina nos dois segmentos eleitorais que dobraram seus votos e levaram Serra – a maior ameaça pós-ditadura ao aprimoramento da democracia brasileira – ao segundo turno.


Batalha feroz
Enquanto uma Dilma surpreendida e um Serra rejuvenescido – e, como sempre, vitaminado pela mídia amiga – se digladiam, o foco se volta para Marina Silva, possível fiel da balança.

Se firmar aliança com José Serra, Marina vai valer o equivalente a uma nota de três reais no dia seguinte a sua eventual vitória: em primeiro lugar, porque Serra não cumpre acordos; em segundo, porque, cooptada pelo sistema político oficial, a candidata verde, sem o auxílio da manipulação religiosa, perde a aura de outsider.

Tal aura igualmente se desfaz se preferir se aliar a Dilma – a diferença é que a chance de que os acordos sejam cumpridos é maior.

A Marina interessa, portanto, manter-se alheia à disputa, preservando seu volúvel mas ora efetivo capital eleitoral – e, sobretudo, a aura de sua figura púbica, dividendo fundamental numa democracia tão afeita à pessoalidade e ao carisma quanto a brasileira.

O problema é que a opção por tal eqüidistância é pouco efetiva em termos partidários, já que Serra controla o PV, como, a despeito das ilusões marinistas, demonstrou de forma cabal ao levar uma eleição perdida ao segundo turno.
Agora ou a sabedoria política de Lula e a capacidade de mobilização da militância petista se manifestam ou o legado de desenvolvimento e inclusão da melhor Presidência que o país já teve pode cair no colo do neoliberalismo privatista.

sábado, 25 de setembro de 2010

Marina, a mídia e os eleitores

Ainda que explicado por dar sobrevida aos seus objetivos políticos - mantendo acessa, em fogo baixo, a possibilidade de segundo turno -, o contagiante entusiasmo da mídia por Marina Silva nos últimos dias não deixa de ter algo de tristemente irônico e contraditório.

Não que a fascinação da mídia pela candidata verde seja inusitada: como tive oportunidade de demonstrar em um artigo acadêmico apresentado ao congresso da Compolítica em dezembro último – e depois, atualizado e reformatado, ao congresso da International Association of Media and Communicaton Research (IACMR), onde foi bem recebido por brasilianistas franceses -, deslumbre é o substantivo-chave para descrever a forma como as três principais revistas semanais cobriram a candidatura da senadora acreana no primeiro mês após ser anunciada.

Tal deslumbre “apoiava-se” numa única pesquisa, de metodologia altamente questionável, feita por um obscuro instituto e que sustentava que Marina largava contando com “de 12 a 14% da intenção de votos”; em editoriais repletos de wishful thinkings, que previam, em poucas semanas, o protagonismo da candidata; e numa completa repaginação do visual de Marina, que de temerária ecologista petista passou, num passe de mágica, a produto de ponta do marketing político (a platéia da PUC/SP foi às gargalhadas quando eu mostrei, lado a lado, as fotos que Veja, IstoÉ e Época publicavam dela quando era ministra e os verdadeiros editais de moda – num deles, com Marina pousando de terninho em um bosque, sob luz trabalhada – que tiveram lugar tão logo ela anunciou ser candidata).


Longa hibernação
Porém, depois desse entusiasmo inicial veio uma longuíssima, aparentemente interminável, fase de estagnação, durante a qual nenhuma das alvissareiras previsões da grande mídia para sua candidatura se cumpriu: ela parecia incapaz sequer de alcançar os dois dígitos.

Na penúltima sexta-feira, no entanto, após mais de um ano de estagnação, Marina conseguiu superar tal barreira psicológica, atingindo 11% das intenções de voto segundo o Ibope - instituto cujas pesquisas, como as do Datafolha, têm despertado suspeitas e acusações. Uma semana depois, a acreana subiu mais dois pontos. Com 13% dos votos, continua a anos-luz de Dilma Rousseff – que, de acordo com o mesmo instituto, tem 55%, ou seja 43 pontos a mais – e mesmo de José Sera, com 31%.

