segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Reflexões sobre artistas, política e eleições

Começou no Twitter, nesta segunda-feira mezzo feriado: alguém repassou uma mensagem do Léo Jaime afirmando que o #DilmaFactsbyFolha – a febre satírica que tomou conta da rede social – “é a militância acusando o golpe. O caso do vazamento do sigilo é a origem desta cortina de fumaça”.

Quanto ao teor da declaração de Léo, ela denota, em primeiro lugar, ao generalizar como “militância” todos os que participaram da brincadeira, ou uma tentativa pouco democrática de desqualificar os que dele divergem em termos de política, rotulando-os, ou desconhecimento do que seja tal rede social.

Em segundo lugar, revela desconhecimento do caso ou vontade de confundir propositadamente as coisas: o escândalo da Receita está no ar desde o início da semana passada, enquanto o #DilmaFactsbyFolha só se deu ontem (domingo, 05/09), dia em que o diário paulista publicou manchete afirmando que ”Consumidor de luz pagou R$ 1 bi por falha de Dilma”. Como registram diversos blogs, foi em reação a tal “informação” – já desmentida, com documentos, pela assessoria de Dilma – que teve início a piada que chegou ao topo dos trending topics.


Arte e política
Esse contato um tanto decepcionante com um artista do qual, há muitos anos, costumava ouvir, entusiasmado, o primeiro disco – intitulado “Phodas C” e permeado de humor sacana e de romantismo – e que lançaria algumas músicas que embalaram minha adolescência, me fez refletir sobre o papel político do artista nos dias de hoje.

Parece lícito supor que, com o fim da ditadura, tem lugar uma desmobilização da classe artística – e da sociedade civil tal como então concebida -, causada, sobretudo, pelo desaparecimento de um inimigo em comum para combater (“é o bem contra o mal/E você de que lado está?”, cantava Legião Urbana na canção “1964 (Duas tribos)"). Podemos especular que ocorre, também, em termos de presença no imaginário popular, uma desvalorização qualitativa da figura do artista enquanto referência intelectual, em prol de uma valorização quantitativa da “celebridade”.

Assim, o processo de “despolitização” da vida social é duplo – uma tendência que talvez a internet esteja só agora começando a reverter. Pois, ocorrendo de forma concomitante, tanto a diminuição dos elos entre política e a arte no âmbito midiático (comparem, por exemplo, os festivais dos anos 60 com o cenário atual) quanto a velocidade, a fugacidade e a tendência ao não-aprofundamento intelectual das celebridades instantâneas levam, em última análise, à virtual dissociação entre arte e política.


Artista, mídia e eleições
Talvez a seara onde tal dissociação seja mais visível seja a eleitoral. Coincidentemente, em coluna recente, Fernando de Barros e Silva discutiu o papel do artista nas eleições. Fernando é um dos melhores textos jornalísticos do Brasil e, quando elevou o nível da crítica televisiva, mostrou-se um analista dos mais perspicazes e atentos – mas tais talentos vêm há tempos se eclipsando, sufocados pela vassalagem que presta às preferências políticas do patrão Frias Filho na deteriorada Folha de S. Paulo.

Dessa forma, sua coluna sobre artistas e política se torna, em essência, mais um dos muitos sinais da mídia de que, ante o naufrágio de Serra, Marina é o plano B dos confederados do Instituto Millenium. Após citar o apoio de Caetano Veloso à candidata do PV, Fernando filosofa:

“Não há nenhum artista da mesma estatura histórica engajado dessa maneira em favor de Dilma Rousseff ou de José Serra (...) Em parte, porque as grandes figuras da intelligentsia com inserção pública e simpatias à esquerda não devem se sentir motivadas o bastante, ou moralmente à vontade, para sair da toca e hipotecar seu apoio a uma candidata semi-desconhecida, que Lula tirou do bolso do colete”.
Pausa para as gargalhadas... O despeito da mal chamada grande mídia com uma candidata com intenções de voto suficientes para vencer no primeiro turno, derrotando José Serra, o queridinho dos barões da imprensa, está ficando cômica.

Sem falar que um jornalista profissional deveria, em nome da justeza da análise, ao menos mencionar o histórico de volubilidade eleitoral de Caetano Veloso – uma figura que, por maior que seja como artista, muitos têm dificuldade de levar a sério quando abre a boca para falar de política, justamente porque se mostrou, reiteradas vezes, leviano nessa área.

Por fim, vejam o encerramento do artigo, que primor de nonsense:

“O realinhamento histórico que Marina propõe não deixa de ser uma maneira de renovar (ou reanimar) as ilusões perdidas das classes médias letradas que fizeram sua educação sentimental e política em torno da velha e boa “MPB”.
O que será que o Fernando quis dizer com essa baboseira elogiosa? Cartas para a redação.


(Colagem de fotos de Mário Faustino retiradas daqui)

Um comentário:

bete disse...

olha, tenho lido cada barbaridade no brinquedo, aka twitter, que quase desisti do troço. sinceramente acho que quem não entende do riscado ou entende pouco, como eu, deve limitar-se mais a observar e perguntar do que a fazer julgamentos com ares de verdade absoluta e nada pertinentes, mas ser celebridade embaça os olhos e eleva o ego, daí que a gente é obrigado a ler certas coisas... pior é que vc pode adorar a música da pessoa, mas não precisa seguir loucamente a figura se ela deixa de mostar coerência, mas isso não combina muito com a palavra fã, né?
matou a pau o post. adorei. bjs