domingo, 31 de janeiro de 2010

Moradores de rua: o Brasil como sociedade anacrônica e cruel

Era o período final do governo FHC. Durante meses, todas as terças-feiras, por volta das 22h., eu voltava da aula que dava em um cursinho pré-vestibular para alunos carentes da favela da Maré, descia do ônibus no Largo do Machado e ia a pé para o meu apartamento em Botafogo – um trajeto de cerca de 1,5km, que passa por três bairros.

Durante praticamente todo o caminho, ia tropeçando nos corpos dos moradores de rua - e só por pouco tal afirmação é figura de linguagem. Eram homens e mulheres sós, crianças e velhos abandonados, famílias inteiras com suas camas de papelão, cobertores e tralhas, se amontoando sob cada marquise, quase sem deixar espaço para o tráfego de pedestres nas estreitas calçadas cariocas.

A naturalidade com que a sociedade brasileira há muito aceita que pessoas sejam obrigadas a dormir na rua – sem as mínimas condições de higiene, à mercê das intempéries, coabitando com insetos e ratos, sujeitas à ação de grupos de extermínio, ao ataque de vândalos piromaníacos e ao assédio de policiais sádicos – é uma das provas incontestáveis da cruel indiferença que marca as relações sociais no país.


Elitismo e hipocrisia marcam o debate
O pretexto moral invocado para “justificar”tal indiferença é que os moradores de rua seriam uma súcia de criminosos, viciados, prostitutas, “moleques de rua”. Trata-se de: 1) Uma falácia; e 2) Um não-argumento.

1) Falácia porque desmentida pelos fatos: a maioria da população de rua é composta dos excedentes do capitalismo tecnofinanceiro; de pessoas que, sem escolaridade, apoio familiar, recursos materiais e, eventualmente, saúde física ou psicológica para inserir-se no mercado de trabalho, “têm direito apenas à miséria ou à sua ameaça mais ou menos próxima, à perda muitas vezes de um teto, à perda de toda a consideração social e até mesmo de toda a autoconsideração. Ao drama das identidades precárias ou anuladas”, como assinala Viviane Forrester em seu belo e doloroso livro O Horror Econômico.

Portanto, para um contingente social muito mais amplo do que se imagina – e de forma alguma restrito a uma escória antisocial caricata – a sarjeta tem sido uma possibilidade mais concreta e latente do que aparenta num país que durante quase 20 anos conviveu com um processo inflacionário agudo e foi periodicamente assomado por crises econômicas devastadoras, que ora atingiam com mais vigor certos setores da economia, ora outros, e que levavam invariavelmente milhões ao desemprego. O mendigo fedido que ontem atormentou-lhe, leitor(a), era gerente de uma fábrica de discos de vinil; a velha com aparência de louca que enfia a mão nos lixos à cata de latas tinha uma pequena confecção antes do Plano Collor; aquele camelô grisalho que tem dificuldade pra fugir do “rapa” foi assistente de diretoria de um banco destruído pela crise dos anos 80.

É evidente que a tragédia cotidiana de morar nas ruas é traumática e que parcelas dos que estão submetidos a tal realidade têm envolvimento com drogas e alcool - mas, além dos problemas metodológicos com as pesquisas relacionando drogas e moradores de rua, é preciso levar em conta que largos setores das classes médias e altas também fazem uso de tais substâncias, sem, no entanto, ser desclassificados por considerações de ordem moral. Pode-se especular que para os primeiros, a busca por drogas decorre muitas vezes de uma necessidade de fuga, de fornecer lenitivo às feridas egóicas que tal situação provoca, de sufocar, em goles, picos e tragos, a avassaladora vergonha. Pois, como observa Forrester, com uma amarga dose de sarcasmo: "Não há nada que enfraqueça nem que paralise mais que a vergonha (...) é um valor sólido, como o sofrimento que a provoca ou que ela suscita (...) A vergonha deveria ter cotação na Bolsa".


2) Não-argumento porque abandonar crianças mal-nascidas a sua própria sorte - pespegando-lhes o carimbo de “menor”para diferi-las, como pequenas criminosas, das “crianças normais”- e negar cidadania a mulheres e travestis que vendem seus corpos e a pessoas que fazem uso de drogas é indigno de sociedades que se querem avançadas e democráticas. Nestas, simplesmente não há “menores de rua” – nem como constructo para distinção ontológica nem como presença física social - e criam-se estruturas especializadas, que oferecem a tais segmentos populacionais oportunidades para tratamentos de saúde, terapias e meios de inclusão trabalhista e comunitária.

Porém, a substituição do Estado de Bem-Estar social (que entre nós nunca chegou a se concretizar) pelo Estado Penal, uma das mais persistentes heranças malditas do neoliberalismo – e tema analisado por brilho por autores como Loïc Wacquant, Alessandro Baratta e Raúl Zaffaroni -, trouxe em seu bojo não apenas a intensificação acelerada da criminalização da pobreza, mas a noção subjacente de que o criminoso é um não-cidadão (e não um cidadão que cometeu um crime e deve ser por este ato punido, inclusive com a privação temporária de algumas prerrogativas da cidadania). Daí derivam, num mero exercício de lógica, a naturalização e difusão da ideia que moradores de rua - sejam eles “menores”, prostitutas, travestis, usuários de drogas, transgressores da lei ou, em sua maioria, pessoas que perderam tudo -, por pobre serem, são criminosos, e por criminosos serem, devem ser abandonados pelo Estado à sua própia condição


Novas políticas para moradores de rua
Atualmente, no entanto, pela primeira vez na história do Brasil, os miseráveis e os moradores de rua estão recebendo atenção oficial – e não apenas na forma de assistencialismo (embora esta seja, sim, legítima – o discurso da direita, que a descarta como populista e eleitoreira, não passa de pretexto para deixar as coisas como estão e não “desperdiçar” dinheiro com “pobre”, perpetuando o sofrimento dos excluídos).

Além de se expandir o alcance e o montante do Bolsa-Família – que beneficia mais de 35 milhões de pessoas, atuando diretamente na redução da miséria -, foi criado acesso a contas bancárias e a linhas de crédito para pessoas de baixíssima renda, bem como concebida uma politica específica para a população de rua -, incluindo centro de referência com atendimento multiministerial, benefício fiscal a empresas que comprarem lixo reciclado de cooperativas de catadores, medidas de incremento de visibilidade social, e, mais importante, a aquisição, pelo Estado, de 25 edifícios para abrigar moradores de ruas - os dois primeiros, no valor total de R$20 milhões, já adquiridos.

Isso é o bastante? Certamente não. De forma alguma. Mas é, em nosso país, uma política de combate à miséria inédita em duração e em volume de recursos e de beneficiados. Mundialmente reconhecida, projeta, segundo o IPEA, a antes impensável erradicação da miséria para um horizonte próximo, 2016.

Tive, há quase um ano - portanto, bem antes da inacreditável "Operação Cidade Limpa", promovida pelo prefeito Eduardo Paes (PMDB/RJ) - a oportunidade de refazer o mesmo trajeto de quase uma década atrás, citado no primeiro parágrafo. O número de pessoas morando nas tais ruas diminuiu tremendamente – eu arriscaria dizer que para menos de 1/10 do que eu havia antes presenciado. Trata-se de um fato constatado pelos meus próprios olhos – e não de um dado frio das estatísticas -, para o qual, certamente, as políticas desenvolvidas pelo governo Lula tiveram fundamental influência.

Respeito muitas das restrições que os setores à esquerda do lulopetismo fazem a seu governo e concordo que há muito a avançar em diversos setores - notadamente, nas práticas políticas institucionalizadas em nosso país, as quais a atual Presidência não foi capaz de reverter minimamente.

Mas a atenção direta à erradicação da miséria – bandeira histórica da esquerda -, e, particularmente, aos moradores de rua, é um fator decisivo nas minhas reflexões acerca de para quem vai meu voto nas próximas eleições, tanto para a Presidência quanto para o governo. Tal processo de inclusão social e de expansão de cidadania não pode ser interrompido, pois é o caminho para o Brasil se tornar um país verdadeiramente justo e democrático.


(imagem retirada daqui)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Cézanne e a blogosfera

Meses atrás, fui com uma amiga a uma exposição no MASP, o belo museu projetado por Lina Bo Bardi que conta com o maior vão ao ar livre da América Latina, cuja frente dá para a Av. Paulista, o local de que mais gosto em São Paulo e o que melhor encarna um certo espírito dinâmico e cosmopolita da cidade, hoje em franca decadência.

Era uma exposição que reunia alguns dos principais pintores do Ocidente do período 1860-1960, com destaque para os pré-modernistas franceses do final do século XIX, como Degas, Monet, Manet e Renoir.

Após examinar detidamente, com ar de interrogação, um quadro de Cézanne, ela virou-se para mim e disse, resoluta, algo como:

“- Esse cara não pinta nada. Isso é pura enganação”.
Achei muito engraçado e limitei-me a sorrir um riso solto. Estava uma tarde maravihosa e meu maior interesse era que a noite fosse ainda melhor. Ela era particularmente sensível em relação a sua formação cultural e se há um papel que eu detesto fazer, nesses casos, é o de professor fora das salas de aula. Deixei rolar.

Mesmo porque, se proferida sem contextualização alguma e a partir dos critérios estéticos do presente, a observação dela faz sentido. Observemos o quadro de Cézanne reproduzido acima - da série Château Noir, pintada entre 1904 e 1906 (ano de sua morte) e considerado um marco influencial na transição da arte novecentista para o modernismo radical do século XX: por um lado, ele é claramente insatisfatório se avaliado a partir de uma perspectiva figurativa clássica, pós-renascentista (pois é evidente que, intencionalmente, a paisagem retratada não reproduz – apenas emula - a paisagem observada); por outro lado, ele não atinge o grau de ambivalência estética nem a hipertrofia de sentidos do alto modernismo.

Daí que para entender a grandeza da arte de Cézanne talvez seja preciso – ou recomendável - não apenas contextualizá-la em seu tempo e em relação à história da arte - em termos de ruptura de parâmetros de representação e de topos estético -, mas analisá-la a partir de seus desdobramentos últimos para a arte moderna: é a partir do contato com algumas das obras máximas de um certo modernismo pictórico - digamos, com o Picasso de Les mademoiselles de d’Avignon – que, retrospectivamente, fica mais “fácil” enxergar-lhe a excelência.

