sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

A volta das patrulhas ideológicas

O termo “patrulhas ideológicas” tornou-se corrente a partir de agosto de 1978, quando, em plena Abertura, o cineasta Carlos Diegues, em entrevista ao Jornal do Brasil, utilizou-o para se referir à insistente cobrança que vinha sofrendo para que dirigisse filmes de cunho explicitamente político, ao invés de crônicas de costumes como Chuvas de Verão – obra que toca, com sensibilidade, na rara temática do amor e sexo na velhice.

Trinta e um anos depois da entrevista de Cacá – cujas repercussão e ilações críticas podem ser lidas no excelente livro Patrulhas Ideológicas Marca Reg, resenhado aqui -, o termo por ele popularizado – e do qual a pior direita apoderar-se-ia nas décadas seguintes - voltou com tudo à minha mente devido às reações vivenciadas após mencionar, de forma breve, minhas impressões pessoais sobre um filme.

Fui assistir a Lula, o filho do Brasil com grande expectativa: o personagem, a história, a significação da sua trajetória enquanto exemplo e metáfora para a de milhões de brasileiros, as ilações pós-filme para com a figura do hoje bem-sucedido presidente e líder político reverenciado mundo afora – tudo apontava, potencialmente, para um grande filme.

Mas o que tive diante dos olhos foi um espetáculo decepcionante, irregular e morno, de narrativa truncada e arrastada, desatento aos detalhes, com um roteiro mal concebido e que, no intuito de provocar empatia com o público, perfaz uma abordagem histórica questionável e a meu ver diminuidora de seu personagem principal.

Por conta dessa impressão decepcionante, não pretendia (e não pretendo: este post não é uma crítica cinematográfica) escrever sobre o filme – embora, evidentemente, pudesse falar sobre minhas impressões em conversas informais ou no universo virtual, como veio a acontecer.

“Fui assistir ao filme do Lula. Achei muito, muito ruim. #prontofalei” – estas 11 palavras, postadas no Twitter, foram o pavio que acendeu a pólvora.

Mesmo evitando voltar a tocar no assunto – pois frequento a tal rede social para me divertir, não para ficar entrando em confrontos - algumas das reações que obtive, na hora e nos dois dias seguintes, por emitir essa simples opinião pessoal, valem por um tratado da intransigência político-ideológica vigente.


Reações vão do palavrão à tentativa de desqualificação
Pouparei o leitor da reprodução das respostas explicitamente agressivas – afinal, este é um blog familiar (rs...). Vou destacar apenas duas reações, incisivas mas sem hostilidade aberta.

Logo após publicar o tuite acima reproduzido e ver-me cobrado a explicitar as razões de minha insatisfação com o filme – as quais elenquei mais ou menos à maneira do quarto parágrafo deste post -, uma das pessoas que se apresentaram como interlocutores – minha seguidora de longa data - questionou se eu tinha certeza de haver entendido o filme. Respondi com um “Por favor, né?”, ao qual ela retrucou com um taxativo “Acho que não”. Conclui com uma pergunta que ficou sem resposta: “Quer dizer que a idolatria é tamanha que uma pessoa não gostar do filme é sinal de que não o entendeu?”.

No dia seguinte, enquanto pipocavam pela blogosfera opiniões negativas ou positivas a respeito de Lula, o filho do Brasil , assistiu-se a um movimento tão contraditório quanto questionável de desqualificação dos críticos do filme: de Nassif e outros, afirmava-se não terem qualificação para fazer crítica de cinema; já dos que são críticos de cinema ou têm relação profissional com a sétima arte dizia-se que ou se tratava de mera “inveja” ou que a “obsessão” com “questões técnicas” obnubilava a necessária sensibilidade para com uma obra que contava a história de um “homem do povo”. O fato de que tais estratagemas pseudo-desqualificadores poderiam ser igualmente aplicados aos que avaliavam positivamente o filme foi algo que não passou pela cabeça dos patrulhadores.