Acontece, porém, que o cálculo que interessa à oposição e à mídia – que neste momento são, com raríssimas exceções, uma coisa só – é que Dilma teria, agora, 9% a mais de votos do que a soma de seus adversários – cinco pontos a menos do que tinha a semana passada. Como se sabe, se a soma dos votos dos adversários superar o número de votos de Dilma haverá segundo turno.

Desnecessário identificar que vem daí o renovado entusiasmo da mídia por Marina Silva – da mesma mídia que sempre a tratou como uma entidade política anacrônica, incompetente, “aferrada ao passado” (Leonardo Attuch ,em 2009, na IstoÉ), capaz de diagnósticos “dolorosamente temerários” (André Petry, em 2008, na Veja).


Sob a mira da história
Será uma lástima e uma triste ironia se Marina Silva, com a belíssima história de vida que tem e com a dignidade que por tanto tempo fez por merecer, venha efetivamente se prestar a esse triste papel de servir tão-somente como alavanca à pior direita, dando sobrevida ao moribundo José Serra – o político mais nocivo e potencialmente perigoso à democracia brasileira desde a abertura política, como as baixarias de sua campanha corroboram.

É preciso, neste momento, que aqueles dentre os eleitores de Marina que realmente prezam pelo futuro do país e pela evolução da sociedade em termos sociais e democráticos reflitam acerca das conseqüências colaterais de seu voto. Ele certamente não elegerá Marina, mas pode servir para encerrar uma era de acelerada inclusão social - em que mais de 30 milhões saíram da pobreza -, de projeção internacional do Brasil e de aprimoramento do diálogo com a sociedade,substituindo-a pelo retorno à insensibilidade social neoliberal, à subserviência colonizada aos EUA e ao descolamento entre governo e sociedade civil que caracterizam as administrações tucanas.

Os eleitores de Marina estão prontos para assumir o ônus desse retrocesso?

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

O grito dos desesperados

O expressionismo foi um movimento surgido no final do século XIX, interessado em denunciar o estado psicológico de uma sociedade em que professores, alunos e qualquer um que protestasse, mesmo pacificamente, era surrado pela polícia a mando do governador.

Nascido na confluência da psicanálise e do darwinismo, interessava também ao expressionismo o retrato, em pinceladas fortes e tons escuros, da neurose urbana de uma época marcada pela aceleração do tempo - a não ser na Vila de São Paulo, onde blusas misteriosas faziam o Metrô parar, obriando as pessoas a caminhar sobre os trilhos.

Encimando este post está aquele que costuma ser considerado o quadro expressionista mais famoso: "O Grito", de Eduardo Mänco. Como podemos observar, a obra retrata o desespero (existencial, mental, eleitoral) do ser humano ante as agruras da existência: a solidão, a implacável passagem do tempo, a lata de lixo da história pressentida.

Perfaz, ainda, uma denúncia da perda de auto-respeito e da noção de decência que atinge o homem, premido pela certeza da surra eleitoral iminente, digo, do fantasma da morte sempre presente.

Durante décadas, críticos de arte do porte de Arnold Hauser e E. M. Gombrich vêm debatendo o impressionante quadro, perscrutando a origem da horrenda figura que o protagoniza, o sentido do dedo branco sobre sua cabeça, a apontar à direita - e, sobretudo, inquirindo-se sobre a função e a identidade do homenzinho que acena, ao fundo, na ponte.

O expressionismo, mais do que um movimento artístico, torna-se, no decorrer do século seguinte, uma tendência estética recorrente - já foi usado até para o Lobão apelar ao marketing da bandidagem para tentar vender disco. Teve, ainda, um auge cinematográfico, no cinema alemão dos anos 20, com uma profusão de temas como vampirismo, loucura, ditadores crueis. Estes, segundo o crítico Siegfried Kracauer, representariam uma prefiguração de Adolf Hitler e denotariam a ânsia de parcelas da sociedade alemã por um poder tirânico.

Mas isso, felizmente, foi há muito tempo atrás, quando o golpismo envenenava as instituições, açulado por uma mídia venal. Hoje, nada disso ocorre.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O golpismo em plena gestação

Recebo de um querido amigo, que sempre me pareceu apolítico e a quem, para minha grande alegria, reencontrei depois de anos, a mensagem-corrente que reproduzo a seguir. Intitulada "ONDE ESTÃO "AS MENINAS DO JÔ"? NÃO DEIXE DE LER".