A escolha de uma obra de Picasso para sublinhar, retrospectivamente, a influência inovadora exercida por Cézanne - num processo que o escritor argentino Jorge Luis Borges define como “a capacidade de influenciar seus predecessores” - não se deve ao acaso: o pintor andaluz explicitou diversas vezes tal influência, chegando a declarar, como se falasse em nome dos modernistas do século XX, que "Cézanne é o mestre de todos nós".

Por que me lembrei desse episódio menor e teço tais comentários? Porque eles se relacionam com uma questão que me parece premente na blogosfera. Uma novidade muito positiva que ela trouxe às relações comunicacionais é a democratização das opiniões: não são, no mais das vezes, títulos acadêmicos, status social ou posição profissional que determinam a legitimidade das opiniões do blogueiro (e dos comentaristas), mas o modo como uma comunidade de leitores – variável em número e perfis - com elas interage.

Esse processo, no entanto, não está livre de certas vicissitudes. Uma das maiores, na minha opinião, é justamente uma certa tendência a defender opiniões que, mesmo se bem-formuladas e coerentes de um ponto de vista lógico, já foram exaustivamente debatidas por pensadores e teóricos, muitas vezes com um grau de elaboração muito mais desenvolvido.

Dia desses, em meio a um acalorado debate político no Twitter, o amigo @bruno_pinheiro – o médico mais intelectualizado que conheço – soltou um comentário lacônico, mas que me pareceu precioso: “Acho que as pessoas deveriam ler Gramsci”. Sem ser deselegante ou confrontar diretamente ninguém, ele tornou evidente o absurdo de se pretender discutir tal tema em profundidade sem conhecer sequer os conceitos básicos da teoria política.

Espero que eu esteja errado, mas um de meus receios é que a afluência cada vez maior de blogueiros com baixa faixa etária numa atividade já característicamente dominada por jovens – portanto, com menor formação cultural, possivelmente mais refratários à leitura e há muito acostumados, segundo Eric Hobsbawn, a viver num “eterno presente” – possa vir a agravar o problema.

Pois, idealmente, à democratização da opinião não deveria corresponder a demonização do conhecimento acumulativo e o fastio com textos volumosos, como às vezes parece acontecer. Há certos conhecimentos que só os livros - e o tempo, concentração e reflexão que demandam - trazem. Negligenciá-los em prol de uma produção tão profícua quanto pouco embasada e de debates circunscritos ao aqui-agora é aumentar o risco que um dia Cézanne seja classificado como um enganador e a maioria aquiesça.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Processos contra Dilma evidenciam crise da oposição

“Os três partidos de oposição - PSDB, DEM e PPS - entraram nesta terça-feira com mais uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por suposta propaganda antecipada. Segundo nota divulgada pelo PPS, a oposição cita uma fala de Lula na última sexta-feira, quando classificou a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, como ‘palanqueira’” – noticia o portal Terra.
Continua a matéria:
“Segundo o presidente do PPS, ex-senador [sic] Roberto Freire, as declarações de Lula são a prova do ‘desdém com que ele trata o ordenamento jurídico e as instituições do Brasil’. ‘Vamos ao TSE quantas vezes forem necessárias para garantir o cumprimento da lei’, disse Freire. Segundo o presidente do partido, Dilma tem feito, ‘de forma atrevida’, campanha eleitoral ilegal pelo País”.
Antes de analisarmos as implicações do caso, examinemos, brevemente, o que a notícia nos diz em relação ao jornalismo brasileiro. Em primeiro lugar, não obstante dar voz a um líder de partido de oposição para que este faça graves denúncias contra um cidadão (no caso, o presidente da república), descumpre a regra básica de ouvir o outro lado. Assim, ao deixar de repercutir a acusação junto a um porta-voz de Lula ou ao menos ao líder do partido situacionista, o jornalismo do portal Terra priva o acusado do direito à defesa no mesmo veículo noticioso em que é acusado. Contraria, portanto, de maneira frontal, a ética jornalística.

Em segundo lugar, além da redação rebarbativa de praxe num jornalismo feito por estagiários, chamar o atual deputado federal (PPS/PE) de “ex-senador” só aparentemente é um erro menor. Denota não apenas preguiça de fazer uma pesquisa básica mas, o que é muito mais grave, tratar-se de uma matéria “pronta”, encomendada e imposta de cima pra baixo, como qualquer pessoa com algum traquejo no jornalismo profissional reconheceria. Ademais, São Roberto Freire é figura política das mais conhecidas, notadamente pela coerência: afinal, passou de líder da esquerda a "menino de recados do Serra", nas palavras de André Moura. Mesmo um estagiário de portal de notícias teria obrigação de conhecê-lo.

O texto não deixa, porém, de oferecer um certo aspecto humorístico: afinal, só o jornalismo brasileiro em seu deplorável estágio atual seria capaz de achar que um “ex-senador” lidera um partido de oposição e dar-lhe tamanho destaque.


Dois pesos, duas medidas
Examinemos agora o mérito (sic) das denúncias: evidentemente, é legítimo que, existindo uma lei que coíbe propaganda eleitoral antecipada, os tribunais eleitorais sejam acionados. Que tal lei seja obsoleta, incapaz de acompanhar os efeitos da evolução tecnológica da comunicação e, além disso, ineficaz - pois, à revelia dela, TUDO o que Dilma e Serra fizerem de agora até a eleição terá conotação eleitoral – são dados a ser levados em conta, mas que, de um ponto de vista estritamente legalista, têm pouco ou nenhum relevo.

Seria, porém, no mínimo recomendável que aqueles que, com a certeza do respaldo amplificador da mídia, acusam e querem se valer de tal lei não incorram no mesma ilegalidade a qual acusam os adversários de praticar. Não parece ser o caso.

Afinal, a agenda do outro candidato com chances nas eleições eleitorais, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), apoiado pelas forças às quais Freire pertence, tem, há tempos, estado lotada por viagens para os mais variados destinos, mas visando um único objetivo. Senão, vejamos: enquanto o Estado que deveria governar apenas começava a submergir ante as primeiras chuvas de verão, o tucano, sem ser chefe de Estado convidado ou ecologista renomado, voou até Copenhagen para participar do COP15 ao lado de Marina Silva e posar, para fins propagandísticos, ao lado de Arnold "Exterminador do Futuro" Schwarzenegger. Isso não é campanha?

Ao voltar, ao invés de permanecer em São Paulo e ajudar seu pupilo Kassab a administrar o maior caos urbano da história da cidade - que fez milhares de pessoas perderem seus bens e causou 64 mortes até o momento - Serra, além de participar, sorridente, de uma maratona televisiva em programas de variedades (como o de Luciana Gimenez), tem intensificado o ritmo de viagens por estados do Brasil, como vem sendo fartamente noticiado pela imprensa. Se isso não é campanha, é o quê?

Na própria mídia, o nome do tucano aparece com menos frequência associado a medidas políticas efetivas no âmbito do estado que deveria governar do que a eventos auto-promocionais. E, para completar, comerciais da Sabesp – a companhia paulista de águas – têm sido, desde meados do ano passado, veiculados de forma insistente nos mais recôndidos cantos do país. Responda, por favor, leitor(a): tudo isso é campanha eleitoral ou não?


Ataques e falta de propostas
Esse caso é altamente ilustrativo das estratégias eleitorais do grupo oposicionista - em conluio com a mídia corporativa -, que há tempos têm se limitado a uma ladainha de lamúrias contra o uso da máquina federal ou a denúncias com maior ou menor grau de vileza, quase nunca relevantes para o país, e que buscam invariavelmente o escândalo – como no caso Lina-Dilma.

- “Ou é baixaria ou é xororô”, como resumiu ontem, no Twitter, o prezado Luiz Barbosa Neves, que deixou uma questão no ar: - “E pensar que há quadros na oposição que têm o que dizer à nação. O que houve com eles?”.
Trata-se de uma questão de suma importância, pois a ausência de propostas efetivas para o país, de um programa de ações com consistência técnico-operacional e coerência político-ideológica, está levando as forças de centro-direita a um círculo vicioso que consiste basicamente em tentativas de desestabilização político-institucional e em um jogo de derruba-adversários cujo prêmio máximo é a cabeça do presidente da República, servida na bandeja de prata do impeachment. O esgotamento desse processo - por exemplo, com a perpetuação do petismo no poder através da eventual eleição de Dilma - pode levar tais forças a um beco sem saída – o que é potencialmente perigoso, pois acirra tentações autoritárias.

Na minha opinião, dois fatores têm contribúído para agravar o problema: a polarização PT vs. PSDB e, de forma ainda mais nociva, a opção de José Serra por se aliar à mídia corporativa, incluindo o que de pior esta tem a oferecer. Trata-se de uma aliança sobre a qual o presidenciável peessedebista não tem controle e que lhe cobrará um alto preço na hora devida: Fausto presa de Mefistófeles.


Descaso em SP evidencia necessidade de uma nova oposição
A cobertura das enchentes em São Paulo é ilustrativa do quanto essa aliança entre Serra e mídia corporativa prejudica, sobretudo, os cidadãos. Desde o primeiro momento - quando as chuvas mal haviam começado e o Jardim Romano já estava alagado -, os jornais e telejornais têm feito verdadeiros malabarismos para evitar apurar as omissões e divulgar as parcelas de responsabilidade que cabem, na tragédia, a Kassab e Serra.

Enquanto isso, a classe média paulista, mais renitente do que a Velhinha de Taubaté do Veríssimo, culpa as chuvas e os pobres que jogam lixo nas ruas (como se ela não o fizesse...) pela tragédia. Tem chovido muito, de fato - seria obtuso negá-lo. Mas as enchentes, como já dito, começaram logo com as primeiras chuvas - que são um fenômeno recorrente no verão paulista - e, agora está provado e documentado, a omissão administrativa dos demo-tucanos que deveriam governar São Paulo foi decisiva, como reportou Luis Nassif ontem, em post imperdível:
"A velha mídia foge o quanto pode do encontro com a verdade. Mas não haverá como fugir para sempre. Desde 2005 não são feitas dragagens ou desassoreamento no rio Tietê. O investimento de décadas, mais de um bilhão de dólares no rebaixamento da calha do Tietê, foi jogado fora nesses quatro anos sem desassorear o rio.

