quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A campanha nas ruas e na mídia

Durante cada uma das primeiras eleições presidenciais após o fim da ditadura, o país era tomado por uma onda vermelha – em bandeiras, cartazes e faixas, bandeiras; nas praças, nos comícios, nos dias dos debates televisivos, até mesmo, durante a semana, nas ruas centrais das grandes cidades, onde sempre havia uma barraquinha do PT.

Três derrotas seguidas ensinaram ao partido que o entusiasmo aguerrido de sua militância não bastava: era preciso costurar acordos entre os setores de proa da sociedade, investir na conquista da hegemonia no interior dos estratos empresariais, industriais e financeiros. Como se tal projeto implicasse no esvaziamento da mobilização militante popular, já na vitória de Lula em 2002 - não obstante a grande festa popular que a celebrou -, não houve, nos comícios e nos momentos pré-eleições, aquela maré vermelha contagiante.



Círculo vicioso
Embora, nestas eleições, o PT continue produzindo, episodicamente, a cada comício, uma festa espontânea de entusiasmo popular com o qual o candidato tucano - a despeito de seus suspeitíssimos votos que, no mundo real, ninguém sabe de onde vêm -, não pode nem sonhar, criou-se, ainda antes da campanha, uma grande expectativa quanto à mobilização na internet – que foi e é expressiva, mas que claramente evidenciou os seus limites, com a ocorrência de um segundo turno em grande parte devido a ações de sabotagem e boataria nas periferias das grandes cidades.

E a ausência de uma mobilização que se antecipasse e reagisse ante tal fenômeno foi o primeiro grande vacilo da esquerda nestas eleições – mas não o único. Não obstante sua expressiva vitória nos estados e no Legislativo, ela voltou, nestas eleições, a cometer erros históricos.

O mais grave deles, evidentemente, é a sua divisão interna, com Marina Silva - movida por rancores e pelo ego ferido -, se deixando utilizar como massa de manobra pelo conservadorismo, apenas para levar as eleições ao segundo turno, para ser então descartada pela direita como se de um empecilho inútil, um subalterno servil, se tratasse, enquanto o PV de Sirkis e do derrotado Gabeira adere a Serra.


Mídia pauta esquerda
O segundo grande erro da esquerda – que acaba por também resultar em divisão – dá-se na forma de reações, invariavelmente negativas, aos enfoques idem que a - com o perdão do pleonasmo - mídia serrista dedica a Dilma. O caso da boataria anti-religiosa é ilustrativo: a mídia vinha carregando nas tintas na caracterização de Dilma como uma defensora feroz do aborto e do "casamento gay". Tal caracterização visava, obviamente, incendiar as já minadas pontes entre a candidata petista e o voto religioso (seja de setores evangélicos ou do catolicismo mais conservador).

Num gesto político inteligente e conciliador, Dilma se reúne com lideranças religiosas e firma um acordo assegurando que tomará um posicionamento equânime em relações a tais questões polêmicas. A mídia, "naturalmente" (se se considera natural o modus operandi do setor no Brasil, evidentemente), passa a caracterizá-la então como uma traidora da esquerda e, pasmem, uma ameaça ao estado laico. Até aí, noves fora nossa imprensa parcial, é o jogo jogado. O que espanta é ver esquerdistas-pollyanna caírem nessa.


História que se repete
Mesmo porque não se trata de novidade: procedimentos similares se deram inúmeras vezes antes, notadamente em relação a Lula e a tal Carta ao Povo Brasileiro, nas eleições vitoriosas de 2002: os jornais, tietes de FHC como ora o são de Serra, pintavam Lula como a encarnação da instabilidade e o inimigo dos mercados. Ao assinar o tal documento, no qual se comprometia com a estabilidade, o controle da inflação e o rigor fiscal, o hoje presidente passou a ser caracterizado pela mídia como um “vendido”, um traidor do projeto petista – e setores da esquerda, para variar, compravam acriticamente tal caracterização, quase provocando uma cisão em uma campanha destinada à vitória. Uma das raras vozes sensatas foi a do economista José Paulo Kupfer, que, ao contrário da manada na mídia e na esquerda, analisou criteriosamente o documento, concluindo que, a rigor, nada nele havia que impedisse ou mesmo constrangesse a implementação das políticas econômicas de cunho social que o PT sempre defendeu.

