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quarta-feira, 7 de março de 2012

Três anos de Cinema & Outras Artes


Hoje o blog faz três anos. A pretexto de celebrar a data, este post traz uma reflexão sobre a blogosfera e a atividade política nas redes sociais nesse período.

O Cinema & Outras Artes nasceu no bojo das manifestações contra a Folha de S. Paulo por ter empregado o neologismo “ditabranda” para se referir ao período militar e, em seguida, agredido covarde e seguidamente os professores Fábio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides, que ousaram protestar em cartas ao jornal.

O episódio acabou por constituir um momento marcante, um ponto de inflexão das relações entre público e imprensa no país. Pois até ali, malgrado o peso determinante que os interesses empresariais e políticos sempre exerceram na atuação e na orientação editorial das publicações brasileiras, algumas destas – a Folha, notadamente – ainda vinham sendo relativamente bem-sucedidas em vender uma imagem de pluralismo e de ao menos um esforço de imparcialidade.

Depois da “ditabranda”. da publicação de uma ficha policial falsa da candidata Dilma na capa de uma edição dominical e de demais episódios eticamente deploráveis – as acusações alopradas de um Cesinha, o factoide Lina Vieira, entre outros - a máscara caiu de vez. Houve uma debandada de assinantes, a imagem do jornal ficou seriamente arranhada, vozes informadas de ex-leitores – entre eles vários antigos colaboradores - passaram a criticá-lo reiteradamente e aquela aura que a Folha cultivara desde as reformas implementadas por Claudio Abramo nos anos 70 – e que atingiu o ápice nas campanhas pelas Diretas Já - se desfez.


Política versus Cinema
Foi justamente após voltar do protesto organizado por Eduardo Guimarães em frente ao prédio do jornal, na alameda Barão de Limeira, que a decisão de fazer o blog foi concretizada. Procurando por imagens do evento, deparei-me com o também recém-criado O Descurvo, de Hugo Albuquerque (que, creio, foi o primeiro leitor do Cinema & Outras Artes – e primeiro comentarista assíduo). Logo no início, quando mais um blog perdido na imensidão da blogosfera parecia fadado a ser completamente ignorado, ele desempenhou o papel de um grande incentivador e deu dicas preciosas ao neófito inseguro ante o indecifrável “informatiquês”.

A intenção sempre foi a de que fosse um blog com conteúdo original, principalmente análises com algum grau de profundidade – o que certamente restringiria o público, mais acostumado, à época, de modo geral, a blogs com textos curtos, muitas vezes com humor ou relatos pessoais. Como o próprio título evidencia, cinema deveria ser o assunto principal. A política já estava entre os interesses secundários (como se pode ver no cabeçalho do blog, que é o mesmo desde aquela época), mas acabou predominando – um pouco porque a feitura do blog coincidiu com um período profissional em que me afastei do cinema e me reaproximei do jornalismo e das salas de aula; outro tanto porque acabei embarcando nos embates políticos que tiveram lugar na internet, no bojo da campanha presidencial, e tomei gosto pela coisa.

Ao completar três anos e fazer este balanço, chego à conclusão de que, no Brasil, em relação à blogosfera, houve avanços, digamos, institucionais, mas estes têm tido um ritmo bem menor do que inicialmente eu supunha. Por exemplo, nos primeiros meses, enquanto começava a fazer este blog, era também colaborador do Observatório da Imprensa. No veículo criado por Alberto Dines - em que a maior parte dos artigos versava, naturalmente, sobre a mídia convencional - eu tinha a preocupação de chamar a atenção dos leitores para a diversidade, a qualidade e a importância que a blogosfera e as redes sociais vinham adquirindo em relação ao jornalismo. Isso acabou por me obrigar a olhar a blogosfera “de fora”, de uma maneira mais ampla e mais crítica.


Avanços necessários
Estimulado por essas reflexões, publiquei alguns textos em que argumentava, por exemplo, a favor da urgente constituição de uma rede de advogados para proteger os blogueiros de processos oportunistas (uma tática coercitiva que vem sendo empregada, de forma pontual, em alguns estados brasileiros – e que é uma ameaça concreta em cada período eleitoral), ou ressaltando a necessidade de a blogosfera superar a crítica de mídia e investir na produção de material jornalístico original – sobretudo reportagens (uma necessidade que é reconhecida há tempos por alguns dos principais blogueiros, mas, com a alegação de dificuldades operacionais, dificilmente levada a cabo, mesmo porque remete a - e deriva de - um problema recorrente nas redes sociais, que é a excessiva dependência da TV. O Twitter, por exemplo, tem, eventualmente, pautado a mídia. Mas há muitos dias ali que a impressão que fica é de que se trata de uma aplicação para comentários televisivos e não de uma tremenda ferramenta comunicacional, particularmente revelante para o jornalismo).