Ela explicita o grau a que chegou o desespero eleitoral e a falta de escrúpulos da oposição. O texto está entre aspas e meu comentários em amarelo.

"LEIA, REFLITA E ENCAMINHE ESTE DEPOIMENTO A TODOS OS SEUS CONTATOS, POR AMOR AO BRASIL.

A COISA ESTÁ FICANDO PRETA. PATRULHAMENTO GERAL

O primeiro jornalista a sofrer cerceamento do direito de bem informar, em consequência dos seus verdadeiros, contundentes e procedentes comentários contra os desmandos do atual governo, foi o Boris Casoy. De acordo com o noticiário da época, ele foi demitido a pedido do próprio Lula."

De início achei que se tratasse do episódio dos garis - em que foi Bóris, após dar provas e seu apreço pelos menos favorecidos, quem pediu para sair -, mas não: refere-se à demissão da Record, em abril de 2006. Segundo a extremamente confiável opinião do próprio Casoy, ela teria ocorrido a mando de José Dirceu. Provas, indícios? Nadica de nada.
Agora, me explica uma coisa: se o governo conseguiu que Casoy fosse demitido da Record, porque deixaria que ele fosse contratado em seguida pela Band, empresa muito menor e mais fácil de pressionar?

"Entretanto aos olhos dos menos atentos, a coisa vem se agravando de maneira avassaladora e perigosa, senão vejamos: O Programa do Jô tirou do ar (sem dar qualquer satisfação ao público)o quadro "As Meninas do Jô" que era apresentado às quartas feiras onde as jornalistas Lilian Witifibe [sic], Ana Maria Tahan, Cristiana Lobo, Lúcia Hippólito e, por vezes, outras mais, traziam à público [sic] e debatiam todas as falcatruas perpetradas por essa corja de corruptos que se apossou do país."

Deixa eu ver se entendi: o fato de Jô Soares, notório entusiasta da administração petista, não ter dado satisfação ao público por retirar do ar um debate tão profundo e isento é sinal de autoritarismo de Lula? Ô, Jô, deixa de ser comunista, rapaz.

"As entrevistas sobre temas políticos não têm sido mais levadas a efeito atualmente.
Virou um programa de amenidades e sem qualquer brilhantismo".

Não sei a que canais o brilhante redator assiste, mas desconfio que ele se refere ao programa do Serra.

"O jornalista Arnaldo Jabor, considerado desafeto pelo governo atual, vem sofrendo, de forma velada e sistemática, todo tipo retaliação. Já foi processado, condenado, amordaçado e por aí vai".

Amordaçaram o Jabor? Têm certeza de que não foi algum fetiche mais intenso do rapaz? E quer dizer que o cara foi processado, condenado e... AMORDAÇADO - por quem mesmo? - mas a retaliação é "velada"? Imagino o que aconteceria com o coitado se a retaliação fosse explícita.

"Sua participação diária, às 07:10 na Rádio CBN tem se limitado a assuntos sem a relevância que tinha, haja vista que está impedido de falar sobre assuntos que envolvam a política nacional e o atual governo".

Impedido por quem? (deixa eu tentar adivinhar: pelo Lula, que manda também na Globo?) Por que só ele teria se calado e os outros continuam descendo a ripa? Será que não foi a iminência de uma surra vexaminoa da oposição que o teria feito perder a voz? (Até Arnaldo Bloch, "coleguinha" de O Globo escreveu uma coluna desabfando que não aguenta mais o pessmismo do ex-maior cineasta do Brasil (ele tem mais de 1,90m...)).

"A jornalista Lúcia Hippólito, que tinha uma participação diária, às 07:55 hs na Rádio CBN, não está mais ocupando o microfone da emissora como fazia e nenhum comunicado foi feito pelo âncora do horário, o jornalista Heródoto Barbeiro. Sorrateiramente, colocaram-na como âncora em outro horário, onde enfoca matérias mais amenas e sem a habitual, verdadeira e procedente contundência".

Enfim o Émile Zola de Belfort Roxo deu uma dentro: "puseram" a Lúcia na geladeira, como retaliação à reação dela contra o blogueiro da Veja. E quem é o patrão do blogueiro da Veja mesmo?