Pois, vamos aos fatos: a Carta ao Povo Brasileiro representou a adesão do governo capitaneado por Lula ao neoliberalismo? Impediu que se expandisse para um nível muito além do receitado pelo Consenso de Washington os programas de distribuição de renda que revolucionaram o país, criaram uma nova classe média e tiraram mais de 30 milhões de pessoas da pobreza? É evidente que não.


O inimigo é Serra
Mutatis mutandis, é o que acontecerá com o acordo de Dilma com os religiosos: longe de ameaçar o estado laico, como berram os mais alarmistas – mesmo porque é o Legislativo e não o Executivo quem pode efetuar mudanças nessa área -, trata-se, simplesmente, de um gesto de boa vontade e de reconciliação, num momento extremamente delicado da campanha, em que, pela primeira vez na história recente do país, a manipulação religiosa - via boatos - está sendo utilizada de forma massiva, açulando o ódio e evidenciando o despudor, o desapego, aqui sim, ao princípio do estado laico, além da desmedida sede de poder de José Serra, encarnação do que de pior pode acontecer ao país.

A hora não é de sedição, mas de calma, união e de sair às ruas – mais do que ficar atrás da tela do computador - apoiando a continuação de um governo popular e de satisfação dos anseios sociais secularmente reprimidos pelo conservadorismo brasileiro, que novamente mostra suas garras, involuntariamene auxiliado por soi-disant esquerdistas.


(Foto do comício em Joinville retirada daqui)

2 comentários:

Eduardo Prado disse...

Olá, Maurício!

No post você fala da militancia petista. Cadê ela?

Aqui do meu mundinho eu percebo duas tendâncias preocupantes. Uma delas á a associação do voto em Dilma como um voto de pobre, de ignorante, enquanto votar em Serra virou sinal de inteligência. E todo mundio agora quer mostrar que é inteleigente dizendo que vai votar no cara. Isso tá pegando forte, pelo menos no meu circulo de convivência.
Outra tendência, na verdade a mesma que garantiu o 2º turno, é a identificação da candidatura Dilma como uma agressão à família e aos valores cristãos e também com a corrupção. Enquanto tenho que ouvir de todos os lados que a "turma" da Dilma está roubando o povo nas costas do Lula, ainda tenho que responder a várias pessoas que não, não foi a Dilma quem criou a parada gay. Estão confundindo Dilma com Marta Suplicy e, de repente, a parada gay se transformou na Sodoma e Gomorra brasileira, coisa de fim de mundo, trombeta do apocalipse.

É bom o PT ficar alerta porque eu estou começando a achar que as chances do Serra se eleger são cada vez maiores. Vejo as declarações de voto em Dilma desaparecerem. E nas ruas, defensores da candidata, como eu, começam a ficar raros.

Abraço!

Maurício Caleiro disse...

Eduardo,

Estou perplexo com o que você relata. Caracterizar o voto em Serra como inteligente é um contrasenso, já que sequer programa de governo ele tem... e só eleitores muito ignorantes votam em um governante ue sequer apresenta propostas ao país.

Por outro lado, é incrível como a percepção subjetiva das coisas varia. A minha experiência no últimos dias, tanto no Nordeste quanto em Rio e Minas, tem sido de contato com um número enorme de pessoas que afirmam o voto em Dilma - a um ponto tal que, como disse no post, eu me questiono daonde vêm os votos em Serra. Talvez venham desse universo de eleitores ao qual você alude.

É claro que tudo pode acontecer nessas eleições - ainda mais se a Folha conseguir as "confissões" de Dilma sob tortura -, mas eu identifico no momento um ponto de inflexão da campanha: após a saraivada de acusações contra Dilma, Serra sentiu o golpe com Paulo Preto, e agora temos a capa da IstoÉ e, feitiço virando contra feiticeiro, o caso do aborto de Mônica Serra. È lamentável que a campanha desça a esse nível - mas quem a rebaixou a tanto foi o tucano.

Abração,
Maurício.