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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O jornalismo neocon e a militância virtual

Muito já foi dito sobre as razões que levaram as grandes corporações jornalísticas à aderência ao chamado jornalismo neocon, denominação do estilo agressivo e marcadamente conservador que se difundiu inicialmente nos EUA - de radialistas populares para a Fox News - e que, no Brasil, ganhou abrigo nas páginas da outrora prestigiada revista Veja.

Resumidamente, mudanças e pressões econômicas, tecnológicas, políticas e ideológicas fizeram com que elas passassem a abrigar em suas redações e estúdios adeptos desse jornalismo malcriado e raso em informação histórica. Ainda que seu alvo principal sejam certos estratos sócio-econômicos, setores do público jovem têm sido muito receptivos a tal "estilo".


A consciência no tempo
A brilhante jornalista que é Maria Inês Nassif teceu as seguintes considerações, em artigo recente, do qual vale a pena ler também os emocionados comentários:
“Há quase 47 anos o Brasil iniciava seu último período ditatorial. Faz 25 anos que acabou o último governo militar. 21 anos nos separam da primeira eleição direta para presidente; e há 20 anos se promulgava a nova Constituição brasileira.

Uma geração que já é adulta nasceu na democracia e sequer tem lembranças do período negro da ditadura. Essa geração não tem a dimensão do que é, para a história do país, o fato de uma mulher que foi presa política assumir a presidência da República. Isso é história em seu estado puro”.
Não é frequente que prestemos atenção a tais efeitos exercidos pela passagem do tempo na consciência política. Tal gap generacional, convém reforçar, faz com que um jovem que esteja ingressando na universidade hoje – aos 18, 19 anos – sequer tenha acompanhado o governo Fernando Henrique Cardoso, já que era uma criança com cerca de 10 anos quando ele terminou.

Essa amnésia histórica ajuda a explicar o porquê de um número relativamente expressivo de jovens se deixar seduzir pelo canto de sereia neocon.


Insegurança e catarse
Em primeiro lugar, porque, para essa geração, o governo Lula - e agora Dilma - constitui o poder, e é da natureza da juventude contestar o poder vigente, com razão ou não, seja ele qual for.

Em segundo, porque o jornalismo neocon brasileiro, de criaturas como Reinaldo Azevedo, Mainardi e Augusto Nunes, ao abrir mão da argumentação criteriosa, balanceada, em prol da agressividade e do ataque desqualificador, oferece uma experiência catártica que tende a seduzir particularmente a ainda revoltados e inseguros pós-adolescentes, os quais tendem a mimetizá-la. Há, muitas vezes, algo de afirmação pessoal e de recalque exorcisado nessa identificação.


Neoudenismo
Convém considerar, ainda, a questão da penetrabilidade do discurso moralista, uma arma histórica do conservadorismo brasileiro, popularizada pela UDN nos anos 40/50 e retomada pelo demotucanato com o auxílio da mídia amiga.

O alcance de tal discurso extrapola, evidentemente, o público jovem, já que a corrupção é – sempre foi - um problema grave e real no Brasil. Daí a afirmar que o governo Lula tenha sido o mais corrupto da história – como fazem os neocons – trata-se de uma generalização que, como debateremos em breve em outro post, não se sustenta minimamente e sublinha, uma vez mais, a falta de compromisso com a verdade e de conhecimento histórico por parte de tais jornalistas.

Por fim, é necessário reconhecer que o jornalismo neocon, com sua leviandade cafajeste e irresponsável, encontrou nas redes sociais um terreno prolífico, como o demonstra de forma cabal o caso dos jovens que clamaram (e ainda clamam), em tom de brincadeira ou não, pelo assassinato da presidenta eleita Dilma Rousseff.


Militância virtual
Até recentemente, a blogosfera, a despeito de sua diversidade, constituiu-se, majoritariamente, como um foco de resistência contra uma mídia partidarizada, agregando desde a esquerda anti-Lula até os que, sem cor político-ideológica, mostravam-se indignados pela perda de parâmetros da imprensa brasileira - além de simpatizantes do lulopetismo, é claro.

Com o incremento e acelerada difusão de novas redes sociais – o Twitter, notadamente – houve um processo de fragmentação e de “tribalização”, e ainda que os setores anti-conservadores tenham se fortalecido, a irrupção de uma militância neocon, açulada pela campanha suja e sem escrúpulos de José Serra, também assoma à cena, trazendo em seu bojo a intolerância, o racismo, o ódio de classe e, mais grave, a sem-cerimônia em divulgar ideias golpistas.

Ela representa a grande ameaça a ser combatida, o grande desafio: desarmar espíritos e trazer o debate político de volta ao âmbito das soluções democráticas e do diálogo civilizado.


(Foto do genial Peter Sellers em Dr. Strangelove, de Kubrick, retirada daqui)

6 comentários:

Arnobio Rocha disse...

Maurício,

Como é estimulante ler uma grande artigo como este, nos faz pensar quantas tarefas temos pela frente.

