quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Os Melhores Filmes Brasileiros da Década

É estranho, eu sei, mas, a rigor, a primeira década do século XXI só acaba quando 2010 acabar (afinal, não houve um ano zero...). Mas como poucos prestam atenção a isso, me sinto livre para lançar, agora, minha lista dos melhores filmes brasileiros da década.

Embora o clima predominante entre o pessoal de cinema tenha sido de algum pessimismo - causado, sobretudo, pelo estrangulamento do espaço para o filme nacional "independente" ou de baixo orçamento provocado pela entrada definitiva da Globo Filmes, em aliança com majors norte-americanas, no setor - a década, vista em retrospecto, foi muito boa para nosso cinema.

Ao menos foi essa a impressão que tive, após promover uma verdadeira maratona de filmes brasileiros para elaborar esta lista. Muita coisa ficou de fora e, certamente, muitos vão discordar das escolhas, mas é esta uma das funções primordiais das listas: provocar debates.

Há sempre muito de subjetivo nas escolhas, embora eu tenha tentado combinar preferências pessoais a alguns critérios objetivos - como talvez os comentários evidenciem. Eis a lista:


1º. - Lavoura Arcaica (Luiz Fernando Carvalho, 2001) – Uma obra-prima do cinema mundial e uma das melhores adaptações literárias da história do cinema - ao lado de, entre outros, Os Vivos e os Mortos (The Dead, John Huston, EUA/ING/IRL, 1987, baseado em conto de James Joyce). Experiência cinematográfica única, baseada no clássico homônimo de Raduan Nassar, Lavoura Arcaica promove uma viagem subjetivo-cinematográfica, repleta de imagens inesquecíveis, pelas temáticas da memória, dos afetos, da repressão e do tempo, além de enfocar o próprio ato de narrar. Link para uma sequência do filme.


2º. - Cidade de Deus (Fernando Meirelles e Kátia Lund, 2002) – A odisseia da exclusão e marginalidade que teve como legado o predomínio do tráfico nas favelas cariocas é vista de forma épica, mas a partir da perspectiva de um garoto. Causador de polêmicas várias, acusado de abusar da violência e de uma alegada "linguagem publicitária", Cidade de Deus é talvez mais apreciado no exterior do que aqui. Mas o filme recolocou definitivamente o Brasil no mapa do cinema mundial. Link para o trailer

3º. - Cabra-Cega (Toni Ventura, 2004) – O mais dilacerante retrato da luta armada no Brasil, reencenada a partir do cotidiano restrito de um militante - quase sempre enclausurado em um “aparelho”, em luta para não “cair”. A grande atuação de Leonardo Medeiros como o protagonista e a releitura impressionista de Chico Buarque por Fernanda Porto na trilha sonora valorizam uma mise en scéne plena de epifania. Link para o trailer


4º. - Linha de Passe (Walter Salles e Daniela Thomas, 2008) – A re-constituição, de um realismo atroz e desprovida de maniqueísmo, do cotidiano de cada um dos membros de uma família da periferia de São Paulo promove, a um tempo, um retrato do caos na cidade e dos labirintos e becos sem saída vivenciado por diferentes gerações de pobres que nela habitam. Ao lado de São Paulo, Sociedade Anônima (Luís Sérgio Person, 1965), é um dos melhores filmes já feitos sobre a cidade - e o que capta de forma mais fiel sua estética fria e agressiva. Link para o trailer


5º. – O Céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006) – Um mergulho no "Brasil profundo" contemporâneo, numa versão atualizada - e a partir de uma perspectiva feminina - do drama da migração. Mise en scéne, fotografia e direção de arte primorosas, em planos extremamente bem-cuidados, mas em que a excelência estética nunca se sobrepõe à função narrativa. A sequência em que a protagonista - encarnada com garra por Hermila Guedes - e o motoboy João (o ótimo João Miguel, de Estômago) discutem enquanto caminham em direção à câmera, em steadycam, entra para a antologia do cinema brasileiro. Final primoroso. Link para o trailer


6º - Nome Próprio (Murilo Salles, 2008) – Um filme duplamen-te corajoso, por adotar como tema a subjetividade, e feminina. Para encenar a trajetória pessoal da blogueira Clara Averbuck, resolve de forma criativa e visualmente atrativa o dilema recorrente de como filmar o universo virtual, promovendo um mergulho abissal em temas como solidão, sexualidade, estados psicológicos, universos mentais. As noites urbanas, com sua impessoalidade, seus encontros e desencontros, é pano de fundo para o retrato de uma geração - e, nela, de um gênero sexual -, valorizado pelo desempenho visceral de Leandra Leal, que mereceu todos os prêmios que recebeu. Se os critérios desta lista fossem exclusivamente afetivos, este seria o meu filme #1. Link para o trailer