Um dado crucial para o bem estar, a segurança e a vitalidade econômica da cidade – manter o rio desassoreado – foi ignorado pelos governantes.

O governo do Estado confiou na sorte, apostou na probabilidade de não haver chuvas maiores, para justificar sua inação frente o problema. E agora? Quem responde pelas mortes, pela paralisação da cidade, pelos bens perdidos, pelas casas inundadas?”.
A insensibilidade social de Serra e os efeitos da blindagem midiática revelam, no caso, sua face mais perversa. Imaginem as consequências, para o país, de um governante com tal perfil, apoiado pelas forças mais retrógradas da política brasileira e sistematicamente acobertado pelos meios de comunicação (mesmo quando se trata de uma tragédia que tem afetado a vida de milhões e produziu dezenas de mortes) ocupar a Presidência.

Trata-se de algo a ser evitado pelos que prezam a democracia em sua plena acepção. Entre outros motivos porque, para o bem desta, o PSDB e a centro-direita precisam renascer como atores políticos de fato, que dialogam, criticam e apresentam projetos para o país, ao invés de se limitarem a tentativas de desestabilização e a denúncias vazias.


(Imagem retirada daqui)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Lobos e cordeiros

Retorno de um período de viagens – mezzo trabalho, mezzo férias - durante o qual fiz questão de permanecer afastado da internet e das notícias. Na volta para casa, o taxista me atualiza quanto às “novidades”: chuvas torrenciais em São Paulo, nove mortes até então. Lembrei da música de Gil “as notícias que leio, conheço/já sabia antes mesmo de ler”.

Durante toda a conversa, cansado após quase 12 horas de viagem, banquei um personagem que, segundo a mãe de uma antiga namorada, desempenho à perfeição: o sonso. Limitei-me a perguntar e a dar corda, mesmo porque o nível da maioria das observações expressava um preconceito tamanho, típico de uma certa mentalidade conservadora-populista, que exigiria uma disposição argumentativa da qual, ávido por chegar em casa, no momento não dispunha.

O problema das enchentes, segundo ele, são os pobres, que moram em qualquer lugar e jogam lixo na rua. Tentei mencionar a omissão das autoridades, mas não deu ouvidos. Veio à minha mente a famosa frase de George Burns: "Pena que as pessoas que sabem o que fazer com o país estão ou cortando cabelos ou dirigindo táxis". Para o motorista-dirigente em questão a solução seria dar “uns R$200 reais’ para cada um e mandá-los de volta “pra Bahia”. Bem-vindo a São Paulo.

A conversa me fez lembrar de Marilena Chauí, mais especificamente do livro Conformismo e Resistência - que li, maravilhado, quase que numa enfiada, em dois dias, assim que entrei na faculdade (sim, faz muito tempo...). Nele, a filósofa dá espaço à sociológa e, em meio a muitas sacadas interessantes, demonstra o quanto a classe média baixa (que inclui parcelas dos pobres e “remediados” em geral), ao invés de abraçar um ideário consoante a sua condição social e que abarque as privações e opressões que sofre, tende muitas vezes a se identificar com – e adotar - a ideologia das classes dominantes (das quais aspira um dia tomar parte) como forma de se afirmar.

Pensei no quanto tal premissa se aplica ao motorista que me trouxe para meu lar, doce lar – onde, com o esqueleto recostado no sofá, tive a má ideia de ver TV, agravada pela péssima escolha de um programa da Globo News, chamado Fatos e Versões (que pode ser visto na íntegra aqui). O tema principal era a "baixaria" que teria tomado conta da política nacional durante a semana.

Tratava-se justamente da primeira matéria, e começa com imagens de Lula sentado ao lado de Dilma Rousseff, sobre as quais o narrador faz uma afirmação categórica: “O presidente Lula foi o primeiro a colocar o bloco da campanha na rua”. Tal premissa é ilustrada por um trecho de discurso do presidente dizendo:

- “É importante que a gente inaugure o máximo de obra possível”.
Em seguida, com imagens de Dilma discursando, vem o narrador de novo: “A ministra não perdeu tempo”. Dilma sai do off:

- “Mas foi o próprio presidente do partido de oposição quem afirmou que acabaria com o PAC”.
Fiquei pensando: será que esses caras – que alegam manter um tal de “padrão Globo de qualidade” - pensam que somos todos tontos? Não há, a rigor, nada errado no discurso de um presidente – qualquer presidente – que, no último ano de mandado, afirme ser importante fazer o máximo possível de obras. Já quando esse presidente pertence a um governo cujo carro-chefe é um programa de crescimento baseado em um cronograma de obras que prioriza o ano em questão, aí as afirmações do jornalismo global se mostram não apenas levianas, mas equivocadas. Se por má-fé ou por incompetência, deixo a(o) leitor(a) decidir.

Já a insinuação de que Dilma “não perdeu tempo” [em fazer campanha], ilustrada por um trecho de discurso no qual ela simplesmente constata um fato facilmente comprovável – tirado das declarações que Sérgio Guerra, o elefante na loja de cristais que preside o PSDB, fez à Veja - beira a comicidade. Será que o pessoal do jornalismo da Globo acha mesmo que consegue enganar o público com uma manipulação tão tosca?

Porém, talvez pior do que as afirmações tendenciosas que o programa leva a cabo sejam as omissões gritantes da pauta do programa que tornam a manipulação ainda mais evidente. Afinal, e as campanhas da Sabesp, veiculadas pelo governo de Serra desde meados do ano passado em vários estados da Federação? Não “botaram o bloco da campanha na rua?” E a participação do governador paulista, que não é ecologista nem chefe de Estado, no encontro em Copenhagen, posando ao lado de Schwarzenegger, se não é campanha é o quê? Medida a favor do povo paulista?

Não que a matéria não mencione o PSDB – ela o faz em seguida: com a culpa pelas "baixarias" postas na conta de Lula, o programa se permite um momento de bom jornalismo ao reconstituir a escalada dos ataques entre os tucanos e os petistas. Desnecessário, porém, dizer que tal reconstituição está prejudicada na origem.

A seguir, em mais uma tentativa tão obviamente manipulada que chega a ser engraçada, o programa, recorrendo a animações "engraçadinhas", elenca as viagens que Lula fará no Brasil e ao exterior este ano para classificar as primeiras como campanha eleitoral e as segundas como forma de afirmar sua liderança internacional. O subtexto é latente: “governar que é bom, nada”.

Durante o resto da parte nacional do Fatos e Versões (título autoexplicativo este...), enquanto os dois jornalistas convidados brincam de agradar a emissora que os convida – incluindo uma comparação totalmente descontextualizada entre Bachelet e Lula, durante a qual senti vergonha alheia -, a apresentadora Cristiana Lôbo dispara ataques diretos a Lula: “O presidente tá exagerando na campanha para Dilma”; “incita a militãncia” devido às palavras que usa, “está muito preocupado com as placas [das obras inauguradas]”, tem palanque a favor porque distribui convites (como se, com mais de 80% de aprovação popular, dependesse disso...). Tudo dito com aquele jeitão de mãezona, de tia doceira, calma como o vento goiano a soprar nas palmeiras. Qualidades que, a despeito de não contar com o voto da mãe da minha ex, tornam Lôbo uma séria candidata ao título de Sonsa da Década.

Desliguei desgostoso, lamentando que seja esse o jornalismo que temos. E que dá mostras de se encontrar, agora, ainda mais virulento e menos ético, não apenas pela redução do repasse das verbas publicitárias federais e pelo desespero advindo da perspectiva de derrota de seu candidato, mas porque a regularização efetiva das concessões públicas está cada vez mais no horizonte. Trata-se, na verdade, de uma necessidade que as distorções evidentes, o partidarismo descarado e a desinformação sistemática que o jornalismo brasileiro pratica tornam cada vez mais urgente.

Afinal, por mais ingenuamente idealista que isso soe, jornalismo não deve ser meio para manutenção de interesses políticos e corporativos, mas direito da sociedade como um todo. Um dia chegaremos lá.


(Imagem retirada daqui)

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os Melhores Filmes Brasileiros da Década

É estranho, eu sei, mas, a rigor, a primeira década do século XXI só acaba quando 2010 acabar (afinal, não houve um ano zero...). Mas como poucos prestam atenção a isso, me sinto livre para lançar, agora, minha lista dos melhores filmes brasileiros da década.

Embora o clima predominante entre o pessoal de cinema tenha sido de algum pessimismo - causado, sobretudo, pelo estrangulamento do espaço para o filme nacional "independente" ou de baixo orçamento provocado pela entrada definitiva da Globo Filmes, em aliança com majors norte-americanas, no setor - a década, vista em retrospecto, foi muito boa para nosso cinema.

Ao menos foi essa a impressão que tive, após promover uma verdadeira maratona de filmes brasileiros para elaborar esta lista. Muita coisa ficou de fora e, certamente, muitos vão discordar das escolhas, mas é esta uma das funções primordiais das listas: provocar debates.

Há sempre muito de subjetivo nas escolhas, embora eu tenha tentado combinar preferências pessoais a alguns critérios objetivos - como talvez os comentários evidenciem. Eis a lista:


1º. - Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho, 2001) – Uma obra-prima do cinema mundial e uma das melhores adaptações literárias da história do cinema - ao lado de, entre outros, Os Vivos e os Mortos (The Dead, John Huston, EUA/ING/IRL, 1987, baseado em conto de James Joyce). Experiência cinematográfica única, baseada no clássico homônimo de Raduan Nassar, Lavoura Arcaica promove uma viagem subjetivo-cinematográfica, repleta de imagens inesquecíveis, pelas temáticas da memória, dos afetos, da repressão e do tempo, além de enfocar o próprio ato de narrar. Link para uma sequência do filme.