A tempo: e sobre a derrubada do Herótodo da bancada do Roda Viva, nem uma palavrinha?

"Diogo Mainard [sic], da Revista Veja, além de processado, vem sofrendo várias ameaças de morte por parte do jornal do MR-8 (que faz parte da base aliada ao Lula) e de integrantes dos chamados "Movimentos Sociais".

Processado? Mas que absurdo! Onde está o Estado Democrático de Direito? Como pode um jornalista, por expor de forma equilibrada e bem-fundamentada suas opiniões, sem JAMAIS incorrer em ataques pessoais, ser PROCESSADO? Mesmo que ele eventualmente se exaltasse (afinal, ninguém é de ferro) não poderia ser processado, pois a imprensa está acima a lei, não é mesmo?

O autor não dz, mas o jornalista Paulo Henrique Amorim, que processa Mainardi, certamente está agindo a mando de Lula, tá na cara, nénão?


"O jornal "Estadão" de São Paulo está sob forte censura governamental há pelo menos 300 dias. Pelo que se vê, Fidel Castro está fazendo escola na América do Sul. O primeiro a colocar em prática estes ensinamentos, aniquilando o direito de imprensa foi Hugo Chaves [sic, foi sem querer querendo], e pelo andar da carruagem o nosso PresiMENTE está trilhando pelo mesmo caminho."

Nossa, fiquei sem palavras ante tamanho autoritarismo. Manter um processo em sigilo de justiça, impedindo que se publique informações é coisa de país atrasado, como a Inglaterra e a Alemanha. E a culpa pela decisão da Justiça é, naturalmente, de Lula (aliás, PresiMENTE foi ótimo, você deveria se candidatar a redator do Casseta & Planeta).

Quanto a ANIQUILAR direito de resposta, o Gilmar Mendes, digo, o Chávez é mesmo um MONSTRO!

"Constitucionalmente:
Onde está o ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO?

Onde está o
LIVRE DIREITO DE MANIFESTAÇÃO?

Onde está a
LIBERDADE DE EXPRESSÃO?

Onde está a
LIBERDADE DE UMA NAÇÃO?"

Aqui tinha um poema do Afonso Romano de Santanna sobre a mentira. Mas, em respeito ao poeta - que não tem nada a ver com o peixe -, o suprimi.

"ESSE TEXTO DEVE-SE TRANSFORMAR NA MAIOR CORRENTE QUE A INTERNET JÁ VIU, PARA QUE, NA ÉPOCA DAS ELEIÇÕES CONSIGAMOS FREAR A ESCALADA DO MAL!!!

ACORDA BRASIL, ENQUANTO É TEMPO, E REAJA".

Enfim - e agora falando sério - , o pseudo-sub-olavo de carvalho e eu concordamos em alguma coisa: acorda, Brasil, contra os manipuladores baratos, que não hesitam em lançar mão de calúnias e deturpações para divulgar suas convicções políticas.

Desperte, Brasil, contra os que atribuem até a autoria de atos sabidamente perpetuados por seu líder a Lula e à Dilma.

Erga-se, Brasil, contra aqueles que, numa era em que a imprensa negligencia os fatos e suas diversas interpretações e, assumidamente, faz o papel da oposição, difamando a granel e aplainando o terreno para o golpismo, tentam manchar a liberdade e a democracia vigentes.

domingo, 12 de setembro de 2010

Veja e a liberdade de difamação

Publicada a três semanas da eleição, a matéria da revista Veja - mirando na ministra Erenice Guerra para atingir a candidata Dilma Rousseff - evidencia, uma vez mais, a necessidade de uma Lei de Imprensa que possibilite ao injuriado obter Direito de Resposta em tempo hábil e em volume e condições de exibição correspondentes aos da matéria que o difama.

A inexistência de tal mecanismo corresponde, na prática, a uma autorização para a difamação, a calúnia e a produção de matérias de cunho eleitoreiro, desossadas dos procedimentos mínimos determinados pela deontologia do jornalismo, e tão descompromissadas com a verdade dos fatos quanto comprometidas com interesses político-econômicos.


