Os textos deste blog estão sob licença

Creative Commons License

domingo, 3 de janeiro de 2010

Internet e a Atmosfera de Turba

Este é um texto auto-crítico (no sentido de crítico à blogosfera e à militância de esquerda na internet). A necessidade de escrevê-lo foi se intensificando com o tempo, até tornar-se inadiável. Espero sinceramente que, ao invés de despertar ódios, ele provoque reflexões.


Um dos fenômenos mais recorrentes - e perturbadores – trazidos no bojo da internet é o da formação da atmosfera de turbas, que reagem como manadas ante determinados acontecimentos.

Particularmente encontradiço em relação a questões como esporte e política, o fenômeno toma forma através de pessoas que, interagindo em redes sociais como Twitter, Facebook ou Orkut, formam grupos unidos por afinidade de ideias.

Até aí, tudo bem, é esse o princípio e um dos prazeres da coisa – a questão é que, não sem frequência, essas semi-unanimidades artificialmente forjadas (já que os de opinião contrária existem, apenas não são incluídos no grupo) têm degenerado em intransigência e linchamento ideológico coletivo contra os seus alvos.

A repercussão ad infinitum dos fatos mais graves, que é estimulada pela atmosfera de turba ao mesmo tempo em que acirra esta, tem levado a recorrentes exageros. Um dia desses, no Twitter, Raphael Neves, do politikaetc., protestou de forma resoluta contra a facilidade com que andam utilizando a denominação “nazista” para acusar algo ou alguém. A explicação didática que forneceu sobre a incompatibilidade entre nazismo e privatização neoliberal me fez rir, mas o assunto é sério.

Seria fácil exemplificar o processo de formação de atmosfera de turba utilizando-me dos internautas de direita, vários deles reunidos em torno de um patético guru, a serviço do que de pior a imprensa brasileira ora tem a oferecer, e a quem – numa demonstração de infantilidade e submissão intelectual - chamam de “tio”. Repetem, muitas vezes em forma de trolagem, as palavras de ordem e os raciocínios rasos de tal demiurgo, plenos de preconceitos de classe e do direitismo intelectualmente pobre que representa.

Mas esse exemplo seria por demais óbvio e improdutivo: o que me interessa é apontar tal comportamento entre os que pertencem ao mesmo estrato ideológico que eu: a esquerda. Os exemplos existem à mancheia, mas vou citar apenas três deles – dois brevemente e um de forma mais detida -, em que a atmosfera de turba se sobrepôs aos ditames da razão e do equilíbrio.


O caso Casoy
Comecemos pelo caso que está na ordem do dia: a ofensa proferida por Boris Casoy contra dois garis, a quem - utilizando o mesmo palavrão que, na boca do presidente Lula, tanto escândalo provocou entre jornalistas -, ridicularizou por ousarem, “do alto de suas vassouras”, desejar feliz Ano Novo aos telespectadores do Jornal da Band.

Trata-se, evidentemente, de uma atitude deplorável. Revela, de forma inescapável, um preconceito de classe o qual sempre fora latente, (mal) dissimulado nas opiniões desabusadas de Casoy contra o que fosse popular – incluindo o atual presidente, seu governo e boa parte dos governados -, mas nunca antes tornado tão explícito.

Daí a generalizar, dizendo que todos os jornalistas da “grande mídia” são assim – como mais de um blogueiro tem feito, em posts multiplicados ene vezes via Twitter - vai uma distância enorme, que só pode ser percorrida com fatos que a autorizem. Com o perdão da obviedade, jornalistas são seres humanos: muitos, como Casoy, sucumbem ao convívio com o poder e às benesses materiais, mas outros tantos, mesmo na "mídia gorda", são profissionais sérios e pessoas bem-intencionadas, sendo que alguns têm uma história em prol da democracia e das lutas sociais. É fato que grande parte da mídia corporativa tem se comportado de forma inaceitável – o que acirra ódios -, mas acusações generalizadas ou dirigidas a apenas uma classe de profissionais são, em princípio, mistificadoras e antidemocráticas.

Porém, o caso é muito mais grave do que isso. Confesso que foi uma grande decepção ver pessoas a quem respeito chamarem Casoy de “extremista de direita” e “comprarem”, mesmo sem prova alguma, que ele teria pertencido ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas).