2º. - Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) – A odisseia da exclusão e marginalidade que teve como legado o predomínio do tráfico nas favelas cariocas é vista de forma épica, mas a partir da perspectiva de um garoto. Causador de polêmicas várias, acusado de abusar da violência e de uma alegada "linguagem publicitária", Cidade de Deus é talvez mais apreciado no exterior do que aqui. Mas o filme recolocou definitivamente o Brasil no mapa do cinema mundial. Link para o trailer

3º. - Cabra-Cega (Toni Ventura, 2004) – O mais dilacerante retrato da luta armada no Brasil, reencenada a partir do cotidiano restrito de um militante - quase sempre enclausurado em um “aparelho”, em luta para não “cair”. A grande atuação de Leonardo Medeiros como o protagonista e a releitura impressionista de Chico Buarque por Fernanda Porto na trilha sonora valorizam uma mise en scéne plena de epifania. Link para o trailer


4º. - Linha de Passe (Walter Salles e Daniela Thomas, 2008) – A re-constituição, de um realismo atroz e desprovida de maniqueísmo, do cotidiano de cada um dos membros de uma família da periferia de São Paulo promove, a um tempo, um retrato do caos na cidade e dos labirintos e becos sem saída vivenciado por diferentes gerações de pobres que nela habitam. Ao lado de São Paulo, Sociedade Anônima (Luís Sérgio Person, 1965), é um dos melhores filmes já feitos sobre a cidade - e o que capta de forma mais fiel sua estética fria e agressiva. Link para o trailer


5º. – O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006) – Um mergulho no "Brasil profundo" contemporâneo, numa versão atualizada - e a partir de uma perspectiva feminina - do drama da migração. Mise en scéne, fotografia e direção de arte primorosas, em planos extremamente bem-cuidados, mas em que a excelência estética nunca se sobrepõe à função narrativa. A sequência em que a protagonista - encarnada com garra por Hermila Guedes - e o motoboy João (o ótimo João Miguel, de Estômago) discutem enquanto caminham em direção à câmera, em steadycam, entra para a antologia do cinema brasileiro. Final primoroso. Link para o trailer


6º - Nome Próprio (Murilo Salles, 2008) – Um filme duplamen-te corajoso, por adotar como tema a subjetividade, e feminina. Para encenar a trajetória pessoal da blogueira Clara Averbuck, resolve de forma criativa e visualmente atrativa o dilema recorrente de como filmar o universo virtual, promovendo um mergulho abissal em temas como solidão, sexualidade, estados psicológicos, universos mentais. As noites urbanas, com sua impessoalidade, seus encontros e desencontros, é pano de fundo para o retrato de uma geração - e, nela, de um gênero sexual -, valorizado pelo desempenho visceral de Leandra Leal, que mereceu todos os prêmios que recebeu. Se os critérios desta lista fossem exclusivamente afetivos, este seria o meu filme #1. Link para o trailer


7º. – Falsa Loura (Carlos Reichenbach, 2007) – Um filme atípico, que não pode nem deve ser julgado pelos critérios convencionais: Reichenbach, de novo às voltas com o universo feminino suburbano, recusa o caminho fácil e promove uma incursão (meta)cinematográfica plena de referências à história do cinema e à sua própria obra pessoal. Arrebatadora, a Silmara de Rosane Mulholland entra definitivamente na galeria das grandes personagens femininas do cinema brasileiro, restituindo, ainda, uma prerrogativa das divas do cinema italiano: fazer com que o espectador deixe a sala de exibição completamente apaixonado pela estrela do filme. Um soco no estômago, o final de Falsa Loura pode ser lido como uma espécie de versão jovem e feminina do La Dolce Vita de Fellini. Link para trailer

8º. - Santiago (João Moreira Salles, 2007) – A pretexto de realizar um documentário sobre o ex-mordomo de sua família, João Moreira Salles inova o gênero e faz grande cinema, num filme que perfaz uma incursão memorialística, sentimental, e incita reflexões existenciais e cinematográficas, com uma pungente incursão final na temática das relações de poder. A conjunção entre narração e imagens poucas vezes atingiu um nível tão alto no cinema brasileiro. Link para trailer


9º. – O Auto da Compadecida (Guel Arraes, 2000) - Ariano Suassuna fomenta ódios e paixões, mas não pode-se negar-lhe o talento nem a primazia de sua produção, que combina temas universais a uma estética de raízes regionais - a qual Guel Arraes, em O Auto da Compadecida, submete a um aggiornamento vídeo-cinematográfico que acaba por evidenciar a força da peça original, ao invés de descaracterizá-la. Não bastasse o desempenho fantástico do elenco liderado por Matheus Nachtergaele, Selton Mello e Marco Nanini, há Fernanda Montenegro, sublime, de Nossa Senhora. Link para trailer

10º.- O Invasor (Beto Brant, 2002) - A temática da luta de clas-ses no Brasil atual é enfocada a partir de uma abordagem "fulanizada", de um estudo de caso que perfaz um inventário da corrupção e das traições que mediam a relação entre mundo corporativo e esfera pública no país. Embora sem inovar do ponto de vista formal, Beto Brant dota seu melhor filme de uma narrativa tensa, que prende a atenção do espectador. Mariana Ximenes arrasa num papel atípico e a atuação hipernaturalista de Paulo Miklos coloca seu personagem na galeria dos tipos inesquecíveis do cinema brasileiro. Link para sequência do filme, com participação do rapper Sabotage.

11º. - Serras da Desordem (Andrea Tonacci, 2006) - O enfant terrible do udigrudi Andrea Tonacci volta do longo "exílio" com uma obra grandiosa, que mistura ficção e documentário e reencena, literalmente e de forma épica, o absurdo da questão amazônica. De quebra, dialoga com o presente e com o passado da política e do cinema brasileiros. Como realização, sei que o filme merecia ocupar uma posição no topo da lista, mas não conseguiu conquistar-me afetivamente como espectador. Link para o trailer

12º. - Meninas (Sandra Werneck, 2006) – O cotidiano de quatro meninas pobres, grávidas na puberdade, é acompanhado de forma despojada e direta, mas com fôlego para dar conta, sem parti pris ideológico e sem falsos moralismos, dos aspectos existenciais, familiares, econômicos e sentimentais conectados a essa urgente questão social, de educação e de saúde pública - com efeitos de longa duração - que é a gravidez na adolescência. Link para o trailer


Não consegui ver a elogiada estreia em longa metragem de meu querido amigo Bruno Safadi (que não vejo há anos), Meu Nome é Dindi (2007).

Do que vi e ficou de fora, gostaria de ter incluído Bicho de Sete Cabeças (2001), de Laís Bodanzky, Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho, Não por Acaso (2007), de Phillipe Barcinski e, sobretudo, Cão sem dono (2007), de Beto Brant e Renato Ciasca, que, de certo modo, pode ser lido como uma versão masculina e minimalista de Nome Próprio.

A não-inclusão do gênio eremita que o mundo desconhece Julio Bressane e de Brasília 18% (2006), do mestre descolonizador Nelson Pereira dos Santos, deve-se ao fato de que eu os considero hors concours.



(Imagens retiradas, em ordem respectiva, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12)

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Pelo Direito à Verdade e à Justiça

O Brasil vivencia, atualmente, uma oportunidade histórica única para acertar as contas com seu passado ditatorial (como já o fizeram Argentina, Uruguai e Chile), passar a tratar com civilidade e respeito as vítimas de um Estado que, à revelia da lei, torturou e matou, e recuperar o respeito da comunidade internacional no que tange aos Direitos Humanos.

Tal oportunidade se consubstancia no bojo das medidas propostas pelo Plano Nacional de Direitos Humanos III, particularmente através da instituição da chamada Comissão da Verdade, destinada a restabelecer a verdade dos fatos sobre o período ditatorial e a empreender a busca pela localização dos corpos de suas vítimas. A violenta reação de comandantes militares e dos setores mais retrógrados da sociedade brasileira - da mídia corporativa aos ruralistas – é prova cabal da justeza das medidas propostas.

Como fica evidente para quem se dispõe a ler o Plano, não se trata de revanchismo. Mesmo porque, como aponta Paulo Sérgio Pinheiro, membro da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, “O Brasil é o único [país em] que as Forças Armadas continuam tendo essa solidariedade com o passado. É evidente que as Forças Armadas de hoje não tem nada a ver com um bando de torturadores e militares e policiais que fizeram os desaparecimentos”. Os militares na ativa, se prezam a democracia, como gostam de alardear, deveriam estar entre os mais interessados em acertar as contas com um passado que continuará a os assombrar enquanto não for devidamente expurgado.

Como forma de afirmar apoio coletivo ao necessário enfrentamento com os fantasmas do passado ditatorial brasileiro, o Cinema & Outras Artes publica, de forma simultânea a uma rede de blogs, a entrevista abaixo reproduzida, com as representantes da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos no Brasil, Suzana Lisbôa e Criméia Almeida.


"Estado é conivente com a tortura e os desaparecimentos durante a ditadura"

Desde a Lei da Anistia, os familiares dos mortos e desaparecidos políticos da ditadura militar lutam na justiça ou em qualquer instância possível para terem o direito de saber o que aconteceu com seus entes e receberem seus restos mortais para enterrar e seguir em frente. Ao conversar com as representantes da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos, Suzana Lisbôa e Criméia Almeida, a impressão é de uma luta infinita, difícil e dolorosa e de escassos resultados. Coube aos familiares dos desaparecidos – com seu luto inacabado – contar, além da história dessas pessoas que morreram sob condições brutais lutando contra a ditadura, essa parte ainda desconhecida de nossa história. Até hoje, apenas quatro corpos foram encontrados dos 176 desaparecidos e os governos que sucederam os militares vêm ignorando sistematicamente todos os pedidos e determinações – do Comitê de Direitos Humanos da ONU e da OEA - para abrir os arquivos secretos da ditadura e dar uma resposta concreta a essas famílias.

