sábado, 30 de outubro de 2010

Ataques a mulheres evidenciam importância das questões de gênero

No Brasil, o debate sobre as questões de gênero continua enfrentando resistência silenciosa mas efetiva, ainda que sua urgência se torne cada vez mais evidente. Só nesta semana foram noticiados – mas não suficientemente debatidos - três graves casos de abuso e discriminação contra mulheres.


Chauvinismo eleitoral
Os dois primeiros vêm, como não poderia deixar de ser, da imunda campanha eleitoral de José Serra. Ao incauto cidadão que atendesse às chamadas do telemarketing tucano - decretado ilegal um tanto tardiamente pelo TSE - era feita a seguinte indagação:

"- Será que a Dilma sem o Lula dá conta?"
Difícil responder, não é mesmo? Afinal, a ditadura não tocou a mão na adolescente Dilma, que desfrutou de um exílio “caviar e champanhe” no exterior, antes de vir ao Brasil e desfalecer ante uma bolinha de papel. Já o bravo guerreiro Serra, com a têmpera dos "machos adultos brancos sempre no comando", não apenas lutou contra o regime de exceção, sendo preso e barbaramente torturado como, em anos recentes, mostrou toda sua fibra máscula ao enfrentar e superar, sem se deixar abater, um câncer linfático.

Como observou Rodrigo Vianna, autor do melhor post sobre o caso, não coincidentemente, na noite da morte de Nestor Kirchner, o Jornal da Globo se dirigiu a seus telespectadores, perguntando:

"- Será que Cristina dá conta de governar, sem o marido?".
O notável, do ponto de vista das questões de gênero, é que a ninguém ocorreu perguntar ao eleitor, em 2002, se Serra conseguiria governar sem FHC... Ou seja, a premissa da campanha serrista – reverberada, amiúde, pela mídia - é de uma incapacidade comparativa da mulher em relação ao homem - a diferença em forma de lacuna.


A mulher como isca
Tal atribuição de valores e competências hierarquizados segundo (des)critérios de gênero foi corroborada pelo tucano ao final da campanha – quando, com a sociedade estupefata com a falta de escrúpulos apresentada por Serra em sua luta pelo poder, ele, após elegiar a beleza das mineiras, literalmente implorou às “menininhas” para que pedissem “a seus “pretendentes para que nele votassem.

Essa inauguração de uma nova modalidade de campanha eleitoral, baseada no sexismo e numa visão das relações entre os jovens que só é novecentista em sua aparência, já que sua essência é caudatária de uma visão mercadológica das relações sexuais. Não à toa, o tucano paulista, prestes a ser varrido para a lata de lixo da história política brasileira, foi “homenageado” no twitter com a tag #serracafetao.


Nova elite machista

Porém, dos três eventos que poblematizaram, recentemente, as questões de gênero, o que mais choca tem ocupado um lugar secundário nas manchetes: trata-se do chamado “rodeio de gordas”, promovido por estudantes da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Assis, interior de São Paulo.

Concebido e praticado como “esporte” por estudantes dessa universidade pública que abriga os filhos das elites paulistas, o "rodeio" consistia em abordar uma mulher acima do peso e, ao seu descuido, montar-lhe em cima, procurando manter-se o maior tempo possível sobre a "montaria", enquanto a esta eram gritadoss impropérios.

Como se tal humilhação não fosse suficiente, os “estudantes”, via de regra, esmeravam-se em apresentar-se de início atenciosos, simulando deixarem-se seduzir pelas mulheres antes de, literalmente, montá-las, fazendo irromper o urro ignorante da satisfação sadista grupal.

O grau de sadismo psicológico a que são submetidas às vítimas de tal ato, agravado pelo fato de os alunos alegarem tratar-se de mera “brincadeira”, suscita uma dupla reflexão: em primeiro lugar, no sentido de como agir para evitar que tamanha bestialidade, violadora de direitos humanos básicos, volte a ter lugar no ambiente universitário brasleiro.

Em segundo, lugar, não é preciso ser nenhum expert em psicanálise para se aperceber de que o “rodeio das gordas” traz em seu bojo a evidência de uma grave patologia social de grupo - assim como, de maneira análoga, os massacres do tipo Columbine em colégios norte-americanos muito nos dizem a respeito das relações entre constituição psicológica do sujeito, repressão e axiologia da sociedade em que vive. E, acima de tupo, que no bojo de ambos os casos, apresentam-se, latentes, os contra-efeitos de uma economia das pulsões da libido desvirtuada de uma vivência propriamente sexual.

Afinal, para ficar em uma simples e única constatação, jovens minimamente sadios buscam satisfazer seus impulsos através de uma sexualidade afirmativa, gozosa, tendo no horizonte a satisfação mútua dos(as) parceiro(as). Já sair por aí “caçando” gente para cavalgar publicamente, montando em suas costas de supetão e a contragosto, é coisa de recalcados, de marginais e de violadores do acordo social - enfim, de desclassificados que não merecem frequentar uma universidade sustentada pelos impostos da coletividade através de impostos.


Os três episódios acima descritos evidenciam que, mesmo calada, recalcada, mantida às sombras, sob o manto enganador do alegado liberalismo comportamental brasileiro, a questão de gêneros tende sempre, entre nós, à irrupção pública, plena de evidente urgência, como o oprimido de que nos fala Freud.


("Passeio", de Debret, retirado daqui)

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