Ora, qual é a diferença entre acusar Dilma de terrorismo, como vêm fazendo, mesmo antes do episódio da ficha falsa, grupos direitistas, e, com evidências tão frágeis quanto as por aqueles utilizadas, acusar Casoy de ter pertencido ao CCC, como insistem alguns blogueiros? Essencialmente, nenhuma, a não ser o sentido ideológico da acusação.

Alega-se que a “informação” que “sustenta” a acusação contra Casoy está na Wikipédia. Mas desde quando a enciclopédia wiki – a mesma que, semanas atrás, era o Judas da vez, por negligenciar um importante ativista cibernético – tornou-se fonte única confiável? Os blogueiros que publicaram tal “informação” preocuparam-se em ouvir o outro lado (como com frequência cobram dos jornalistas profissionais)? Ou ao menos em saber em que contexto O Cruzeiro publicou a “informação” repercutida pela Wikipédia? Será que acham que a revista do mega-velhaco Assis Chateubriand, veículo para as jogadas mais sujas da história da imprensa nacional antes da derrocada atual, é merecedora de nossa confiança?

De novo, estamos diante de uma contradição. Alguns desses blogueiros rápidos no gatilho, disparando a pecha de “extremista” contra o jornalista preconceituoso, são os mesmos que se indignam – corretamente, a meu ver – quando a “grande mídia” chama Heloísa Helena ou Dilma Rousseff ou o deputado Babá de “radicais”. O problema é que, reproduzindo, em sentido inverso, a leviandade das acusações da mídia gorda (ao chamar Casoy de “extremista”), coloca-se em risco a autoridade moral para criticar a distorção ideológico-discursiva que o emprego do termo “radical” contra certos políticos implica.

Portanto, a atmosfera de turba pode estar levando a blogosfera a emular, de forma inconsciente, os métodos da “grande mídia” que tanto critica - e, no caso, assimilar e reproduzir os procedimentos do inimigo pode vir a significar a ele se igualar, tornando-se dele indistinto do ponto de vista moral e axiológico.


Caetano & FHC
Processo similar ao que ora se aplica a Casoy foi vivenciado por Caetano Veloso após acusar o presidente Lula de “analfabeto” e de “cafonice”, para deleite da direita.

A inconstância política é não apenas um traço recorrente do compositor e cantor baiano, mas uma sua arma de marketing, que sempre usou de forma despudorada, desde os tempos da Tropicália. Conseguiu, ainda assim, enganar os incautos e convencê-los da natureza politica strictu sensu do movimento tropicalista, para o que muito contribuiu o episódio de sua prisão pelos militares – a qual só se justifica por profunda ignorância política ou por desejo intencional de instrumentalizá-la a seu favor, como de fato veio a fazer. Afinal, a maioria dos artistas com grande visibilidade pública e mais de dois neurônios já havia se exilado por conta própria, para escapar das garras da repressão.

O gosto de Caetano pelos holofotes só é superado pela inconstância e idiossincrasia de suas opiniões, como um post do Blog do Mello ilustra com humor.

Já sua carreira musical, caracteristicamente irregular, encontra-se há tempos em decadência. Nos últimos anos decidiu cantar rock, formando um power trio que inclui um jovem guitarrista, André Sá, que produz um som mais chato do que um pernilongo amplificado.

Há razões, portanto, para criticar Caetano Veloso pelos mais variados motivos. Pode-se também, é claro, simplesmente detestar (ou ser indiferente a) tudo o que ele produziu – afinal, gosto não se discute.

Mas riscar Caetano Veloso da história da música brasileira por conta de uma declaração – infeliz, preconceituosa, babaca, mas uma declaração –, como alguns tentam ostensivamente fazer desde que se deu o episódio, é que não dá. Primeiro, porque isso é procedimento típico de ditaduras. Segundo, porque, como artista, Caetano esteve na liderança de um movimento que empreendeu uma mudança conceitual na relação da música brasileira com seu próprio passado e com as referências culturais internacionais, através da atualização da antropofagia oswaldiana, instaurando uma nova dinâmica cultural, pós-colonial, que colaborou para que o Brasil tenha a riqueza e a diversidade musical – únicas no panorama mundial - que tem hoje. Só por isso, o nome de Caetano Veloso já estaria inscrito na história da cultura brasileira, goste-se ou não.

