domingo, 23 de janeiro de 2011

Reações contra a blogosfera

Uma das formas mais efetivas de comprovar o quanto a blogosfera e as redes sociais se tornaram, nos últimos anos, relevantes forças na arena pública é atentar para o modo como são descritas pelos agentes do conservadorismo, na política ou na mídia.


Atestado de eficácia
Nesse sentido, é significativo que a pregnante referência feita pelo candidato derrotado José Serra ao que chamou de “blogs sujos” tenha vindo a público um dia antes do I Encontro Nacional de Blogueiros Progressistas: ela se tornou o grande tema da noite de abertura do evento, sendo recebida com ironia e júbilo pelos participantes. Júbilo? Sim, pois, como sublinhou Luis Nassif no breve discurso que proferiu após apresentar-se com seu grupo de chorinho, tal declaração, ao invés de desonrar a blogosfera, constitui, na verdade, o atestado incontestável de que sua ação efetivamente incomoda as forças que combate.

Já a maior parte da mídia corporativa – que tem atuado como oposição ao governo federal, como reconheceram o jornalista Fernando Rodrigues e a sindicalista patronal e executiva da Folha de S. Paulo Judith Brito – prefere empregar uma tática dupla em relação à blogosfera.


Jogo de desqualificações
Por um lado, procura desqualificar a internet porque esta seria, nas palavras reiteradamente usadas por colunistas corporativos, “terra de ninguém”, reino “da ignorância”, “dominada por hordas agressivas”, onde “troca-se o debate civilizado pela mera agressão” .

Reforçando essa tática de desqualificação, tende-se a instituir, na mídia, uma distinção entre jornalistas profissionais “isentos” e “militantes” - como se os blogueiros pensassem todos do mesmo modo e se mostrassem incapazes de argumentar com equilíbrio e racionalidade; e, por sua vez, os jornalistas fossem seres imaculados, livres de inclinações ideológico-partidárias e, acredite se quiser, infensos às pressões ditadas pelos interesses da corporação em que trabalham.


Jornalismo anacrônico
Em termos efetivos, tais lamúrias pouco fazem além de evidenciar o anacronismo e a recusa ao diálogo de gerações de jornalistas desacostumados ao debate e à crítica pública (a não ser minimamente, em editadas seções de cartas). Há agressividade na web? Basta, como tantos blogueiros fazem, ignorar os que agridem e ater-se aos que querem dialogar, mesmo que o façam através de críticas negativas. Utilizar-se da desculpa da agressividade – que não é monopólio dos que tendem a se opor à posição da mídia, muito pelo contrário – para recusar o diálogo não combina com democracia.

Ademais, enfraquece essas táticas desqualificadoras empregadas por colunistas e editorialistas o fato que as próprias corporações de imprensa para as quais trabalham valem-se, rotineiramente, de jornalistas profissionais travestidos de blogueiros – tais como Ricardo Noblat em O Globo, Josias de Souza na Folha Online e um certo tipo na Veja. Ué, aí a internet serve à exposição de ideias e ao debate? Um pouco de coerência, senhores e madames, por favor...


Patrocínio e publicidade
A segunda tática empregada no esforço de desqualificar a blogosfera é acusá-la de ser “chapa-branca” – incluindo aí insinuações melífluas de que seria financiada pelo governo.

Trata-se de duas falácias. Temas e episódios como a questão agrária, a composição de alianças políticas, a hidrelétrica de Belo Monte, a tramitação do PNDH-3 (Programa Nacional de Direitos Humanos) – e, neste exato momento, a polêmica em torno da licença Creative Commons e da questão dos direitos autorais no âmbito do MinC – mostram não apenas a diversidade de opiniões na chamada blogosfera, mas o quanto setores desta tendem a ser críticos das forças a cargo da administração federal nos últimos oito anos, a depender das medidas por estas tomadas.


Resistência à desinformação
O que ocorre é que, ante uma mídia que tem se recusado sistematicamente a cobrir de forma condigna a atuação do governo federal, preferindo ocultar os feitos positivos e superdimensionar, com a lente de aumento do moralismo neoudenista, os erros - enquanto mitiga as mazelas do demotucanato -, a blogosfera vê-se obrigada a contrapor-se.