Uma aula, muito bem alinhavado, mas fã é sempre suspeito para falar de mestre.

Esta militância virtual também nasce no meio de excesso de informação, que acha que sabe tudo por conta do Google, mas que deveria ter humildade de ler os clássicos, perceber que a profundidade para uma melhor ação só se consegue com conhecimento.

Valeu mestre a lição,

Arnobio Rocha

Maurício Caleiro disse...

Obrigado, Arnobio, um abração.

@Limarco disse...

Precisamos de professores que ensinem a história recente do país.

Em certas escolas particulares, penso q falar sobre a revolução, será feito sobre o ponto de vista da elite, que a provocou em 64.

Aliás detesto o termo revolução, no caso troco-o pelo Golpe Baixo de Estado.

Revolução é o que Lula fez,e será continuada pela presidenta Dilma.

Abs Maurício e parabéns pelo artigo.

Marcelo Delfino disse...

Gostei de sua análise a respeito desses jovens bebês reacionários que nasceram ontem e não sabem coisa alguma de coisa nenhuma (não viram nem o Governo FHC, que dirá os anteriores!). Mas talvez eles não sejam totalmente culpados por sua ignorância. O próprio Governo Lula é culpado também, mesmo sendo vítima desses reacionários, pois o ex-presidente deixou inalterado o quadro educacional no país, tanto no ensino público como no privado. As universidades e escolas formam consumidores e trabalhadores, mas não formam cidadãos. Daí a eficiente sedução do jornalismo neocon sobre essa juventude.

Só que essa juventude reacionária é insuficiente para representar alguma ameaça eleitoral ao Governo Lula-Dilma. A prova está no ano passado. Não houve Reinaldo Azevedo, Diogo Mainardi, Augusto Nunes, Arnaldo Jabor, blogueiro ou tuiteiro reacionário que ameaçasse a eleição de Dilma Rousseff ou catapultasse o Nosferatu paulista ao Palácio do Planalto. Nem gente da extrema direita, tipo Olavo de Carvalho, que se tem o mérito de rejeitar autenticamente o demo-tucanato e de ter sido demitido de jornais golpistas como O Globo, Zero Hora e Jornal do Brasil, é um sujeito que forja um "exílio político" muito conveniente (exílio em Washington DC é o máximo!) e ainda chama Adolf Hitler de socialista e esquerdista. É confiável alguém que se põe à direita de Hitler?

A verdadeira ameaça à sobrevida eleitoral do lulo-dilmo-petismo é essa nova classe média forjada durante a Era Lula. É uma nova classe média altamente individualista e conservadora, que acha o Governo Lula-Dilma o máximo só porque agora estuda com laptops em faculdades (que, como disse, formam consumidores e trabalhadores, mas não cidadãos), toma bebida de soja e tem TV de alta definição e computador em casa. Como se os esforços da classe trabalhadora não tivessem feito este país crescer e se desenvolver APESAR DO GOVERNO, não por causa dele. Quando perceberem a verdade e tomarem um espírito de corpo conservador, essa classe média é bem capaz de apunhalar o lulo-dilmo-petismo pelas costas, mandando um sonoro "foda-se" para o Governo. Essa classe média vai aderir ao primeiro projeto de poder conservador que aparecer para suplantar simultaneamente o lulo-dilmo-petismo e o finado demo-tucanato.

Se for um projeto nacionalista, ainda vá lá. Mas se for um projeto de ultradireita (dessa que se põe à direita do demo-tucanato) ou algum projeto personalista de algum lunático desses que tem por aí (inclusive alguns religiosos), o Brasil afundará mais ainda na velha máxima do "Brasil, um País de Tolos".

Marcelo Delfino disse...

Tudo que sei da história recente e distante do país (inclusive sobre o Golpe de 1964 e o que veio depois) foi ensinado por excelentes professores de História.

Mas eu concluí meus estudos formais de História (valendo nota) lá no colégio, em 1991. De lá para cá, muitos bons professores devem ter debandado para carreiras fora do magistério.

Jose disse...

Alguns pontos que discordo:

1) Os que não viram nem FHC direito tendem na verdade a ter um discurso similar aos pais. Isso é bem comum basta ver os nossos próprios casos. E a exemplo disso, lembro bem de ver o Lula vencer em regioes que hoje ele não vence mais e a direita perder em regioes que hoje vence.

2) Esse fato do item 1) ocorre devido a diversidade cultural. O que não justifica pensarmos que temos que sair à guerra! Gostei da observação dos esquerdas que não são lulistas onde me sinto incluido, mas não sou contra. Sou crítico. Crítica sempre tem que existir. Ela só agrega. Essa direita a exemplo da mídia podre levantou armas e se tornou baixaria na mesma medida que o PT durante as eleições (que agora também tem mídia). Portanto essa guerra declarada não resolve. Só seremos nação quando o discurso da Dilma, muito bem colocado por sinal, se tornar uma cultura.
"Eu governarei para todos"!