Mas, mesmo passado o ápice tropicalista, ele ainda viria a produzir canções em relação às quais seria preciso muita insensibilidade para renegar a beleza, como "O Ciúme", "Tigresa", "Oração ao Tempo", "Um Índio", "Haiti" ou "Desde que o Samba é Samba", entre tantas outras. Por fim, seria preciso muito desconhecimento da história da produção fonográfica nacional para não se dar conta do grau de excelência que, nesse quesito, o disco Fina Estampa (1994) representa.

Mais incongruente, e mais revelador da força da atmosfera de turba, foi a reação daqueles que, embora admiradores da arte de Caetano há décadas, passaram, por conta do episódio, a renegá-la (ao menos em público) para poder participar do jogo coletivo de atirar pedras na Geni. Como se fosse impossível deplorar as declarações de Caetano mas preservar as afinidades eletivas que sempre tiveram com sua produção musical. Resultado: baniram o artista por delito de opinião. Tal e qual numa ditadura.

Assim, um brasileiro volta e meia saudado pela imprensa internacional, passa, devido à luta política, a ser rejeitado por setores políticos em seu próprio país - num processo similar ao que ocorre com ningupem menos do que... Lula! O que faz com que, por analogia, a reação intransigente da turba contra Caetano guarde similaridades com a reação da direita em relação ao atual presidente. Dá o que pensar.


Por fim, há o caso de FHC. É odiado por muitos e, convenhamos, deu (e continua dando) razões para isso: as políticas recessivas, anti-povo de seu governo estavam, pode-se hoje afirmar categoricamente, equivocadas, e tiveram um custo alto para o país, sobretudo para os mais pobres. As privatizações que promoveu foram desastrosas, o alinhamento automático com os EUA teria agravado os efeitos da crise mundial aqui (como está fazendo agora com o México). Por conta de qualquer crisinha na Turquia, na Rússia ou na Indonésia o Brasil da era FHC voltava, de pires na mão, ao FMI, mendigando ajuda para impedir uma quebradeira total. Hoje o cenário é outro.

Para completar, FHC é extremamente vaidoso e despeitado, recusando-se a reconhecer não digo nem os inúmeros defeitos de seu governo – o que é condizente com a natureza dos poderosos e com o ego inflado do personagem -, mas os méritos inegáveis do governo de seu sucessor, hoje corroborados pela mesma imprensa internacional que era reverenciada na era FHC, ao qual ela nunca deu muita atenção. O artigo “Para onde vamos?”, escrito pelo ex-presidente e comentado neste blog, é exemplar da empáfia do personagem para com o atual mandatário.

Porém, ao menos uma vez o ex-presidente reconheceu uma política equivocada de seu governo: ter adotado, sob a liderança dos EUA, a estratégia de "guerra às drogas". A partir do mea culpa, o ex-presidente passou a defender, com argumentos compartilhados por especialistas e por progressistas em geral, a legalização da maconha.

Muitos dos que discordam da adoção de tal medida já alimentavam antipatia por FHC, e viram na nova posição do ex-presidente em relação à questão um motivo a mais para repeli-lo. Trata-se de uma atitude plena de coerência.

Outros, no entanto, que, como eu, defendiam a legalização da maconha (continuo defendendo, pelas razões que explicito aqui), não apenas mudaram de opinião unicamente por conta da nova postura de FHC, mas, num movimento de manada, passaram a atacá-lo incorporando o uso pejorativo de adjetivos como “maconheiro”, “defensor de drogados”, “financiador do crime” e por aí vai. Ou seja, sob a influência da atmosfera de turba, adotaram uma atitude altamente contraditória, inversa daquela que anteriormente defendiam.


Há uma denominação que se aplica como uma luva para os atos de acusar sem provas, substituir o diálogo e a crítica construtiva pelo confronto com adversários, criar índex de artistas, e alimentar ódios políticos “fulanizados” capazes de alterar convicções ideológicas: totalitarismo.

Em nome da boa luta, trata-se de evitá-lo enquanto é tempo.


(Imagem retirada daqui)

21 comentários:

wilson disse...

Concordo em relação ao Caetano e FHC. No caso do Boris é que acho que ficou difícil não pegar pesado.

Riardo Cabral disse...