Neste momento, o Brasil está mergulhado na discussão sobre o terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos – PNDH III – decreto assinado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva em dezembro passado, que prevê a criação, através de um projeto de lei ainda a ser encaminhado ao Congresso Nacional (portanto, sem nenhuma arbitrariedade inconstitucional, como querem fazer crer os detratores da lei na mídia corporativa) da Comissão da Verdade, destinada a investigar os crimes cometidos pelo Estado durante a repressão aos opositores da ditadura militar.

O PNDH III é o resultado de um longo e democrático processo de discussão – que incluiu a realização de diversas conferências ouvindo toda a sociedade e entidades representativas do setor – e negociação com todos os setores do governo. Os militares, liderados pelo ministro da Defesa, Nelson Jobim, descontentes com o acordo firmado por eles mesmos, criaram e vazaram uma crise governamental para tentar impedir a abertura dos arquivos secretos da ditadura, e uma possível punição aos torturadores – possibilidade que ainda dependerá de uma decisão do STF sobre o tema, caso os crimes de tortura venham a ser inventariados.

Pedro Luiz Maia


Qual a principal luta da Comissão de Familiares dos Mortos e Desaparecidos Políticos?
Suzana Lisbôa - Nossa luta é para que o Estado brasileiro esclareça as circunstâncias das mortes dos desaparecidos políticos, onde e como morreram, entregue os restos mortais aos familiares e pela punição dos responsáveis pelas mortes e torturas durante a ditadura.

Por que, na opinião de vocês, o governo não abre os arquivos secretos da ditadura, se tem poder para isso?
Suzana Lisbôa
- O governo manteve o sigilo eterno (*) quando poderia ter aberto os documentos. Foi uma opção política. Os crimes de direitos humanos não prescrevem e não podem ser mantidos sob sigilo, mas o Estado nega. O direito a informação é um direito constitucional. Nós temos o direito de saber o que aconteceu com nossos parentes e temos o direito de enterrá-los.

Criméia Almeida
O governo não abre os arquivos porque não quer. Não vejo disposição nenhum do governo conosco e com essa causa. Existe uma preocupação em mostrar que alguma coisa está sendo feita. Mas não existe disposição em fazer de fato alguma coisa. Para se ter uma ideia: Em 2009 a União foi obrigada judicialmente a realizar buscas no Araguaia por uma ação judicial (iniciada em 2003) transitada e julgada em julho de 2007, movida pelos familiares dos mortos e desaparecidos (**). Então, o Ministério da Defesa, só em 2009, porque foi obrigado, criou o “Grupo de Trabalho Tocantins” para procurar os restos mortais dos guerrilheiros do Araguaia. Até 2007, a palavra oficial do governo era que a Guerrilha do Araguaia não havia existido, para poder também negar a chacina (conhecida como “Operação Limpeza”). Então, ao criar um grupo de trabalho para procurar as ossadas das vítimas assassinadas pelo Estado lá, dá outro nome. Entende como funciona? Na coordenação deste grupo de trabalho está um general de brigada, que declarou sua defesa do golpe militar de 64, dizendo que "o exército brasileiro atendendo a um clamor popular foi às ruas contribuindo substancialmente e de maneira positiva, impedindo que o Brasil se tornasse um país comunista."

Suzana Lisbôa
– Os familiares só puderam acompanhar as buscas no Araguaia com um decreto presidencial. O ministro Jobim dizia que a nossa participação era ilegal porque éramos parte do processo. Ou seja, estavam sendo obrigados por nós a procurar os corpos e não queria que nós acompanhássemos. Inclusive, as primeiras buscas foram feitas por uma caravana essencialmente militar, sem sequer um representante da SEDH.

Como vocês veem essa divisão do governo Lula sobre o assunto, com o ministro Tarso Genro defendendo a punição dos torturadores?
(a entrevista foi feita no final de 2009, antes da polêmica entre os ministros Nelson Jobim, da Defesa e Paulo Vannuchi, de Direitos Humanos em torno no PNDH-3)
Criméia Almeida
– Para nós não faz diferença. Não vejo diferença e nem no que isso possa ajudar. Eles são todos ministros de um mesmo governo, que até agora não fez nada para avançar no esclarecimento das mortes e dos desaparecimentos. Acho que este governo como todos os outros é conivente com a ditadura ao não fazer nada de concreto. E o judiciário também é conivente.

Suzana Lisbôa – Eu acho importante que o ministro da Justiça defenda a punição dos torturadores e diga que crime de tortura não prescreve. Mas no final das contas, quando o Estado brasileiro não se posiciona contra oficialmente, não apura, não pune, se torna conivente. Ao final, o Estado é conivente com a tortura e os desaparecimentos durante a ditadura.

Mas saem notícias da Secretaria Especial de Direitos Humanos sobre os mortos e desaparecidos...
Suzana Lisbôa
– O que a SEDH fez foi ampliar o critério de abrangência da Lei das indenizações e publicou o livro com o registro da memória dos desaparecidos. Apenas isso. A parte mais importante foi feita por nós, familiares, que foi a elaboração dos processos que permitiram os pedidos de indenizações e a liberação das tais certidões de óbito. O que é outro absurdo. Porque o Estado diz aos familiares para irem ao cartório mais próximo de sua residência com a cópia da lei e pedir o “atestado de morte presumida”. Só que essa morte vai entrar para o registro e estatística daquele local onde está situado o cartório, onde mora a família do desaparecido, e não onde ele morreu. A lei diz que o ônus da prova da morte é dos familiares, assim como a procura pelos corpos. E sem os arquivos, sem esses registros, nós não temos como provar nada. Tudo que conseguimos até hoje foi sendo construído, reconstituído, através dos poucos arquivos a que tivemos acesso ao longo desses anos.

Criméia Almeida
– O meu marido, André Grabois, “oficialmente” teria morrido cinco antes do nascimento de seu filho. Ele foi morto, “desapareceu”, em 73 no Araguaia e no atestado de morte presumida constaria como morto em 68. O registro do óbito deve ser feito no local da morte, como em qualquer outro caso. Mas, para “facilitar” a vida dos familiares, liberou-se o registro do óbito no cartório mais próximo. Com isso, apaga-se a história. Já não bastava o Estado ter desaparecido com a pessoa, ainda lhe nega a sua história.

Como é ver os processos que julgam crimes das ditaduras em outros países latin
os, como Uruguai, Argentina e Chile, em andamento?
Suzana Lisbôa
– O Brasil é o país mais atrasado da América Latina na apuração e julgamento dos crimes ocorridos durante as ditaduras militares. O sentimento é de frustração. Nós fizemos uma tarefa que era do governo. Coube a nós, familiares, contar essa parte da história do país. O descaso do presidente da república é algo que me toca profundamente. Ainda me choca muito.

Criméia Almeida
– Foi o Estado que sumiu com essas pessoas. Se depois disso, o Estado não tem poder para abrir os arquivos desses processos de desaparecimento, que venha a público dizer que não conseguiu e peça desculpas. Mas não faça de conta que está buscando informações quando não está. Se o Estado foi capaz de torturar e assassinar, que seja capaz de assumir o que fez.

Falando nisso, o governo fez uma campanha publicitária pedindo à população informações sobre os desaparecidos, para contar a história dessas pessoas, chamada “Memórias Reveladas”. Inclusive alguns familiares participam da campanha.
Suzana Lisbôa
– Nós ficamos surpresas com a campanha. Parece mesmo jogo de cena, para dizer que o governo está fazendo alguma coisa. Mas joga para a população uma responsabilidade que é sua. Quando a campanha terminar vão dizer: “olha, a população não colaborou com nenhuma informação significativa”. Ficamos surpresas mesmo foi com os familiares que aceitaram participar. A D. Elzita, mãe do Fernando Santa Cruz, contou que deu um depoimento imenso, onde fazia cobranças ao governo e reclamava da demora na liberação das informações e em procurar os corpos, e que eles editaram e deixaram só aquele trecho dela lendo uma poesia e falando que não esquecia o filho. Fiquei muito admirada do Marcelo Rubens Paiva ter aceitado aparecer numa campanha do governo sobre o assunto.

Criméia Almeida
– É só para constar, para dizer que estão fazendo alguma coisa. Isso tudo deve ser por causa do prazo dado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) para que o governo abra os arquivos. O prazo já se esgotou e como o governo não fez nada, a corte criminal da OEA aceitou a denúncia entregue no dia 26 de março de 2009, e o Brasil deverá ser julgado ainda em 2010.

Suza
na Lisbôa iniciou sua luta contra a ditadura no Julinho (Colégio Júlio de Castilhos – Porto Alegre/RS) e integrou a Ação Libertadora Nacional. Seu marido, Luiz Eurico Tejera Lisbôa, militante da ALN, PCB e VAL-Palmares, foi torturado e assassinado em 1972. A ossada de Luiz Eurico foi encontrada na vala clandestina do Cemitério Dom Bosco, distrito de Perus (***), São Paulo. Suzana presidiu a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos.

Criméia Almeida cresceu numa família de militantes comunistas em Minas Gerais. Ex-guerrilheira no Araguaia e ex-militante do PCdoB, foi casada com André Grabois, também militante do PCdoB, desaparecido no Araguaia em 1973. Criméia foi presa e torturada grávida. Seu filho João Carlos, nasceu na prisão e conhece o pai apenas pela foto 3x4 dos arquivos do DOPS. André Grabois permanece como desaparecido.

(*) Um documento, arquivo sigiloso é "classificado" na origem. Os que receberam o carimbo de "ultra secreto" podem permanecer sem acesso público para sempre, conforme a norma legal. O "sigilo eterno" foi introduzido por decreto em 2002, pelo então presidente FHC – considerado inconstitucional. Lula, apesar dos apelos, o manteve em 2003.

(**) A sentença da Justiça Federal determinou a quebra do sigilo das informações militares sobre todas as operações de combate aos guerrilheiros no Araguaia e que a União informasse onde estão sepultados os mortos no episódio. Para realizar as buscas, a União teve um prazo de 120 dias, já esgotados.

(***) A vala clandestina de Perus foi localizada no dia 4 de Setembro de 1990, com 1049 ossadas encontradas em sacos plásticos, todos sem qualquer identificação. A investigação e identificação se deram por determinação da prefeita de São Paulo na época, Luísa Erundina.

