segunda-feira, 19 de março de 2012

Os corvos e a Copa


À medida que se aproxima a Copa de 2014, a histeria ansiosa que marca as expectativas quanto à suposta incapacidade do Brasil de preparar o evento vai atingindo índices superlativos. Por toda a parte lê-se que fracassaremos, que não temos capacidade de produzir um evento de tal porte, que os turistas ficarão presos no trânsito, sem conseguir chegar aos estádios - os quais, por sua vez, não ficarão prontos a tempo.

Tal reação mescla a expressão de uma insegurança atávica, típica de um país de modernização relativamente recente, com o velho hábito brasileiro de degradar a si e à nação. Ante a iminência de atrairmos os olhares do mundo, nós, brasileiros, não obstante o ótimo momento do país no cenário internacional, damos vazão à nossa insegurança e, parafraseando Nelson Rodrigues, derramamos a baba espessa e canina de nosso complexo de vira-latas.

Mas não se devem apenas à psicologia social brasileira a descrença e o tom alarmante que têm marcado as expectativas quanto à segunda Copa do Mundo a realizar-se em território nacional, depois de um hiato de 64 anos. O pessimismo que marca tal ansiedade vem sendo diariamente inflamado por uma mídia corporativa que, por conta de seus interesses político-econômicos, anseia por poder pespegar no governo de Dilma Rousseff o ônus por um eventual fracasso brasileiro – com o deleite adicional de, como esta semana já ensaiou fazer, poder atribuir ao ex-presidente Lula a irresponsabilidade de ter trazido um evento tão importante para um país tão incompetente.

Nesse vale-tudo de uma mídia que, com raríssimas exceções, tem atuado de forma partidária e com tal desenvoltura que não se pode qualificar como jornalismo a atividade que pratica, grassa a manipulação barata da opinião pública, sobretudo por jornalistas esportivos que fizeram carreira posando de catão e valando-se de um denuncismo moralista. À abordagem da preparação para a Copa é fornecida, quase sempre, o ângulo mais pessimista e desfavorável: o cronograma das obras é acompanhado a cada minuto, o que inevitavelmente gera a ansiedade do fracasso; alardeia-se uma corrupção generalizada antes mesmo de apurar qualquer evidência; os bastidores da negociação entre governo e Fifa ganham uma cobertura maniqueísta e de uma dramaticidade digna de um filme de Almodóvar; e a simples decisão sobre vender ou não cerveja nos estádios transforma-se numa questão de soberania nacional (como se a plutocracia midiática por esta zelasse...).

Que compartilhem tais maus augúrios midiáticos muitos entusiastas do conservadorismo e aquela parcela de brasileiros que morre de vergonha do país em que vive é algo que se lamenta, mas compreende-se; já o fato de que tantos autoproclamados esquerdistas embarquem ingenuamente nessa canoa, reproduzindo como papagaios os presságios da imprensa e ajudando a campanha negativista da oposição, é algo a se deplorar profundamente.

Por conta desse discurso negativista que ora se espalha e parece dominante, a impressão que se tem é que organizar uma Copa do Mundo equivale a uma tarefa hercúlea e inexequível. Infelizmente, não é bem assim: para hospedar o mundial em solo pátrio, o Brasil não terá de construir um circuito de pirâmides maiores que as do Egito, construir um trem-bala ligando Recife a Cuiabá, nem transplantar as águas do rio Amazonas para Porto Alegre.

A Copa do Mundo, por incrível que possa parecer, não passa de um torneio de futebol. E curto: dura exatamente um mês, em que são jogados 64 partidas. Demanda alguns estádios, hotéis para hospedar times e turistas, melhorias no sistema viário das cidades-sede e no sistema aeroportuário, telecomunicações tinindo. Basta um exame sereno e racional da questão, sem complexo de inferioridade ou ódios politicamente motivados, para constatar que o Brasil tem todas as condições para realizar os empreendimentos necessários a suprimir tais demandas – e o fará, à sua maneira, em seu ritmo, mas efetivamente.

Ouso, portanto, informar aos barões da mídia e aos demais corvos de plantão que a mandinga não vai funcionar e a Copa de 2014 será um sucesso. Algumas obras serão entregues com atraso? Certamente. O trânsito ficará um caos? Muito provavelmente. Alguns voos atrasarão? Não tenho dúvidas (e a mídia fará de tudo para maximizar os eventuais problemas do torneio e por estes caracterizá-lo). Mas os turistas e profissionais que vierem para o evento vão se amarrar muito, e não só, como de costume, com as belezas naturais, as praias, o friendly and warm people, a sensualidade latente, a diversidade musical, a caipirinha, a feijoada, mas com o grau de urbanidade e modernidade do ex-país periférico. Será um mês de festa também para os brasileiros, tanto para a maioria que vai curtir o evento em casa quanto para os que irão ao estádio – e, de maneira peculiar, para os comerciantes e prestadores de serviços que lucrarão com o mundial.