7º. – Falsa Loura (Carlos Reichenbach, 2007) – Um filme atípico, que não pode nem deve ser julgado pelos critérios convencionais: Reichenbach, de novo às voltas com o universo feminino suburbano, recusa o caminho fácil e promove uma incursão (meta)cinematográfica plena de referências à história do cinema e à sua própria obra pessoal. Arrebatadora, a Silmara de Rosane Mulholland entra definitivamente na galeria das grandes personagens femininas do cinema brasileiro, restituindo, ainda, uma prerrogativa das divas do cinema italiano: fazer com que o espectador deixe a sala de exibição completamente apaixonado pela estrela do filme. Um soco no estômago, o final de Falsa Loura pode ser lido como uma espécie de versão jovem e feminina do La Dolce Vita de Fellini. Link para trailer

8º. - Santiago (João Moreira Salles, 2007) – A pretexto de realizar um documentário sobre o ex-mordomo de sua família, João Moreira Salles inova o gênero e faz grande cinema, num filme que perfaz uma incursão memorialística, sentimental, e incita reflexões existenciais e cinematográficas, com uma pungente incursão final na temática das relações de poder. A conjunção entre narração e imagens poucas vezes atingiu um nível tão alto no cinema brasileiro. Link para trailer


9º. – O Auto da Compadecida (Guel Arraes, 2000) - Ariano Suassuna fomenta ódios e paixões, mas não pode-se negar-lhe o talento nem a primazia de sua produção, que combina temas universais a uma estética de raízes regionais - a qual Guel Arraes, em O Auto da Compadecida, submete a um aggiornamento vídeo-cinematográfico que acaba por evidenciar a força da peça original, ao invés de descaracterizá-la. Não bastasse o desempenho fantástico do elenco liderado por Matheus Nachtergaele, Selton Mello e Marco Nanini, há Fernanda Montenegro, sublime, de Nossa Senhora. Link para trailer

10º.- O Invasor (Beto Brant, 2002) - A temática da luta de clas-ses no Brasil atual é enfocada a partir de uma abordagem "fulanizada", de um estudo de caso que perfaz um inventário da corrupção e das traições que mediam a relação entre mundo corporativo e esfera pública no país. Embora sem inovar do ponto de vista formal, Beto Brant dota seu melhor filme de uma narrativa tensa, que prende a atenção do espectador. Mariana Ximenes arrasa num papel atípico e a atuação hipernaturalista de Paulo Miklos coloca seu personagem na galeria dos tipos inesquecíveis do cinema brasileiro. Link para sequência do filme, com participação do rapper Sabotage.

11º. - Serras da Desordem (Andrea Tonacci, 2006) - O enfant terrible do udigrudi Andrea Tonacci volta do longo "exílio" com uma obra grandiosa, que mistura ficção e documentário e reencena, literalmente e de forma épica, o absurdo da questão amazônica. De quebra, dialoga com o presente e com o passado da política e do cinema brasileiros. Como realização, sei que o filme merecia ocupar uma posição no topo da lista, mas não conseguiu conquistar-me afetivamente como espectador. Link para o trailer

12º. - Meninas (Sandra Werneck, 2006) – O cotidiano de quatro meninas pobres, grávidas na puberdade, é acompanhado de forma despojada e direta, mas com fôlego para dar conta, sem parti pris ideológico e sem falsos moralismos, dos aspectos existenciais, familiares, econômicos e sentimentais conectados a essa urgente questão social, de educação e de saúde pública - com efeitos de longa duração - que é a gravidez na adolescência. Link para o trailer


Não consegui ver a elogiada estreia em longa metragem de meu querido amigo Bruno Safadi (que não vejo há anos), Meu Nome é Dindi (2007).

Do que vi e ficou de fora, gostaria de ter incluído Bicho de Sete Cabeças (2001), de Laís Bodanzky, Edifício Master (2002), de Eduardo Coutinho, Não por Acaso (2007), de Phillipe Barcinski e, sobretudo, Cão sem dono (2007), de Beto Brant e Renato Ciasca, que, de certo modo, pode ser lido como uma versão masculina e minimalista de Nome Próprio.

A não-inclusão do gênio eremita que o mundo desconhece Julio Bressane e de Brasília 18% (2006), do mestre descolonizador Nelson Pereira dos Santos, deve-se ao fato de que eu os considero hors concours.



