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domingo, 6 de março de 2011

Dilma e o retrocesso que a direita adora

Não me arrependo nem um pouco de ter defendido o voto em Dilma Rousseff e exercido alguma militância virtual nesse sentido, a despeito de meu enorme desencanto com o início de seu governo.

A campanha por Dilma justificava-se por três aspectos: o primeiro, em importância, o reconhecimento das muitas qualidades da administração Lula, que recebeu o país em frangalhos, com altíssimo índice de desemprego e setor público sucateado e nos entregou um Brasil bem mais próspero, com 30 milhões de cidadãos retirados da pobreza, mercado de trabalho aquecido e um novo parque educacional, mais includente, à espera das novas gerações de universitários.


Derrotar o neoliberalismo tucano
O segundo motivo para apoiar Dilma fora a necessidade de derrotar José Serra, candidato que além de ter demonstrado durante a campanha não ter nenhum escrúpulo em sua sede de poder, filia-se à pior direita, representando o retorno ao alinhamento automático e subalterno do Brasil em relação aos EUA e à ortodoxia neoliberal em detrimento do atendimento às demandas sociais do país. Ademais, seria temeroso para as liberdades públicas entregar a Presidência a um político centralizador e autoritário que não aceita o contraditório e que reprime com violência manifestações pacíficas.

Após oito anos de FHC e oito de Lula, havia, ainda, como terceiro motivo a justificar o voto em Dilma, a imposição de uma derrota histórica ao projeto neoliberal tucano, derrota esta que superasse o personalismo carismático de Lula e significasse a aprovação às reorientações administrativas petistas.


O retorno do economicismo
Os primeiros dois meses do governo Dilma, embora reafirmem as duas primeiras razões para apoiá-la enquanto candidata, põem em questão, ao retornar ao velho neoliberalismo via corte de R$50 bi do Orçamento, suspensão de concursos e de contratações e anúncio de que a meta é zerar o déficit nominal – algo que, repito, nem Lula I ousou propor - a capacidade petista de conduzir a administração federal com preceitos próprios, sem se valer da mesma orientação econômica neoliberal, matizada aqui e ali, que tanto agrada ao deus-mercado e aos tucanos.

Ainda mais do que o retrocesso no MinC, o salário mínimo merreca (que pode ser compensado no futuro, se seguido o acordo, o que duvido), a visita à Folha, a transformação da presidenta em garota-propaganda de si mesma com aparições “mulherzinha” nos programas da Hebe e da Ana Maria Braga e a clara estratégia de cooptar a classe média conservadora, dispensando os “radicais”, é esse retrocesso neoliberal ao mais comezinho economicismo o que torna o início de governo Dilma tão ruim.

Pois não só joga fora as parcas mas efetivas conquistas do segundo governo Lula no sentido de retomar ao Estado alguma autonomia gerencial à revelia da ortodoxia econômica, como passa, de novo, a priorizar como ente decisório o mercado, em detrimento das demandas do povo - como tão bem ilustra o fato de que os dois últimos aumentos da taxa de juros custaram aos cofres públicos quatro vezes mais que o aumento do Bolsa-Família (única medida positiva do governo até agora, não tivesse sido relativizada e tornada mero jogo de cena pelo corte no programa Minha Casa, Minha Vida).


Sucateamento no horizonte
E, de todas as medidas que compõem o pacote neoliberal de ajustes, a suspensão de concursos e de contratações é a mais inaceitável. Primeiro, porque vai contra tudo o que Dilma afirmou na campanha e no discurso de posse, tanto no que concerne à manutenção do baixo índice de desemprego quanto, especificamente, à prioridade à educação. Anunciar uma coisa em campanha e fazer o oposto disso no poder é algo muito grave – e eu lamento pelos que não se apercebem (ou fingem não se aperceber) disso.

Segundo, porque aumentar exponencialmente a rede pública de universidades e de ensino técnico, como Lula fez, mas colocar para dar aulas professores com contrato temporário, ganhando uma merreca e sem direito a 13º. ou férias, como Dilma ora faz, é, na prática, além de um acinte às leis trabalhistas, uma forma de sucatear o ensino público federal, pois é óbvio que os profissionais atraídos por tais condições de trabalho não serão os mais preparados e que a qualidade de ensino vai cair acentuadamente (aliás, processo com dinâmica semelhante levou ao sucateamento do ensino público de segundo grau, durante a ditadura).