Gostaria de fazer duas observações:

1) Minhas restrições ao filme, assim como a de várias outras pessoas do meio, não foram exclusivamente de ordem técnica - para mencionar apenas alguns quesitos, a fotografia (Gustavo Habda), o som e o casting do filme são excelentes -, mas também de como a obra foi por mim recebida do ponto de vista sensorial e afetivo;

2) A tentativa de desqualificar a opinião de profissionais de cinema por conta de uma suposta picuinha invejosa em relação a Fábio Barreto (por cuja recuperação médica eu torço muito) é não apenas um argumento pífio e uma generalização tão descabida que chega a ser engraçada, mas um procedimento revelador dos métodos autoritários utilizados pelas “patrulhas”, que não toleram os que delas discordam.


Intolerância e direito de opinião
Sempre tive para mim que Lula, o filho do Brasil era um produto cultural em forma de filme, que contava uma bela história. Essa era uma das razões que me fazia minimizar a importância da discussão sobre o financiamento privado à produção: trata-se, como já apontei, de um personagem fascinante, com uma trajetória exemplar, com a qual tantos brasileiros se identificam. O fato de o retratado ainda ocupar a Presidência levanta questões éticas relativas à relação do governo federal com as empresas financiadoras do filme? Talvez sim, mas me parece pouco provável a hipótese de que uma produção cinematográfica, com um orçamento insignificante em relação ao montante dos negócios de tais empresas com a administração federal, pudesse vir a influenciar qualquer negociata. Afinal, tratava-se, eu supunha, de um mero filme, sobre uma história por demais conhecida pelos brasileiros; um produto cultural que certamente agradaria a uns e a outros desagradaria, antes que a vida continuasse.

As patrulhas ideológicas convenceram-me do contrário: o fato de se tratar de mais um filme no mercado é o de menos, pois como as paixões e ódios que compõem o fanatismo vêm demonstrando, trata-se, na verdade, de um objeto de culto à personalidade de um líder político e de estímulo à polarização maniqueísta não apenas do debate político-ideológico, mas esfera cultural adentro. “Aos que gostam do filme, tudo; aos que não gostam, a desqualificação grosseira”.

O fato de eu reconhecer os muitos méritos do governo Lula não impede que eu me preocupe com tal processo, que traz em seu bojo ecos getulistas (e, neste caso, isto não é um elogio, pois refiro-me ao processo de captura da esfera cultural promovida pelo então ditador, e não, como de ordinário setores da direita e da academia paulista o fazem, preconceituosamente, às suas políticas sociais).

Tal atmosfera tende a exacerbar os processos de radicalização discursiva aos quais me referi no post Internet e a atmosfera de turba, dos quais novas mostras foram dadas esta semana, com o jornalista Mário Magalhães recebendo ataques injustos - pois, na verdade, estes deveriam ser dirigidos ao jornal em que trabalha, que publicou, na capa da edição nacional, um artigo referente a um contexto regional sem contextualizá-lo, de forma a beneficiar José Serra, cuja atuação em relação à tragédia em São Luiz do Paraitinga é ainda pior do que a de Sérgio Cabral Filho no Rio (que Magalhães comparou a de Bush em relação a New Orleans).

O que está em jogo, no caso do filme sobre Lula, é o direito de emitir impressões pessoais sobre um produto cultural sem receber como resposta um bombardeio de insultos e de cobranças referentes a sua posição política. Um direito básico de opinião que está sendo tolhido a quem da obra não gostou.

Eis a volta triunfal das patrulhas ideológicas.


("Rosas para Stalin", de Boris Vladimirskij (1949), retirado daqui)

9 comentários:

Flávio de Sousa disse...

Caro Maurício,

Não vou me estender aqui num comentário exaustivo, porque seria redundante -- eu basicamente concordo com seu ponto de vista, e adiro a ele.