(Imagens retiradas, em ordem respectiva, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12)

17 comentários:

Moacy Cirne disse...

Meu caro,
muito justo o primeiro lugar para LavourArcaica. Os outros também foram bem lembrados. Mas lista é lista, não é mesmo? Sempre será possível detectar uma ou outra "presença atrevida", uma ou outra "lacuna incompreensível". Ainda bem! As "listas perfeitas" são "politicamente chatas". Ah, sim, concordo com você: a primeira década do século só acaba em dezembro do presente ano.

Um abraço.

iaiá disse...

adoro quase todos eles, fazem parte da minah lisat de favoritos tb. acho que ñ assisti uns 2 ou 3, pq não achei na locador e quando passou no cinema foi lá no Cine Academia, que não limpam direito e me dá uma bruta alergia sempre que vou. Adoro Linha de Passe, Sob o Céu de Suely, Lavoura Arcaica E cidade de Deus da trilah de Cabra-cega nem comento que amo o Chico, mas preferia com ele. (prontofalei)Falsa Loura para mim foi uma surpresa, achei muito interessante e Meninas tb adorei. Acho Edifício Master interessantíssimo, revejo mil vezes.
bj

Fernando Ramos disse...

Meu querido, como tuitei, digo novamente que ficou muito boa a lista dos filmes brasileiros da década.

E sabemos que todas listas têm critérios pessoais. Mas creio que eu não tenha mais bagagem de vida ou cultural que ti pra contestá-los. Só perguntaria acerca do Bicho de Sete Cabeças, de atuação inesquecível do Santoro e trilha igualmente. Mas me senti contemplado, uma vez que o citou no fim do texto.

Como disse, farei de miniguia, pois deu força a filmes que não conheço e a outros que quero muito assistir, como Nome Próprio e O Céu de Sueli.

Abraços!

Maurício Caleiro disse...

Caro Cyrne,

O Mestre das listas é você, só estou dando um humilde e atrevido pitaco na sua seara...

Acho que terei de aguardar um ano para ler a sua lista sobre o tema e, certamente, me dar conta de alguns filmaços menos conhecidos - e mais ousados - que devo ter deixado de fora.

Um grande abraço!


Iaiá,

Você me surpreende cada vez mais, agora como cinéfila de carteirinha... não lembro como era a cena do cinema alternativo em BSB (o único filme a que eu assisti aí foi Sr e Sra Smith (credo...ra, ra,ra).

Sei,a julgar pelas outras listas que vi, que Edifício Master é, certamente, a "lacuna incompreensível" mais gritante da lista, mas, só cá entre nós (não conta pra ninguém, hein!): eu acho o Eduardo Coutinho tão chatinho...ra,ra,ra!!

Bjos.

Bruno disse...

Maurício, meu amigo,

Eu também adoro listas! E, principalmente, as discussões que elas geram, por causa das doses consideráveis de subjetividade nelas contidas ...

Antes de mais nada, assisti a todos os filmes que você elencou e gostei muito da sua lista, principalmente do fato de ter entrado, e numa posição bastante honrosa, o "Cabra-cega", que eu acho um filme muito subestimado. Claro que minha lista seria diferente da sua.Por exemplo, provavelmente,"Amarelo manga" estaria presente ( eu sei bem que você não gosta muito do filme). Talvez também "Madame Satã".

Aliás, esse lance de lista é interessante porque alguém poderia desmontar a sua, manter apensa uns 2 ou 3 filmes, e ainda fazer uma boa lista, não é verdade?

Bom, eu tenho uma posição um pouco polêmica em relação a "Cidade de Deus". Eu acho o filme de Fernando Meireles o ponto alta da história do cinema nacional. Não tem "Terra em Transe" ou "Macunaíma" que faça frente a ele. Sei que isso parece uma heresia, mas é a minha mais sincera opinião. Portanto, eu inverteria a posição de "Cidade..." com "Lavoura Arcaica", que também é fantástico. Já a omissão de "Edifício Master" é imperdoável, Maurício! E mais ainda de "Jogo de Cena", um documentário em que Eduardo Coutinho borra a fronteira entre a ficção e realidade de maneira magistral (eu assisti a esse filme em São Paulo. Ao fim da sessão, todos se levantaram e, emocionados, aplaudiram. Duvida? Pergunta pro Luiz Gonzaga Beluzzo, que estava na minha sessão!)

Mas, parabéns, você fez uma ótima lista!

Um abraço

wilson cunha junior disse...

Não se pode questionar uma lista pessoal. Na minha estariam a maioria desses. Mas estariam bem classificados "Cinema, aspirinas e urubus" e o não tão badalado mas bem interessante "Eu me lembro" do Edgar Navarro cuja trilha sonora é literalmente uma viagem.