Seguem link para a página do site dos desaparecidos políticos que relata toda a história da Vala de Perus e vídeo da campanha Memórias Reveladas.

domingo, 10 de janeiro de 2010

De medos e direitos

“O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo”, escreveu Guimarães Rosa. Sempre me lembro desta frase quando as reginas duartes da vida infestam as telas das TVs se dizendo apavoradas (se bem que medo declarado a soldo vale menos...).

A frase, porém, pode ser lida de mais de uma maneira, como sói acontecer com a criação roseana. O medo de um ser indefeso, amarrado ou dependurado num pau-de-arara, cercado por cinco ou seis meganhas calçando coturnos e armados de cacetetes, correntes e máquina de dar choque faz com que “a extrema ignorância em momento muito agudo” deixe de qualificar o medo e passe a ser deste objeto.

A tentativa de gerar pânico por conta do Plano Nacional dos Direitos Humanos, claramente orquestrada esta semana pela mídia – do blogueiro de Veja ao ex-porta-voz de ditador Alexandre Garcia; dos telejornais ao que restou dos jornais impressos – baseia-se no medo do primeiro tipo – “reginaduarteano”, digamos. Trata-se do pavor ante a possibilidade de que um dia os cidadãos passem a ser efetivamente iguais perante a lei, e até os direitos humanos deixem de ser restritos a certos estratos sociais.

Deve haver algo de freudiano por trás desse medo. Afinal, crescer é assumir responsabilidades – como pagar os empréstimos tomados dos bancos estatais, plantar alguma coisa comestível nos hectares sob sua propriedade, não financiar esquadrões da morte nem acobertar, com silêncio cúmplice, a tortura de presos indefesos. Para tanto, é preciso desmamar – do Estado, da Justiça, do caixa dois, da corrupção ativa e/ou passiva, da utilização das forças policiais públicas como brigada privada protetora de seu capital. Convenhamos: pode ser traumático.

Eis porque a grita em torno do PNDH tem, na verdade, uma motivação edipiana: essas, com o perdão do pleonasmo, reginas duartes histéricas são como aquelas crianças que berram pela mãe alegando que tem monstro no guarda-roupa - quando não se trata de nada disso: o medo na verdade, é de ser traído pelo poder e perder as benesses, digo, ser enganado pelos pais e perder-lhes o afeto.

Mas não são apenas o medo e a culpa secular acumulada que têm provocado tantas reações estapafúrdias ao PNDH: há uma profunda confusão, para o público em geral, em relação ao conceito de “direitos humanos”. Em grande parte estimulada pela mídia, difundiu-se amplamente uma visão de tais direitos que suprime a grandiosidade épica de sua conquista como princípio universal, pondo em seu lugar uma concepção paroquial, forjada pela pior direita, para quem “direitos humanos é coisa de bandido”.

Como aponta a pesquisadora Helena Singer, “Os discursos e as práticas sobre os direitos humanos não chegam à população sob a forma de igualdade, felicidade e liberdade, mas sim de culpabilização, penalização e punição, integrando um movimento mundial de obsessão punitiva crescente”. Nesse quadro - marcado pelo maniqueísmo e por preconceitos de classe - o debate público em torno de cidadania e direitos - que o PNDH leva ao mais alto nível - tende a se restringir à ótica da criminalização.

É desse cadinho de elitismo, ignorância, choque de classes e exploração deturpada do que sejam o PNDH e os próprios direitos humanos (cuja disseminação ele objetiva) que se constitui a reação histérica da mídia corporativa – que, como o caso em questão evidencia de forma particular, está claramente perdendo para a blogosfera a primazia da publicação das análises mais equilibradas, argumentativas e contundentes. Uma constatação corroborada por três posts de Raphael Neves, no politkaetc. e pelos muitos artigos reunidos no blog de Luís Nassif (leia lá os posts mais recentes sobre o assunto também).

Claro está que a ação orquestrada da mídia corporativa não diz respeito apenas à defesa de seus próprios interesses e posições: ela é a tradução do estado de desespero que ora acomete as hostes da oposição direitista, a qual apoia. Uma e outra, aliadas, ante as evidências cada vez mais fortes – e corroboradas pela quase totalidade dos analistas de pesquisas eleitorais sérios – de que a vitória de tais setores no pleito presidencial vindouro torna-se a cada dia menos provável, dão mostras de que vão apostar suas fichas no golpismo, como o fizeram duram toda esta semana.

Por tudo o que foi acima escrito, cabe refletir sobre o que escreve Marcos Rolim, especialista em Direitos Humanos e Segurança Pública que escreveu o melhor texto que li até agora sobre o PNDH III:

“As vozes que se erguem contra esta iniciativa não são apenas as vozes de um passado tenebroso que, infelizmente, sequer é passado. São as vozes de um país que oscila entre a civilização e a barbárie, entre o direito e o privilégio, entre o respeito e o preconceito, entre a ordem democrática e a ordem das baionetas....e que prefere, sobretudo, a mentira”.


(Imagem-detalhe de "O Grito", de Edward Munch (1893) retirado daqui)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A volta das patrulhas ideológicas

O termo “patrulhas ideológicas” tornou-se corrente a partir de agosto de 1978, quando, em plena Abertura, o cineasta Carlos Diegues, em entrevista ao Jornal do Brasil, utilizou-o para se referir à insistente cobrança que vinha sofrendo para que dirigisse filmes de cunho explicitamente político, ao invés de crônicas de costumes como Chuvas de Verão – obra que toca, com sensibilidade, na rara temática do amor e sexo na velhice.

Trinta e um anos depois da entrevista de Cacá – cujas repercussão e ilações críticas podem ser lidas no excelente livro Patrulhas Ideológicas Marca Reg, resenhado aqui -, o termo por ele popularizado – e do qual a pior direita apoderar-se-ia nas décadas seguintes - voltou com tudo à minha mente devido às reações vivenciadas após mencionar, de forma breve, minhas impressões pessoais sobre um filme.

Fui assistir a Lula, o filho do Brasil com grande expectativa: o personagem, a história, a significação da sua trajetória enquanto exemplo e metáfora para a de milhões de brasileiros, as ilações pós-filme para com a figura do hoje bem-sucedido presidente e líder político reverenciado mundo afora – tudo apontava, potencialmente, para um grande filme.

Mas o que tive diante dos olhos foi um espetáculo decepcionante, irregular e morno, de narrativa truncada e arrastada, desatento aos detalhes, com um roteiro mal concebido e que, no intuito de provocar empatia com o público, perfaz uma abordagem histórica questionável e a meu ver diminuidora de seu personagem principal.

Por conta dessa impressão decepcionante, não pretendia (e não pretendo: este post não é uma crítica cinematográfica) escrever sobre o filme – embora, evidentemente, pudesse falar sobre minhas impressões em conversas informais ou no universo virtual, como veio a acontecer.

“Fui assistir ao filme do Lula. Achei muito, muito ruim. #prontofalei” – estas 11 palavras, postadas no Twitter, foram o pavio que acendeu a pólvora.

Mesmo evitando voltar a tocar no assunto – pois frequento a tal rede social para me divertir, não para ficar entrando em confrontos - algumas das reações que obtive, na hora e nos dois dias seguintes, por emitir essa simples opinião pessoal, valem por um tratado da intransigência político-ideológica vigente.


Reações vão do palavrão à tentativa de desqualificação
Pouparei o leitor da reprodução das respostas explicitamente agressivas – afinal, este é um blog familiar (rs...). Vou destacar apenas duas reações, incisivas mas sem hostilidade aberta.

Logo após publicar o tuite acima reproduzido e ver-me cobrado a explicitar as razões de minha insatisfação com o filme – as quais elenquei mais ou menos à maneira do quarto parágrafo deste post -, uma das pessoas que se apresentaram como interlocutores – minha seguidora de longa data - questionou se eu tinha certeza de haver entendido o filme. Respondi com um “Por favor, né?”, ao qual ela retrucou com um taxativo “Acho que não”. Conclui com uma pergunta que ficou sem resposta: “Quer dizer que a idolatria é tamanha que uma pessoa não gostar do filme é sinal de que não o entendeu?”.

No dia seguinte, enquanto pipocavam pela blogosfera opiniões negativas ou positivas a respeito de Lula, o filho do Brasil , assistiu-se a um movimento tão contraditório quanto questionável de desqualificação dos críticos do filme: de Nassif e outros, afirmava-se não terem qualificação para fazer crítica de cinema; já dos que são críticos de cinema ou têm relação profissional com a sétima arte dizia-se que ou se tratava de mera “inveja” ou que a “obsessão” com “questões técnicas” obnubilava a necessária sensibilidade para com uma obra que contava a história de um “homem do povo”. O fato de que tais estratagemas pseudo-desqualificadores poderiam ser igualmente aplicados aos que avaliavam positivamente o filme foi algo que não passou pela cabeça dos patrulhadores.


Gostaria de fazer duas observações:

1) Minhas restrições ao filme, assim como a de várias outras pessoas do meio, não foram exclusivamente de ordem técnica - para mencionar apenas alguns quesitos, a fotografia (Gustavo Habda), o som e o casting do filme são excelentes -, mas também de como a obra foi por mim recebida do ponto de vista sensorial e afetivo;

2) A tentativa de desqualificar a opinião de profissionais de cinema por conta de uma suposta picuinha invejosa em relação a Fábio Barreto (por cuja recuperação médica eu torço muito) é não apenas um argumento pífio e uma generalização tão descabida que chega a ser engraçada, mas um procedimento revelador dos métodos autoritários utilizados pelas “patrulhas”, que não toleram os que delas discordam.


Intolerância e direito de opinião
Sempre tive para mim que Lula, o filho do Brasil era um produto cultural em forma de filme, que contava uma bela história. Essa era uma das razões que me fazia minimizar a importância da discussão sobre o financiamento privado à produção: trata-se, como já apontei, de um personagem fascinante, com uma trajetória exemplar, com a qual tantos brasileiros se identificam. O fato de o retratado ainda ocupar a Presidência levanta questões éticas relativas à relação do governo federal com as empresas financiadoras do filme? Talvez sim, mas me parece pouco provável a hipótese de que uma produção cinematográfica, com um orçamento insignificante em relação ao montante dos negócios de tais empresas com a administração federal, pudesse vir a influenciar qualquer negociata. Afinal, tratava-se, eu supunha, de um mero filme, sobre uma história por demais conhecida pelos brasileiros; um produto cultural que certamente agradaria a uns e a outros desagradaria, antes que a vida continuasse.