Se há algo para se preocupar em relação à Copa, aí sim, é com a seleção comandada por Mano Menezes. Não que faltem craques, mas, até o momento, não se tem esquema tático e padrão de jogo. Mas isso é outro departamento.


(Imagem retirada daqui)

2 comentários:

Panambi disse...

Um post inteligente. E pensar que o Merval é que é imortal...

Marcelo Delfino disse...

Concordo que o Brasil tem capacidade de sediar eventos como a Copa 2014. O que eu vejo é que a mídia nativa (fora algumas exceções aqui ou ali) tem interesses ideológico-partidários em mostrar as falhas que a organização de tal evento tem e terá. Digamos que a mídia nativa é governista (apoia o Governo, seja qual for, noves fora o caso do governo de João Goulart em 1964) e ao mesmo tempo é ideologicamente neoliberal. A maior parte da mídia plutocrática preferiria que um governo demo-tucano estivesse aí até hoje. Mas é lulo-dilmista diante do distinto eleitorado lulo-dilmista (Grupo Record que o diga), golpista nas entrelinhas e plutocrática na essência.

E olha que há um grupo plutocrático que ataca a bagunça da organização da Copa 2014, mas poupa seus amigos da CBF e não prega o cancelamento da própria Copa, pois terá altos lucros com o evento: as Organizações Globo.

No entanto, a mídia nativa sempre chega atrasada. Muito antes da mídia nativa tentar impor às figuras de Dilma Rousseff e Lula os fracassos da Copa vindoura, eu já fazia isso em 2009, quando inaugurei meu primeiro blogue. Só que como tenho vergonha na cara e me interesso pela defesa da soberania da Nação e da soberania de sua população (ao contrário da mídia plutocrática), eu digo que Lula e Dilma são os primeiros responsáveis, tanto pelo sucesso como pelos vexames da parte da organização da Copa 2014 que cabe ao segmento governamental. Digo os PRINCIPAIS, porque não são os únicos. Incluamos todos os 12 governos estaduais e municipais corresponsáveis pela organização da Copa, inclusive os governos estaduais demo-tucanos de São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Rio Grande do Norte.

Quero fazer a defesa dos esquerdistas atacados por esse blogue. Aqueles que denunciam os malfeitos e as bandalheiras da Copa 2014. Se o missivista deplora esses esquerdistas, só lamento. Conheço dois deles. Não os citarei para poupa-los da sanha deploratista do missivista. Um deles é esquerdista convicto, e outro é socialista assumido, embora ele preferisse um regime anárquico que ele vê ser impossível com a atual humanidade. Ambos acreditam que o brasileiro em geral se preocupa demais com coisas fúteis ou não prioritárias, como o futebol, a TV aberta e a cultura populista e popularesca. Ambos acreditam que o Governo Lula-Dilma nem pode ser caracterizado como governo de esquerda. Creditam seus méritos ao pouco de esquerdismo que possui e atribuem seu fisiologismo e seus malfeitos aos genes direitistas e neoliberais. E acreditam que a ainda dominante tradição direitista e fisiológica dos governantes não recomenda que este país sedie eventos como a Copa 2014 e a Olimpíada 2016.

Eu discordo frontalmente dos amigos, pois acredito que governos de esquerda como o de Lula e Dilma não são imunes a bandalheiras de toda ordem. Várias das falhas do Governo Lula-Dilma vem exatamente do fato de ser um governo de esquerda. Outras falhas vem mesmo dos genes direitistas e fisiológicos. Na verdade, nenhum governo está imune a falhas. Mesmo um governo nacionalista, como o de Getúlio Vargas, que passou sete anos governando o país num regime autocrático: o Estado Novo.

Apesar de serem críticos da Copa 2014, meus amigos também criticam os urubólogos de direita e/ou neoliberais, e rejeitam mais ainda a oposição de direita. São independentes até para fazer críticas a opositores de esquerda, como Marcelo Freixo e Chico Alencar. Portanto, nobre Maurício Caleiro, não julgue toda a crítica de esquerda como adesão à mídia plutocrática ou à oposição de direita. Considere o multicolorido do espectro ideológico brasileiro. Diferenças que, somadas a outras, tornam cada um de nós um indivíduo único.