Nada a acrescentar, Mauricio. Teu raciocínio é correto, os exemplos que deu são variados, atuais e mais do que suficientes para ratificarem a crítica ao comportamento de turba, a malhação de Judas, enfim, os componentes inequívocos de um totalitarismo desafinado em relação ao momento que vive o país.

Subscrevo, mas antes elogio o texto inteiro.

Abraços

Fabiano Camilo disse...

Seu gopost está excelente, Maurício! Não obstante, para mim, o melhor exemplo, relativamente recente, do efeito manada foram as reações de parte da esquerda brasileira à Copa do Mundo de 2014 no Brasil e, principalmente, à Olimpíada de 2016 no Rio de Janeiro. Fiquei impressionado, e irritado, com a facilidade, ou melhor, com a leviandade com que, independentemente dos argumentos, os críticos da realização dos dois eventos desportivos pelo Brasil foram fácil e rapidamente rotulados de membros da classe-média elitista e rancorosa, de direitistas conservadores, de reacionários etc. Concomitantemente, fiquei com a nítida impressão de que a maioria dos esquerdistas entusiasmados estariam criticando acerbamente a conveniência de se realizar ambos os eventos caso tivessem sido uma conquista de um governo José Serra ou Geraldo Alckmin.

Não concordo com a posição de Mino Carta em relação ao caso Cesare Battisti e foi Bernard-Henri Lévy, um intelectual conservador, quem, na minha opinião, fez uma das mais contundentes e belas defesas de Battisti, no texto “Carta aberta ao presidente Lula sobre Battisti”. Contudo, não demonizei Mino, tampouco me tornei um entusiasta das ideias políticas de Lévy por conta desse episódio. (No caso de Mino, todavia, o episódio serviu para reforçar minhas antigas reservas em relação ele, que há muito considero um Paulo Francis às avessas. Ainda assim, insisto que considero deplorável a maneira como ele vem sendo tratado por algumas pessoas de esquerda. Como também julgo deplorável o tratamento que às vezes ele dispensa a seus adversários, tanto os antigos como os novos. Por fim, nada me impede de vir a concordar com Mino, o que é mais fácil, ou mesmo com Lévy, o que é mais difícil, em relação a outros temas.)

Gosto da literatura de Mario Vargas Llosa. Entretanto, há muito tempo desisti de citar seu nome em conversas sobre literatura, porque volta e meia um infeliz, quer tivesse lido ou não ao menos uma das obras de ficção de Llosa, sempre desviava o foco da discussão e começava a criticar as ideias políticas do escritor peruano. Eu ficava com a impressão de que deveria me penitenciar por ler e gostar de Llosa.

Acho que estou acumulando exemplos e chegando a lugar nenhum. O que considero relevante é ressaltar que essa atmosfera de turba, tanto à direita como à esquerda, parece-me ser uma característica marcante da sociedade brasileira, um traço que apenas adquiriu novas formas de manifestação, e se intensificou, com o advento da rede mundial. Suspeito que essa característica esteja diretamente relacionado à nossa tradição autoritária. Não me refiro ao autoritarismo presente no pensamento político brasileiro desde o século 19, mas à estrutura autoritária das nossas relações sociais. A rede mundial somente tornou isso tudo mais evidente, tornando claro que a maioria de nós brasileiros não está preparada para a discussão, política ou não. Na incapacidade de contra-argumentar, optamos pela ofensa, pelo xingamento e pela desmoralização do adversário. E, pasmem, também fazemos isso quando o outro manifesta uma opinião semelhante, senão idêntica à nossa. Não importa o que foi dito, se foi fulano quem disse, o dito não tem valor nenhum!

Um abraço e feliz 2010!

Lívio Nakano M.D. disse...

Belo artigo, que fixa realmente posição entre o debate mais rasteiro das "torcidas organizadas", capaz de fulanizar até os cidadãos mais bem informados.

Apesar de discordar em determinados pontos, destacaria, entre os blogueiros, o cuidado do Miguel do Rosario no seu Oleo do Diabo, em divulgar dados economicos da nossa folha de exportação, e o Stephen Kanitz, que tem argumentos consistentes para a distinção da política econômica dos anos de governo do Lula e do FHC.

~*Luana Medeiros Weyl: disse...

excelente crítica!
compartilho da sua opinião, não podemos repetir/reproduzir aquilo que lutamos contra

mas também acredito que muito se deve a raiva descontrolada e a falta de pensamento crítico...

muita gente faz política como se fosse religião e isso é um problema!