As patrulhas ideológicas convenceram-me do contrário: o fato de se tratar de mais um filme no mercado é o de menos, pois como as paixões e ódios que compõem o fanatismo vêm demonstrando, trata-se, na verdade, de um objeto de culto à personalidade de um líder político e de estímulo à polarização maniqueísta não apenas do debate político-ideológico, mas esfera cultural adentro. “Aos que gostam do filme, tudo; aos que não gostam, a desqualificação grosseira”.

O fato de eu reconhecer os muitos méritos do governo Lula não impede que eu me preocupe com tal processo, que traz em seu bojo ecos getulistas (e, neste caso, isto não é um elogio, pois refiro-me ao processo de captura da esfera cultural promovida pelo então ditador, e não, como de ordinário setores da direita e da academia paulista o fazem, preconceituosamente, às suas políticas sociais).

Tal atmosfera tende a exacerbar os processos de radicalização discursiva aos quais me referi no post Internet e a atmosfera de turba, dos quais novas mostras foram dadas esta semana, com o jornalista Mário Magalhães recebendo ataques injustos - pois, na verdade, estes deveriam ser dirigidos ao jornal em que trabalha, que publicou, na capa da edição nacional, um artigo referente a um contexto regional sem contextualizá-lo, de forma a beneficiar José Serra, cuja atuação em relação à tragédia em São Luiz do Paraitinga é ainda pior do que a de Sérgio Cabral Filho no Rio (que Magalhães comparou a de Bush em relação a New Orleans).

O que está em jogo, no caso do filme sobre Lula, é o direito de emitir impressões pessoais sobre um produto cultural sem receber como resposta um bombardeio de insultos e de cobranças referentes a sua posição política. Um direito básico de opinião que está sendo tolhido a quem da obra não gostou.

Eis a volta triunfal das patrulhas ideológicas.


("Rosas para Stalin", de Boris Vladimirskij (1949), retirado daqui)

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Minha Lapa

De uma forma ou de outra, todo carioca teve a Lapa em sua vida”, escreve o blogueiro O Escriba, num ótimo post sobre o bairro.

Retuitado pelo prezado jornalista @Amauri, o texto me deu uma saudade danada do lugar – que eu, apesar de ser paulistano, também tive em minha vida.

Passei a frequentá-lo quando o novo samba carioca apenas começava a revitalizar a Lapa, tornada ainda mais decadente após a decisão do prefeito recém-eleito Luiz Paulo Conde de fechar o Circo Voador, por lá ter sido vaiado e “saudado” com latas de cerveja ao subir no palco, para comemorar a vitória, em pleno show da banda punk Ratos de Porão. (O que será que o sem-noção esperava? Talco no bumbum?)

Vi as primeiras apresentações de Teresa Cristina no Semente, na esquina sob os arcos, de frente para o boteco de paredes laranjas. “Vi” é maneira de dizer. Éramos universitários, durangos, e ficávamos na calçada, tomando cerveja y otras cositas más, conversando, namorando e espiando pela janela aquela cantora de voz forte e repertório “de raiz”, que parecia uma Clara Nunes rediviva.

Só uma vez, no dia do meu aniversário, eu e um grupo reduzido entramos no Semente e vimos o espetáculo comme Il faut. Dei sorte: foi uma noite deliciosa, com vários convidados especiais dando canja - o show nesse dia atravessou madrugada, com Teresa Cristina voltando várias vezes ao palco. Nunca reconheci, nos (bons) discos que ela viria a gravar posteriormente, a intérprete vibrante e natural, de alto calibre, desses dias “heróicos”.

Mas minha relação com a Lapa vem de muito antes disso. Desde criança, sempre tive um fascínio intenso por tudo que dissesse respeito ao submundo – e, tendo crescido numa casa em que o pai era colecionador de música brasileira antiga, a Lapa, berço da boemia, exercia sobre mim, naturalmente, um intenso encantamento. Um mundo tão perigoso quanto viciante e atraente, habitado por mulheres lascivas e malandros históricos como Brancura, Chico Meia-Noite e, sobretudo, Madame Satã – que era, como se dizia então, “viado”, mas capaz de enfrentar um batalhão de soldados (e que teria matado o mestre do samba Geraldo Pereira - autor de "Sem Compromisso", "Acertei no Milhar" e tantos outros clássicos - com um chute no estômago, após uma discussão besta em um bar).

Desse modo, embora o bairro, com casas caindo aos pedaços e dominado pelo baixo meretrício (e “travestício”, sobretudo), estivesse num de seus piores momentos quando me mudei para o Rio, ainda assim algo ali me pareceu atraente, talvez por remeter às fantasias do submundo malandro que eu vivera na infância.

Das noites seminais (êpa) ouvindo Teresa Cristina no Semente até meados de 2001 – quando novas casas de show, bares e demais espaços culturais já marcavam presença e o samba ressurgia como fenômeno urbano-cultural - eu ia todos os finais de semana à Lapa, e às vezes várias vezes numa mesma semana. Era uma espécie de ponto de encontro da galera que fazia cinema. Tenho histórias hilárias – a maioria impublicável – dessa época, em que não poucas vezes varávamos a noite, indo para casa no domingo de manhã. Lembro também de um carnaval memorável lá, de virar noite e dia ininterruptamente, celebrando até a quarta-feira de cinzas.

Mas a partir de uma certa época a Lapa começou a ficar muito lotada, a abrir muitas biroscas duvidáveis e a gerar muita briga entre os pit boys (essa praga carioca) e o pessoal mais barra-pesada do bairro. Chegou uma hora que eu e a maioria dos meus amigos e amigas passamos a frequentá-lo de forma mais espaçada – até que deixou de ser um ponto de encontro e passou a ser uma opção a mais, e das menos prestigiadas porque muito crowd.

O lado bom foi que com o passar do tempo fui deixando de ser o universitário durango e pude enfim conhecer e incorporar, como ritual boêmio para ocasiões especiais, os prazeres etílico-gastronômicos da Lapa, que atualmente eu resumiria ao Bacalhau à Espanhola do Cosmopolita, ao Patê de Fígado com pão preto ou ao Presunto Parma do Bar Brasil e, entre várias outras boas opções, ao Leitão (ou ao Cabrito com Arroz de Brócolis) do Nova Capela. Sendo que todos esses estabelecimentos – o Bar Brasil, sobretudo – oferecem um ótimo chopp Brahma, entre os melhores da cidade. Até 2005, quando me mudei do Rio, esses bares estiveram entre os meus favoritos.

Uma noite que lembro com particular carinho foi quando, após ter levado minha irmã mais nova, Lu (que mora em SP), a Santa Teresa, comer os deliciosos pastéis de feijão do Bar do Mineiro (que ela adorou), fomos ao Nova Capela e, enquanto eu petiscava Javali (e ela, modesta, ia de... azeitonas!) tomamos um porre federal, daqueles de falar coisas sentimentais e chorar...

Aliás, um passeio que eu recomendo com louvor é, num fim de tarde ensolarado, pegar o bondinho no ponto inicial, passar por cima dos arcos se deslumbrando com a paisagem, descer em Santa Teresa, flanar pelas galerias e ateliês do bairro, petiscar um pouco por lá e descer para a Lapa a pé pelas ladeiras, para curtir a noite.

Apesar dos problemas que o excesso de exploração comercial legou, fico feliz que a Lapa seja de novo o centro nevrálgico da vida boêmia carioca (ainda que alguns tijucanos xiitas torçam o nariz). É um bairro que tem história e atmosfera e é autenticamente popular. Sempre vale uma visita.


(Imagens tiradas, respectivamente, daqui, dali, de e dacolá)

domingo, 3 de janeiro de 2010

Internet e a Atmosfera de Turba

Este é um texto auto-crítico (no sentido de crítico à blogosfera e à militância de esquerda na internet). A necessidade de escrevê-lo foi se intensificando com o tempo, até tornar-se inadiável. Espero sinceramente que, ao invés de despertar ódios, ele provoque reflexões.


Um dos fenômenos mais recorrentes - e perturbadores – trazidos no bojo da internet é o da formação da atmosfera de turbas, que reagem como manadas ante determinados acontecimentos.

Particularmente encontradiço em relação a questões como esporte e política, o fenômeno toma forma através de pessoas que, interagindo em redes sociais como Twitter, Facebook ou Orkut, formam grupos unidos por afinidade de ideias.

Até aí, tudo bem, é esse o princípio e um dos prazeres da coisa – a questão é que, não sem frequência, essas semi-unanimidades artificialmente forjadas (já que os de opinião contrária existem, apenas não são incluídos no grupo) têm degenerado em intransigência e linchamento ideológico coletivo contra os seus alvos.

A repercussão ad infinitum dos fatos mais graves, que é estimulada pela atmosfera de turba ao mesmo tempo em que acirra esta, tem levado a recorrentes exageros. Um dia desses, no Twitter, Raphael Neves, do politikaetc., protestou de forma resoluta contra a facilidade com que andam utilizando a denominação “nazista” para acusar algo ou alguém. A explicação didática que forneceu sobre a incompatibilidade entre nazismo e privatização neoliberal me fez rir, mas o assunto é sério.

Seria fácil exemplificar o processo de formação de atmosfera de turba utilizando-me dos internautas de direita, vários deles reunidos em torno de um patético guru, a serviço do que de pior a imprensa brasileira ora tem a oferecer, e a quem – numa demonstração de infantilidade e submissão intelectual - chamam de “tio”. Repetem, muitas vezes em forma de trolagem, as palavras de ordem e os raciocínios rasos de tal demiurgo, plenos de preconceitos de classe e do direitismo intelectualmente pobre que representa.