Pois, se a imprensa se omite e, numa postura elitista e ofensiva ao povo, recusa-se a ao menos tentar descobrir as razões de um presidente deixar o poder após dois mandatos com 87% de aprovação, é não apenas lícito mas necessário que novas forças comunicacionais preencham essa lacuna.

Afinal, com o perdão da ironia, como afirma um dos dísticos pós-iluministas adotados pelo jornalismo para justificar-se socialmente, “o público tem o direito de saber”.


Mídia quer monopólio de verbas
Já a acusação de que os “blogs sujos” seriam financiados pelo lulopetismo, embora falsa e falaciosa, tem sido irresponsavelmente ecoada por colunistas da velha mídia e, nas caixas de comentários dos blogs, por internautas anti-petistas ou que se identificam com o projeto neoliberal da direita brasileira.

E ela é falsa e falaciosa por quê? Em primeiro lugar, porque confunde, propositadamente ou por ignorância, investimento governamental em publicidade e patrocínio de estatais. O primeiro, a cargo da Secretária de Comunicação (Secom) está condicionado à aprovação do orçamento federal pelo parlamento e diz respeito à divulgação institucional da administração federal.

E como demonstrei em outro artigo, o fato de o ex-presidente Lula ter recusado o modelo publicitário que herdou, concentrado nos grandes grupos de mídia, e optado por pulverizar parte de tal verba entre pequenas e médias publicações e emissoras de rádio – fazendo o número de veículos beneficiários de publicidade federal saltar de 499 para 6.835 ao longo de oito anos – é uma das questões centrais para se compreender o ódio que os grandes grupos de mídia alimentam contra ele, seu governo e o de sua sucessora.

Ainda assim, tal verba continua irrigar, embora em menor volume, as grandes revistas e jornais do país – e, em conseguinte, o salário de seus jornalistas travestidos de blogueiros. Seria, portanto, absolutamente normal que também irrigasse os “blogs sujos” mais freqüentados. Mas não há comprovação de que isso tenha ocorrido.


Neoliberalismo tardio
Quanto aos patrocínios estatais, obedecem a outra lógica. Desde que a difusão da ortodoxia neoliberal tornou pecado mortal o investimento direto do Estado na produção de cultura e de bens simbólicos, o modelo forjado no país depende largamente do apoio financeiro de empresas, sejam privadas ou públicas. Como nossos empresários, em sua maioria, não primam pelo mecenato, as estatais acabaram por assumir a maior parte da responsabilidade nesse campo.

Essas autarquias, que têm autonomia para decidir o destino de seus patrocínios e verbas publicitárias, têm primado, há quase duas décadas, por uma distribuição extremamente diversificada de suas verbas, contemplando um amplo espectro ideológico e formal. A Petrobras, notadamente, patrocina desde revistas semi-artesanais até, para indignação de muitos, filmes proto-hollywoodianos de uma megacorporação como a Rede Globo e projetos da Fundação Roberto Marinho.


Decadência e crise ética
Isso não impede que os detratores dos blogueiros não-corporativos adotem uma dupla moral, tão curiosa quanto velhaca: criticam azedamente o patrocínio estatal quando este se volta a blogs, publicações ou filmes que oferecem um conteúdo que, no entender de tais comentaristas, tende ideologicamente à esquerda; mas emudecem quando ele favorece publicações com clara identificação com o ideário neoliberal, blogs corporativos os mais hidrófobos e filmes que tentam reabilitar figuras da ditadura.

Que alguns colunistas reproduzam esse discurso falacioso lamenta-se, mas não chega a surpreender: profissionais que não hesitam em traficar, na bacia das almas, sua pena e suas ideias com o baronato midiático não podem mesmo compreender o desprendimento e a generosidade dos que dedicam, graciosamente, parte de seu tempo para divulgar seus próprios ideais e contribuir para a construção de um universo comunicacional verdadeiramente democrático.


(Ilustração retirada daqui)

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