Maurício Caleiro disse...

Agradeço a todos pelos comentários, excelentes!


Wilson,
Concordo que se deva "pegar pesado" (no sentido de fazer críticas contundentes) com o Casoy. Não concordo é com a utilização de acusações sem prova, estratagemas duvidosos de desqualificação que a direita usa em relação a Dilma, por exemplo.

Fabiano,
Não poderia concordar mais com seux exemplos. Aliás, já passei o mesmo com o Vargas Llosa, que espreve pra caramba mas em política é uma zebra.

Um abraço a todos,
Maurício.

João Villaverde disse...

Ótimo post, Maurício.

Temos um ano crucial, para os Blogs, a frente. Se não tiver controle (autocontrole, talvez seja mais apropriado), escorrega para o belicismo besta de esquerda e direita cegos.

Cheguei a escrever algo sobre o papel dos Blogs neste 2010 -- considerando avanços na democratização de computadores e massa crítica acumulada desde 2005/2006 -- dois anos atrás (ou no começo de 2008, não me recordo).

A questão é que, se não houver um controle mínimo, blogs e internet alcançarão a imprensa marrom do século XIX e início do XX.

Veja o exemplo dos comentários (em sua maioria anônimos) que poluem os blogs mais radicais ou mesmo as notícias nos sites dos jornalões: são violentos, sobrando ataques que desqualificam pessoas, ideias e planos.

Mais uma vez, parabéns pelo artigo.
Abraços

blogdolen disse...

Eu ainda fico mais preocupado quando os alvos desses linchamentos são pessoas que não tem poder ou condições financeiras para se defender.
Excelente texto Maurício, se não se importa gostaria de reproduzi-lo.
Abraços

Eduardo E S Prado disse...

Maurício, visitar a sua página é sempre garantia de encontrar um excelente artigo!

Sempre achei irritante e entediante encontrar sempre os mesmos chavões e as mesmas opiniões em vários blogs diferentes ou no Twitter, mas acho esse movimento de manada é natural ao modo como as "comunidades" se estruturam na internet. Aliás, umas das características mais preocupantes da rede de computadores é a possibilidade de que dá aos usuários restringir sua interação a nichos (tribos) de sua preferências, com pessoas e idéias afins.

É claro que isso não acontece apenas do mundo virtual, mas a internet facilite bastante. Quem gosta de Rock Lê blogs sobre Rock, tecla com roqueiros no MSN, participa de comunidades de Rock no Orkut, no Google Groups ou no Facebook e, quando escreve em algum blog, escreve sobre Rock para ser lido por roqueiros. O mesmo acontece com pagodeiros, sertanejos, partidários da Direita, da Esquerda, racistas, evangélicos ou corintianos. Essa comunhão de idéias entre grupos semi-fechados empobrece o diálogo e mina o desenvolvimento de novos argumentos e opiniões, matando-os ou ridicularizando-os no momento em que surgem e dão a cara pra bater, e as vezes apanham feio.

Acho que esse é um tipo de comportamento que só diminui (jamais desaparece)com o amadurecimento do blogueiro, com a percepção de que no mundo real e virtual existem outras vozes que devem ser ouvidas. Até lá, o jeito é selecionar.

Maurício Caleiro disse...

Obrigado, João, compartilhamos as mesmas preocupações nesse caso!

Blogdolen,
este é um blog sob licença Creative Commons - vc pode reproduzir o que quiser, desde que cite a fonte. Abs.

Eduardo,
Muito bom vê-lo de volta, já estava preocupado com seu sumiço. Um abraço.

Eduardo disse...

Maurício,

Desculpe pelo texto, está horrível!
Enviei antes de revisar e como precisei aguardar a moderação confiei que não estivesse tão ruim, mas... Deus do céu!

Maurício Caleiro disse...

Que isso, Eduardo, imagina, tá ótimo!

Puebla disse...

Turba, efeito manada, as massas...todos imensamente fortes, todos imensamente manipuláveis com efeitos devastadores e irrecorríveis.
A quem servem???
Abraços

Guilherme Scalzilli disse...

