quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Processos contra Dilma evidenciam crise da oposição

“Os três partidos de oposição - PSDB, DEM e PPS - entraram nesta terça-feira com mais uma representação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva por suposta propaganda antecipada. Segundo nota divulgada pelo PPS, a oposição cita uma fala de Lula na última sexta-feira, quando classificou a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, como ‘palanqueira’” – noticia o portal Terra.
Continua a matéria:
“Segundo o presidente do PPS, ex-senador [sic] Roberto Freire, as declarações de Lula são a prova do ‘desdém com que ele trata o ordenamento jurídico e as instituições do Brasil’. ‘Vamos ao TSE quantas vezes forem necessárias para garantir o cumprimento da lei’, disse Freire. Segundo o presidente do partido, Dilma tem feito, ‘de forma atrevida’, campanha eleitoral ilegal pelo País”.
Antes de analisarmos as implicações do caso, examinemos, brevemente, o que a notícia nos diz em relação ao jornalismo brasileiro. Em primeiro lugar, não obstante dar voz a um líder de partido de oposição para que este faça graves denúncias contra um cidadão (no caso, o presidente da república), descumpre a regra básica de ouvir o outro lado. Assim, ao deixar de repercutir a acusação junto a um porta-voz de Lula ou ao menos ao líder do partido situacionista, o jornalismo do portal Terra priva o acusado do direito à defesa no mesmo veículo noticioso em que é acusado. Contraria, portanto, de maneira frontal, a ética jornalística.

Em segundo lugar, além da redação rebarbativa de praxe num jornalismo feito por estagiários, chamar o atual deputado federal (PPS/PE) de “ex-senador” só aparentemente é um erro menor. Denota não apenas preguiça de fazer uma pesquisa básica mas, o que é muito mais grave, tratar-se de uma matéria “pronta”, encomendada e imposta de cima pra baixo, como qualquer pessoa com algum traquejo no jornalismo profissional reconheceria. Ademais, São Roberto Freire é figura política das mais conhecidas, notadamente pela coerência: afinal, passou de líder da esquerda a "menino de recados do Serra", nas palavras de André Moura. Mesmo um estagiário de portal de notícias teria obrigação de conhecê-lo.

O texto não deixa, porém, de oferecer um certo aspecto humorístico: afinal, só o jornalismo brasileiro em seu deplorável estágio atual seria capaz de achar que um “ex-senador” lidera um partido de oposição e dar-lhe tamanho destaque.


Dois pesos, duas medidas
Examinemos agora o mérito (sic) das denúncias: evidentemente, é legítimo que, existindo uma lei que coíbe propaganda eleitoral antecipada, os tribunais eleitorais sejam acionados. Que tal lei seja obsoleta, incapaz de acompanhar os efeitos da evolução tecnológica da comunicação e, além disso, ineficaz - pois, à revelia dela, TUDO o que Dilma e Serra fizerem de agora até a eleição terá conotação eleitoral – são dados a ser levados em conta, mas que, de um ponto de vista estritamente legalista, têm pouco ou nenhum relevo.

Seria, porém, no mínimo recomendável que aqueles que, com a certeza do respaldo amplificador da mídia, acusam e querem se valer de tal lei não incorram no mesma ilegalidade a qual acusam os adversários de praticar. Não parece ser o caso.

Afinal, a agenda do outro candidato com chances nas eleições eleitorais, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), apoiado pelas forças às quais Freire pertence, tem, há tempos, estado lotada por viagens para os mais variados destinos, mas visando um único objetivo. Senão, vejamos: enquanto o Estado que deveria governar apenas começava a submergir ante as primeiras chuvas de verão, o tucano, sem ser chefe de Estado convidado ou ecologista renomado, voou até Copenhagen para participar do COP15 ao lado de Marina Silva e posar, para fins propagandísticos, ao lado de Arnold "Exterminador do Futuro" Schwarzenegger. Isso não é campanha?

Ao voltar, ao invés de permanecer em São Paulo e ajudar seu pupilo Kassab a administrar o maior caos urbano da história da cidade - que fez milhares de pessoas perderem seus bens e causou 64 mortes até o momento - Serra, além de participar, sorridente, de uma maratona televisiva em programas de variedades (como o de Luciana Gimenez), tem intensificado o ritmo de viagens por estados do Brasil, como vem sendo fartamente noticiado pela imprensa. Se isso não é campanha, é o quê?

Na própria mídia, o nome do tucano aparece com menos frequência associado a medidas políticas efetivas no âmbito do estado que deveria governar do que a eventos auto-promocionais. E, para completar, comerciais da Sabesp – a companhia paulista de águas – têm sido, desde meados do ano passado, veiculados de forma insistente nos mais recôndidos cantos do país. Responda, por favor, leitor(a): tudo isso é campanha eleitoral ou não?


Ataques e falta de propostas
Esse caso é altamente ilustrativo das estratégias eleitorais do grupo oposicionista - em conluio com a mídia corporativa -, que há tempos têm se limitado a uma ladainha de lamúrias contra o uso da máquina federal ou a denúncias com maior ou menor grau de vileza, quase nunca relevantes para o país, e que buscam invariavelmente o escândalo – como no caso Lina-Dilma.