Outra questão premente diz respeito à sustentabilidade econômica dos blogs, pois, desculpe informar, leitor(a), mas esse papo da direitona – e agora também  de uma certa dita esquerda – de que o governo nos sustenta é mentira. A blogosfera pode até continuar forte e com algum grau de renovação por muito tempo devido ao voluntarismo de cidadãos e cidadãs motivados, mas, do ponto de vista estrutural, o que asseguraria prosseguimento e estimularia melhoria de qualidade da atividade blogueira seria a obtenção de meios para que ao menos um bom número de blogueiros pudesse se sustentar através de tal atividade.

Trata-se de questões que vêm sendo encaminhadas, é certo – e o fato de fóruns como o #blogprog servirem para articular e fazer andar tais discussões é um dos motivos que me levam a vê-lo sob uma luz positiva -, mas não tratadas com a velocidade, a efetividade e a divulgação necessárias.


Via de duas mãos
Uma outra questão que, na minha opinião e na de vários blogueiros que conheço, precisa ser urgentemente atacada é a hegemonia excessiva de blogs consagrados e a manutenção, numa zona de sombra, de uma série de blogs que têm, há tempos, se esforçado para produzir com regularidade material original e crítico. Chega a ser enjoativo o quanto se vê sempre os mesmos blogueiros sendo convidados para eventos e para representar a “classe”. É preciso renovar.

Uma renovação seria benéfica a todos e fortaleceria a blogosfera como um todo. Os encontros de blogueiros (e, nestes, a composição das mesas) são um dos meios para levar a cabo tal tarefa, mas é preciso que mais blogueiros de renome sigam o exemplo dos seus pares que abrem espaço e republicam (ou divulgam nas redes sociais) posts de autores menos conhecidos, pois há uma queixa crescente – e a meu ver justificada - contra blogueiros de ponta que, embora sejam, há tempos, exaustivamente citados, jamais lincam ou indicam posts que não sejam de sua própria autoria,.


Mudanças bruscas
Nesses três anos, o cenário da blogosfera mudou muito. Duas mudanças foram (ou têm sido) marcantes. A primeira é a diminuição brusca do número de comentários que passou a acontecer tão logo as redes sociais (o Facebook e o Twitter, notadamente) se firmaram como o local de debate por excelência. Por mais que um post seja nelas debatido, a escassez de comentários teve - e tem - uma ação psicológica desestimulante em mim. Como disse alguém, o comentário é o alimento do blogueiro.

A segunda mudança, mais recente e muito mais relevante, deriva da própria relação entre blogosfera e política: finda a eleição presidencial, a ação conjunta empreendida pela maior parte dos blogs de esquerda (mesmo dos que não apoiaram no primeiro turno a candidatura petista) se desfez. Deu lugar, inicialmente, ao questionamento dos rumos do governo Dilma (questionamento o qual, aqui neste blog, começou cedo, no segundo mês de governo, quanto publiquei um post intitulado “Primavera digital chega ao fim”, que acabou republicado em diversos outros locais e gerou bastante polêmica). Nele manifestava minha frustração ao constatar que o o governo Dilma não só não aprofundaria o modelo neo-keynesiano adotado por Lula dois anos e meio antes, mas promoveria um retorno a parâmetros neoliberais – o que, infelizmente, se confirmou indubitavelmente nos meses seguintes, com a obsessão com o déficit nominal zero, a privatização dos aeroportos e, mais grave, da aposentadoria dos servidores públicos. Agora cogita-se o impensável: a alteração das leis trabalhistas.

A união verificada durante os embates eleitorais estava, é certo, fadada a se esvair – e, de certa maneira, é positivo que tal tenha ocorrido, permitindo um debate mais nuançado e diversificado. Em relação ao Cinema & Outras Artes, isso permitiu – para decepção de uns e contentamento de outros – deixar claro que não se tratava de um órgão político petista, como a alguns por momentos pareceu (o que me levaria a rir muito quando tomei ciência disso), mas de um blog de jornalismo que defende certas princípios de esquerda, não abdicando, no entanto, de criticar – ou mesmo de renegar, a depender dos desdobramentos futuros – o governo o qual pareceu melhor representar tais princípios.


Tríplice fronteira
Embora, a rigor, alguma gradação possa ser observada, poderíamos, a título de esquematização e inevitavelmente recorrendo a generalizações, dividir a blogosfera de esquerda, hoje, em três grandes grupos. Um, já citado através da menção ao próprio Cinema..., é o dos blogs que mantêm um apoio crítico à aliança e ao governo comandados pelo PT.

Outro, mais homogêneo, é formado por blogs que continuaram a apoiar incondicionalmente o governo Dilma, faça o que ele fizer – o que, como já coloquei em um post recente, acaba, na minha opinião, por enfraquecer o poder da blogosfera de pressioná-lo a honrar os compromissos assumidos nas eleições e faz coincidir as posições de tais blogueiros com as da grande mídia no que tange ao apoio à primazia que o governo concede ao mercado e à adoção de algumas das principais premissas neoliberais.

Um terceiro e último grupo seria formado por blogueiros de esquerda que, por convicção anterior ou decepção posterior, recusam e combatem a aliança petista. É, talvez, o mais heterogêneo dos grupos, reunindo apoiadores dos pequenos partidos, entusiastas da figura de Marina Silva, ecologistas decepcionados com o modelo de desenvolvimento e com Belo Monte, além de críticos avulsos.