Fumaça oportunista
(publicado na Caros Amigos de dezembro)

Quando os partidos socialistas converteram-se em forças competitivas nas disputas políticas (não mais isolados e inofensivos graças a miopias dogmáticas), seus adversários impuseram-lhes a pecha do recuo ideológico, da negação de princípios. Assim, a chamada “crise das esquerdas” ganhou utilidade publicitária.
Mas ela possui uma face palpável. Com a experiência do poder, a esquerda perdeu monopólio sobre certas plataformas históricas. Enquanto a consolidação do capitalismo sufragista homogeneizava os velhos antagonismos retóricos, importantes demandas sobreviviam à alternância democrática, alcançando um estatuto suprapartidário e criando vácuos de representatividade. O discurso conservador tratou de preenchê-los, incorporando múltiplos itens de agendas alheias.
Desnecessário afirmar que ninguém dispõe de exclusividade natural sobre qualquer reivindicação justa. Mas tampouco ignoremos que o “neoprogressismo” disfarça a hipocrisia de agentes políticos convertidos a causas que sempre combateram. Com a característica malícia demagógica, eles souberam reconhecer avanços históricos inexoráveis, abandonando posturas retrógradas antes que virassem entulhos.
Um exemplo dessa metamorfose surgiu com Fernando Henrique Cardoso, que recentemente abraçou a defesa da descriminalização da maconha. Ele apenas repete uma obviedade professada há décadas por antigos rivais desacreditados, hoje consagrada como evolução jurídica inevitável por especialistas e governos de várias tendências – até os EUA revêem a estupidez repressiva que eles próprios fomentaram.
Cabe à esquerda evitar a armadilha de responder às apropriações combatendo seus objetivos finais, atrasando mudanças necessárias por causa de ressentimentos estranhos ao interesse público. Seria como pular para um navio a pique, apenas porque os piratas o abandonaram.

Raphael Neves disse...

Caro Maurício,

Apesar de citado, só agora vi o post. Achei a reflexão excelente e concordo com ela. É preciso ficar muito atento para não cair nessa cilada que você aponta. Bravo!

O respeito pela pessoa do outro com quem dialogamos e discordamos é fundamental.

Forte abraço,
Rapha

Bruno disse...

Esse post veio em muito boa hora, Maurício. Concordo com ele do início ao fim. E confesso que o que mais me constrange é companheiros de esquerda pegando no pé do FHC por ele defender uma luta que sempre foi nossa - ou pelo menos de muitos de nós. FHC tem um telhado de vidro enorme, pode ser acusado de várias coisas, atacado por vários flancos... mas não por defender o fim da "guerra às drogas".

Um abraço

Luis Henrique disse...

"Confesso que foi uma grande decepção ver pessoas a quem respeito chamarem Casoy de “extremista de direita” e “comprarem”, mesmo sem prova alguma, que ele teria pertencido ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas)."

Bem, Maurício, se isto não serve de prova, pelo menos serve de 'fonte'.

Abraços

Maurício Caleiro disse...

Sim, Luiz,

Mas é uma fonte tão confiável como "Veja". Vc acha "Veja" uma fonte confiável?

O que levou "O Cruzeiro" - uma revista marcadamente chapa-branca - a publicar uma reportagem contra um grupo de direita em plena ditadura? Ela o faria sem a anuência dos militares? Por que se poria em risco? A quem queria atingir com tal reportagem - ao CCC de verdade ou a alguns nomes que queria difamar?

São perguntas que precisam ser respondidas, pois qualquer pessoa que conhece a trajetória de "O Cruzeiro" ou que leu "Chatô", de Fernando Morais, sabe que não se pode comprar sem questionar o que a revista publicava.

Um abraço,
Maurício.

Luis Henrique disse...

Sim, Maurício, a reportagem pode ter servido de bode-expiatório para o CCC.

Luis

ps: tenho lá eu 'cara' que acredito na Veja? Pô, mermão... :)

Maurício Caleiro disse...

Luiz Henrique, meu caro,

Que isso, eu JAMAIS acharia que vc acredita na Veja. A pergunta era retórica, irõnica - pois a resposta é evidente.

Como diria Joaquim Ferreira dos Santos, deveria existir um sinal de pontuação para ironia, para evitar mal-entendidos...

Um abraço,
Maurício.

Cristian Korny disse...

vivendo e aprendendo, vou guardar esse conselhos.