quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A peculiar democracia paulista

O direito ao protesto pacífico é prerrogativa básica da cidadania, assegurado por todas as democracias avançadas.

Em São Paulo, no entanto, há tempos ele não vale mais. Aqui, se um manifestante levantar uma faixa durante um discurso de prefeito leva uma gravata de seus seguranças; se um bando de estudantes resolver gritar palavras de ordem contra o aumento na passagem de ônibus, toma tiro de bala de borracha da PM.



Uma das grandes conquistas do demotucanato bandeirante – ao lado do transporte público de primeiro mundo, dos altos salários dos professores e delegados, dos rios sempre desassoreados e das ruas que não alagam – é, justamente o que muitos paulistas, orgulhosos, chamam de “vitória da ordem contra a baderna”.

Agindo com pulso firme, o ex-governador Serra conseguiu, acreditem, igualar um feito do bravo coronel Erasmo Dias em plena ditadura, quando este invadiu a PUC. O ex-candidato presidencial fez melhor: mandou às favas os escrúpulos e ordenou que sua mansa polícia invadisse a USP, violando, eis que enfim, o outrora sacrossanto espaço de uma universidade pública, cuja utilização foi deturpada por uma juventude que vive a gazetear, a cheirar maconha e a fumar cocaína.

Como sempre, houve quem chiasse, uns defensores de direitos humanos para bandidos, falando em truculência e abuso policial. Porém, como demonstrou um brilhante jornalista, em esforço de reportagem, o que os manifestantes praticaram na USP foi, na verdade, mais do que agressão: terrorismo. Observem os flagrantes das fotos dos guerrilheiros e o texto imparcial do escriba e confiram vocês mesmos, caros leitores.


Mídia imparcial
Pois o tal pessoal do contra acha que uma das principais funções sociais da mídia seria justamente registrar e difundir o que chamam, afetadamente, de “violações e agressões contra a cidadania perpetradas por forças do estado”. Felizmente, o que temos visto em São Paulo é o oposto disso: quando não simplesmente deixa de publicar essas arruaças inconsequentes, nossa briosa imprensa, sempre ao lado dos mais fracos, exagera na indulgência e noticia a ação das forças da ordem contra os provocadores e desordeiros com palavras “neutras” ou que sugerem reciprocidade, tais como “confusão”, “conflito”, "tumulto", “confronto”.

O modo comedido como a imprensa aborda tais temas, recusando-se a demonizar a esquerda e as manifestações populares, embora não de todo fiel à verdade, tem uma razão de ser. Reflete o seu cuidado para com os jovens leitores que, graças à melhoria constante do jornalismo ético que pratica, conquistou.

Pois o governo tucano, através de seu impoluto secretário Paulo Renato, ciente da preciosa fonte de informação confiável que é a nossa imprensa – e com a certeza de que R$250 milhões jamais alterariam sua criteriosa linha editorial - generosa e desprendidamente contratou milhares de assinaturas de nossos mais destacados periódicos para melhorar ainda mais – se é que isso é possível - o nível de ensino nos colégios estaduais.

Assim, em plena liberdade democrática e com a aliança entre estadistas no poder, imprensa ética e povo esclarecido, construiremos, em São Paulo, a civilização do futuro.


(Foto retirada daqui)

3 comentários:

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Tivesse lido isso ontem entrava no post de comentários sobre Sampa em seu aniversário!=)

Vai bem de encontro com o que disse o Sakamoto e o Hugo, por aqui as coisas parecem funcionar em uma lógica própria, que não respeita nada nem ninguém.
http://tsavkko.blogspot.com/2011/01/o-aniversario-de-475-anos-da-cidade-de.html

Mariana disse...

Conferi um dos links e encontrei o termo "petralha", de conhecimento recente: não acreditei quando, em uma roda de conversa, ouvi o disparate de tudo. Mas os eleitores de Serra têm uma estranha particularidade: seu discurso é fechado, pronto, como uma muralha, aqueles que discordam não conseguem sequer abrir a boca, mesmo porque tudo é dito em alto e bom som. Nada mais democrático.

Eduardo E. S. Prado disse...

Olá, Maurício!

O mais impressionante é que a truculência policial e a imprensa trabalham juntas com o governo (municipal e estadual) para impedir que movimentos reivindicatórios cresçam e ganhem repercussão, contagiando o restante da sociedade. É um jogo muito bem orquestrado entre as esferas de poder , com juiz comprado. Neste jogo o interesse público perde sempre.