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quarta-feira, 21 de março de 2012

Visão cultural anacrônica caracteriza audiência pública de Ana de Hollanda na Câmara


A audiência pública de Ana de Hollanda na Comissão de Educação e Cultura (CEC) da Câmara dos Deputados, realizada ao final da manhã de hoje, dissipa qualquer eventual dúvida quando ao anacronismo de sua visão das relações entre cultura e internet.

Foi um espetáculo deprimente: ante arguidores em sua maioria anestesiados, desinteressados, a ministra da Cultura demonstrou não possuir os conhecimentos mínimos requeridos de um gestor cultural em sua posição, ostentando uma postura que choca pelo primarismo – expressado numa visão reducionista da cultura tão-somente enquanto produto cultural comercializável -, pelo conservadorismo – em contraste com o discurso da candidata Dilma – e, sobretudo, pelo atraso intelectual - ficou claro que as concepções de Ana quanto às relações entre produção cultural, mercado e internet apresentam uma defasagem de décadas e não se coadunam com os fluxos culturais que caracterizam o mundo contemporâneo.

A ministra afirmou temer pelo futuro da cultura brasileira devido à pirataria e à internet. Ou seja, para ela, a rede mundial de computadores, cujas imensas possibilidades de produção e circulação cultural são exaltadas por pesquisadores do porte de um Jesus Martín-Barbero, representa uma ameaça, e não um devir. 

Foi constrangedor ouvir uma figura ligada a uma tradição familiar caracterizada pelo culto à inteligência e pela participação política progressista proferir uma visão a um tempo tão retrógrada, desinformada e, ao mesmo tempo, tão contrária ao bem coletivo e favorável ao lucro privado. A ministra deu mostras de confundir troca de arquivos pela web com furto e, assim, chamou veladamente tais internautas de ladrões.

Causa enorme preocupação a constatação de que o órgão máximo de gestão da cultura brasileira está sob o comando de alguém tão despreparado. É ingenuidade, porém, a crença de que o problema do MinC seja de ordem individual e que uma simples troca de nomes resolveria a questão. Ana de Hollanda é uma peça da política federal de cultura do governo Dilma Rousseff, e qualquer mudança só será efetiva se a ideologia orientadora de tal política for alterada a favor de uma abordagem positiva da cultura digital, da retomada dos grandes projetos de inclusão cultural da gestão Gilberto Gil/Juca Ferreira, hoje claramente boicotados, e do fim da visão mercadista e atrasada de direitos autorais que colocou o suspeitosíssimo Ecad no centro da cena cultural brasileira - a qual ora se encontra muito aquém de suas imensas potencialidades, em larga medida devido ao estrabismo cultural do Estado.

A audiência de Ana na Câmara dá-se em um momento em que a insatisfação acumulada pela classe artística, por ativistas digitais e pelos produtores culturais encontra-se na iminência de transbordar. Circula um manifesto, que une tanto artistas de centro-esquerda quanto do campo oposicionista, pedindo a substituição de Ana por Danilo Miranda, diretor cultual do SESC. Os ativistas digitais, que foram ponta-de-lança durante as eleições, formam certamente o grupo mais insatisfeito: se sentem traídos, dada a disparidade entre os compromissos com a cultura digital assumidos em campanha - para a qual contribuíram intensamente - e a postura mercantilista e corporativa assumida pelo MinC.

Dilma parece dar, cada vez mais e a um número cada vez maior de pessoas, a impressão de que seu governo concentra-se sobretudo em um esforço gerencial, alegadamente “desideologizado”, da economia – e que tudo o mais – políticas de gênero, educação, cultura - é supérfluo. A classe artística é numericamente pequena, mas tende a ser politicamente mais volátil e a ter um grande poder de influência. A insistência no retrocesso das políticas culturais, do qual Ana de Hollanda tornou-se o símbolo, além dos graves danos à cultura, à cidadania e à segurança jurídica na internet que já vem causando, pode vir a cobrar um alto preço eleitoral no futuro.

3 comentários:

Amanda disse...

Anacrônica é a palavra certa! Difícil não ver o contraste de visão política entre Gil, Juca e Ana. Tem que ser muito cego para não ver... E se a Dilma tem mesmo uma visão mais avançada, porque não tirou a Ana ou fez ela mudar de direção naquele caso do Creative Commons que rolou em 2011? Tá quesito esse negócio aí, viu...

mucury cultural disse...

Caleiro,o Merthiolático.
Muito boa sua perspectiva, esta história do ecad é de doer!
Vamos ver no que vai dar e vamos chiando.
Ah, postei no nosso blog este texto também.
Grande abraço.

Maurício Caleiro disse...

Amanda,
A Anacrônica é só uma peça, que a Dilma move na direção que quiser ou tira do jogo. Acho que a tal visão avançada ou era truque eleitoral ou foi trocada por algum acordo espúrio.

Mucury,
Parabéns pela revista, ficou linda - aliás, merthiolática!


Um abraço aos dois e obrigado pelos comentários.