O passado presente
Fica cada vez mais claro que agora, como há 16 anos, é de novo o mercado quem dita os rumos do governo, que o obedece como um bichinho amestrado. E, assim, a presidenta que se elegeu prometendo aprofundar o legado de Lula reinstitui um programa de governo cuja orientação fiscal qualquer tucano ficaria honrado em corroborar. Não por outra razão, o governo Dilma, que ora atrai personalidades políticas como Kassab e Kátia Abreu, tem sido ultimamente tão adulado pela mesma mídia corporativa que a combateu com ferocidade.

Ou seja: Dilma venceu as eleições, mas o programa que adotou é do agrado da velha mídia e da direita nacional - e até alguns tucanos se mostram satisfeitos. Não havia como adivinhar que ela assim procederia, portanto o ônus advém de suas decisões: é dela e não daqueles que iludiu.

Agora, não dá para aceitar essa soma de traição eleitoral, retrocesso político e submissão econômica ao deus-mercado em detrimento das demandas da população. Mesmo os que a apóiam incondicionalmente, se refletirem com a mente e não com o fígado, hão de convir que não foi para isso que elegemos Dilma.


(Imagem retirada daqui)

6 comentários:

Ester Alves disse...

Cadê as consultas que ela faria ao Lula?
Será que ela ainda fará?
Precisamos estar atentos.

André Lux disse...

Esse seu novo e ridículo texto foi devidamente destruído pelo excelente blogueiro Alê Porto.

Parece que escrever sobre política e economia definitivamente não é a sua praia...

Confira: http://www.aleporto.com.br/blog.php?tema=6&post=2797

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Excelente post, Maurício! E o fato de estar irritando os fanáticos, como o censurador André Lux, comprova!

Bruno de Souza disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Bruno de Souza disse...

Bruno de Souza disse...
Eu venho acompanhando as críticas - na verdade perseguição - que alguns membros da dita "blogsfera" vem fazendo a sua pessoa. Eu fiquei bastante incomodado, pois parece que é errado criticar.

Interessante é que logo após o primeiro "embate" que envolveu suas postangens, que contou até mesmo com texto no blog de MariaFrô, eu comecei a reler a Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire e logo em sua introdução ele faz uma distinção entre radicais e sectários: os primeiros buscam ir a raiz dos problemas, buscando dialogar com as partes contrárias e assim realizar uma construção coletiva. Os segundos se cegam, ficam presos a sua verdade e qualquer discordância é sinônimo de traição.

O quão sectários estão sendo com teus posicionamentos. É bem verdade que tenho certas discordâncias com tuas análises, mas o seu "apontador" está certo. Dilma vem preocupando até mesmo setores do PT, que estão "perdidos" nessa neblina causada pelo esfriamento de posições mais esquerdistas e os acenos para a direita, com direito a conversinha particular com FHC e até mesmo o "eu como PresidentE" durante visita na Folha.

É triste ver que alguns dos que se intitularam "blogueiros sujos" de fato venham correspondendo a raiz da alcunha: parece que estão com os olhos sujos de lama e esquecendo que para manter o legado de Lula precisa-se de mais radicalismo. Aceitamos muitas coisas até aqui: Daniel Dantas, Mensalões, Alianças Espúrias... tudo em torno da desculpa "bem no Brasil as coisas só andam assim"... e em vez de se cortar esses males, a coisa vai saindo do banho maria e se tornando normal. Dizem do topo "Façamos um governo com enfoque macroeconômico", e a base em vez de contestar, fica no "é... aumentar taxa de juros e reduzir o déficit massacra os trabalhadores... mas no Brasil é assim, não é? O PIG persegue os petistas e é preciso acalmar o mercado..." Até quando?

Não esfrie suas críticas. O Governo da Presidenta Dilma até aqui tem sido um balde de gelo. É preciso eliminar os "mallocis" e crescer o radicalismo.

Maurício Caleiro disse...

Bruno de Souza,

Desculpe a desatenção, mas só hoje vi o seu comentário. Agradeço suas pelas palavras de apoio, vindo de alguém que - como a leitura de Paulo Freire indica - evidentemente tem estofo intelectual e não é comprometido a priori com nenhuma das partes.

Um abraço,
Maurício.