Com efeito, se sua memória não é curta, eu próprio já me senti submetido a patrulhamento ideológico nessa mesma "praça virtual". Não cabe aqui voltar a detalhes, até porque são desgastantes. Mas, vale lembrar que as circunstâncias eram idênticas: expressei minha visão a partir de um conhecimento científico que julgava válido, abrindo-o naturalmente à critica, igualmente racional, de quem visse de outra maneira; Contudo, qual não foi minha surpresa ao ver minhas ideias desqualificadas por julgamentos pessoais somados a uma ação sistemática, viral, de desconstrução da minha imagem!

E o saldo é invariavelmente negativo pra quem é vítima desse expediente: quem é injustamente desqualificado fica com a áurea de "lobo mau", enquanto quem desfere esses ataques, mesmo provando-se equivocados, sai ileso.

Enfim, não podemos fazer muito senão lamentar. O fim desse tipo de coisa depende, é claro, de conscientização coletiva (algo difícil ultimamente, vide seu texto "A internet e a atmosfera de turba"), porém sobretudo de uma mudança individual de postura. Uma postura auto-crítica, em que as ideias sejam instrumento de nossa emancipação, e não os grilhões de nossa possessão.

Um abraço,

Flávio.

Maurício Caleiro disse...

Sim, Flávio, lembro perfeitamente do seu caso, o qual lamentei desde o início.

O que a princípio parecia ser apenas um mal-entendido acabou evoluindo (sic) para um episódio extremamente desagradável - para ti, sobretudo (mas não unicamente).

Confesso que ando preocupado com o rumo que as coisas às vezes parecem tomar nas redes sociais. Só espero que o bom senso prevaleça.

Um abraço,
Maurício.

jamesp. disse...

Concordo com você em tudo nesse post.Estou cansado do patrulhamento no twitter;muitas vezes stalinista mesmo,sem nenhum embasamento.Sempre venho aqui,embora não comente.
Gosto muito de seu blog.
Um abraço.

Maurício Caleiro disse...

Valeu, Jamesp.!

Dei uma olhada em um dos teus blogs tbem. Muito bom! Depois vou checar com calma.

Um abraço,
Maurício.

Moacy Cirne disse...

Muito bom o seu texto, meu caro. Não vi o filme; aliás, não pretendo vê-lo. E continuo aprovando o governo de Lula, para deixar bem claro. Mas minha ideia/concepção/visão de cinema passa longe daquela preconizada pelo Barretão. Não sei se é a melhor visão possível, mas é "a" minha visão. Também não concordo com o "patrulhamento ideológico", parta de onde partir.

Um grande abraço.

iaiá disse...

embora eu até tenho gostado do filme (sou chegadinha em coisas melosas)achei o filme bonzinho, no máximo, ao invés de 2 filhos de Francisco temos o filho da Lindú, e olha que outro como drama funcionava bem melhor que este, embora sempre vá ser incrível a história do personagem central (que infelizmente não é Lindú, tanto atriz quanto personagem, ela estava bem melhor no filme,mas era este o objetivo para gerar empatia e comoção) então fica assim um filme no máximo bonzinho, pq sou boazinha.
mas que notei o patrulhamento ideológico e a intolerância, ah notei! não só das figuras de sempre que escrevem em blogs de grande portais mas por aí mesmo, por isso gastei meu dinheirinho e fui ver com meus próprios olhos. excelente a crítica do Maurício, e este patrulhamento me cansa.

Maurício Caleiro disse...

Muito obrigado, Cyrne!

Aliás, seu comentário me fez dar conta do tamanho de minha ingenuidade: esperar grande cinema made in Barretão, re, re, re...

Um grande abraço,
Maurício.

Maurício Caleiro disse...

Iaiá,

Mas aposto que vc chorou no filme, ra, ra,ra... (pior que eu tbem..rs...#manteigasderretidas).

Um beijo,
Maurício.

Magdalas disse...