Factóides ao léu
É fato que, como aponta Idelber Avelar, o repetitivo padrão de comportamento pré-eleições da Veja dê mostras de esgotamento e, no caso da matéria sobre Eunice Guerra - não tendo sido até agora sequer repercutida pelos principais telejornais da Rede Globo -, afigure-se insignificante para a alteração das colocações na corrida presidencial.

É evidente também que a “grande imprensa” parece suscitar cada vez mais a desconfiança dos leitores, mostrando-se pouco influente em termos eleitorais, ao passo que a internet – a blogosfera, notadamente – dá mostras de atrair a atenção de um volume crescente de interessados em informação não manipulada por interesses corporativos.


Vácuo legal
As constatações acima, no entanto, embora alvissareiras, não servem de desculpa ou de atenuante para a necessidade de mecanismos realmente democráticos de regulação da imprensa, os quais garantam tanto a liberdade de expressão quanto sua não-transformação em liberdade de difamação, ou seja, em salvo-conduto para a transgressão legal e para o ataque desprovido de provas contra a honra alheia.

Assim como advogados não podem levar drogas para seus clientes presos ou como médicos não podem drogar suas pacientes para abusar-lhes sexualmente, não deveria ser permitido a um profissional da comunicação deliberada e comprovadamente mentir, manipular seus leitores com informações sem fatos que as corroborem, ou deixar de ouvir e explicitar os argumentos do acusado.


Exercicio de imaginação
Pois imaginemos, à guisa de exemplo, que, ao contrário do que à primeira vista se deu, o atual factóide sobre Eunice Guerra obtivesse alta repercussão, martelado no Jornal Nacional e congêneres, transformando-se na tal "bala de prata" capaz de levar a eleição presidencial ao segundo turno. Ainda como exercício mental, imaginemos que, então, um novo escândalo fabricado com matérias falsas levasse à derrota de Dilma (toc, toc, toc).

No vácuo legal em que atualmente se encontra o jornalismo, levaria ao menos
um ano para que a Justiça decidisse sobre o caso, e ainda que fossem constatadas todas as mazelas jornalísticas e a parte ofendida ganhasse pleno Direito de Resposta, as eleições – e os rumos da administração do Brasil – estariam irremediavelmente consumados.


Liberou-geral
Ou seja, o liberou-geral jurídico em que se encontra a atividade jornalística no país tem potencial de intervenção indevida no andamento institucional da democracia brasileira. Se tal potencial é factível de consumar-se ou não é irrelevante: do ponto de vista da manutenção da ordem legal-institucional do país é premente levar em conta que ele existe - e agrava-se pela ampla defasagem entre os prazos da Justiça comum e os prazos da comunicação na era digital. Tal diferencial, referente ao alcance, à velocidade e a capacidade de disseminação da comunicação contemporânea, faz com que tal campo tenha de, necessariamente, ser objeto de uma legislação específica.

E a autorregulação do setor, defendida pela plutocracia midiática como panacéia para a questão, não passa, em uma seara no qual a própria presidente do sindicato patronal admite que a imprensa faz hoje o papel de oposição, de uma piada.


Regulação da atividade jornalística
De qualquer forma - e deixando, por ora, as especulações eleitorais para lá - graças à irresponsável matéria de Veja, a honra de uma pessoa pública está sendo neste instante atacada sem provas minimamente consistentes, sem direito a “outro lado” e com a certeza da impunidade por parte do órgão acusador, pois, como já dito, a imprensa brasileira ora se encontra infesa à ação da Justiça no prazo devido.

Por isso, se o Brasil quer ser um país verdadeiramente democrático, em que todos são iguais perante a lei e os direitos individuais estão assegurados, é necessário priorizar a instauração de mecanismos modernos e democráticos de regulação da atividade de imprensa.

Do contrário é o golpismo sob o guarda-chuvas da liberdade de imprensa.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Reflexões sobre artistas, política e eleições

Começou no Twitter, nesta segunda-feira mezzo feriado: alguém repassou uma mensagem do Léo Jaime afirmando que o #DilmaFactsbyFolha – a febre satírica que tomou conta da rede social – “é a militância acusando o golpe. O caso do vazamento do sigilo é a origem desta cortina de fumaça”.

