domingo, 24 de outubro de 2010

Eleições: campanha do ódio ameaça democracia

Nos últimos dias o Brasil voltou a ser manchete na imprensa internacional. Porém, o motivo do interesse por nosso país tem sido bem diverso, agora, do demonstrado meses atrás, quando publicações como El País, The New York Times e Le Monde estampavam, em capa, reconhecimento a um presidente advindo do operariado e promotor de políticas sociais que reestruturaram uma das mais desiguais sociedades do planeta - tirando mais de 30 milhões da pobreza -, além de coordenador do realinhamento estratégico, para além da órbita norte-americana, de um país até então periférico na ordem mundial.

Os olhos da imprensa mundial para o Brasil agora, como de ordinário faziam antes do governo Lula, refletem uma visão negativa do país, expressando ora preocupação com o despudor com que a religião foi e continua sendo explorada eleitoralmente ante temas como aborto e homossexualidade; ora noticiando, de forma jocosa (não poderia ser diferente) o escarcéu que José Serra e Rede Globo armaram em torno de uma bolinha de papel atirada contra o candidato tucano.


O candidato sem programa
Enquanto isso, Serra vai caindo nas pesquisas, mas ainda se mantém em patamares, a meu ver, surpreendentemente altos para um candidato que sequer se preocupou em apresentar um programa de governo, quanto mais condizente e factível, limitando-se a promessas pontuais que até os economistas midiático-tucanos consideram irrealistas.

Não que tal lacuna chegue a surpreender: dos vários eleitores de Serra que conheço – na universidade, nas ruas, ou entre amigos e parentes – nenhum se declara como tal por conta de propostas para o país ou por uma razão ideológica strictu sensu.

No máximo, apresentam uma racionalização – no sentido freudiano do termo, ou seja, uma explicação lógica coerente mas que encobre seus verdadeiros motivos -, ainda assim reativa, acusando o petismo de corrupto ou de promover o “aparelhamento” do Estado. Mas ora, para ficar só no exemplo mais gritante, quem tem em suas hostes Paulo Preto – um sujeito que, segundo a Isto É, não só é acusado de nepotismo e de, segundo os próprios tucanos, ter desviado R$4 milhões, mas que foi preso EM FLAGRANTE como receptor de jóia roubada – não tem moral para falar de corrupção. E, com a filha do receptador tendo sido empregada pelo próprio erra, muito menos de aparelhamento. Portanto, alegar tais motivos como justificativa de voto é incoerente e não cola mais, deixando evidente que a razão de fundo de tal escolha eleitoral não significa adesão a determinada proposta política, mas uma reação ditada pelo ódio de classe contra o lulismo e o seu legado.

Assim, a campanha de Serra é a campanha do ódio porque sua candidatura encarna o sentimento contra Lula e o que ele representa, contra esse novo Brasil em que jovens da periferia vão à universidade, empregadas domésticas andam de carro e a classe D viaja de avião. Presas desse irracionalismo reativo, pouco importa, para as elites e os setores wanna be elite que a sustentam, que a candidatura tucana não seja propositiva. Em outras palavras : o ódio é tamanho que, ante a possibilidade de continuação da inclusão social da Era Lula, preferem passar um cheque em branco a um político sem propostas e que nunca terminou um mandato sequer.


Desrespeito à democracia
Afigura-se extremamente negativo para a democracia tal processo, pois abre mão do contrato social implícito entre eleitor e candidato, consubstanciado em um acordo por meio do qual aquele vota neste em troca do cumprimento, anda que inescapavelmente parcial, de um determinado conteúdo programático pré-estabelecido.

É a essa lógica contratual que seguiu a campanha de Lula em 2002 – prometendo criar 10 milhões de empregos e, ao final, gerando mais de 14 milhões – e, agora, a de Dilma Rousseff. Senão, vejamos: enquanto Serra utiliza o horário eleitoral gratuito não para apresentar projetos, mas para sustentar o ridículo atroz do #bolinhagate, como parte de uma pantomima não menos patética e que vai na contramão dos fatos – vide os comunicados do partido e da candidata nos últimos dias -, segundo a qual “o PT estimula a violência”, Dilma tem, dia após dia, apresentado os itens programáticos de seu projeto de governo: meio ambiente, indústria naval, inclusão digital, entre outros temas específicos.

Por sua vez, após chafurdar na boataria religiosa, ser autuada distribuindo comida em troca de votos e protagonizar o #bolinhagate, a campanha de Serra volta a viver de ataques contra a adversária, municiados pela mídia amiga -esta, descompromissada de uma mínima ética jornalística e ciosa da impunidade, aja como agir. Mandando às favas os escrúpulos – como em um certo dezembro – e sem demonstrar o mínimo apreço pela incipiente democracia brasileira, a qual humilha com o despudor de seus métodos truculentos, o tucano aposta na negatividade para ganhar as eleições. No momento, só não enxerga quem não quer ver que está armando o clima para um confronto físico e público, o qual, seja protagonizado por quem for (mesmo que por um provocador tucano inserido na multidão), a culpa recairá sobre os petistas.


O novo astral da campanha de Dilma
Enquanto Serra, sob o patrocínio da Rede Globo, Veja e congêneres, trava o seu combate nas trevas, parecendo "acreditar que o povo, em toda a parte, é uma entidade incapaz e como tal deve ser tratado" - como afirmou Gilson Caroni Filho em um artigo imperdível -, o país vai de vento em popa: o desemprego é o menor já medido e, enquanto boa parte do mundo vive as agruras da crise, com pesados contra-efeitos sociais, estamos em vias de consolidar, em questão de meses, o maior crescimento econômico em 30 anos - só que, desta vez, com inclusão social. É insano imaginar que o povo de um país possa abrir mão de tal cenário em prol de um aventureiro sem nada a oferecer exceto sua obsessão em se tornar presidente.

Talvez por estarem os eleitores tomando ciência de tal disparate, a campanha petista, após ser levada às cordas no início do segundo turno, passou a reagir ao bombardeio pleno de acusações mas vazio de propostas. Isso se deu de forma mais efetiva a partir do momento em que Dilma, sem abrir mão do viés propositivo, trouxe à baila o caso Paulo Preto, no debate da Band. A partir daí, com um momento culminante no evento com artistas e intelectuais no Teatro Casa Grande (RJ) – que, iconizada na imagem emocionada de Chico Buarque, artista prenhe de significações anti-autoritarismo, lhe conferiu uma respeitabilidade com que Serra não pode nem sonhar - , sua candidatura, vitaminada ainda pelo apoio de personalidades e intelectuais do Brasil e do exterior, tomou prumo.

E se em 2002 a esperança derrotou o medo; agora a verdade vencerá o ódio.


(Fotos retiradas, respectivamente, daqui e daqui.)

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