Oi Mauricio, tudo bem?
Deixa eu dizer logo que as opiniões que vou expressar são só minhas e absolutamente nao devem ser extendidas ao resto da equipe. Falo apenas por mim.
Sou produtora de casting e, junto com outras 2 profissionais, levantamos o elenco desse longa em Sp. Lemos o livro, dp o roteiro, fizemos reunioes com o Fabio (um queridíssimo, por sinal), falamos, pensamos e testamos montes de adultos e crianças. Um trabalho cão, confesso, mas todo casting dá, seja em longa, seja em publicidade. E grande parte disso se perde nas edições, senão vc teria apreciado mais ainda nosso trabalho, acredito. Obrigada pelos elogios, aliás.
Então, eu posso falar sobre o que penso desse filme sem medo de ser feliz; tb tenho 49, entao nao sou uma fedelha; e estou nessa estrada há 28 anos, portanto, minha visão inclui conhecimentos que platéia que "acha que entendeu" não tem.
O que mais chama a atenção no teu artigo é o tanto que a patrulha está avançado, porque tua delicadeza para falar dessas/para essas pessoas demonstra mais cuidados do que teve o Cacá nos idos tempos e olhe que, então, a violência já tiranizava francamente dos dois lados.
Eu acho esse filme deplorável, uma propaganda política óbvia e canastra.
O filme tem mesmo coisas belas: certas locações, cuidados na reconstrução do tempo; tem fotografia atenta e por vezes inspirada. E tem o que, evidente, respeito profundamente: uma equipe toda por trás, extremamente profissional e criativa, ralando barbaridades e apondo seu melhor em cada área, incluindo o acting do elenco.
O problema, a meu ver, está no argumento, leia-se no tom do livro da Denise Paraná, que eu considero uma biografia tão baba-ovo, que deve ter constrangido até o objeto de adoração. Texto tendencioso, por vezes melodramático, embora, em geral, apenas piegas, e obviamente escrito sem imparcialidade - mais ou menos como "Maria Antonieta", do Stefan Zweig. Biografar alguém que vc adora é, no mínimo, complicado, para não dizer patético, penso.
Portanto, o roteiro, escrito por alguns profissionais excelentes aliás, teria que mudar radicalmente para não ter o tom original. Mas aí seria outro filme. E não faria sentido, portanto, adaptar dito livro.
Como não tenho nem idéia do que, intimamente, pensam os roteiristas sobre o projeto, parto do princípio de que fizeram o trabalho para o qual foram contratados: adaptar o texto do livro para o cinema, ponto. E, nesse sentido, o fizeram brilhantemente.
A meu ver, tão brilhantemente que a maior parte do público não gasta 2 minutos de questionamento sobre os porquês; apenas saem todos enlevados pela idéia falaciosa, mas reconfortante, dizem, de ter um ícone onde depositar a fé política.
Patrulha ideológica tem causas diversas, mas como publicitária sei bem que a propaganda é a raiz de todas elas. Uma vez que vc convence alguém dos benefícios de um produto, não pela lógica, nem pela sensatez, mas pelo que fala ao insconsciente, aos anseios escondidos, dito produto passa a ser o objeto de desejo e ai de quem se interpuser no caminho do consumidor.
A diferença da propaganda dos tempos idos para a de agora está na sofisticação e experiência que qualquer um angaria ao longo do tempo e que nao foi diferente para os propagadores de idéias. Hoje, uma idéia é plantada em campo desocupado, porque ao longo dos ultimos 40 anos minou-se a capacidade de reflexão e de questionamento do indivíduo, lenta e inexoravelmente - o que deu muito certo para a maioria da população. É por isso que fica tão mais fácil, hoje, plantar idéias travestidas de ideais, do que nos chamados tempos da ditadura. Porque não há, palpavelmente, contra o quê se interpor.
Patrulha ideológica serve para qualquer ideologia, seja política, seja comportamental etc e é só uma das idéias plantadas, mas possivelmente a arma mais eficaz de contrôle da população. E não custa nem um centavo extra ao stablishment.
Exatamente como essas redes sociais híbridas, incluindo o Twitter.
Abraços,
Ivana Mihanovich
ivanacasting@gmail.com