Quanto ao teor da declaração de Léo, ela denota, em primeiro lugar, ao generalizar como “militância” todos os que participaram da brincadeira, ou uma tentativa pouco democrática de desqualificar os que dele divergem em termos de política, rotulando-os, ou desconhecimento do que seja tal rede social.

Em segundo lugar, revela desconhecimento do caso ou vontade de confundir propositadamente as coisas: o escândalo da Receita está no ar desde o início da semana passada, enquanto o #DilmaFactsbyFolha só se deu ontem (domingo, 05/09), dia em que o diário paulista publicou manchete afirmando que ”Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma”. Como registram diversos blogs, foi em reação a tal “informação” – já desmentida, com documentos, pela assessoria de Dilma – que teve início a piada que chegou ao topo dos trending topics.


Arte e política
Esse contato um tanto decepcionante com um artista do qual, há muitos anos, costumava ouvir, entusiasmado, o primeiro disco – intitulado “Phodas C” e permeado de humor sacana e de romantismo – e que lançaria algumas músicas que embalaram minha adolescência, me fez refletir sobre o papel político do artista nos dias de hoje.

Parece lícito supor que, com o fim da ditadura, tem lugar uma desmobilização da classe artística – e da sociedade civil tal como então concebida -, causada, sobretudo, pelo desaparecimento de um inimigo em comum para combater (“é o bem contra o mal/E você de que lado está?”, cantava Legião Urbana na canção “1964 (Duas tribos)"). Podemos especular que ocorre, também, em termos de presença no imaginário popular, uma desvalorização qualitativa da figura do artista enquanto referência intelectual, em prol de uma valorização quantitativa da “celebridade”.

Assim, o processo de “despolitização” da vida social é duplo – uma tendência que talvez a internet esteja só agora começando a reverter. Pois, ocorrendo de forma concomitante, tanto a diminuição dos elos entre política e a arte no âmbito midiático (comparem, por exemplo, os festivais dos anos 60 com o cenário atual) quanto a velocidade, a fugacidade e a tendência ao não-aprofundamento intelectual das celebridades instantâneas levam, em última análise, à virtual dissociação entre arte e política.


Artista, mídia e eleições
Talvez a seara onde tal dissociação seja mais visível seja a eleitoral. Coincidentemente, em coluna recente, Fernando de Barros e Silva discutiu o papel do artista nas eleições. Fernando é um dos melhores textos jornalísticos do Brasil e, quando elevou o nível da crítica televisiva, mostrou-se um analista dos mais perspicazes e atentos – mas tais talentos vêm há tempos se eclipsando, sufocados pela vassalagem que presta às preferências políticas do patrão Frias Filho na deteriorada Folha de S. Paulo.

Dessa forma, sua coluna sobre artistas e política se torna, em essência, mais um dos muitos sinais da mídia de que, ante o naufrágio de Serra, Marina é o plano B dos confederados do Instituto Millenium. Após citar o apoio de Caetano Veloso à candidata do PV, Fernando filosofa:

“Não há nenhum artista da mesma estatura histórica engajado dessa maneira em favor de Dilma Rousseff ou de José Serra (...) Em parte, porque as grandes figuras da intelligentsia com inserção pública e simpatias à esquerda não devem se sentir motivadas o bastante, ou moralmente à vontade, para sair da toca e hipotecar seu apoio a uma candidata semi-desconhecida, que Lula tirou do bolso do colete”.
Pausa para as gargalhadas... O despeito da mal chamada grande mídia com uma candidata com intenções de voto suficientes para vencer no primeiro turno, derrotando José Serra, o queridinho dos barões da imprensa, está ficando cômica.

Sem falar que um jornalista profissional deveria, em nome da justeza da análise, ao menos mencionar o histórico de volubilidade eleitoral de Caetano Veloso – uma figura que, por maior que seja como artista, muitos têm dificuldade de levar a sério quando abre a boca para falar de política, justamente porque se mostrou, reiteradas vezes, leviano nessa área.

Por fim, vejam o encerramento do artigo, que primor de nonsense:

“O realinhamento histórico que Marina propõe não deixa de ser uma maneira de renovar (ou reanimar) as ilusões perdidas das classes médias letradas que fizeram sua educação sentimental e política em torno da velha e boa “MPB”.
O que será que o Fernando quis dizer com essa baboseira elogiosa? Cartas para a redação.