Maurício Caleiro disse...

Fernando,

Antes de mais nada, obrigado.

Se fosse uma lista só afetiva, o "Bicho" certamente entraria, pois, como você disse, tem o Santoro, a trilha - e eu acrescentaria: os coadjuvantes, com destaque para o Gero Camilo.

Um abraço.

Maurício Caleiro disse...

Bruno,

Fiquei muito feliz com seu comentário, pois ele instiga a polêmica.

Como eu já disse em comentário anterior, sei que Edifício Master é a grande ausência - e acompanhei o entusiasmo com Jogo de Cena (o qual revi antes de elaborar a lista). Claro que são filmes notáveis, além de uma tremenda contribuição no âmbito da evolução da linguagem do documentário. Mas não consigo deixar de achar o Coutinho muito chato (rs...), não suporto aquela coisa auto-referente dele.

Sem dúvida, o fato de que outros poderiam fazer boas listas mantendo apenas 2 ou 3 títulos da minha é o que torna essa modalidade de categorização tão atraente.

Quanto a você achar Cidade de Deus melhor do que Terra em Transe, nem vou falar nada: é uma heresia mesmo...ra, ra, ra, ra!!!

Maurício Caleiro disse...

Wilson,

Eu estava esperando que alguém lembrasse do "Cinema, Aspirinas e Urubus". Foi elogiadíssimo e ganhou prêmios importantes, aqui e no exterior. Mas aí, é como você mesmo disse: as idiosincrassias pessoais das listas... não "bateu", não criou empatia comigo...

O do Edgar Navarro ouvi falar muito, mas, infelizmente, não consegui ver. Gostaria muito.

Um abraço,
Maurício.

Moacy Cirne disse...

Caro Maurício,
o conto a que você se refere - de fato, uma pequena obra-prima - chama-se 'Um som de trovão'. De qualquer modo, a minha relação não é preferencial, e o livro citado de Bradbury decerto terá vez proximamente.

Abraços.

Anna Toledo disse...

É, eu também senti falta de "Jogo de Cena". Ainda não assisti tanto Eduardo Coutinho para encontrar a tal "chatice" dele nos seus filmes. E vibrei com a inclusão de "Santiago" na sua lista! Um dos filmes mais delicados já realizados por aqui.

Marcello disse...

Maurício, você viu 'A Festa da Menina Morta', do Nachtergaele (estréia dele como diretor)? Assisti recentemente e gostei muito, tanto que arrisquei um comentário sobre ele no blog: http://odiabonomeiodarua.blogspot.com/2010/01/o-sagrado-e-o-profano-na-terra-das.html.
Abraço.

Maurício Caleiro disse...

Caro Cyrne,

É esse mesmo! Um abraço.


Marcello,

Foi o último filme que vi antes de publicar a lista. Belíssimo, com composições e movimentos de câmera muito ricos, e uma narrativa sem apego a convenções. Eu deveria tê-lo ao menos mencionado. Um abraço.


Anna,
Minha birra com o Coutinho vem de longe: na faculdade, eu e um amigo tínhamos a petulãncia de debochar de "Cabra marcada pra morrer" por conta das auto-referências (ficávamos imitando a entrevistada que diz, deslumbrada: - "Coutinho chegou!" - achávamos a cena o cúmulo do cabotinismo). Mas eu estou errado, eu sei (rs..).

"Santiago" me arrebatou. Aquelas sequências iniciais na casa são uma coisa muito poética,que transcende o filme e se insere na temática recorrente da saudade das casas de infãncia, que poetas como Drummond e Bandeira enfocaram.

Um abraço.

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Excelente lista, Caleiro! Falsa Loura e o Auto da Compadecida estão na minha lista de favoritos há muito tempo!

Aliás, vocÊ assistiu "Era uma Vez"? Vi hoje e fiquei embasbacado, uma narração da realidade do morro carioca, fantástico, recomendo!

Maurício Caleiro disse...

Realmente, Tsavkko, fui assistir a "Era uma vez" com um pé atrás, mas gostei muito. Abs.

Ana Cranes disse...

Não vi todos não posso opinar muito.


Listas são sempre polêmica, mas Nina não merecia star aí?

Maurício Caleiro disse...

Ana,

Gostei muito de "Nina", é um filme ousado e original no panorama da produção atual, com um ótimo desempenho da protagonitsta.

Mas não o colocaria entre os 10 ou 15 melhores da década... Porém, como vc mesmo diz, listas são polêmicas...