Penso que a interlocução seria mais fluida e a própria ação política bem mais proveitosa se não se tivesse formado esse quadro quase estanque e essas “igrejinhas” fechadas em si mesmas. Mas não chega a causar estranheza e não é, de forma alguma, um fenômeno circunscrito à blogosfera brasileira – ele diz respeito, um tanto, à própria natureza humana, e, muito, à atual conformação do campo político no país.

O que extrapola o campo do polemismo civilizado é um coletivo que se diz de esquerda publicar um texto apócrifo com graves e não comprovadas acusações pessoais e ilustrá-lo com a foto de uma blogueira cujo principal capital é a credibilidade que levou anos para construir. Se essa tal esquerda se satisfaz com argumentações a la Augusto Nunes e táticas pessoais desqualificadoras à moda de Veja, problema dela. Mas com acusações sem prova em textos não assinados ela sai do campo do debate democrático para o da calúnia anônima.


Por que blogar?
Durante todo esse tempo, uma questão tem aparecido, intermitente: por que manter um blog? Por que dedicar tempo, pesquisar, lutar com as palavras (“a luta mais vã”, segundo Drummond), revisar, se irritar com a tecnologia e seu instável humor, monitorar e responder os comentários? O que nos move a fazer tudo isso, sem receber um mísero real em troca? Nunca consegui responder satisfatoriamente essa questão. Atualmente, a resposta, além do compromisso com os leitores e leitoras que seguem o blog, une uma mistura de desejo de incentivar o debate e de exercer, de alguma forma, a participação política para além do momento de digitar o voto na urna. Mas ela varia de tempos em tempos.

Por fim, há a questão do estímulo e da perda de estímulo. Competindo com outras tarefas, em sua maioria remuneradas, e com os prazos sempre curtos por estas determinados, o blog acaba ficando meio de lado em épocas em que se acumulam muitos trabalhos (como no segundo semestre do ano passado). Mais relevante do que isso, há o fator psicológico, que é recorrente: há, de tempos em tempos, períodos de profundo desânimo, em que postar parece uma atividade banal e em que a pouca repercussão soa como um sinal a mais a confirmar a inutilidade do blog. Nessas épocas é sempre custoso escrever, não se acha assunto, o texto não avança ou só o faz penosamente. Isso ocorreu, uma vez mais, há uns dois meses. E eu estive a ponto de parar.

Daí, de repente, vem uma vontade de escrever, os assuntos brotam, o texto flui de um modo tal que é preciso refreá-lo no córtex cerebral para que as ideias não escapem. Até quando esse estímulo súbito vencerá o desânimo? Sinceramente não sei, mas acredito que é justamente do produto da mediação entre a ânsia pela escrita e a satisfação de ver o texto pronto – e, assim, tomar parte, mínima que seja, no ente comunicacional publicamente efetivo que é hoje a blogosfera brasileira – que é gerado o impulso que toca o blog para frente. Aos que embarcaram na viagem comigo, muito obrigado.



(Imagem retirada daqui)

4 comentários:

Arnobio Rocha disse...

Caleiro,

Uma coincidência nos une, naquela manifestação na Folha também decidir blogar,demorei mais uns 8 meses para efetivar o desejo.
Durante este tempo temos tido aproximações e discordâncias, o que para mim é natural, o que nos distingue é a lealdade de quando polemizamos, o que nem sempre é fato na blogesfera.
Parabéns, continue, vale a pena, sei o quanto é doloroso muitas vezes publicar e não se obter respostas, ou um aparente silêncio.
Sou um crítico feroz deste tipo de "representação natural" de blogueiros nos eventos, criamos nossos "capas", o mais do mesmo, que raramente expressa a diversidade do que somos.
A pouca, ou nenhuma democracia do blogs "maiores" ou blogueiros estrelados que amam ser referenciados, jamais dão o mesmo tratamento aos outros, criando uma "casta" de péssimo gosto, reproduz um PIG do B, tão ruim quanto o principal.
Sobre as três posições, não tenho acordo, existem muito mais, nem sempre quem apoia o governo,defende a mesma política, falo por mim, mas ao mesmo tempo não acho espaço real e ideal de apresentar divergências sem ser confundido com a ultra, enfim existe mais coisa entre o céu e a terra...
Abraços

Maurício Caleiro disse...

Obrigado, Arnobio.

De fato, temos tido afinidades e desentendimentos, mas sempre com respeito mútuo.

A divisão dos blogs apresentada é só um esqueminha ilustrativo, nada mais, concordo que há muita gradação.

Vaçleu pelo incentivo.

Um abraço,
Maurício.

Puebla disse...

Parabéns pelos três anos de ponderações, análises, bom senso, caminhos, fora a paixão pelo cinema que é o forte do blog, um espaço onde venta livre a urgência pela verdade.
Abraços.
Puebla

Maurício Caleiro disse...

Obrigado, Puebla!

Tuas palavras me emocionaram.

Um abração,
Maurício.