- “Ou é baixaria ou é xororô”, como resumiu ontem, no Twitter, o prezado Luiz Barbosa Neves, que deixou uma questão no ar: - “E pensar que há quadros na oposição que têm o que dizer à nação. O que houve com eles?”.
Trata-se de uma questão de suma importância, pois a ausência de propostas efetivas para o país, de um programa de ações com consistência técnico-operacional e coerência político-ideológica, está levando as forças de centro-direita a um círculo vicioso que consiste basicamente em tentativas de desestabilização político-institucional e em um jogo de derruba-adversários cujo prêmio máximo é a cabeça do presidente da República, servida na bandeja de prata do impeachment. O esgotamento desse processo - por exemplo, com a perpetuação do petismo no poder através da eventual eleição de Dilma - pode levar tais forças a um beco sem saída – o que é potencialmente perigoso, pois acirra tentações autoritárias.

Na minha opinião, dois fatores têm contribúído para agravar o problema: a polarização PT vs. PSDB e, de forma ainda mais nociva, a opção de José Serra por se aliar à mídia corporativa, incluindo o que de pior esta tem a oferecer. Trata-se de uma aliança sobre a qual o presidenciável peessedebista não tem controle e que lhe cobrará um alto preço na hora devida: Fausto presa de Mefistófeles.


Descaso em SP evidencia necessidade de uma nova oposição
A cobertura das enchentes em São Paulo é ilustrativa do quanto essa aliança entre Serra e mídia corporativa prejudica, sobretudo, os cidadãos. Desde o primeiro momento - quando as chuvas mal haviam começado e o Jardim Romano já estava alagado -, os jornais e telejornais têm feito verdadeiros malabarismos para evitar apurar as omissões e divulgar as parcelas de responsabilidade que cabem, na tragédia, a Kassab e Serra.

Enquanto isso, a classe média paulista, mais renitente do que a Velhinha de Taubaté do Veríssimo, culpa as chuvas e os pobres que jogam lixo nas ruas (como se ela não o fizesse...) pela tragédia. Tem chovido muito, de fato - seria obtuso negá-lo. Mas as enchentes, como já dito, começaram logo com as primeiras chuvas - que são um fenômeno recorrente no verão paulista - e, agora está provado e documentado, a omissão administrativa dos demo-tucanos que deveriam governar São Paulo foi decisiva, como reportou Luis Nassif ontem, em post imperdível:
"A velha mídia foge o quanto pode do encontro com a verdade. Mas não haverá como fugir para sempre. Desde 2005 não são feitas dragagens ou desassoreamento no rio Tietê. O investimento de décadas, mais de um bilhão de dólares no rebaixamento da calha do Tietê, foi jogado fora nesses quatro anos sem desassorear o rio.

Um dado crucial para o bem estar, a segurança e a vitalidade econômica da cidade – manter o rio desassoreado – foi ignorado pelos governantes.

O governo do Estado confiou na sorte, apostou na probabilidade de não haver chuvas maiores, para justificar sua inação frente o problema. E agora? Quem responde pelas mortes, pela paralisação da cidade, pelos bens perdidos, pelas casas inundadas?”.
A insensibilidade social de Serra e os efeitos da blindagem midiática revelam, no caso, sua face mais perversa. Imaginem as consequências, para o país, de um governante com tal perfil, apoiado pelas forças mais retrógradas da política brasileira e sistematicamente acobertado pelos meios de comunicação (mesmo quando se trata de uma tragédia que tem afetado a vida de milhões e produziu dezenas de mortes) ocupar a Presidência.

Trata-se de algo a ser evitado pelos que prezam a democracia em sua plena acepção. Entre outros motivos porque, para o bem desta, o PSDB e a centro-direita precisam renascer como atores políticos de fato, que dialogam, criticam e apresentam projetos para o país, ao invés de se limitarem a tentativas de desestabilização e a denúncias vazias.


(Imagem retirada daqui)

2 comentários:

iaiá disse...

mais uma vez uma perfeiat análise e resumo dos fatos. com bom distanciamento crítico. só vou lembrar que Gilmar DANTAS disse que todos devem ser julgados de forma igual por campanhas antecipadas, o que eu du-vi-de-o-dó que vá acontecer, tanto no judiciário quanto na mídia. na garnde mídia então... o JN de hoje fopi um exeplo lapidar de como vão descer a lenha no Lula e se esquecer do PSDB...
não que eu ame o Lula, lembro do mensalão e outros tantos erros. Ele está fazendo campanah antecipada coma Dilma, está. mas o Serrra tb. se é pra condenar condemos todos. bjs

ah, assustei com a careat do Freire aí em cima e confesso que aos 16 anos votei no pulha no 1º turno... ah a juventude...

Maurício Caleiro disse...

Iaiá,

obrigado! Eu também duvido muitíssimo de que os julgamentos serão equânimes. Acho que ou sobra pra Lula/Dilma ou não dá em nada pra ninguém.

Tá certo que o São Freire assusta, mas vc não precisava ter entregado o mico...rs!!!