Mas esse exemplo seria por demais óbvio e improdutivo: o que me interessa é apontar tal comportamento entre os que pertencem ao mesmo estrato ideológico que eu: a esquerda. Os exemplos existem à mancheia, mas vou citar apenas três deles – dois brevemente e um de forma mais detida -, em que a atmosfera de turba se sobrepôs aos ditames da razão e do equilíbrio.


O caso Casoy
Comecemos pelo caso que está na ordem do dia: a ofensa proferida por Boris Casoy contra dois garis, a quem - utilizando o mesmo palavrão que, na boca do presidente Lula, tanto escândalo provocou entre jornalistas -, ridicularizou por ousarem, “do alto de suas vassouras”, desejar feliz Ano Novo aos telespectadores do Jornal da Band.

Trata-se, evidentemente, de uma atitude deplorável. Revela, de forma inescapável, um preconceito de classe o qual sempre fora latente, (mal) dissimulado nas opiniões desabusadas de Casoy contra o que fosse popular – incluindo o atual presidente, seu governo e boa parte dos governados -, mas nunca antes tornado tão explícito.

Daí a generalizar, dizendo que todos os jornalistas da “grande mídia” são assim – como mais de um blogueiro tem feito, em posts multiplicados ene vezes via Twitter - vai uma distância enorme, que só pode ser percorrida com fatos que a autorizem. Com o perdão da obviedade, jornalistas são seres humanos: muitos, como Casoy, sucumbem ao convívio com o poder e às benesses materiais, mas outros tantos, mesmo na "mídia gorda", são profissionais sérios e pessoas bem-intencionadas, sendo que alguns têm uma história em prol da democracia e das lutas sociais. É fato que grande parte da mídia corporativa tem se comportado de forma inaceitável – o que acirra ódios -, mas acusações generalizadas ou dirigidas a apenas uma classe de profissionais são, em princípio, mistificadoras e antidemocráticas.

Porém, o caso é muito mais grave do que isso. Confesso que foi uma grande decepção ver pessoas a quem respeito chamarem Casoy de “extremista de direita” e “comprarem”, mesmo sem prova alguma, que ele teria pertencido ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas).

Ora, qual é a diferença entre acusar Dilma de terrorismo, como vêm fazendo, mesmo antes do episódio da ficha falsa, grupos direitistas, e, com evidências tão frágeis quanto as por aqueles utilizadas, acusar Casoy de ter pertencido ao CCC, como insistem alguns blogueiros? Essencialmente, nenhuma, a não ser o sentido ideológico da acusação.

Alega-se que a “informação” que “sustenta” a acusação contra Casoy está na Wikipédia. Mas desde quando a enciclopédia wiki – a mesma que, semanas atrás, era o Judas da vez, por negligenciar um importante ativista cibernético – tornou-se fonte única confiável? Os blogueiros que publicaram tal “informação” preocuparam-se em ouvir o outro lado (como com frequência cobram dos jornalistas profissionais)? Ou ao menos em saber em que contexto O Cruzeiro publicou a “informação” repercutida pela Wikipédia? Será que acham que a revista do mega-velhaco Assis Chateubriand, veículo para as jogadas mais sujas da história da imprensa nacional antes da derrocada atual, é merecedora de nossa confiança?

De novo, estamos diante de uma contradição. Alguns desses blogueiros rápidos no gatilho, disparando a pecha de “extremista” contra o jornalista preconceituoso, são os mesmos que se indignam – corretamente, a meu ver – quando a “grande mídia” chama Heloísa Helena ou Dilma Rousseff ou o deputado Babá de “radicais”. O problema é que, reproduzindo, em sentido inverso, a leviandade das acusações da mídia gorda (ao chamar Casoy de “extremista”), coloca-se em risco a autoridade moral para criticar a distorção ideológico-discursiva que o emprego do termo “radical” contra certos políticos implica.

Portanto, a atmosfera de turba pode estar levando a blogosfera a emular, de forma inconsciente, os métodos da “grande mídia” que tanto critica - e, no caso, assimilar e reproduzir os procedimentos do inimigo pode vir a significar a ele se igualar, tornando-se dele indistinto do ponto de vista moral e axiológico.


Caetano & FHC
Processo similar ao que ora se aplica a Casoy foi vivenciado por Caetano Veloso após acusar o presidente Lula de “analfabeto” e de “cafonice”, para deleite da direita.

A inconstância política é não apenas um traço recorrente do compositor e cantor baiano, mas uma sua arma de marketing, que sempre usou de forma despudorada, desde os tempos da Tropicália. Conseguiu, ainda assim, enganar os incautos e convencê-los da natureza politica strictu sensu do movimento tropicalista, para o que muito contribuiu o episódio de sua prisão pelos militares – a qual só se justifica por profunda ignorância política ou por desejo intencional de instrumentalizá-la a seu favor, como de fato veio a fazer. Afinal, a maioria dos artistas com grande visibilidade pública e mais de dois neurônios já havia se exilado por conta própria, para escapar das garras da repressão.

O gosto de Caetano pelos holofotes só é superado pela inconstância e idiossincrasia de suas opiniões, como um post do Blog do Mello ilustra com humor.

Já sua carreira musical, caracteristicamente irregular, encontra-se há tempos em decadência. Nos últimos anos decidiu cantar rock, formando um power trio que inclui um jovem guitarrista, André Sá, que produz um som mais chato do que um pernilongo amplificado.

Há razões, portanto, para criticar Caetano Veloso pelos mais variados motivos. Pode-se também, é claro, simplesmente detestar (ou ser indiferente a) tudo o que ele produziu – afinal, gosto não se discute.

Mas riscar Caetano Veloso da história da música brasileira por conta de uma declaração – infeliz, preconceituosa, babaca, mas uma declaração –, como alguns tentam ostensivamente fazer desde que se deu o episódio, é que não dá. Primeiro, porque isso é procedimento típico de ditaduras. Segundo, porque, como artista, Caetano esteve na liderança de um movimento que empreendeu uma mudança conceitual na relação da música brasileira com seu próprio passado e com as referências culturais internacionais, através da atualização da antropofagia oswaldiana, instaurando uma nova dinâmica cultural, pós-colonial, que colaborou para que o Brasil tenha a riqueza e a diversidade musical – únicas no panorama mundial - que tem hoje. Só por isso, o nome de Caetano Veloso já estaria inscrito na história da cultura brasileira, goste-se ou não.

Mas, mesmo passado o ápice tropicalista, ele ainda viria a produzir canções em relação às quais seria preciso muita insensibilidade para renegar a beleza, como "O Ciúme", "Tigresa", "Oração ao Tempo", "Um Índio", "Haiti" ou "Desde que o Samba é Samba", entre tantas outras. Por fim, seria preciso muito desconhecimento da história da produção fonográfica nacional para não se dar conta do grau de excelência que, nesse quesito, o disco Fina Estampa (1994) representa.

Mais incongruente, e mais revelador da força da atmosfera de turba, foi a reação daqueles que, embora admiradores da arte de Caetano há décadas, passaram, por conta do episódio, a renegá-la (ao menos em público) para poder participar do jogo coletivo de atirar pedras na Geni. Como se fosse impossível deplorar as declarações de Caetano mas preservar as afinidades eletivas que sempre tiveram com sua produção musical. Resultado: baniram o artista por delito de opinião. Tal e qual numa ditadura.

Assim, um brasileiro volta e meia saudado pela imprensa internacional, passa, devido à luta política, a ser rejeitado por setores políticos em seu próprio país - num processo similar ao que ocorre com ningupem menos do que... Lula! O que faz com que, por analogia, a reação intransigente da turba contra Caetano guarde similaridades com a reação da direita em relação ao atual presidente. Dá o que pensar.


Por fim, há o caso de FHC. É odiado por muitos e, convenhamos, deu (e continua dando) razões para isso: as políticas recessivas, anti-povo de seu governo estavam, pode-se hoje afirmar categoricamente, equivocadas, e tiveram um custo alto para o país, sobretudo para os mais pobres. As privatizações que promoveu foram desastrosas, o alinhamento automático com os EUA teria agravado os efeitos da crise mundial aqui (como está fazendo agora com o México). Por conta de qualquer crisinha na Turquia, na Rússia ou na Indonésia o Brasil da era FHC voltava, de pires na mão, ao FMI, mendigando ajuda para impedir uma quebradeira total. Hoje o cenário é outro.

Para completar, FHC é extremamente vaidoso e despeitado, recusando-se a reconhecer não digo nem os inúmeros defeitos de seu governo – o que é condizente com a natureza dos poderosos e com o ego inflado do personagem -, mas os méritos inegáveis do governo de seu sucessor, hoje corroborados pela mesma imprensa internacional que era reverenciada na era FHC, ao qual ela nunca deu muita atenção. O artigo “Para onde vamos?”, escrito pelo ex-presidente e comentado neste blog, é exemplar da empáfia do personagem para com o atual mandatário.

Porém, ao menos uma vez o ex-presidente reconheceu uma política equivocada de seu governo: ter adotado, sob a liderança dos EUA, a estratégia de "guerra às drogas". A partir do mea culpa, o ex-presidente passou a defender, com argumentos compartilhados por especialistas e por progressistas em geral, a legalização da maconha.

Muitos dos que discordam da adoção de tal medida já alimentavam antipatia por FHC, e viram na nova posição do ex-presidente em relação à questão um motivo a mais para repeli-lo. Trata-se de uma atitude plena de coerência.

Outros, no entanto, que, como eu, defendiam a legalização da maconha (continuo defendendo, pelas razões que explicito aqui), não apenas mudaram de opinião unicamente por conta da nova postura de FHC, mas, num movimento de manada, passaram a atacá-lo incorporando o uso pejorativo de adjetivos como “maconheiro”, “defensor de drogados”, “financiador do crime” e por aí vai. Ou seja, sob a influência da atmosfera de turba, adotaram uma atitude altamente contraditória, inversa daquela que anteriormente defendiam.


Há uma denominação que se aplica como uma luva para os atos de acusar sem provas, substituir o diálogo e a crítica construtiva pelo confronto com adversários, criar índex de artistas, e alimentar ódios políticos “fulanizados” capazes de alterar convicções ideológicas: totalitarismo.

Em nome da boa luta, trata-se de evitá-lo enquanto é tempo.


(Imagem retirada daqui)