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sexta-feira, 11 de março de 2011

Da necessidade de utopias

Bati o olho na lombada amarela do livro na estante e fui invadido por uma espécie de nostalgia: como eu era feliz quando, politicamente ingênuo, o cultuava como a uma bíblia pagã. Seu título, Hóspede da Utopia, resume bem a atmosfera de 1968 revivido que marcou, no Brasil pós-distensão do regime militar, a primeira metade dos anos 80.

O livro sugeria – e eu acreditava piamente – que a vida era fácil e a felicidade, como uma fruta, estava sempre ao alcance da mão, se resumindo a bocas para beijar, estradas a percorrer, música, praias, luares “e algum veneno pra dar alegria”, como cantava Cazuza, então meu ídolo máximo, com quem eu era muito parecido fisicamente.

A política, embora não ocupasse um lugar central em minha vida, era repositório dos melhores presságios, antevisão de um futuro em que ao aparentemente iminente fim da ditadura se seguiriam anos de democracia plena, nos quais o atendimento às causas da então chamada “sociedade civil organizada” traria justiça social e o fim da violência de Estado, criando, em meio à nossa deslumbrante natureza ecologicamente preservada, um cenário propício para a plena manifestação da especificidade cultural brasileira.

Porém, logo a maléfica combinação de disseminação da AIDS e da hegemonia do neoliberalismo relegou tais delírios utópicos a um passado distante. No Brasil, com a derrota da emenda pelas eleições diretas - numa noite inesquecível e dolorosíssima -, seguida da agonia e morte de Tancredo Neves, instaurou-se, por um tempo longo demais, que parecia não ter fim, uma atmosfera distópica marcada pelo vácuo de ideologias, pelo desperdício de gerações de talentos e pela constatação cotidiana de que “meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”.


O tempo não para
Mais de 20 anos depois, o autor do tal livro é hoje uma triste figura do cenário político fluminense, aliado à pior direita. Em compensação, não há mais cenário distópico; a sexualidade se reinventou, talvez menos afetiva e mais atlética, mas certamente mais multifacetada e democrática; em termos políticos, o país demonstrou maturidade para eleger um operário oposicionista, cujos dois mandatos promoveram inclusão social em massa e mudaram a cara do país. Foi inegavelmente uma grande conquista e um enorme avanço.

Ainda assim, neste exato momento, sinto falta de um pouco de utopia ante o frio gerenciamento economicista, da coragem de colocar as demandas do povo acima das exigências do mercado, da capacidade de imaginar soluções que enterrem de vez a herança neoliberal, do destemor de firmar novas alianças com parceiros inovadores ao invés de continuar prestigiando o velho coronelismo decrépito - enfim, da vontade de sonhar, criar e inovar que hoje parece condenada a velhos livros empoeirados nas estantes.


***
E com este post o Cinema & Outras Artes ingressa em seu terceiro ano. Quem diria?


(Imagem retirada daqui)

4 comentários:

Raphael Neves disse...

Belo post, Maurício! Parabéns, e vida longa ao Cinema!

Abraço,
Rapha

Maurício Caleiro disse...

Obrigado, Rapha, abração!

veramp disse...

Esse seu post me inspirou a escrever um sobre minha experiência, quase 20 anos antes, aí por meados dos anos 60, quando então tínhamos mesmo grandes utopias. E é muito triste, desanimador, ver meus companheiros, conhecidos e até líderes na direita, direitizando, e achando que estão endireitando-se porque antes estavam tortos. Vi alguns hoje mesmo no site de uma Fundação do PPS. De amargar. Abraços.

Maurício Caleiro disse...

Vera,

Uai, eu nem sabia que vc tinha blog. Cadê? Quero ler...