(Colagem de fotos de Mário Faustino retiradas daqui)

sábado, 4 de setembro de 2010

No Rio, emocionante disputa pelo Senado

A manutenção da grande distância que separa Dilma Rousseff (PT/RS) de José Serra (PSDB/SP) tem feito com que muitos analistas priorizem o exame das disputas estaduais, em detrimento do foco amplamente concentrado nas eleições presidenciais, usual no Brasil.

Com a inexplicável reticência dos paulistas em por fim aos desgovernos tucanos, Minas Gerais se converte no centro da atenção dos analistas políticos. O estado, tanto devido à acirrada disputa entre Hélio Costa (PMDB) e Antonio Anastasia (PSDB) – este o protagonista da primeira virada espetacular dessas eleições, ainda que com sua legitimidade contestada – quanto, sobretudo, por ser o domicílio eleitoral do tucano Aécio Neves, praticamente eleito para o Senado, de onde, com a eventual vitória petista, deve procurar se credenciar como o candidato da oposição em 2014.


Mudanças aceleradas
No entanto, se ao invés de pensarmos a médio prazo priorizarmos a análise dos cenários que se nos apresentam a partir do pleito em curso, será preciso dispensar maior atenção ao Rio de Janeiro, mais especificamente à disputa das eleições para o Senado.

Embora o atual governador Sergio Cabral (PMDB) deva se reeleger com folga, pondo fim às aspirações executivas do excessivamente volúvel Fernando Gabeira (PV), a disputa pelas duas vagas legislativas vinha sendo liderada com uma certa folga por Marcelo Crivela (PRB) e pelo ex-prefeito Cesar Maia (DEM), com o candidato petista Lindbergh Farias amargando, a uma boa distância, a terceira colocação.

No entanto, a última pesquisa Ibope, divulgada na terça-feira (03/09), sugere uma rápida mudança de cenário: enquanto Crivella amplia a distância em relação a seus concorrentes, chegando a 34%, Lindbergh se aproxima de Maia de forma acelerada: o demo caiu de 33% para 30%, enquanto o ex-prefeito de Nova Iguaçu subiu de 24% para 28%. Ou seja, dois pontos os separam.

Como a margem de erro da pesquisa é de três pontos percentuais para mais ou para menos, pode-se falar que todos os candidatos estejam em situação de empate técnico – embora a experiência histórica tenha mostrado a inexatidão por demais elástica de tal conceito.


O papel de Maia
A eventual eleição de Lindbergh tende a ser muito importante – menos pela presença do jovem político no Senado e mais por evitar um osso duro de roer para o eventual governo Dilma. Com efeito, parece não haver duvidas de que César Maia não só passaria a ser uma das vozes recorrentes da oposição nos noticiários globais – a exemplo do que foram Álvaro Dias, Arthur Virgílio e Raul Jungmann -, mas que desempenharia o papel de maneira menos obtusa e potencialmente mais danosa.
Tal impressão se deve a três fatores:

1) Se Maia, como governante, produzia factóides em profusão, desconcertando imprensa e os cidadãos a um ponto tal que ninguém sabia dizer, com certeza, o que era fato e o que não, imagine o que faria na oposição...;
2) Ele teria como parceiro privilegiado o filho Rodrigo, menos hábil do que o pai mas com bom trânsito com líderes oposicionistas. O grau de confiança entre pai e filho – irreproduzível nas relações políticas convencionais – poderia dar margem a toda sorte de armações contra o governo Dillma;
3) Colunistas políticos de diversas tendências - e mesmo seus opositores - reconhecem que Maia não só é um hábil analista político como sabe manipular a imprensa. A repercussão de seu “ex-blog” é prova patente de tais “qualidades”.


Oposição encolhe
Assim, se consolidadas como tendências eleitorais, as novidades trazidas pela recente pesquisa Ibope podem significar não apenas uma vitória partidária regional, mas se transformar em mais um elemento facilitador para a eventual gestão petista – e, em decorrência e de forma mais aguda, em mais um dos muitos fatores de constrangimento e de preocupação para uma oposição que, projeta-se, tende a encolher significativamente após o pleito.